Ao tiro de pe?a acordou Jo?o de um inquieto somno de namorado e, apoiando o cotovelo no grande leito de alta cabeceira de tarja, prestou atten??o.
Seria salva do castello, ou vinha navio de Lisboa confirmar as aprehens?es dos sonhos agitados em que Maria se esquivava sempre ao caloroso enlace dos seus bra?os, e um subito quebranto o impossibilitava de perseguil-a, e um sobresalto, como que a queda do ideal, interrompia o laborioso despertar da sua estuante virilidade?
N?o se repetiram detona??es que o tranquilisassem e, no brando rumor cantante e alegre, reconheceu o romper d'alva. Deitou pelos hombros um capote azul de cabe??o, e fechos de prata, apagou a candeia de ferro cujo espelho areado reluzia e tirou a tranqueta que especava, desde a cunha ao encaixe da parede, o postigo das pesadas portas de cedro da janella de peitoril.
Pelo pequeno caixilho de minguados vidros azulados percebeu a confusa luz da manhan.
Ent?o destrancou vigorosamente as portadas, retirando o grosso cilindro ao longo da cava da cantaria e, depondo-o contra o poial, puchou para si os dois pesados batentes e debru?ou-se com avidez.
-Muito madrugaste hoje-disse-lhe debaixo a tia Pulcheria, ajoujada á celha das lavagens, avental de barras amarellas, ainda com a rede de dormir apanhando os cabellos brancos.
Deu-lhe os bons dias e viu-a, por entre os claros da parreira de Alicante, dirigir-se ao curral onde grunhia o porco alegremente, o focinho bronco farejando por cima da cancella.
-N?o ouviu uma pe?a, tia?
-Ha de ser navio de Lisboa.
Em passo miudinho, muito activa, a arrega?ada cheia de milho, acudia ao tumulto da capoeira, onde o gallo repenicava, em desafio com os visinhos, emquanto da pocilga rompia um grunhido satisfeito, misturado ao chapinhar na agua de semeas.
Rompeu no castello o toque da alvorada, o echo vibrante do clarim dando o signal do batalh?o, e o terno de cornetas atacou as notas baixas, até se casarem n'um hymno ao triumphal raiar da aurora.
Passavam chocalhos de machos carregados de trigo para os moinhos do Pis?o.
Apregoavam leite homens do monte, vindos da Ribeirinha, barba ruiva, pé descal?o, vestidos de linho branco alvo de neve, a camisola presa no pesco?o por bot?es de oiro, carapucinha preta com orelhas vermelhas, pequena como a palma da m?o, posta á banda n'um elegante equilibrio, batendo o bord?o com rendilhados na ponteira; rolhas de pasto no bico negro das caba?as defumadas, com pontos a cordel em fendas, por onde o leite gotejava, aos solavancos do pau posto ao hombro esquerdo.
Apregoavam rapa, vergando a grandes molhos, apressados pastores, anciosos por se livrarem da carga, trazida desde noite do matto.
Chiavam carros n'uma orgulhosa competencia, irritando em furiosos latidos os c?es das quintas.
Soaram trindades em Santa Luzia, vibrou na alegria da madrugada esse toque de sino, impregnado ao p?r do sol pela melancholia da tarde; seguiu-se-lhe o repique annunciando festa; tocaram na Sé á missa das almas.
Cessou o bater da roupa no lavadoiro da pia, persignaram-se devotamente e benzeram-se de hombro a hombro a creada e a tia Pulcheria.
Veiu de dentro benzendo-se tambem a tia Dorotheia, mais pesada, mais gorda, encher a talha no perenne jorro d'agua gorgolejando no tanque, onde os peixes vermelhos mostravam o amplo e fundo d'essa abundancia de agua, trasbordando para a grande pia de lavar, dando vi?o aos cravos, rosas, secias e perpetuas dos canteiros, á madresilva da janella, á abobora do telhado do forno, ao pé de vinha nascido de encontro á pedra do fundo, desenvolvendo-se em ramadas junto da arquinha onde se espetava a bica de ferro.
Recolheu-se, para o n?o verem faltar á ora??o matinal e, assim de pé, varejava-lhe o olhar o bra?o d'agua que dera o nome d'Angra á sua cidade.
Mas n?o avistava esse navio todos os dias receiado, cujo tiro alarmante vinha findar-lhe os devaneios.
Saíam á pesca barcos á vela, avivando o azul n'um recorte de gar?a; vogavam outros em cadencia, como buzios deitando por banda as curvas pernas a fugirem no calhau.
Latinos inclinados, bordejava um cahique por dobrar a ponta de Santo Antonio e entrar no porto onde soprava o vento carpinteiro, lenhador de navios, dos ilheus ao caes da Figueirinha.
Illuminava o nascer do sol a humida neblina, desenrolando altas montanhas, picos azulados, sinuosidades como largas muralhas flanqueadas por torres, das que vira em registos dos logares santos, cidades, extensas bahias, arvoredos polvilhados d'oiro, reflexos da Antillia submergida, que havia de irromper das ondas quando voltasse el-rei D. Sebasti?o no cavallo branco; miragem da propria ilha, como a que arrastára os descobridores a aproarem ao mysterio dos horizontes sem fim, até ao desengano do gelo do Labrador e da Terra Nova, á inextricavel vegeta??o de sarga?os d'esse mar de inferno.
Tambem sentia a ancia do desconhecido, herdada dos primeiros povoadores da ilha Terceira, base das arremettidas a esse mysterioso oriente, que pretendiam tomar por occidente, dando por fim rumo a Colombo; tambem queria saber o que haveria para álem da curva do mar largo, essas terras onde tudo se decidia: a Fran?a, m?e da liberdade, regressada ao antigo regimen, invadindo a Hespanha constitucional, o que animara D. Miguel a derrubar na Villafrancada as institui??es de Vinte; a Hespanha, de Cadiz, a cujo exemplo estalára a revolu??o de 24 de agosto de 1820, tentando agora restabelecer a inquisi??o; a Inglaterra, que apoiára a carta constitucional doada por D. Pedro, e decerto auxiliaria a revolu??o de 18 de maio contra a usurpa??o de D. Miguel, secundada na ilha em 22 de junho, ainda n?o havia um mez; o Brasil de onde vinha dinheiro; Portugal para onde iam tributos; Lisboa, de onde uma embarca??o traria um primo para lhe arrebatar a mulher amada, ou viria buscal-a e levar-lha.
Annullado na absorp??o do mar largo e das terras aonde conduzia, surgiu-lhe de repente, a pannos largos, guinando n'uma bordada, saindo detraz do Monte Brasil, a fragata Princesa Real, mostrando no balan?o a bateria rasa, cintada de pe?as negras em carretas vermelhas abocadas ás portinholas.
Colheu o velame dos tres mastros, soltou a ancora, e o golpe rapido da antena, fazendo respingar a agua, foi o signal para o saltearem lanchas e escaleres.
Tudo acabaria assim?
Sentia-se ligado áquelle navio, dependente da sua rota, do porto de onde vinha, do ancoradouro para onde havia de largar, das cartas que trazia no forte bojo, e espica?ava-o o impeto de sair d'essa dependencia, á mercê do que vinha de fóra, elle como a terra; de reagir dentro do seu meio, do seu circulo, dos seus desejos, das suas esperan?as, por fórma a terem que contar com elle.
Havia de ficar áquella mesma janella, vendo-o perder-se na bruma, adivinhando, no palpitar de um len?o, a noiva perdida para sempre?
Voltou-se e olhou ao longo da grande bahia do Fanal, a oeste do Monte Brasil, desde a encosta da serra de Santa Barbara, até ás recortadas negruras de S. Matheus da Calheta, aonde a espuma arrebentava.
Sem uma incerteza, por entre a mancha escura dos pomares de S. Carlos e do Pico da Urze; em meio do xadrez de cerrados amarellos de trigo, verdes de milharaes, negros da ceifa; fitava o mirante da quinta onde ella o vinha esperar, o caramanchel em que passavam tardes, o casar?o onde um pae lha defendia.
Como que via já o pateo cheio, carros de bois carregando os grandes bahus, ha mezes atulhados de rouparia, empachando a casa de entrada; e o carro??o de coiro bolorento, baloi?ando-se nas grossas correias, de largas fivellas areiadas, arrastado á for?a da aguilhada por duas juntas, de guiseiras, levando Maria ao embarque, chocalhando ferrugentas ferragens.
Ficou por muito tempo sentado no poial de pedra da janella, a fronte apoiada na m?o esquerda, os dedos entre o cabello castanho anelado, anediando o ligeiro bu?o, os olhos pregados na quinta dos Folhadaes, pensando no que devia fazer.
Ao tocarem matinas na Sé, come?ou a preparar-se para saír.
Do quintal bateu palmas a tia Dorotheia.
Estava prompto o almo?o, e elle decidido a seguir Maria, se a levassem para Lisboa.
