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Os Pobres

Os Pobres

Author: : Raul Brand?o
Genre: Literature
Os Pobres by Raul Brand?o

Chapter 1 CARTA--PREFACIO

* * *

Meu bom amigo:

O seu livro é a historia patetica d'uma alma. Qual? A do Gebo, a de Luiza, a de Sophia, a da Mouca, a dos Pobres emfim? N?o. A sua. Historias diversas, que se resumem n'uma historia unica: a da sua alma, transitando almas, a da sua vida, percorrendo vidas. Autobiografia espiritual, dilacerada e furiosa, demoniaca e santa, blasfemadora e divina. Confiss?o verdadeira, plena, absoluta d'um organismo que sente a musica mysteriosa do universo, d'um cora??o que repercute a d?r eterna da natureza, mas que só ao cabo de oscila??es, duvidas e desanimos, coordena a idealidade do ser com as aparencias do ser, o espirito com as formas, o Deus,--amor e beatitude, com a materia,--crime e soffrimento.

N?o vejo diante de mim um poema esteril, obra dos sentidos, da imagina??o e da volupia. Vejo um acto profundo, espontaneo, d'imensidade religiosa. O homem que se confessa abala-me e deslumbra-me. N?o a confiss?o mentirosa, a confiss?o vulgar, da boca que tem dentes, para o ouvido que tem sombras. N?o a confiss?o-analise, a confiss?o dos criticos, rol de inteligencia, catalogo de ideias. Mas a esplendida confiss?o das almas vertiginosas, desagregando-se, transidas de eternidade e de mysterio. Como o fogo devorador dissocia o rochedo, ha lavaredas ignotas que dissociam as almas. E, se taes almas se desdobram, a natureza denuncia-se. O homem é um resumo ideal da natureza. Andou o infinito, e lembra-se; andará o infinito, e já o sonha. Quando o genio explue, conta-nos a natureza a sua historia. O genio supremo é o santo. O verbo do santo, eis a lingua clara do universo.

As confiss?es augustas s?o as dos poetas e dos santos. No homem vulgar a personalidade rigida encarcera e coalha as personalidades volateis e difusas. O inconsciente imenso n?o acorda, porque está, como um aroma, dentro d'um bloco duro, impenetravel. é o sonho captivo n'um ovo hermetico de bronse. As almas emotivas dos grandes visionarios, essas conservam aquella gra?a radiante, aquella omnipresen?a espiritual, que as deixa embeber, mover, existir na fraternidade cosmica e divina. O sonhador dos Pobres é um evocador atormentado e religioso. Busquei no seu livro a imagem ardente da sua alma. Vamos vêr se a desenho com rapidez e precis?o.

Alma vibratil e fugaz, olhando a natureza, o que sentiu? Assombro, esplendor, pavor, enigma, deslumbramento. Tudo vive, deseja, estremece, palpita, murmura e sonha. Tudo vive, tudo vive: o homem, a féra, a rocha, o lodo, a agua, o ar, braseiros de mundos, aluvi?es de nebulosas, incorporeidade genesica do ether. Fervedoiro de vidas insondavel, que o tempo n?o exgota, porque a morte creadora continuamente o desorganisa e reproduz em formas novas e diversas. E todas se cruzam, beijam, penetram, correspondem. é uma teia vertiginosa de fios sem fim, de fios moveis, ondeantes, cambeantes, urdindo-se ella mesma, na eternidade impenetravel, sem ninguem ver o tecel?o. Rigidez, solidez, inercia, n?o existem. Na fraga mais dura, no bronse mais compacto circulam desejos, dramas, turbilh?es de moleculas e vontades. As cordilheiras inabalaveis s?o redemoinhos dentro de enxovias. O concreto dilue-se, o material evapora-se. O sol tombando, aniquilaria cardumes de planetas, e a lua do sol, que é sol volatilisado, pesa menos que uma folha de rosa na m?o d'uma crean?a. Em cada bloco metalico latejam oceanos dormentes, de vagas fluidas, invisiveis. Acordem-n'os, e o bloco obtuso, electrisado, irradia no ether. Vêde um penedo monstruoso: Parece firme. Desagregou-se, e é lama; a raíz tocou-lhe e é seiva; a seiva gerou, e é flor e é fructo; o fructo, alimento; o alimento sangue; e o sangue vermelho, corpo que caminha, carne que fala, cerebro que pensa. Natureza! universo!... Vidas infindaveis eternamente circulando n'uma vida unica. Assombro, esplendor, pavor, deslumbramento! O homem vacila, desmaia, quer equilibrar-se... mas onde, se n?o ha terra em que poise, nem muro a que se encoste?! Tudo impalpavel, fugaz, incerto, ilusorio, ilimitado... tudo vida, tudo sonho, tudo voragem... Se baixa os olhos do imenso ao gr?o d'areia, o gr?o d'areia, infinitessimo, resolve-se-lhe em vidas infinitas. Quer contemple o universo, quer examine um corpusculo, a alma engolfa-se, estonteada, no mesmo abismo devorador e creador.

Abismo de aparencias ocultas, abismo de vozes que se n?o ouvem. A natureza taciturna exprime-se magicamente, em linguas vagas, silenciosas. E quando n'um pouco de cisco murmuram mais vontades do que bocas humanas ha na terra, o que n?o dirá o coloquio formidando de todas as vontades do universo! Tem cada organismo a sua lingua peculiar. Os que vivem mais proximos entendem-se melhor. O ar segreda á agua, a raiz ao lodo, a luz á folha, o polen ao ovario. Ha fluidos que se casam, raizes que se querem bem. O oxigenio é intimo do ferro, o azougue é intimo do ouro. Os orbes fraternisam, os metaes amalgamam-se, e as electricidades sexuadas buscam-se avidamente, para copular!

Materia infinita,--for?as infinitas, infinitamente caminhando. E no pelago vertiginoso da mobilidade universal é cada atomo invisivel um desejo que nasce, um desejo que sente, um desejo que fala...

O lexicon sem principio nem fim, das vozes mudas do increado, das linguas tacitas da natureza, alguem o ouviu que se recorde? Alguem: o homem. O homem, crisalida do anjo, foi monstro e planta e verme e rocha e onda; foi nebulosa, foi gaz impalpavel, foi ether invisivel. Articulou todas as linguas, e d'ellas conserva, obscuramente, vagas memorias dormitando. Por isso os poetas adivinham, e raros com a intui??o prodigiosa do meu amigo.