Reconquistou-o ao descer da torre a sentimentalidade do lar, no cheiro do comer, no arrastado dos chinelos das tias, no tinir da lou?a da India, no tlintar dos talheres de prata, no ranger do trabalhado armario de madeira do Brasil, com guarni??es tremidas e remates arrendados.
Deu-lhes os bons dias, ellas beijaram-o e afagaram-o, e quando se sentou na cadeira de espaldar, de onde o pae e o av? presidiam á grande meza oval, de pés torneados e parafusos de prata, cujas abas se fechavam para sempre á medida que a familia se reduzia, esmoreceram-lhe os impetos, esvaíu-se-lhe a energia.
Amolentara-o a educa??o mulherenga, creado entre rabos de saias, adormecido com pavorosos contos de lobishomens e almas do outro mundo.
Pobres velhas! Morreriam de d?r se lhes faltasse.
E as ambi??es de viajar, de seguir uma carreira, de ser alguem, iam-se no resignado aniquilamento, na tendencia para a medita??o, de que o haviam adoecido os dias abafadi?os e humidos.
-Já saes?-perguntou Pulcheria, mirando-o atravez dos oculos de tartaruga.
Dorotheia accrescentou que n?o era dia de li??o, e o dominio das velhas impoz-se-lhe, como sempre, tomando-lhe conta de todos os passos, vigiando-lhe as saídas e entradas, fazendo-lhe scenas de lagrimas quando voltava tarde ?do caminho da perdi??o!?
N?o resistia, n?o se insurgia, n?o protestava, mas nem por isso deixava de sair e entrar quando lhe parecia, embriagando-se de liberdade, sem pae que o derrancasse nas sovas que humilhavam outros da sua edade, ao recolherem fóra d'horas.
-Nem que fosse dia de li??o irias hoje ao padre Jeronymo.
Pulcheria, magra e sêcca, nervosa, solteirona, alludia á chegada do navio de Lisboa, sublinhando com inten??o.
E Dorotheia, viuva, mais prompta á lagrima, supplicou-lhe:
-N?o te vás meter em trabalhos.
-N?o se fala sen?o de vingan?as, de pris?es, credo!-apoiou Pulcheria.
Dorotheia, no instincto de dona de casa, abrangeu logo o lado economico das perturba??es:
-Tudo mais caro. Os ovos já est?o a quatro por um vintem, e querem uma serrilha por uma gallinha. Os homens do monte fingem ter medo de entrar na cidade, e n?o passam do Desterro onde a?ambarcam a manteiga, os ovos e as gallinhas os revendilh?es, que p?em tudo pela hora da morte, desculpando-se que lhes pediram um horror de dinheiro. A cada má noticia que vem de Lisboa, os lojistas enchem-se augmentando os pre?os. Assim tem hoje casas e quintas essa orgulhosa caixeirada que veiu para ahi de tamancos! Já n?o se pagam fóros, ha que tempos n?o entram aqui os cestinhos de ovos que nos trazia o capit?o Toledo das Doze, nem os casaes de frangos da Fonte do Bastardo. Para que n?o se acabe a capoeira, a mana tem deitado ovos em ch?co, mas logo na noite da revolta, com os tiros dos soldados do Lob?o contra os milicianos, foi-se uma ninhada inteira, dezasete ovos de gallinhas das Flores que p?em duas vezes por dia! é o que se ganha com essas fa?anhas dos constitucionaes.
-ó tia!...-interveiu sorrindo.
-Se n?o has-de defendel-os, n?o fosses todo do Juvencio!-commentou Pulcheria, mais directamente ferida pelo g?ro.
Dorotheia censurou, muito sentida:
-Estás sempre metido na botica a lêr as gazetas, e decerto lá vaes encafuar-te a saber o que veiu de Lisboa, essa Babilonia, Sodoma e Ghomorra, a corrupta e devassa Lisboa, como préga, acceso em santas iras, fr. Angelico da Immaculada Concei??o de Maria.
-Quando o vinho do morgado lhe sobe á cabe?a.
Pulcheria reprimiu Jo?o n'um olhar.
-N?o te fica bem o que fazes, nem o que dizes. Fr. Angelico é muito de casa do senhor morgado dos Folhadaes, o nosso protector. Elles s?o do senhor D. Miguel.
-Est?o no seu direito.
Dorotheia acudiu com a quest?o do dinheiro:
-Lembra-te que elle te dá quatro patacas por mez pela escriptura??o dos rendeiros; e pelas festas, pelo Espirito Santo, e pelas matan?as manda sempre os seus presentes em salva de prata, com sua toalha de damasco. Teu pae e teu av? foram muito d'aquella casa, e tu mesmo és tratado como amigo.
E reparando na distrac??o d'elle:
-N?o comes nada? Grande coisa tens hoje!
Pulcheria observou-o tambem:
-Naturalmente os pedreiros livres est?o falados para a chegada do navio de Lisboa.
Retumbou na cosinha um penoso suspiro, como das almas penadas dos contos, e Jo?o surprehendeu a creada, a velha Maria da Assump??o do Corpo Santo, que lhos contava, movendo os seccos bra?os inchados de veias, os dedos ossudos em esgares de esconjuro, depois ungindo a testa encarquilhada, o nariz acavallado, os bei?os pendentes, mascando a sua maneira especial de se benzer:
Eu me benzo c'os tres cravos
Abra?ados n'uma cruz
Para que possa dizer
Santo nome de Jesus:
A cruz des?a do ceu
E se deite sobre mim
O Deus que n'ella padeceu
Elle responda por mim.
Por fim o dedo pollegar da m?o direita, tornado bento pela tarefa redemptora, foi beijado devotamente, e só depois a serva se virou para o lar.
Dorotheia commentou, compadecida:
-D?o com ella em doida as innova??es dos constitucionaes. Demora-se toda a manhan nas compras, porque vae para a Sé p?r-se de empada, a rezar, a rezar, em desaggravo ás heresias, aos desacatos.
Pulcheria insistiu teimosa, devorando o sobrinho com os olhos:
-é para o que servem os pedreiros livres!
Elle riu n'uma explos?o juvenil.
-Pedreiros livres? Julga-me talvez? Tem gra?a!
A tia confirmou:
-A senhora Joaquinina do ó vê-te sempre no falatorio da botica, e toda a gente sabe que é ali o coio dos que beijam o diabo á meia noite.
-Admiro-me que uma mulher de tanta virtude, que anda sempre com o cord?o de S?o Francisco á cinta, n?o diga que tambem lá vê, a jogarem o gam?o, os meus mestres, o senhor conego Penedo, o senhor padre Jeronymo Emiliano d'Andrade e o senhor conego Ferraz, governador do bispado.
-Esses s?o pedreir?es dos grandes!
-Pois tia, antes me quero com elles do que com fr. Angelico da Immaculada e as suas confessadas, como a senhora Joaquinina do ó.
Comera os figos lampos do quintal, as postas de moreia frita a que escolhia a pelle torriscada, o affonso de lapas em que o marisco guisado e o longo musgo das conchas conservavam o acre sab?r do mar; e tomára, já levantado, o café com leite, esse delicioso café vindo directamente do Brasil, em paga das saias bordadas em que se entretinham as tias.
De olhos no tecto e m?os postas, repetiam tres vezes as velhas, junto da meza ?Bemdito seja Deus, que me deu de comer sem eu lh'o merecer?, notando desgostosas que Jo?o se esquivava ultimamente á ac??o de gra?as, o que para Pulcheria era um signal certo de pacto com o Demonio.
Despediu-se, saiu, passou ás Monicas lan?ando um olhar irritado ao convento, cujas grades a liberdade havia de arrancar, desceu a ingreme Myragaia, notou grande movimento no palacio do governo, mas, evitando comprometter-se para com o morgado, n?o entrou a perguntar novidades de Lisboa.
Voltou á rua do Convento da Esperan?a, e passou por diante do collegio dos jesuitas, tendo em frente a farta cerca dos franciscanos, a frontaria do convento esburacada de janellinhas como um pombal, a fachada com dois grandes bra?os cruzando-se de punhos fechados contra a cidade-as armas de S. Francisco.
Virando a esquina entrou na pra?a, e foi direito á botica, ao canto do Passo onde parava a prociss?o e se cantavam motetes.
Para ir ali tinha a justifica??o de falar ao mestre, e trazia-a engatilhada para alguma pergunta do morgado.
Esbravejava o boticario, tornando a loja em club:
-Aqui n?o se recebem ordens do Miguel! Isto n?o é terra de burros nem de corcundas. Bem se quer fazer fino, mettendo-nos á cara o decreto, o capit?o general, mas para cá vem de carrinho! O presidente da camara convocou uma reuni?o extraordinaria, a que concorreram as principaes pessoas dos tres estados, clero, nobreza e povo, e resolveram n?o cumprir as cartas regias por falta das formulas da carta constitucional. E a fragata ha de sair immediatamente, ou n?o sae mais, que se lhe ferram dois balasios, e era uma vez uma Princesa Real!
N?o iria n'aquelle navio! E respirava desafogado. Agora nada mais lhe importava.
Dissipava-se-lhe o terror, mas aproveitaria a li??o, e n?o ficaria sujeito ao risco de a ver partir sem que nada tentasse para impedil-o. Sentia-se bem, tinha vontade de correr, de saltar, como ao sair da li??o de latim do conego Penedo, um alto vermelha?o, de cabello branco com laivos do passado loiro, olhos azues escarnecendo atravez dos occulos de aros d'oiro, que tratava uns discipulos por Ciceros e outros por bêstas, e na rua correspondia aos cumprimentos com a m?o fechada, murmurando uma grossa obscenidade dita por entre os dentes brancos e largos, onde se arrastavam ruidosamente os érres.
Como no momento de liberta??o em que a garrida chamava os conegos á Sé, e Penedo, bufando, contrariado, repoltreava-se na grande cadeira do c?ro, cabeceando, a remoer o ripan?o em voz roufenha, ia Jo?o na doidice do mar que, antes de enamorado, era o seu encanto.
Sentia-se t?o livre de cuidados como se tornasse annos atraz, quando corria pela praia, emquanto espaireciam os conegos, pausadamante, rua da Sé acima, até ao Passeio do Alto das Covas, onde ficavam cavaqueando, pitadeando-se, ou deitavam, a desenferrujar as pernas, port?es de S. Pedro em fóra, até ás quintas do Caminho do Meio, a admirarem as vinhas, n'um culto pag?o mais sincero do que aquelle em que ganhavam a vida a dentro do grande templo frio e escuro.
Tinha o desejo infantil de vêr, com os proprios olhos, sair o navio, para ficar com a certeza de que podia dedicar-se a resolver a sua situa??o para com Maria, antes que surgisse outra amea?a.
Evitou o movimento do pateo da alfandega onde se accalorava a quest?o politica, seguiu pelo areal da Prainha, junto a destro?os de naufragios, pranch?es crivados pelo furo do gusano, chapas de cobre onde cracas e lapas, toda a riqueza organica das aguas, punham colonias de pequenos seres; depois abandonou o carreiro do areal batido pelo constante perpassar, onde já plantas desafiavam o beijo da resaca, e aproveitava a descida da onda para saltar de pedra em pedra.
Passou o Portinho Novo e foi até aos penedos do caes da Figueirinha, onde pescadores, perna pendente, pescavam á canna, aproveitando a fundura da rocha viva.
Via-se limpidamente a agua escurecida pelo monte, até aos pedregulhos do fundo, onde a isca de trapo procurava o polvo. Passavam pequenas sombras fugidias, sumia-se uma lagosta n'uma fenda, vibrava uma moreia coleante, relampejavam cardumes de sardinha, corriam laivos azues e vermelhos de peixes-reis e bode?es. Acudiam engodados, vinham em cardume á ?aga de um barco que recolhia, andavam á babugem dos navios arrastada pelo mar para o recanto da angra.
á picada no anzol correspondia a saccada lesta do cani?o; saltava um peixe, debatendo-se, enrolando-se na linha; estrangulava-o o pescador adentanhando a guelra; lan?ava-o ao cesto, onde a frescura dos mais emprestava um resto de vida ao estrebuchar da sua agonia.
Mas o ca??o voltava para o mar degolado, com um escarro de desprezo no bico; e seguia-o o sargo, repugnado por sugar os olhos d'afogados.
Subiu a Rocha até ao Relv?o.
Ouvia o batucar dos cutellos picando o engodo no castello de pr?a dos barcos de pesca apoitados ao longe; sentia guinchar o cabrestante a bordo da fragata, alando os ferros.
Abrigado do sol contra a muralha do castello de S. Jo?o Baptista, encostado ao granito, as pernas estendidas na relva, viu-a largar os pannos mal rizados, afastar-se em bordos, a montar os Ilheus, em rumo da ilha de S. Miguel, e quando ella se sumiu de todo sentiu-se como protegido pela poderosa fortaleza que a obrigára a retirar, por esse castello que f?ra o symbolo da oppress?o hespanhola e se tornára a unica esperan?a da liberdade portuguesa!
Com alegre surpreza das tias, Jo?o entrou á hora do jantar, ao meio dia em ponto; mas em breve lhes tirou toda a illus?o de que n?o o interessassem os acontecimentos cujo echo já chegava á Pereira.
Comeu á pressa, foi aperaltar-se para vêr Maria, e saiu logo, de chapeo alto de aba direita, casaca de briche nacional c?r de castanha de quatro bot?es nas abas, collete de grande gola, alta gravata em volta ao collarinho, cal?a branca e botas altas de canh?o amarello.
Merendaria na quinta, n?o contassem com elle.
E d'ahi a pouco estava na botica, sabendo os ultimos boatos, occultando-se da Joaquinina do ó e de outras beatas bisbilhoteiras, que rondavam o Juvencio, embiocadas no manto negro dos pés á cabe?a, saia de merino preto, o capuz envolvendo-as do taboleiro de cart?o até á cintura, onde passava pregueando-se, estreitamente cingido; os bra?os apanhando os extremos do involucro e rebu?ando-o na frente, por fórma a só ficar aberto um pequeno oculo, no extremo do canudo de cart?o, que se movia como um bico de passaro, apontando-se sinistramente no faro da curiosidade, permittindo-lhes verem sem serem vistas, para irem delatar no confessionario.
D'ahi a pouco caminhava pelo campo, ao longo de muros de pedra solta, evitando a poeirada, contrariando n'uma marcha de automato o seu incorrigivel acanhamento.
Lembrava saudoso a infancia em que, fugindo á escola de primeiras lettras, saltava paredes á cata de ninhos, de gafanhotos, de cigarras; revolvia os restolhos á procura de grillos, que levava no len?o para casa, para os ter a cantar dentro de um copo.
Puzera termo a essas esturdias a preoccupa??o absorvente de Maria.
Ao principio, quando de tarde ia trabalhar na escripta, por ter presa a manhan pelos estudos, lamentava essa pris?o, impedido de retoi?ar no areal, deitar-se á agua, nadar, apanhar conchas, enxugar-se rebolando na areia quente, e ir depois, noite fechada, para a praia das mulheres, no recanto do Castellinho, vel-as metterem-se na agua aos gritinhos, compondo as saias enfunadas pelo mar.
Despertára-lhe novas impress?es a intimidade de Maria, e os passeios com ella sob as arvores substituiram d'ahi em diante todos os entretimentos de rapaz.
Escutava-a encantado, admirava-lhe os movimentos, esquecia-se a contemplal-a e, quando retirava ao p?r do sol, voltava-se para traz a vêr se ainda a descobria.
Ia já perto da quinta, mas sempre na mesma indecis?o, ora desejando n?o chegar nunca, ora querendo precipitar o termo da anciedade que o torturava.
Avistou por fim a vivenda dos Folhadaes, os altos telhados em pyramide, a fachada ennegrecida pelo tempo, as janellas com grades de convento, o escudo de armas por cima do grande port?o de carro, o extenso muro torreádo por mirantes e caramanch?es.
Entrou pelo postigo aberto no grande port?o de cedro, pesado de trancas e tranquetas, ferrolhos, corredi?as e argol?es, e o cora??o batia-lhe descompassado.
Saccudiu o pó na banqueta de pedra, de onde subiam as senhoras para as andilhas, e trepou a escada exterior, que come?ava na parede do fundo e cortava em angulo para a da esquerda, receiando uma vertigem, sentindo fugir-lhe a luz dos olhos.
Sentou-se no poial do alpendre, a descan?ar um momento, a dominar o tremor nervoso, e descobriu Maria ao fim da cerca, com a prima D. Josepha da Esperan?a e o primo Jorge.
Inclinou-se, descobriu-se, ella correspondeu n'uma venia exagerada, curvando-se muito, no que foi imitada pelos primos, e depois arrancando o chapeu de palha, rustico, de grandes abas, enfeitado de espigas, papoilas e malmequeres colhidos pela quinta, imitou-o cumprimentando como um homem.
Repetiram as raparigas as zumbaias, e o primo deitava-lhes as tran?as para a frente, ao que, irritadas, respondiam com palmadas e belisc?es.
E quando a creada, de dentro da casa, o convidou a entrar, elle tornou a saudal-as, e as raparigas responderam rindo ás gargalhadas, fazendo-lhe figas.
Transpoz humilhado a porta de imponentes almofadas; nunca lhe parecera t?o triste o casar?o onde passava horas enfadonhas, junto de um frade tresandando a vinho.
Sabendo os cantos á casa ia encafuar-se no escriptorio, quando a creada lhe disse que o senhor ainda estava á meza, e o guiou á casa de jantar.
-Entra, entra, pequeno-convidou em voz entaramelada o morgado-tu és como se fosses da familia, aqui como o mestre Jacintho, por parte de teu av?. Aquillo é que era um homem, o capit?o Silveira! Gente de outro tempo! Hoje só ha fedelhos como tu.