Abreviando: A sua alma, diante do universo, reagiu por tres formas ou em tres fases emotivas. Estudei a primeira,--a emo??o dinamica. O mundo resolve se lhe n'um jogo de for?as, n'um conflicto de vontades, brigando, casando-se, transfigurando-se em aparencias rapidas, ilusorias. Tudo se move, tudo quer e tudo vive.

Mas o que é a vida? Chega á segunda fase. Deslisa da emo??o dinamica á emo??o moral. Depois de ver o mundo atravez dos sentidos, julga-o atravez da ras?o e da consciencia.

O que é a vida?

A vida é o mal. A express?o ultima da vida terrestre é a vida humana, e a vida dos homens cifra-se n'uma batalha inexoravel de apetites, n'um tumulto desordenado de egoismos, que se entrechocam, rasgam, dilaceram. O Progresso, marca-o a distancia que vae do salto do tigre, que é de dez metros, ao curso da bala, que é de vinte kilometros. A fera, a dez passos, perturba-nos. O homem, a quatro leguas, enche-nos de terror. O homem é a fera dilatada.

Nunca os abismos das ondas pariram monstro equivalente ao navio de guerra, com as escamas d'a?o, os intestinos de bronse, o olhar de relampagos, e as bocas hiantes, pavorosas, rugindo metralha, mastigando lavaredas, vomitando morte.

A pata prehistorica do atlantosauro esmagava o rochedo. As dinamites do chimico estoiram montanhas, como nozes. Se a preza do mastodonte escavacava um cedro, o canh?o Krup rebenta baluartes e trincheiras. Uma vibora envenena um homem, mas um homem, sosinho, arraza uma capital.

Os grandes monstros n?o chegam verdadeiramente na epoca secundaria; aparecem na ultima, com o homem. Ao pé d'um Napole?o um megalosauro é uma formiga. Os lobos da velha Europa trucidam algumas duzias de viandantes, emquanto milh?es e milh?es de miseraveis cahem de fome e de abandono, sacrificados á soberba dos principes, á mentira dos padres e á gula devoradora da burguezia christ? e democratica. O matadoiro é a formula crua da sociedade em que vivemos. Uns nascem para rezes, outros para verdugos. Uns jantam, outros s?o jantados. Ha creaturas lobregas, vestidas de trapos, minando montes, e creaturas esplendidas, cobertas d'oiro e de veludo, radiando ao sol. No cofre do banqueiro dormem pobresas metalisadas. Ha homens que ceiam n'uma noite um bairro funebre de mendigos. Enfeitam gargantas de cortesans rosarios d'esmeraldas e diamantes, bem mais sinistros e lutuosos que rosarios de craneos ao peito de selvagens.

Vivem quadrupedes em estrebarias de marmore, e agonisam parias em alfurjas infectas, roidos de vermes. A latrina de Vanderbilt custou aldeolas de miseraveis. E, visto os palacios devorarem pocilgas, todo o boulevard grandioso reclama um quartel, um carcere e uma forca. O deus milh?o n?o digere sem a guilhotina de sentinella. Os homens repartem o globo, como os abutres o carneiro. Maior abutre, maior quinh?o. Homens que têm imperios, e homens que n?o têm lar.

Os pés mimosos das princezas deslizam lusentes d'oiro por alfombras, e os pés vagabundos calcam, sangrando, rochedos hirtos e matagaes. Bebem champagne alguns cavalos do sport, usam anneis de brilhantes alguns c?es de rega?o, e algumas creaturas, por falta d'uma codea, acendem fogareiros para morrer. Bemdito o oxido de carbone, que exhala paz e esquecimento! E a natureza, insensivel ao drama barbaro do homem! Guerras, odios, crimes, tiranias, hecatombes, desastres, iniquidades, deixam-na t?o indiferente e inconsciente, como o rochedo imovel, bulindo-lhe a asa d'uma vespa. O clamor atroador de todas as angustias n?o arranca um ai da imensidade inexoravel. A aurora sorri com o mesmo esplendor aos campos de batalha ou ao ber?o infantil, e as hervas gulosas n?o distinguem a podrid?o de Locusta da podrid?o de Joana d'Arc. Reguem vergeis com sangue de Iscariote ou com sangue de Christo, e os lyrios inocentes (estranha inocencia!) desabrochar?o, egualmente candidos e nevados.

A humanidade, emfim, é a victoria dos arrogantes sobre os humildes, dos fortes sobre os debeis, da besta sobre o anjo. E tendo de escolher entre vencidos e vencedores, entre o amor e o odio, o mal e o bem, o riso e as lagrimas, o seu cora??o misericordioso de poeta inclinou-se espontaneamente para a Dor, como as vergonteas para a luz.

A d?r é o seu deleite. Busca-a, desejo febril!--por hospitaes, por cadeias, por antros, por alcoices. Fareja-a de noite nos bairros leprosos, cloacas de humanidade, vasadoiros d'almas, onde crimes, virtudes, vicios, angustias, raivas, desesperos, fermentam promiscuamente, aglomerados e abandonados, como esterqueiras, como entulhos. Pesquisa dedalos caliginosos, cafurnas sem fundo, abismos hiantes, boqueir?es de sombra. Explora desv?os, trapeiras, minas, covas, esconderijos. Louco de piedade, engolfa-se nas trevas mudas e soturnas, que gotejam sangue, nas roucas escurid?es tumultuosas, pavidas de gemidos, cortadas de clamores, anavalhadas de blasfemias.

E do amago d'essas noites insondaveis pululam turbas espectraes de crucificados, hordas de monstros, bandos de miserias, cardumes de abomina??es e de agonias. Ullulam tropeis disformes e sangrentos, regougam fauces patibulares, choram, coroadas de ulceras, Magdalenas lividas, bocas de escarneo crocitam sem dentes e sem pudor, arquejam ralas estorturantes, gemem crean?as vagabundas, tossem tisicos, ardem febres, lusem gangrenas e podrid?es... E tudo vago, indistincto, confuso, n'um rumor longo e subterraneo. N?o se destacam, n?o se desenham as formas. Olhos, bocas, gestos, relampeando na sombra... Nada mais. A sombra voraz esbate as linhas e os contornos. é o mundo cahotico da miseria, que a noite putrida gerou e a noite soturna ha-de engulir... é o seu mundo, o mundo dos pobres, meu grande visionario, quasi desconhecido e genial.

Homens de gosto colecionam quadros ou estatuas. O meu amigo coleciona d?r. N?o em galerias ou museus, como quem se dedica ao estudo biologico das varias formas de sofrer. Quando uma chaga aterradora o surprehende, n?o a invasilha n'um frasco, guarda-a no cora??o.

Conta-lhe os ais, n?o os microbios. Em vez de a analisar, decompondo-a, analisa-a beijando-a. No seu laboratorio chimico existe apenas um reagente, que dissolve tudo: lagrimas.

O poeta dos Pobres n?o é um romancista. A alma do evocador fluidicamente se desagrega nas almas de sonho que elle evoca. Dir-se-hiam espelhos, brancos, verdes ou azues, planos, concavos ou convexos, reflectindo todos elles um unico semblante, que julgamos distinto, porque aparece deformado.

Chamei aos Pobres uma confiss?o religiosa. N?o ha duvida. Os seus pobres, meu amigo, s?o bocas de vis?es, articulando a alma d'um vidente. Falam a sua lingua e contam-nos a sua historia. N?o a historia, no minuto e na rua, do homem-sicrano, mas a historia, no espa?o e no tempo, do homem infinito, que vem de Deus e para Deus caminha.

No drama dos Pobres ha duzias de actores e um só personagem: o dramaturgo. As suas figuras n?o constituem individualidades reaes, caracteres verosimeis, logicamente architetados e definidos pelas inumeras causas de existencia, conglobados em duas ordens genericas,--a heran?a e o meio. Os seus ladr?es, assassinos e meretrises, n?o roubam, n?o matam, n?o copulam: sofrem. Sofrer, eis o seu mister. Mouca, Luiza, Gebo, Golim,--pseudonimos. O nome real, o nome verdadeiro de todos elles é um só: a D?r.

Inevitavel. Desde que o meu amigo rasgou as mascaras enganadoras ao Universo, para lhe descobrir a essencia e natureza intima, e desde que a lei do Universo é o predominio do mais feroz e do mais forte, toda a imensa humanidade, tumultuosa e vária, se resume logicamente em dois homens apenas: o algoz e a vitima, o homem que sofre e o homem que faz sofrer. Os bons s?o os que padecem. A miseria, mesmo sinistra e delinquente, é já um principio de virtude. Nenhum dos ladr?es, nenhuma das prostitutas do seu poema resvalaram ao vicio ou ao crime por vontade propria, por fatalidade fisiologica. Obrigou-os a fome, calcou-os a injusti?a. A sua infamia e a sua ignominia é a avareza ou a luxuria dos homens opulentos e devassos. Todos os ricos, ainda os caridosos, s?o perversos, e todos os miseraveis, ainda roubando ou esfaqueando, s?o creaturas boas, porque s?o vitimas dos primeiros. Os retratos dos bemfeitores do seu hospicio (pag. 59) parecem-lhe ?uma galeria de afogados, todos solemnes, ricos e maldosos, hirtos, de labios finos e ar de cerimonia.? E as alfurjas, cadeias e prostibulos, onde se amontoam, n'um horror tenebroso, os vicios alucinados e os crimes exorbitantes, afiguram-se-lhe á imagina??o misericordiosa como templos de angustias, santuarios sagrados de tribula??es e de martirios. é um flos-sanctorum da miseria, a dor do enxurro canonisada e sublimada.

Mas se a lei da natureza é iniqua e feroz, visto os maus triunfarem e os bons sucumbirem, d'onde vem essa lei, quem a gerou, quem a impoz ao universo? Quer a creasse, com o universo, uma vontade alheia, quer ella seja imanente ao universo infinito, é, nos dois casos, uma lei monstruosa, negadora da suprema ideia do espirito do homem, a ideia do bem e da justi?a. Contradi??o inexplicavel: A natureza é iniquidade, porque a lei que a rege assegura o predominio e a sobrevivencia do mais forte. Mas quem me leva a dizer que a natureza é iniqua? O sentimento do bem e da justi?a, desenraisavel do meu cora??o e do meu cerebro. Logo existe tambem na natureza, pois que eu sou natureza, a lei do amor e da justi?a, contraposta á lei da for?a e da violencia. Se Christo morreu na cruz, a natureza é o mal. Mas sendo a natureza o mal, como é que d'ella nasceu o mesmo Christo, afirma??o de todo o bem?

A ideia do bem e da perfei??o, levada ao infinito, é a ideia de Deus. Mas como hamornisar o absoluto perfeito com a natureza imperfeita? Como fazer sahir a diversidade da identidade, o complexo do simples, o mal do bem, o universo de Deus?

Chegamos á terceira e ultima fase do seu espirito: á fase religiosa, á emo??o divina.

A natureza desagregada em movimento, traduziu-se-lhe em d?r e resolveu-se lhe em amor. Movimento infinito, d?r infinita, amor infinito, eis os tres rostos da natureza no espelho cada vez mais profundo da sua consciencia, nos olhos cada vez mais abertos da sua alma. O dinamismo atomico do universo reduziu-o,--pavorosa sinteze!--á d?r sem fim, á d?r universal. Viver é sofrer, e tudo vive, tudo sofre. Vida infinita egual á d?r eterna, eis a equa??o matematica da natureza. Pandiabolismo, satanaz-universo. Um circulo infernal, hermeticamente inexoravel. N?o ha, pois, evasiva? Ha. D'esse inferno sobe uma escada de chamas tenebrosas, que vae ao purgatorio, e do purgatorio uma espiral de luz radiante, que nos leva ao céo. A d?r, que se lhe afigurou a essencia intima da vida e sua unica express?o, n?o era, ao cabo, o substracto ultimo da natureza, o fundo irredutivel do universo. A d?r n?o era irredutivel. A alma, vencendo-a, converteu-a em amor. N?o ha bellesa esplendente, que n?o fosse d?r caliginosa. A flor é a d?r da raiz, a lua a d?r das estrellas, e a virtude ou o genio a dor ascendente do ether luminoso, cristalisando no homem, ao fim de um calvario inenarravel de milh?es e milh?es de seculos sem conta. A alma de Jesus proclama o triunfo da santidade sobre o crime, como o corpo de Venus entoa a victoria da linha viva e musical sobre a linha inerte, a linha brúta e desharmonica. Bellesa de essencia ou bellesa de aparencia, virtude de Jesus ou formosura de Venus, tem, ancestralmente, a inicial-as o mesmo horror e a mesma imperfei??o. Do verbo odiar nasceu, evolutivamente, o verbo amar. Se o homem foi tigre, o beijo foi dentada. Toda a alegria vem do amor, e todo o amor do sofrimento. A alegria é o sofrimento amoroso, o sofrimento espiritualisado. Deus é, pois, o amor infinito, vencendo infinitamente a infinita d?r. E, vencendo a infinita d?r, elle é a infinita alegria, a paz absoluta, a gloria eterna, a bemaventuran?a ilimitada. Deus sustenta-se realmente, como diz o meu amigo, do sofrimento universal.