Ergueu pesadamente o corpanzil obeso, cambaleando nas grossas pernas a estoirarem os cal??es de ganga amarella, copiados de D. Jo?o VI, que usava com meia branca e sapatos de fivella de prata.
Já pelos bofes da camisa, pelo collete e pela casaca, nodoas de vinho affirmavam o abuso da bebida, e a m?o tremula derramou-lhe o copo, que empunhava de pé, virado para Jo?o.
-á tua, em memoria de teu av?!
Bebeu e tornou a sentar-se, pesadamente, apoiando-se á borda da meza e á grande cadeira de bra?os, de coiro negro e pregaria amarella, em que presidia á cabeceira, na velha tradi??o senhorial.
-Grande homem que elle era!-apoiou mestre Jacintho-sem desfazer em quem está presente.
Endireitou o corpo alquebrado, illuminou-se-lhe o olhar, e o velho soldado denunciou-se no cabello á escovinha, na colleira de coiro negro que no pesco?o escanzelado saia da camisola de linho de pastor, na marca das bexigas que lhe favava a cara encorreada, como passada ao lustre das mochilas.
Tomou com toda a confian?a um copo, bebeu e, sempre de pé, disciplinado até a escravid?o, voltou-se para Martinho Vasques:
-O que nós fizemos n'aquelle Russill?o!
Attingia a phase piegas a embriaguez do morgado, tremia-lhe o bei?o inferior, descahido e inchado, tornavam-se-lhe muito pequeninos os olhos duros, de um azul frio, raiados de vermelho, e o nariz destacava-se-lhe rubro, da c?r de telha do rosto apopletico, onde as sobrancelhas asperas, espessas, unindo-se carrancudas, os longos pellos das ventas e dos ouvidos, punham em occasi?es normaes a marca da rudeza, da selvageria.
-Se n?o fosse teu av? n?o estava eu aqui! Se n?o me tivesse deitado a m?o quando eu caí ferido na retirada da Montanha Negra! Devo-lhe a vida a elle e a este velho!
Mas a lingua emperrava-se-lhe, a sensibilidade engasgava-o de todo.
Ancioso sempre de contar fa?anhas, no orgulho profissional, o ex-soldado do Roussillon ergueu as m?os á altura dos ouvidos, como a pedir que o escutassem, e come?ou n'um bom ar de velhinho, tremendo-lhe o bigode branco em escova:
-Quando aquelles malditos franceses caíram sobre nós, eu, mais o meu capit?o e mais vossa excellencia, senhor morgado, fomos para cima d'elles como le?es, e eram cutilladas de alto a baixo, golpes de rachar de meio a meio...
Ganhava-o pouco a pouco a furia de assassino profissional: passavam-lhe no olhar relampagos sinistros; arrega?avam-se-lhe os bei?os, mostrando os dentes p?dres ainda promptos a morder; crispava-se-lhe a m?o esquerda em fórma de garra, o pollegar muito desenvolvido, erguido acima dos outros dedos, na amea?a de premir a guela do inimigo; e na m?o direita brilhava-lhe uma faca de meza, brandida com fur?r, como nos assaltos á arma branca, em que, com as m?os a escorrer em sangue, degolava soldados agarrados ás pe?as, apertados uns contra os outros, sem espa?o para se defenderem no recanto de uma trincheira. Tinham ás vezes que abrir-lhe a m?o á for?a para lhe tirarem a pod?a de jardineiro, a que se soldavam os dedos quando brigava com os cavadores, e renovava-se a li??o do mal; ou quando o vinho lhe obliterava a consciencia de homem grato, generoso, humilde até á servid?o.
Sobresaltado frei Angelico na languidez da digest?o, arrotando empanturrado, flatulento, ergueu-se, arredou o habito pardo de franciscano n'um meneio feminil, adquirido em menino do c?ro; o que ainda parecia, apezar dos quarenta annos, pelo effeminado dos ademanes de aprendiz de clerigo, pelo tom rosado da face gorda e oleosa, a que a larga tonsura dava uma frescura de novo; e desapertando o cord?o de nós, clamou na voz de canna rachada, em que outr'ora cantava de falsete, limpando o suor ao len?o de Alcoba?a sujo de rapé:
-Veja e aprenda, Jo?osinho, como se pratíca a verdadeira egualdade, n?o a d'esses malditos clubs, mas a que é agradavel ao ceu! Aprenda, que está em edade. N'esta velha casa fidalga fraternisam, libando o vinho de Deus, dando gra?as ao Altissimo pelas suas obras, a nobreza representada no excellentissimo senhor Martinho Vasques de Linhares Soeiro, morgado dos Folhadaes, o clero n'este humilde servo do Senhor, e o povo n'esse vill?o, esse ninguem, esse bicho da terra, esse pó da estrada!-e apontava mestre Jacintho.-Exemplos d'estes, só na educa??o religiosa se encontram. E para isto n?o é preciso ser jacobino, nem republicano, nem pedreiro livre, nem cuspir na hostia consagrada!
Benzeu-se horrorisado e, sem transi??o, desceu do tom de prégador:
-Mas o Jo?osinho n?o bebeu nada. Vá lá. Um só n?o faz mal.
Encheu-lhe um copo, derramando vinho pela toalha, e deitou outro para si.
-Beba á saude do senhor morgado, e vamos para o terra?o, que se abafa de cal?r.
Habituado áquellas scenas, bebeu satisfeito Jo?o. Talvez lhe désse o vinho o animo preciso.
Saíram, o morgado á frente, equilibrando-se ao bord?o de marmeleiro polido, no apparato de uma vara de juiz, em gravidade processional; depois o frade, arrastando as sandalias, conchegando a proeminente barriga, levando no rega?o o cord?o e o rosario, que desapertara; Jo?o pisando respeitoso, ao de leve; e por fim o mestre Jacintho, muito curvado, rindo e falando comsigo mesmo.
Assentaram-se a nobreza e o clero na banqueta de azulejo, que corria ao longo da empêna da casa, no terra?o voltado para S. Matheus. Sentou-se Jo?o sem esperar convite, por direito proprio, considerando-se tanto ou quanto nobre, pelos fóros de fidalguia da espada do av?; e n'essa decis?o já reconhecia o effeito do vinho fazendo-lhe perder a usual timidez, e já acariciava a proxima entrevista com Maria. Disciplinado como soldado, e t?o firme quanto lhe era possivel, conservava-se mestre Jacintho de pé ante os seus superiores hierarchicos, chalaceando, contando historias de caserna, as m?os perto dos ouvidos, o rosto expandindo-se n'um sorriso de bom velhote.
Depois saíu Martinho Vasques com o jardineiro, a vêrem os trabalhos da quinta, e frei Angelico e Jo?o foram para o escriptorio.
Dobrado para a meza de saia de baeta vermelha, limpando no cabello a penna de pato, olhava a furto, pela janella fronteira, a varanda de pedra do fundo da quinta, onde passeavam á sombra da parreira, Maria, a prima que ia jantar com ella e passar a tarde, e Jorge da Feteira, namorado de D. Josepha da Esperan?a, que apparecia para a merenda.
Tinha ciumes do fidalgote que levava a confian?a de primo a beijar Maria á entrada e á saída, e invejava-lhe a liberdade em que andava com as duas raparigas ao fresco da tarde, pela recatada vastid?o do pomar.
Afastavam-se, mas elle espionava o quadro recortado pela janella na parede nua, e tornava a vêl-os notando a impaciencia com que o observavam.
Orgulhava-o esse interesse. Sabia que o estimavam, que o esperavam para a merenda, mas n?o deixava de reconhecer, por parte dos primos reunidos para falarem, o motivo d'essa espectativa, poderem afastar-se deixando Maria entretida com elle.
Deitado em cima da papeleira encetára o frade diversas folhas de papel, mas a penna de pato, rangendo muito, fazia-lhe uma lettra incerta, incomprehensivel, e a m?o tremula deixava cair borr?es que impossibilitavam a continua??o. Deitava-lhe areia, encanudava a folha e despejava-a no recipiente de chumbo, mas os pingos de tinta lá ficavam. E na ataranta??o de poupar meia folha de garatujas despejou-lhe por cima o proprio tinteiro, borrando o len?o, as m?os, todos os papeis do al?ap?o.
Rendeu-se ent?o á evidencia, reconheceu-se incapaz de escrever, e lan?ando-se para o hirto canapé de palhinha, tomou rascunhos de cartas e poz-se a ditar a Jo?o.
Entretido com a janella, elle escrevia machinalmente, repetia distrahido, errando o ditado; e fr. Angelico, sentindo a cabe?a pesada, crendo seu o engano, envergonhou-se do rapaz e deu por findo esse t?o pouco proveitoso trabalho.
Ia emfim desabafar!
Mas o acanhamento assaltava-o de novo, e ainda pensava adiar para mais tarde essa urgente expans?o.
Desceu ao pateo de entrada, abriu a cancella que dava para as trazeiras da casa, onde as gallinhas debicavam montes de estrume, e os filhos do quinteiro pulavam nos picos de matto ro?ado para o lume; passou por entre os chiqueiros, atravessou o jardim, rodeiou o repucho, contornou os taboleiros de onde vinha o cheiro penetrante dos cravos; e ao fim das ruas de buxo, abriu outro portal, e internou-se na quinta, por debaixo da latada que em pilares de pedra a dividia ao meio, deixava dois grandes rectangulos destinados a alfobres e á horta, e continuava contra os altos muros negros de pedra solta ensombrando os passeios lateraes.
Reuniam-se todas as tardes no pomar, ao fim das larangeiras, das nespereiras, por baixo das quaes nascia silvestre a hortense, e conversavam até ao escurecer.
Só encontrou D. Josepha da Esperan?a e Jorge da Feteira sentados muito juntos, de m?os dadas, indolentemente reclinados no grande banco de pedra, com recosto de azulejos onde ca?adores, de chapeo tricorne, perseguiam lebres, acompanhados de c?es, quasi de pé como pessoas.
A falta d'ella permittiu-lhe serenar, confirmar-se no proposito de dizer-lhe tudo, de sair por uma vez do equivoco em que vivia.
N'uma aspereza que a tornava mais apetecivel, entrou Maria, saltando irrequieta, o chapeo deliciosamente deitado para os olhos, n'um simples vestido vermelho inteiro, de cintura alta, o collo a descoberto, de tres folhos na saia um tanto curta, deixando vêr o sapato branco, atado por fitas brancas, sobre a meia branca, no tornozêlo.
A sua simplicidade contrastava com o requinte de secia de Josepha, a opulenta juventude trasbordando de um rico vestido verde, de cinco folhos, com capoteira de renda em bicos, sapatos de duraque preto, cabello penteado atraz em cuia, apartado ao meio na frente, grandes tufos nas fontes, um fio de perolas na testa, desvelos de toucador destinados ao primo Jorge, que por sua parte caprichava em vestir grosseiramente á D. Miguel, jaqueta de alamares, cinta, cal??o, botas de prateleira, bóné azul, cabello puchado para as fontes, cara rapada, porque o bigode denotava á legua constitucional.
Andava pela edade de Jo?o, mas parecia mais nova. As doen?as da meninice, as convuls?es com que a dotára o alcoolismo paterno, as impurezas do sangue azul dos casamentos consanguineos tinham-lhe dado a fragilidade ainda transparente na pallidez, nas fundas olheiras, no descorado dos labios. Por volta dos onze reagira, ganhára for?as, mercê do longo tratamento com que o pae gastára muito, na teima de assegurar emfim um herdeiro á casa, depois de tantos morgados e morgadas, cheios de pustulasinhas, mortos no ber?o.
Eram d'elle os olhos azues, desmaiados, o cabello castanho, e a express?o de aspereza que as sobrancelhas, contrahindo-se, ás vezes denotavam. Mas na boca pairava-lhe a terna brandura com que a m?e outrora se resignava aos beijos roubados por infindaveis legi?es de primos.
Afogueada pela pressa com que viera, Maria falou a Jo?o, e sentaram-se todos, encruzados, na relva, a comerem ma??s e marmelos assados no forno, trespassados de assucar, que ella trouxera no rega?o.
Falou-se da imprevista partida do navio, dos actos do governo da ilha, dando elle noticias com simulada indifferen?a.
Finda a merenda foram beber agua á pequena cascata do recanto da quinta onde se abrigavam a estufa de ananazes, e as largas folhas das bananeiras; amadureciam maracujás do tamanho de ovos c?r de chocolate; desenrolavam-se fetos de entre as pedras negras e vermelhas, fundidas pela lava em filigranas, em lagrimas; abriam em guarda sol as largas folhas ovaes do inhame por cima da valla onde escoava o regueiro, empo?ado em nodoas de agri?o.
Satisfeita a gulodice, que já lhe amea?ava de pontos negros os dentes miudos e mal implantados, Maria lan?ou-se para a rêde, que pendia indolente da ramada dos castanheiros, e juntando as m?os sob a cabe?a, fez d'ellas e dos bra?os, a sairem nús da manga arrega?ada, o travesseiro em que se reclinou indolente, cerrando os olhos, sorrindo a Jo?o.
Elle puchou uma cadeira de vimes e poz-se a baloi?al-a brandamente.
Ganhava-os o od?r estonteante das magnolias, o morno perfume adocicado recendente da estufa.
De m?os dadas afastavam-se pouco a pouco, os primos namorados até, como de costume, desapparecerem de todo.
Correspondia Jo?o ao infantil sorriso de Maria, e ha dois annos que n?o passavam d'ahi.
Estiveram muito tempo sem falar, no prazer mudo de se contemplarem, até que Jo?o estremeceu á ideia de a perder.
-Teve noticias do primo?-perguntou-lhe de repente, indo direito ao assumpto, sem prepara??o.
Ella respondeu indifferente, transportada no brando oscillar da rede:
-Sim. Está bem.
Apparentou desinteresse, mas insistiu:
-Sempre casam?
N'um movimento de contrariedade, que o animou a ir mais longe, disse Maria:
-Bem sabe que sim.
Ficaria outra vez interrompida a conversa??o, se elle, animado pelo que crêra adivinhar, n?o se arriscasse mais:
-E gosta?
-De quê?
-De casar.
N'um visivel enfado murmurou:
-Sei lá!
Muito nervoso, repetiu:
-Quero dizer se gosta de casar com elle.
Tirou-se da rede que, preoccupado, Jo?o deixára parar e n'um encolher de hombros:
-Se nunca o vi.
Foi lan?ar-se descontente no banco de pedra, a fronte ensombrada, no gesto do pae.
Ficou Jo?o um momento indeciso, e depois approximou-se vagaroso, offendido:
-Vejo que n?o é minha amiga.
-Porquê?
-Fala-me com mau modo...
-Eu?
-Com frieza, com indifferen?a...
-Para o que te havia de dar hoje!
E como elle se sentasse, succumbido, soltou uma risada, n'um impeto de volubilidade, e beliscou-o, no seu agreste feitio infantil.
-Isto ent?o é mau modo?
Ergueu-se elle corando, e supplicou:
-Por amor de Deus n?o brinque commigo!
-Estás amuado?
-Pelo menos agora n?o graceje, e diga-me só: Gostava de ir para Lisboa?
Abrangeu n'um olhar a casa, o campo, a vida que levava enclausurada, e respondeu:
-Isso gostava.
Retorquiu Jo?o em voz estrangulada:
-N?o se importava ent?o de me deixar?
Irritada pelo interrogatorio, Maria exclamou, sem o fitar:
-Que pergunta essa!
Elle approximou-se, muito commovido:
-Era uma separa??o para sempre! para sempre!
-Sim, talvez!
E d'olhos no ch?o encarava agora as consequencias.
Vendo-a impressionada, Jo?o aqueceu:
-E n?o levava pena nenhuma?
N'um repente de sinceridade, Maria accudiu ingenuamente:
-De me separar de ti, sim.
-Mas n?o tinha ainda pensado em mim!-queixou-se elle, muito sentido.
-Realmente ainda n?o pensára.
Come?ava a sentir-se compromettida, olhava em torno a procurar os primos.
Jo?o deixara-se arrastar pela arrebatadora emo??o d'esse momento tanta vez sonhado, e tanta vez crido impossivel:
-é porque nunca me quiz bem!
Ella via embaciarem-se-lhe os olhos, tremerem-lhe os labios.
Desculpou-se para n?o o affligir mais:
-Como querias que pensasse em ti, se isto tem sido uma coisa no ar?
-Mas est?o preparados para o embarque...
-é certo que o pae anda com isso ha muito. Mas elle faz e diz tantas coisas sem fundamento, que eu nunca o tive por decidido.
-Nem mesmo o casamento?
-N?o pensei a serio em coisa alguma.
E n'um arremesso de crean?a que os mimos tornaram voluntariosa:
-Mesmo isso do casamento com o primo ha de ser se me agradar.
Jo?o estremeceu, desiludido:
-Ah! Ent?o ainda é possivel?
-Só Deus o sabe. Mas se n?o sympathisar com elle, n?o ha for?as humanas que me obriguem.
-Quer dizer que ainda póde vir a agradar-se?
-Quem sabe!
Cria-o ent?o possivel? é que nunca sentira por elle nenhuma affei??o? E a custo Jo?o comprimiu um solu?o, que n?o lhe passou despercebido.
-Que tens tu?
Bailando-lhe lagrimas nas pestanas, desabafou:
-Ando como um doido! Perco as noites a pensar que n?o nos tornamos mais a vêr. Toda a minha vida hei de chorar esta casa...
-Coitado! Faz-te falta o que o pae te dá a ganhar.
Magoou-o a aprecia??o. Pois n?o presentia n'elle outro sentimento? N?o interpretára nunca o verdadeiro culto que lhe votava, olhando-a absorto, como ás imagens.