Nos meus Ensaios Espirituaes, ainda ineditos, eu exprimo inumeras vezes a mesma ideia. Quer vêr? Destaco uma pagina:

?Só a dor infinita produz o amor absoluto. Deus, amor absoluto, sustenta-se do sofrimento do universo. é uma luz eterna, alimentada por um incendio eterno. Deus, amor absoluto, projeta-se em d?r infinita da natureza. Para ser a perfei??o absoluta, encarnou se na imperfei??o ilimitada do universo. Deus n?o se comprehende sem universo. O perfeito vive do imperfeito, como a chama vive do combustivel. O mal é a condi??o do bem, o erro a condi??o da verdade, o crime a condi??o da virtude. O santo é santo, porque venceu o demonio. Sem o demonio, o santo n?o se comprehende. Sem universo imperfeito n?o ha Deus perfeito. Satanaz é uma das faces de Deus. Mais ainda: Satanaz é o corpo de Deus. Deus é Deus, isto é infinita perfei??o, infinito amor, porque vence eternamente infinitas imperfei??es e infinitas d?res. Deus é a completa affirma??o do Bem, pela completa e continua victoria sobre o mal. No instante em que o mal acabasse, acabava Deus. Deus n?o é idéa, pensando-se infinitamente: é acto infinito, amor infinito, a realisar-se pela infinita vontade na dura??o infinita. Eliminando o imperfeito, o perfeito evapora-se. Destruindo o relativo, destruireis o absoluto: o absoluto que fica é o absoluto n?o-ser. O infinito amor de semelhante Deus seria o infinito amor de si proprio, o infinito egoismo. é como se quizessemos resumir a infinidade dos numeros em um numero unico, infinito, eterno, inalteravel, o numero absoluto perfeito, e realizassemos a sinteze da infinidade numerica no absoluto do zero. Tudo egual a nada. N?o! Deus é infinito amor, esfor?o infinito, actividade infinita. O universo é o corpo de Deus, é a carne de Deus. Deus é absolutamente perfeito na diversidade infinita, porque sem essa diversidade infinita n?o ha, nem póde haver, a uni?o suprema. Mas a sinteze da vida é irrealisavel na ideia de numero e quantidade, na ideia concreta de materia. Só na ordem moral se unifica absolutamente a vida varia do universo. As quantidades, traduzidas em imperfei??es, os numeros traduzidos em egoismos, s?o reductiveis ao absoluto na ideia unica d'amor. Ahi o imperfeito torna-se a condi??o matematica do perfeito. Deus, amor absoluto, vive e sustenta se dos egoismos infinitos, continuamente evolucionando para elle. Deus, beatitude eterna, vive e sustenta-se das d?res infinitas do universo. Deus como corpo, como natureza, sofre infinitamente; mas Deus, espirito puro, Deus, amor absoluto, n?o sente d?r, nem sofrimento. é a bemaventuran?a e a gloria eterna, porque eternamente triunfa dos sofrimentos eternos do seu corpo. O santo verdadeiro dá-nos a imagem palida de Deus. Deus é o santo perfeito, o Christo absoluto e universal.?

Adoramos, pois, o mesmo Deus, unificamos a vida na mesma sinteze. Mas o auctor dos Pobres n?o desvendou, ideologicamente, abstractamente, o segredo da natureza, a explica??o religiosa e intima da vida universal. N?o a estudou como filosofo, descarnando-a, dissecando-a, até lhe descobrir as leis inalteraveis e reconditas da sua estructura evolutiva. N?o fez do cerebro um instrumento de vis?o, agudo e claro, gelido e penetrante, com elle interrogando, dia a dia, no sorvedoiro cosmico, o borbulhar infinitiforme da existencia. N?o mediu a vida a compasso, n?o a formulou em theoremas ou equa??es. Viveu-a. O seu livro n?o é a historia dialetica da raz?o d'um homem, sistematisando e codificando a natureza. N?o é a historia d'um encefalo, desdobrada em ideias. é a historia d'um homem, a historia plena e formidavel d'um organismo inteiro,--da carne e dos ossos, do sangue e das lagrimas, das m?os que aben?oam e que destroem, dos olhos que choram e que fulminam, da boca que resa e que tritura, da alma do lobo, que vem de Satanaz, da alma do anjo que se encaminha para Deus. Sim, a historia universal d'um homem, gemida e rugida, furiosa e candida, n?o para que o mundo lha ou?a (ent?o seria hipocrita) mas para que Deus lha escute, na eternidade e no silencio. é a confiss?o clamorosa, satanica ou celeste, das energias infinitas, evolutivamente amalgamadas e condensadas no misterio pavido d'um homem. O abismo insondavel, retrahindo-se, cristalisou n'um ponto; e esse ponto, adquirindo voz, confessou o abismo, revelou o insondavel. Almas inumeras se agrupam na alma sintetica e central. Ha em cada alma infinidades d'almas. E umas t?o horriveis e loucas, que as escondemos para que as n?o vejam, e outras t?o inconscientes e profundas, que, habitando comnosco, as n?o chegamos sequer a conhecer. O poeta dos Pobres conheceu-as e confessou-as todas. Desde a mais clara á mais crepuscular e tenebrosa, irradiou-as todas plenamente, no estado nascente, ingenuas e vivas, sem occultar uma unica.

O seu Deus n?o é o ultimo termo d'uma cadeia logica de silogismos. N?o o descobre pela raz?o, atinge-o pela emo??o. O meu amigo n?o raciocina, isoladamente, com o encefalo. Raciocina de chofre e com todo o corpo. As ideias brotam-lhe espontaneas, como o sangue da facada ou a flor da haste. Palpitam de vida, mas vida viva,--no estado genesico. N?o falam, n?o discursam, n?o discorrem. Gritam, uivam, ululam, gemem, resam, blasfemam. Ciclones d'ais, de ora??es, de impreca??es, de furias, de lamentos. O meu amigo pensa, forma juizos, como as eletricidades formam raios.

O seu Deus é a express?o da sua emotividade. Ou, bem no fundo, da sua moralidade. Só crê em Deus, só descobre Deus, quando em si, pela virtude, momentaneamente o realisa, ou tenta realisar. Se a bondade e a paz lhe existem no cora??o, a natureza resolve se-lhe em Deus, em amor supremo. Mas, d'ahi a instantes, o egoismo invade-o, e n?o é já em Deus, é na chimica, que a explica??o do mundo lhe apparece. Qual a fonte do ser, a ras?o da vida? é o acaso, é o apetite, é o amor, é Deus ou Satanaz, conforme as horas ou os dias conforme o equilibrio instavel da sua carne e do seu espirito. Logo de come?o, a paginas 29 e 30, define Deus abrazadoramente n'uma lingua de chamas, n'um paroxismo de dor e de misericordia, n'um extase candente e lagrimoso, t?o fervido e t?o lucido, que arrebata e deslumbra. Fulgiu-lhe subito, no amago da alma, a verdade da vida. A vida é um calvario. Sóbe-se ao amor pela d?r, á redemp??o pelo sofrimento. Christo é um redemptor humano, Deus o redemptor universal. é o ser infinito, porque é o amor ilimitado. E a natureza tenebrosa, vista de Deus, divinisou-se por encanto. Guerras, lutas, crimes, catastrofes, desordens, evaporam se e fundem-se em harmonia magica e perfeita.

Mas logo adiante, a paginas 42, a natureza, divinisada, reverte e regressa á sua forma demoniaca, de materia bruta.

?Ser só, sem amigos, sem apertos de m?o, sem conhecidos, ser só e livre, que sonho!?

Do altruismo absoluto, do absoluto amor, que é Deus, retrogradou ao individualismo anarquista, ao egoismo feroz, que é Satanaz. Do polo positivo saltou ao polo negativo. Entre os dois polos, entre o bem e o mal, entre Deus e o Diabo, vae oscilar e flutuar a sua alma, ora aproximando-se de um, ora aproximando-se do outro, ora imobilisando-se quasi, pelo hausto indutivo das duas correntes antagonicas.

Tal um Christo, penosa e religiosamente escalando o calvario, e que, a meio da encosta, varado de d?r, esvahido o animo e evolada a fé, arrojasse a cruz dos hombros, exclamando n'um impeto: ?Basta! Se o caminho do céo é um martirio abrupto, uma inferneira ingreme, desisto do céo e volto para traz para o conchego do meu lar, para a ternura de minha m?e, para o afecto dos meus parentes e meus irm?os. Antes risonho e feliz, junto do meu pae humano, que é carpinteiro, a aplainarmos cruzes, do que, morto e crucificado, na gloria infinita do meu divino Pae celestial!?

E assim blasfemando, retrocederia na encosta do sofrimento e da amargura, para já lá no fundo, voltar a subil-a novamente, a cruz nos hombros, com maior fé e maior ancia.

O seu poema é a historia da escalada tragica do seu calvario. Mil vezes o meu amigo tomou nos hombros a cruz da d?r e da paix?o, e outras tantas a deixou cahir, exhausto, com ais de desanimo, ou a sacudiu exasperado, cuspindo invectivas no lenho duro do resgate. Mas por fim, sangrando e chorando, galgou a montanha do erro e do sofrimento. Chegou a Deus, e em Deus ficaram imoveis e serenos os olhos tristes da sua alma. Polarisou-se em Deus, de vez e de vontade. Livre, emfim! Libertou-se.

N?o volte á servid?o, á escravatura negra e demoniaca. Mantendo-se liberto, a obra d'hoje, patetica, mas angustiosa e desigual, a obras futuras, vastas, claras e radiantes, servirá de entrada e de prefacio. A arte vale mais ou menos, segundo a por??o de amor que abrange e que revela. A arte soberana é a que conjuga a natureza toda,--homens e monstros, aguas e arvores, pedras e nuvens, soes e nebulosas, com o verbo infinito e perfeito, o unico verbo creador, que é o verbo amar. O universo atomico, particulas inumeras e vagabundas, fraternisa em Deus, unificado n'uma só alma e n'um só corpo.

Resar o universo é polarisal-o no infinito amor. Cantar n?o basta. Resar é mais. Resar é o superlativo divino de cantar. A ora??o é a can??o angelisada, a can??o chorada e de m?os postas. O universo absorve a, comprehende-a. Ouve-a Deus, os homens escutam-na, e as ondas, as aguas e os rochedos, vagamente a percebem, como um halito amigo, uma caricia branda e luminosa. Rese todas as d?res, pobresas, miserias, lutos, soffrimentos. Rese o lodo e o sangue, o ninho, o covil, o hospital, o carcere, a enxovia, a terra tragica, ulcerada de mortes, e a noite concava e funebre, ulcerada de soes e de nebulosas. Rese a d?r, mas rese tambem a alegria, que é d?r vencida e desbaratada pelo amor. Rese o triunfo do amor, a alegria ascendente da natureza, a marcha épica da vida pelo caminho eterno, que n?o tem fim. Rese chorando, mas lagrimas fecundas, que fa?am parir a terra, palpitar o seio e germinar a semente. Lagrimas d'aurora, orvalho vivo e creador. Resar e chorar, mas heroicamente, na ac??o e na luta, no mundo e para o mundo. Resar, como Nuno Alvares, entre o fogo ardente da batalha. Enganam-se os que v?o para Deus, voltando as costas á natureza. Quem se quizer salvar, ha de salvar os outros. Quem renegar a natureza, renega Deus. A ascese egoista, eis o atheismo verdadeiro. A imobilidade é sacrilega, a escurid?o é sacrilega, o silencio é sacrilego. A vida é som, é luz, é movimento. A vida marcha por abismos, tragica e formidavel, mas ruidosa e simfonica, vestida de luz e de mil c?res. Amortalhal-a de negro, arrancar-lhe a lingua, para que n?o cante, e os olhos, para que n?o deslumbre e n?o dardeje, é como se lhe cravassemos no cora??o uma facada sinistra. O quietismo beato, apagando o universo, apaga Deus. Quietismo e nihilismo,--dois zeros, dois sinonimos. O frade catolico, na concha da m?o, exangue e paralitica, sustenta uma caveira. é o nada olhando o n?o ser. O monge ideal, na dextra poderosa, em vez da caveira, tem um globo d'oiro constelado. Tem o universo. é o monge futuro.