Pensou ainda em manter-se incomprehendido, em calar essa revela??o. Vinha muito tarde! N?o o comprehendera em dois annos de intimidade, n?o ia agora corresponder-lhe de repente. Mas revoltou-o vêr accentuada a situa??o de dependente.
-N?o ia ali por interesse-protestou.-Os seus deixaram-lhe alguma coisa. Tinha com quê. Era só por ella, para estar ao seu lado, que acceitava o sacrificio do escriptorio.
Impressionou-a a paix?o com que falava.
Ainda em tom de gracejo, mas com a voz um tanto abafada, disse sem o fitar:
-Querem ver que te deu para me namorares?
Ficou olhando para a areia vermelha. E como elle permanecesse calado, insistiu, evitando-o sempre:
-N?o respondes?
-Fica zangada commigo?-perguntou a medo.
-N?o.
-Isso é que fica.
Ella virou-se de repente, e fitou-o com franqueza:
-Zangada porquê?
Intimidou-o essa express?o, que n?o comprehendia; mas era tarde para recuar. Muito envergonhado, rendeu-se:
-Pois é verdade.
Maria ergueu-se n'um riso for?ado:
-Tu, namorado de mim? Tu, meu fedelho! Ora! N?o sabes o que dizes.
Ia afastar-se, mas Jo?o supplicou:
-Já que me n?o ama, diga ao menos que me perd?a!
-Tens medo? Descan?a, n?o fa?o queixa ao pae?
-N?o se ria de mim, quero-lhe muito, muito!-solu?ou elle.-E quando soube que a pretendiam casar em Lisboa, chorei de desespero, porque me costumára a pensar que havia de ser minha mulher.
Ella encarou-o, franzindo as sobrancelhas, como irritada pelo atrevimento do plebeu, do insignificante, irrespeitoso para com o idolo que para todos julgava ser.
-Estás brincando! é lá possivel!
Elle enxugou as lagrimas, conteve se:
-Sinto-o agora, pelo desdem com que me trata.
-é uma creancice.
-Sim. Mas que me perdeu para sempre.
Irritada procurou convencel-o:
-Pois tu n?o vês que o pae nem quer que eu fale com o primo Antonio, nem com o primo Sebasti?o desde que se lhes metteu em cabe?a pretenderem-me, porque s?o pobres? E que és tu ao pé d'elles, quasi t?o fidalgos como nós? O que diria o pae se soubesse d'isto!
-E a menina que diz?
-Que digo? N?o me estás ouvindo?
-Se me estima.
-Bem sabes que sim.
-Muito?
-Vê lá se me entretenho com mais alguem do que comtigo e com a prima Josepha da Esperan?a.
-E agora, depois do que lhe disse?
Animava-se momentaneamente, olhava-a transportado, n'um lampejo de esperan?a.
Ella sorriu, bondosa, infantil:
-Já me viste por ventura algum namorado? Todas as raparigas os têm, aos dois e aos tres, e eu nunca achei gra?a a essas tolices. S?o brincadeiras estupidas. Mas se gostasse de um homem, muito cá de dentro...
Transfigurou-se, dominou-a uma express?o de alegria, mas conteve-se e exclamou abruptamente:
-Olha, falemos de outra coisa.
Comprehendeu que era preciso acabar:
-Vejo que n?o quer saber de mim.
-és doido. Ent?o n?o temos sido t?o amigos?
-Oh! Como eu esperava ... n?o!
-Sabes que mais? és um doido, é o que te digo!
E afastou-se com mau modo.
-Um momento, senhora D. Maria, esque?a esta falta de respeito, antes que me retire para nunca mais voltar.
-O quê? N?o estás bom de cabe?a rapaz. Ent?o é que o pae desconfia. E o que serás tu nas suas m?os, meu franganito!
-Virei despedir-me com qualquer pretexto ... e nunca mais me tornará a vêr!
Ia seguindo Maria, que se esquivava a novas lagrimas, procurando os primos, aninhados n'algum caramanch?o.
Ao descobrirem-os, disse Jo?o precipitadamente:
-Obrigado pela feliz illus?o em que tanto tempo me manteve, e adeus para sempre!
-Vae com Deus-redarguiu ella, muito saccudida-e pede a Santa Catharina que te dê juizo.
Despediu-se Jo?o cerimoniosamente de Jorge da Feteira, de D. Josepha, e retirou-se corrido.
N?o se atreveu a sair pela porta principal, á vista de todos.
Atravessou o cannavial, passou ás terras lavradias, saíu pelo port?o de ferro que abria para o cerrado, e seguiu ao longo do muro da quinta, encoberto pelas faias e cani?ados.
Ao passar debaixo do mirante onde a deixara, surprehendeu peda?os de conversa??o a seu respeito.
Josepha da Esperan?a reprehendia a prima:
-N?o o devias ter deixado tomar tanta confian?a, desde que n?o o querias. Vocês pareciam mesmo dois namorados, e sempre os tive por isso. Andastes muito mal.
Indignou-se Maria:
-E tu, e as outras? Vocês teem licen?a para tudo? E se me desse para o namorar? Que tens que vêr com isso? Olha, talvez venha a gostar do entretenimento.
-Com este?
-Com este ou com outro. Parece que é tudo o mesmo, á maneira como vejo variar.
-Isso é commigo, prima?
-é com todas.
-Deu-lhe volta ao miolo! Pois veja se tem mais juizo.
-Olhe, prima, n?o a chamei para mestra, e n?o me venha dar li??es sem que a tome ao meu servi?o.
Voltou-lhe as costas e afastou-se.
Josepha da Esperan?a amea?ou, despeitada:
-O que tu merecias era que eu fosse contar tudo ao tio.
-Pois experimenta, e verás que te pico os olhos com uma agulha.
Ao perceber o tom das referencias, Jo?o apressava o passo, corrido, humilhado, occultando se com os silvados, para que nunca mais o vissem.
Passára Jo?o interminaveis dias de angustia, e agora apenas ia á li??o de latim, ficando a estudar noite e dia para poder entrar mais depressa na universidade.
Manter-se-ia em Coimbra com a pequena legitima paterna que, para se formar, conservava intacta, sustentado pelas tias, a quem auxiliava com os ganhos de escrevente.
Para supprir as quatro patacas pedira ao Juvencio, e ao doutor Ferraz, que o apreciava das conversas politicas da botica, alguns trabalhos de expediente da junta provisoria, que podesse fazer de tarde e á noite.
Mas a subitas abandonava o buffete, chegava á janella, e sentava-se a contemplar a quinta dos Folhadaes, evocando a derradeira visita.
Resentia-se da frieza de Maria, do desdem transparente nas censuras de D. Josepha da Esperan?a, do olhar sobranceiro de Jorge da Feteira ao corresponder friamente ao seu cumprimento.
E avaliava que tal devia ser o primo de Lisboa a quem a destinavam, por esse arrogante analphabeto, cheirando a estrebaria, orgulhoso de pegar toiros á unha á saída do curro, de picar a pé á vara larga, de farpear de dentro do caix?o a meio da pra?a, falando com desprezo da liberdade que n?o comprehendia, odiando a letra redonda que nem soletrava, copiando D. Miguel por fóra e por dentro, dizendo-se, por bravata, capaz de defender de armas na m?o o passado, que lhe dava direito de primasia sobre a parte intellectual da na??o.
Como f?ra ridiculo no seu acanhamento!
Porque n?o rompera n'um rasgo soberbo, lan?ando-lhes em rosto alguma dura phrase ouvida na botica, predizendo-lhes a aniquila??o fatal da fidalguia, despojada do direito de explorar o povo, annulada pelo plebeu trabalhador, instruido e saudavel, ella, a casta analphabeta, indolente, corroida no sangue por heran?as de miserias e de vicios?
Precisava desafrontar-se, lan?ar-lh'o em cara, citar-lhes os artigos da Carta que confirmavam a Constitui??o na extinc??o dos privilegios, no estabelecimento da egualdade.
Mas teria offendido gravemente Maria...
F?ra melhor assim!
Ella n?o podia pensar como o pae, como o primo.
Tratara-o sempre como um egual e, se manifestára aquella grande estranheza, f?ra decerto por ter ouvido de chofre o seu audacioso proposito, sem que uma gradual prepara??o a habilitasse a encarar aquelle amor como a natural consequencia da intimidade em que viviam.
Maria amava-o, sem duvida; e assim que lhe importariam os preconceitos?
Vibrava na revolta sentimental dos poetas que, em relampagos de genio, previam a declara??o da egualdade, queixando-se de que Deus fizesse deseguaes os homens, e lhes desse, impiedoso, olhos e sentidos para escolherem o melhor, e um cora??o para estalar de d?r; e se fosse poeta glosaria n'um sentimento vivido, para os enviar a Maria como um formidavel protesto, os versos de Gil Vicente:
?Que el amor que aqui me trajo
Aunque yo fuese villano,
El no lo es.?