Seja elle o tipo a que se encaminhe, embora de longe, a nossa fé e a nossa arte. Resemos, vivificando e sublimando. Arte creadora, que seja p?o e seja luz.

Se nos acusarem de hipocritas, deixal-os accusar; mentem. E a mentira só aos mentirosos prejudica. Se nos amesquinharem a fama e cercearem a gloria, desviando de nós as multid?es, que n?o pensam e v?o para onde as levam, melhor. Os que nos querem, os que nos amam, os que nos entendem, ficar?o comnosco. Os outros, deixando-nos, prestam-nos favor. Lezam-nos sómente na vaidade, que é vicio ruim, grama que custa a deitar fóra. Portanto, melhor. E se nos insultarem e injuriarem, melhor. E se nos perseguirem, melhor. E se nos apedrejarem e ensanguentarem, melhor ainda, muito melhor. Quando a alma, ao termo de mil hesita??es e desenganos, cravou as raizes para sempre n'um ideal de amor e de verdade, pódem calcal-a e tortural-a, pódem-na ferir e ensanguentar, que quanto mais a calcam, mais ella penetra no ideal que busca, mais ella se entranha no seio ardente que deseja.

Seu amigo e camarada cordealissimo

Chapter 2 O ENXURRO

Vem o inverno e os montes pedregosos, as arvores despidas, a natureza inteira envolve-se n'uma grande nuvem humida que tudo abafa e penetra. As coisas dil-as-hieis recolhidas e scismaticas.

é como um r?lo mysterioso e profundo que vem d'um mar desconhecido. E a chuva come?a. é um ruido d?ce o da chuva. Faz sonhar em tantas coisas idas e tristes! Primeiro a terra imbebe-se e incha. E, depois de cheia, a torrente jorra até polir as pedras: ara na terra, p?e raizes á mostra, arrasta n'alluvi?o o humus, as folhas seccas das arvores, os cadaveres dos bichos, os detrictos desagregados das rochas, que rola juntos, dispersa e reune, atira, entre a baba da agua, para um destino ignoto.

Assim a vida. é um rio de lagrimas, de brados, de mysterio. A onda turva p?e as mais fundas raizes á mostra, a torrente leva comsigo de rold?o a desgra?a e o riso; sem cessar carreia este terri?o humano para uma praia, onde as m?os esqualidas dos que soffreram encontram emfim a m?o que os ampara, onde os olhos dos pobres, que se fartaram de chorar, ficam attonitos diante da madrugada eterna, onde todo o sonho se converte em realidade...

Vêde... é noite. A ventania redobra e nas lufadas que passam viajam gritos, catastrophes, lamentos. Sou pobre e transido e nada sei da vida, mas sou um principe. De que terra? direis.--Do sonho. E assim n'este predio revolvido me quédo, sósinho e triste, a escutar... Ou?o um rio que os mais n?o sentem. Cada creatura nascida traz comsigo uma fonte, fio de agua humedecendo a frincha d'uma pedra ou levada impetuosa e aos jorros. é ella que tira á vida a sua seccura. Em certas creaturas pobres e simples quasi se ouve essa agua correr e t?o amoravelmente, que dá vontade de nos chegarmos á sua sombra. é emo??o. Minae, n?o na deixeis seccar: se finda torna-se a vida como os ch?os sequiosos.

N'este casar?o onde móro a toda a hora se ouve o ruido da levada; corre sempre como as torrentes desordenadas e esplendidas. Escutae!... Préga o inverno bravio, o vento e os aguaceiros passam, mas escutae, escutae!...

S?o meus visinhos, lá em baixo mulheres perdidas, ao pé de mim dois casados, e na trapeira um gato pingado, a quem chamam S. José. As mulheres passam ás vezes na rua, com chales purpuras a rasto; o gato pingado só sahe á noitinha, á hora dos morcegos. Mais timido que eu, encontro-o nas escadas a tossir, com o peito escalavrado e r?to.

Para que vive esta ralé? Levantam-se derreados, para cavar, para berrar, para que lhes deem um peda?o de p?o e só se deitam no sepulchro. Caminho sem sonho. Da vida coube-lhes este quinh?o amargo: o cansa?o, a humilha??o e a fome.

Se passam pelas arvores, n'um dia de primavera, t?o lindo, que até as proprias macieiras de commovidas se v?o desentranhando em flor, sabeis o que acontece? As arvores retrahem-se, as coisas callam-se ao vel-os passar cobertos de suor, calcados e gastos. Para que é que elles vivem aos gritos, offendidos, ralé, pedras, sapos? para que é que Deus os cria?

O gato pingado... Eil-o que sobe. Cada passo me lembra uma pázada de terra. é soturno este homem, esguio e magro, com o chapeu alto embrulhado no len?o do rapé e a casaca dobrada no bra?o. Nunca fala. Estou mesmo em dizer que n?o pensa, este avej?o que só sahe para os enterros. Deve ser máo, deve ser duro: nunca decerto chorou. Os garotos apedrejam-n'o quando elle passa pela rua, esguio, vesgo, de chapeu alto e casaca, rigido clown da morte, que em logar de gargalhadas toda a sua vida ouvisse lagrimas. Aposto que, quando arrancam das casas os caix?es como quem arranca o cora??o dos vivos, ao ouvir gritos, tem um riso interior, jubilo de quem está farto de viver só, arredado, humilhado... Gato pingado! gato pingado! Vive de lagrimas, sustenta-se de d?res. E quando vai, de tocha accesa, esguio, a galgar atraz d'um carro funerario, na reles mascarada, em que irá elle a pensar, esbaforido e triste?....

Outros... Casaram ha muito. Chamam-lhe a Rata. Pobre e sem m?e atiraram-n'a um dia para um collegio d'orph?os, onde cresceu entre maus tratos. Riam-se d'ella. Era um aborto que crescia por caridade. Passava a vida na enfermaria e os medicos--acho que de proposito--livraram-n'a da morte, para que depois soffresse.

Encontro-a nas escadas, com as botas do homem, os cotovellos r?tos, e magra e desleixada que faz piedade.

--O melhor tempo que eu vivi foi o da enfermaria. Havia lá uma Irm? que me beijava e fazia festas...

Mais felizes s?o os c?es vadios, mais felizes, incomparavelmente, s?o as arvores.

O homem desanca-a. Chega a casa e bate-lhe, faz-lhe tratos. Se ella chora e se queixa desanca-a mais. E agora, como ella n?o dá palavra e só pensa:--Antes eu fosse para creada de servir!--elle quer que a Rata grite e chore.

Antes tu fosses para mulher da vida, digo-t'o eu!...

Esta manh? appareceu com os olhos inchados e pisaduras na cara. O vestido já lhe n?o serve. E como está frio, reparei, traz os pés mettidos nos sapat?es do marido, sem meias e roxos. Aprende na vida, soffre! Nada te valerá. Até á morte, até que te acabe de matar com maus tratos. ás vezes, se elle sahe, p?e-se á janella, a scismar na Irm?, que, quando cahia doente, lhe dava beijos, lhe fazia festas--e pergunta-se:

--Porque n?o morri ent?o?....

Calla-te e soffre. E até á morte, até o teu pobre corpo cahir exhausto, moido, negro de pancadas. Assim será irremediavelmente, inexoravelmente.

Este velho que pára nos patamares das escadas, gordo e molle, de cabellos brancos estacados, é o Gebo. Todo curvo, olha-vos com um olhar aguado e tonto.

--ó Gebo!

E elle, erguendo o car?o afflicto:

--Anh?...

E como este, outros assim. A toda a hora vae o enxurro humano polindo as pedras. A ventania a?outa o casar?o e passa, levando poeira de scisma, ais, para outro mundo ignoto. Com a noite a vida redobra. Eis uma multid?o feita de terri?o, de creaturas tendo arrancado a mascara: certos homens s?o sonhos, outros dil-os-hieis gritos. P?e-se o Gebo a contar a sua historia, surge o Corsario, uma velha tragica, com o caio dos palha?os, o Astronomo, um sabio hirsuto, o Gabirú, philosopho esguio e hirto como uma taboa, que tem descoberto mundos e ignora as coisas mais simples d'esta vida. Remexe n'um brazido de idéas e nunca olhou cara a cara a existencia. Anda attonito na rua, perdido n'um mundo que descobriu á pr?a do seu barco como um navegador. No subterraneo do predio mora--ha quantos annos?--o homem do pacho, de quem ninguem sabe a historia. Emparedou-se. Odeia a luz: essa poeira azul, que imbebe os seres e as coisas, mar?o, a arvore, a vida tumultuaria e larga como um rio, nunca mais a viu. Está vivo n'um tumulo: só as paredes esbrazeadas, á for?a d'elle sonhar, a rubro como as pedras d'uma forja, conhecem a sua historia. Pára no patamar o Gebo contando o que soffreu aos pobres que o querem ouvir. Muitos fazem roda e elle, picaro, desata a chorar e narra peda?os d'uma triste existencia de humilha??o e de esmola, sempre esbaforido e escorra?ado, a filha a sustentar, o desprezo do mundo, as suas correrias, desorientado e com lagrimas, atraz do p?o para os seus. E termina sempre:

--Tenho pena de ter sido honrado...

A ventania présaga augmenta, abalando o Predio. De que é construida uma casa? De pedra. Todo o globo é revolvido para abrigar o homem. A arvore e a ossada da terra s?o arrancadas para o servirem. Juntem a isto gritos. De pedra, d'arvores e de gritos f?ra construido o Predio. Juntem a isto sonho, que transforma as coisas. Um gritava nos subterraneos, outro de tanto sonhar empoeirára d'oiro o granito negro. De fórma que toda a casa gasta, amolgada, revolvida, tinha tomado alguma fei??o d'aquellas existencias. é a habita??o do Gebo, das prostitutas, do Gabiru, do Pitta. Escancara-se o port?o, cahem-lhe os telhados, mas se, em cima, nas mansardas arrombadas dá de chapa o sol, acredital-a-heis a scismar, a cantar. é effectivamente de pedra--e de sonho.

Chove, mas em torno a terra arida, n?o tem agua nem plantas.

Só uma arvore cresce n'aquelle solo infecundo. Sustenta-se de dor. As suas raizes foram minando até ao Hospital, construido em frente da casaria, para sugar a vida dos pobres. Se um raio de lua, escoado pelas nuvens, a toca--eis um phantasma d'arvore todo de pó de luar.

Quédo-me sósinho nas noites estiradas, ouvindo este enxurro vivo. Muitas vezes s?o lagrimas que correm ou emo??o que brota com o ruido d'um fio de bica cheio de scintilla??es e rumores. O cahir de lagrimas é sempre d'uma tristeza pacifica... Na noite negra o Hospital entaipa a cidade: arvores, nóras humedecidas, donde sahe a frescura do ch?o, montes solitarios, parece que os prohibe aos desgra?ados: como um velho sumidouro espera, guarda, construido de pedra e n'um brazido por dentro, todos os que soffrem, santos, pobres, mulheres perdidas e heroes.

O Pitta, embrulhado no seu chale-manta, murmura ás vezes ao contemplal-o:

--A misericordia humana constroe d'estes castellos, para que os ricos n?o assistam ao soffrimento dos pobres. E fal-os de pedra, de granito bem solido, para que se n?o ou?am os gritos cá fóra.

Chapter 3 O GEBO

Heis de tel-o encontrado esse velho gordo, de cabellos brancos estacados e um ar d'afflic??o que faz riso e piedade. Tomba ás vezes na rua, levanta se, e, todo enlameado, olha p'ra os lados e chora; depois caminha esbaforido. Parece que vae gritar, esse ser molle e gordo, de cabellos brancos estacados, e, de subito, baixinho, pede-vos esmola. Tem um riso de humilhado e o aspecto d'uma bola de sebo--de cabellos brancos estacados. é o Gebo. é um gebo por ser picaro e r?to e por a desgra?a o ter calcado aos pés até o tornar ridiculo.

Triste existencia sem odio e sem gritos. A vida n?o n'a entendia e a cada empurr?o tinha um ar espantado e afflicto de quem n?o comprehende. Que mal fizera? que mal fizera? Pois a desgra?a faz rir? o soffrimento faz rir?

E em torno as boccas escancaravam-se, ao verem-n'o gordo, pedinch?o e desgra?ado.