Já n?o havia porém vill?es e fidalgos; perante a lei eram todos cidad?os!
Maria agora sabia tudo e, n'esses longos dias em que se n?o viam, tinha tempo de meditar.
Julgal-o-ia no seu intimo, evocaria, talvez saudosamente, a jovialidade d'essas tardes!
Que pensaria o fidalgo em n?o o vendo?
Era for?oso ir lá dar-lhe qualquer desculpa. N?o podia desapparecer como um criminoso.
Precisava mesmo mostrar-lhe, e a todos, que n?o tinha medo.
N'esse dia despedir-se-hia d'ella cerimoniosamente.
Já n?o era dependente e, se o acolhesse, tratar-se-iam de egual para egual.
Voltaria como visita, ou falar-lhe-ia da canada, e havia de inspirar-lhe confian?a, fazendo-lhe vêr como as medidas liberaes, extinguindo distinc??es, lhe permittiam elevar-se até aspirar á sua m?o.
E assim caía de novo na preoccupa??o politica, sentindo ainda mal seguro esse estado de coisas que provocava um desdenhoso riso a Martinho Vasques, e avinhados raptos oratorios ao frade.
Como sempre que o intimidavam a tranquilla seguran?a dos adversarios, as más noticias que por toda a parte espalhavam, decidiu ir á botica avigorar a fé na convic??o enthusiastica do velho clubista.
F?ra t?o forte o abalo soffrido que adiou de dia para dia a visita ao Juvencio e, sem saír mais que para a aula do padre Jeronymo, continuou agarrado aos livros, vendo n'elles, no curso para que o preparavam, a sua melhor desforra.
Alarmou-o uma manh? o boato trazido de fóra pela creada, quando estavam almo?ando, de que se ia embora o batalh?o, e voltava a ilha á obediencia do senhor D. Miguel. A junta reunia gente armada para impedir o embarque, mas todos diziam que os ca?adores eram levados do demonio, e nenhum caso fariam da paisanada.
N?o poude encobrir o desgosto, mas n?o respondeu ás tias, n?o lhes contestou os commentarios.
D'ahi a pouco saía, muito enfiado, disposto a tudo.
-Que ha de novo, senhor Fulgencio?
Veiu do interior da loja o boticario, um velho alto, secco, ainda robusto, só divergindo dos constitucionaes na cara rapada, olhar inquieto, ardente, bocca energicamente accentuada, express?o decidida, barretinho de clerigo tapando-lhe a calva, muito correcto n'um velho traje de gala, repassado aqui e ali, casaca de seda preta, cal??o e meia, chinelos em vez dos sapatos de fivela, por causa dos callos.
Aproximou-se n'um ar mysterioso, occultando-se das beatas que iam vigial-o de manto, e disse-lhe baixinho:
-Está reunido o conselho militar. A coisa n?o ha de ir assim, estejam descan?ados.
E retirou-se, muito activo, n'um passo miudo.
Seguiu-o Jo?o, angustiado.
-Vieram más novas?
Voltou Fulgencio a falar-lhe entre portas:
-N?o vieram das melhores, n?o. Olha, ahi tens gazetas fresquinhas, chegadas hontem, n'um navio da laranja. Vae-te entretendo, emquanto eu avio a gente do monte, para ficar com as m?os livres, se tivermos dan?a.
Era domingo e, conforme o uso, viera ás compras muito povo do campo. Estava a botica cheia de caba?as, de alforges, de sacos de estopa. Em cima de mezas alinhavam-se tijelas onde Fulgencio, de espatula em punho, ia despejando boi?es de unguento.
Devorava Jo?o as pequenas folhas, de um palmo de largo, por palmo e ter?a de alto, a duas columnas, encimada pela cor?a portugueza, entre Gazeta e de Lisboa, do titulo.
Vinham cheias de sauda??es a D. Miguel pela ?exalta??o ao throno dos seus maiores?; da lista dos ?donativos voluntarios?, extorquidos pela policia e pelos caceteiros sob a amea?a da denuncia por liberal; de congratula??es officiaes pela victoria das tropas fieis contra as rebeldes.
Na ultima pagina do n.o 184, de 4 de agosto, figurava o annuncio do retrato de D. Miguel, em ponto grande; para medalha e caixa de rapé a 40 réis a duzia, em preto, a 240 illuminado; para medalhas mais pequenas respectivamente a 30 e 160 réis; para anneis e alfinetes a 20 e 120 réis.
Publicava a Gazeta n.o 182, de 2 de agosto, o ?Assento dos tres estados?, em que se declarava D. Miguel rei absoluto, absolvendo-o de haver jurado falso com essa interpreta??o do juramento, que Jo?o lia assombrado: ?irrito ou nullo quando cae sobre materia illicita, quando é extorquido pela violencia, quando da sua observancia resultaria necessariamente viola??o de direitos das pessoas e dos povos, e sobretudo a completa ruina da na??o.?
E os jornaes continuavam a bater a nota das felicita??es a D. Miguel e ás tropas.
Que significava aquillo?
N?o podia deprehendel-o das Gazetas, alheio como estava ha muitos dias ao movimento politico.
Mais aliviado de freguezes, veiu Fulgencio esclarecel-o:
-Sim, foi-se tudo por agua abaixo. Já o sabiamos desde o dia 5, mas a cara era a mesma, para que esses patifes dos miguelistas n?o se nos rissem nas barbas...
-E as noticias que o doutor Antonio da Silveira foi procurar ao Porto...
-Já nos deram a divis?o liberal em retirada para a Galliza ... mas nós: moita, carrasco!
-Pois n?o poderam manter-se todas essas tropas da junta do Porto?
-Perdeu-os a sua ingenuidade! Tu bem sabes que nós n?o queremos sangue, nem al?adas, nem persegui??es, nem confiscos. Paz e egualdade para todos! Eis como foram até cerca de Condeixa tres mil soldados liberaes, por assim dizer como chamariz a deser??es. Mandaram-se proclama??es para o campo inimigo, e ao alarme pela aproxima??o de uma for?a adversa romperam as bandas o hymno constitucional, para a arrastarem á adhes?o. Contava-se vencer sem disparar um tiro, sem derramar o sangue de irm?os!
-Como em Vinte!-exclamou Jo?o enthusiasmado.
-Eram os principios! Mas as for?as do Miguel, seis a oito mil homens, n?o quizeram ?abra?ar os irm?os d'armas?, e atacaram na Cruz dos Moroi?os, no momento em que todos os chefes, de major para cima, tinham ido assistir ao conselho militar em Coimbra. Foi a ?ac??o dos capit?es? e, como tal, as for?as sem commando que reunisse os seus esfor?os, defenderam com valentia as posi??es occupadas, mas n?o limparam de inimigos o caminho de Lisboa. Depois o nosso general Refoios, receando que Povoas passasse o Mondego, ordenou a retirada para o Porto.
-E ahi?
-N?o se poderam manter. Quando chegaram de Inglaterra os chefes emigrados já era tarde, e voltaram no mesmo vapor que os levára, emquanto a divis?o retirava para a Galliza.
-Que desgra?a!
-Ou antes, que inepcia. Essa fuga dos chefes no Belfast n?o me passa d'aqui!
E levou a m?o á garganta n'um gesto nervoso.
Sentiu Jo?o as lagrimas nos olhos, e fez exfor?os para n?o chorar.
Assim ruia n'um momento o futuro em que tanto confiára.
-Ent?o acabou-se tudo?-exclamou em voz estrangulada.
-Qual! Outros vir?o! Ha de estalar nova revolta, e o Miguel n?o levará a melhor! E agora que aprendemos á nossa custa, nada de hymnos nem de proclama??es. Ha de ser á má cara!
Dava grandes pernadas pela botica, olhando inquieto a pra?a, onde se juntava muito povo defronte da camara.
Continuou para Jo?o, que ficára aturdido:
-Assim o querem, assim o tenham! O exemplo do sangue veiu d'elles. Já come?ou a trabalhar a forca, mas os estudantes de Coimbra, longe de se intimidarem com o assassinio dos collegas condemnados pela morte dos lentes em Condeixa...
Olhou Jo?o fixamente, crendo que a sua pallidez provinha da referencia ao attentado e ás execu??es.
-Ouve lá. Tu que te fazes t?o liberal, se te coubesse em sorte executares um tyranno, um inimigo de liberdade...
-N?o me tremia a m?o, tenha a certeza!
E Jo?o ergueu-se, vibrando de enthusiasmo, na esperan?a de poder tomar parte na lucta contra a casta dominante cuja oppress?o tanto o magoára.
Parecia-lhe ha muito que o experimentavam os frequentadores da botica, e sentia-se attrahido pelo maravilhoso, pelo mysterio do subterraneo onde constava funccionar uma associa??o secreta.
Mostrava agora uma firmeza de homem feito, sentindo-se honrado por esse convite indirecto a entrar em ac??o.
Juvencio fitava n'elle o olhar prescrutador.