As peores ruinas resumem-se n'esta secca phrase--ser infeliz. Ha seres que nascem com uma sina--amargar a vida. Tudo lhe corria t?rto, até as coisas mais banaes e mais reles, as coisas que para os outros nem mesmo existem, e elle punha-se a olhar para a desgra?a, atarantado e estupido. Que mal fizera para soffrer?

Alem de desgra?ado, este homem f?ra sempre picaro: assim no globo passam existencias ignoradas de soffrimento e de bondade, que n?o deixam o mais simples vestigio, como os veios d'agua escondidos e que no emtanto s?o a vida da terra.

Mesmo posto a chorar, a sua mascara, de cabellos brancos estacados, fazia rir.

Sempre a suar, quasi sem saber gritar nem saber queixar-se, o Gebo tinha um cora??o igneo. Era d'estas creaturas a quem um mont?o de desgra?as torna ainda mais ridiculas: a ruina, a quebra, a miseria, a fome. Enlameado pela vida fóra, resignado e chor?o, elle ahi vae...

--ó Gebo!

E todos se riam ao vel-o chorar d'afflic??o. Diziam uns:--Que n?o fosse tolo!--E os pobres, a quem elle tanta vez valera, gostavam de o vêr calcado e humilde como a terra dos caminhos. Qual é a raz?o porque a desgra?a alheia consola a nossa propria desgra?a, dizem-me?...

A tresuar, afflicto, depois de espesinhado, ainda esse sêr molle e gordo, aos quarenta annos, cria na existencia como as arvores e as crean?as crêem.

Em que hora aziaga encontrou a má sorte que nunca mais o deixou? Ha creaturas em quem a desgra?a se escarrancha no cacha?o, e é p'ra sempre! p'ra toda a vida! Nunca mais as larga. Viera a quebra, afflic??es sem conto, ainda mais negras que o cora??o dos outros. Enganavam-n'o, com a alegria de o verem rebaixado e perdido, empurr?o d'aqui, empurr?o d'acolá, aos tombos por esse mundo.

Era casado o Gebo e tinha esta felicidade: uma filha. Oh uma filha!... Uma filha sempre prende a existencia! uma filha pequenina sempre tem nas m?osinhas uma for?a!

Assim esse velho ridiculo e gordo tambem f?ra feliz outr'ora. Era d'estes lares apagados e sumidos, onde a vida corre com a monotonia d'uma fonte, sempre egual e prompta a apagar todas as boccas sequiosas. Uma casinha velha, um quintalorio com seis arvores, um fio rumoroso d'agua e as janellas abrindo para a sombra amiga das fructeiras. Alli era a felicidade. D?o-nos as arvores toda a sua sombra: nunca nos enganam.

Muito tempo mentira á mulher, que ia vivendo illudida. Ria o Gebo em casa, com o cora??o torcido, para que ellas fossem felizes mais algumas horas--ultimas horas tiradas á desgra?a. Até que um dia succumbiu:

--Eu n?o te queria dizer... Mas ó mulher! ó mulher!...

--Que é? que foi?

--Estamos perdidos, estamos perdidos...

--Perdidos?!

--Sim, estamos... E agora? agora? Ninguem me vale, ninguem se importa. Tenho pedido, tenho andado... e já n?o posso! Estamos perdidos, mulher!...

--Estamos perdidos?

--Sim...

--Tu é que tens a culpa, n?o tens mesmo finura nenhuma. Riem-se de ti. Todos te enganam e ainda por cima se riem de ti. Anda, vae!... Tu que queres? Que ha-de ser de mim e da pequena? Nós temos culpa das tuas tolices, das tuas desgra?as?...

--N?o, mulher, n?o, bem sei...

--Anda!

E elle voltava, todo o dia corria esbaforido, até que uma noite a mulher viu-o entrar, sem chapéu, enlameado, exhausto--e de cabellos brancos estacados. A ingratid?o embranquecera-o. Era ao crepusculo. Tombado, como uma bola de gordura, tremia abalado pela dor, monologando baixinho:

--Oh a minha filhinha!... E todos se riram de mim, todos!... Ninguem se importa. Quem quer saber da desgra?a dos outros? Ai a minha filha!

Come?ou uma vida desorientada e feroz. Parecia que de todos os lados havia vozes a clamar, a escarnecel-o:--ó Gebo! ó Gebo!--Nunca mais houve paz na terra para elle: mesmo no seu lar tinha certo a toda a hora os ralhos da mulher desvairada e as lagrimas silenciosas da filha. Oh essas horas ferreas em que olhára em torno perdido e só vira seccura e risos! essas horas tinham-lhe deixado suor d'afflic??o para o resto dos seus dias. Tudo se arrazára. E curvava-se sob as palavras da mulher, amachucado, sem for?as para luctar, quebrado pelos desenganos e pela indifferen?a dos outros.

--E agora? agora? perguntava-lhe ella.

E elle cahido:

--Agora n?o sei... Agora morremos todos á fome.

Batera em v?o a todas as portas, anniquilado, sem idéas e sem for?as. Só sabia chorar, molle e grotesco, emquanto a mulher, que a desgra?a seccára, lhe atirava improperios, gritos:

--Mas levanta-te! procura! salva-nos!

Anda Gebo! E elle lá sahia, tornava aos amigos, pedinch?o, desnorteado, atraz de emprestimos, de demoras, trocando as palavras e desatando de subito a esbracejar com gritos e solu?os.

Heis-de tel-o encontrado esse velho gordo, de cabellos brancos estacados, aos empurr?es na vida e com um ar d'afflic??o que faz riso e piedade.

--ó Gebo!

--Anh?

--Conta!

E elle logo, em palavras r?tas, precipitadas, bebendo as lagrimas:

--ó Senhor!... Tanto tenho andado e tanto tenho soffrido! Quanto mais fa?o peor, inda é peor... E já n?o posso mais... Acabou-se! Só Deus sabe pelo que tenho passado, as desgra?as que tenho rapado e as afflic??es, para arranjar ao menos o triste peda?o de p?o para a bocca... O peor é d'ellas. O meu cora??o estala, tanto tenho soffrido. Trago a noite cá dentro. Que se lhe hade fazer? Curtir a desgra?a. Anh? Tenho pena de ter sido honrado...

E fica com a bocca aberta, chor?o, de cabellos brancos estacados.

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