-Todos ser?o precisos!-disse-lhe por fim-e os rapazes mais do que os velhos. S?o vocês que teem a lucrar com a liberdade. Eu n?o chegarei a gosal-a em paz.
Commoveu-se n'uma saudade do periodo constitucional, das humanitarias illus?es em que tinham considerado a na??o livre e feliz para sempre.
Mas o gesto de amargura cedeu ante a impuls?o do inquebrantavel espirito de combatividade, e proseguiu:
-Como te ia dizendo, a estudantada n?o se intimidou, e adheriu á revolu??o, formando o batalh?o academico, que lá retirou com os emigrados.
Eram um novo contratempo para Jo?o as perturba??es da universidade.
E na obseca??o do projecto que por esses dias o absorvera, perguntou:
-Ent?o assim, talvez n?o possa matricular-me este anno?
Sorriu da ingenuidade o boticario.
-és um crean?ola! Pois n?o vês que n?o torna a haver paz sem que elles nos enforquem até ao ultimo, ou nós os desarmemos e ponhamos o Miguel pela barra fóra?
-N?o sou t?o inexperiente como julga. Mas pelo que vejo na Gazeta, D. Miguel foi proclamado rei, e tudo s?o felicita??es e offertas...
-Isso n?o quer dizer nada. é a gente d'elle, só a d'elle, porque os nossos est?o presos ou emigrados. Mas olha que os embaixadores cortaram todas as rela??es diplomaticas, em protesto contra a infamia dos juramentos falsos com que nos illudiu, com que enganou as na??es estrangeiras.
Puxou triunfante d'uma carta:
-Aqui sabe-se tudo, quer eles queiram quer n?o. Os tres estados, como tu já ahi lêstes, absolvem-o a seu modo, adoptando a moral jesuitica do juramento condiccional; mas ainda o desculpam de outra fórma, dizendo que elle, ante o parlamento, n?o jurou com a m?o nos evangelhos, mas em cima dos Burros d'esse bandalho do José Agostinho de Macedo. Tu sabes as minhas opini?es, para mim tanto vale um como o outro, é tudo palavreado de frades. O crime está na má fé de bandido com que abusou da confian?a attribuida á palavra de honra de qualquer homem de bem, quanto mais de um principe!
Jo?o indicou-lhe o artigo da Gazeta.
-Dizem que elle foi coagido a jurar.
-Patife! Estava coacto, sim, é a desculpa d'esses homens que para vergonha nossa ainda governam cidad?os livres como rebanhos de carneiros. Na Villafrancada e na Abrilada, D. Jo?o sexto e D. Miguel declararam-se mutuamente coactos e illudidos, para justificarem as trai??es e as perfidias em que se digladiava a real familia. A sua ?sciencia certa e o seu poder absoluto? guardam-os esses ungidos do Senhor para p?rem os gatafunhos nas medidas uteis dos seus ministros.
Amarrotou a Gazeta furioso, batendo com as costas da m?o no artigo dos ?tres estados?, emquanto passeiava, declamando:
-Isto que ele fez agora, deitar a m?o á cor?a, já o tentou por duas vezes em vida d'esse pobre diabo de D. Jo?o VI, combinado com a porca da m?e. Correu-lhe mal a coisa, teve que submetter-se na Villafrancada, e da Abrilada foi rebolindo de castigo para o extrangeiro. Da Austria, mal se viu livre do pae, escreveu ao senhor D. Pedro, reconhecendo-o e aceitando-o como herdeiro do throno portugues. Quando o grande rei liberal usou do poder para abdicar d'elle no povo, doando nos a Carta Constitucional, e para ceder a cor?a á nossa joven rainha D. Maria da Gloria, sob a condi??o de D. Miguel casar com ella e acatar a Carta, jurou-a solemnemente, e até enviou ao irm?o regente um manifesto negando a authoridade do seu nome a quem impugnasse o novo codigo da liberdade. Escreveu ao rei de Inglaterra garantindo-lhe o proposito de fazer respeitar as novas institui??es, mantendo por meio d'ellas a paz em Portugal. Ao chegar a Lisboa, em triumpho, entre meio de partidarios, sem que um só liberal se lhe podesse aproximar, ratificou, em grande ceremonial, os juramentos, e ainda cumpriu, a seu modo, a Carta, assignando decretos em que a applicava. E quando p?z o exercito da sua m?o, mudou a officialidade, augmentou a policia, quando se considerou absolutamente seguro, desmascarou-se, fez-se proclamar rei absoluto, inventou a quest?o da legitimidade, que nunca até hoje f?ra apresentada, e fez trabalhar o cacete e a f?rca.
-E está realmente acclamado rei em todo o reino, como diz a Gazeta?-perguntou Jo?o intimidado.
Mediu-o Juvencio de alto a baixo, e respondeu n'um aprumo soberbo:
-Mas n?o o está na ilha Terceira!
Elle retorquiu, receioso, mostrando o jornal:
-Fala-se aqui de uma expedi??o em que vem a nau D. Jo?o VI, e mais dez navios, contra a Madeira e as outras possess?es revoltadas...
-Bem sei. E já fizeram exercicio de desembarque diante do ?seu anjo?. Pois que venham cá, e ver?o a li??o que levam!
Deslumbrava-o o orgulho patriotico:
-Tinha melhores dentes o Demonio do Meio-Dia, e por duas vezes lhe corremos com a sorte. O que a nossa terra fez ent?o, póde repetil-o agora. Até os toiros dos nossos mattos se lhe deitaram na Salga, e Vadez fugiu, apezar dos seus dois mil soldados cobertos de ferro! Para se metterem cá tiveram os hespanhoes que mandar oitenta navios e dezaseis mil homens. Onde tem o Miguel gente para isso? Pois tomára eu que mandasse muita, para que, livres d'ella, o puzessem os liberaes mais rasos do que um chinelo.
Ardia Jo?o na impaciencia de saber toda a verdade:
-Por têr mêdo da esquadra o batalh?o quer saír, como corre?
-Com mêdo, dizes bem. Eis o que valem fanfarronadas de caserna! Lingua têm elles para se darem como autores de tudo, dadores da liberdade, mantenedores da independencia. Mas vê lá se alguem os viu quando entraram os francezes! Nem ra?a de um. Foram as guerrilhas, paisanada como eu e como tu, que lhes puzeram as uvas em pisa. E quando mataram o grande general Gomes Freire? Se foram elles proprios que o fuzilaram! Havia officiaes inglezes n'esse tempo, mas só meia duzia. A soldadesca e os agaloados eram todos de cá. Que prendas! Em Vinte sahiu tudo para a rua, que duvida, se a coisa n?o cheirava a esturro. Apenas vivas e palmas! Quando se conspirava contra a Constitui??o, ainda juraram defendel-a até á ultima gota do seu sangue. Mas assim que os franceses entraram por Hespanha, e o Miguel se levantou, puzeram-se no seguro, e trahiram todos os juramentos, choramingando que a liberdade era má porque lhes deixava os soldos em atrazo, quer dizer, porque n?o lhes dava em promo??es e augmentos de soldo tudo o que pagava o pobre povo. Lá conheceram para que serviam ao atrelarem-se ao carro de D. Jo?o VI, que puxaram como bêstas, organisando até a rela??o dos nomes, e disputando aos fidalgos a honra da preferencia!
-é ent?o certo que retira?
-O major José Quintino Dias apenou os navios da laranja para o levarem a Inglaterra, onde devem ir ter os emigrados. Queria embarcar hoje mesmo, 24 de agosto! Escolheu bem a data, n?o haja duvida, quando faz oito annos que rebentou a revolu??o constitucional no Porto!
Considerou tristemente:
-Oito annos! Como o tempo corre! E estamos peior do que ao come?o.
Nada porém abatia a sua fé inabalavel:
-Mas havemos de restaurar a liberdade, embora só vocês gosem d'ella!
Jo?o commentou ainda:
-Mas ca?adores cinco foi sempre um corpo liberal!
-Pois é isso mesmo o que mais me doe. O bravo cinco! Um batalh?o degredado para aqui pela sua firmeza, quando até o famoso dezoito de infanteria, unico que n?o f?ra á Villafrancada, se bandeou, depois de ter recebido, n'essa hora tragica, um exemplar da constitui??o confiado á sua guarda, e de ter jurado morrer pela liberdade! O cinco, o bravo cinco!
E reconsiderando:
-Mas ouve lá, rapaz, se em geral a tropa n?o merece confian?a, e só pensa no venha a nós, tem tido verdadeiros heroes liberaes, embora por excep??o! Esses que emigraram, sem acceitarem as concess?es do Miguel, s?o portugueses de antes quebrar que torcer! Bem viste como se portou o nosso ?cinco? em vinte e dois de junho. Agora é que lhe deu para desmanchar-se ... Ainda tenho para mim que ha de reconsiderar.
-Tambem creio que se n?o vae.
Juvencio exclamou exaltado:
-Lá isso é que n?o vae, podes ter a certeza! Ha de ficar, ao bem ou ao mal. N?o é só meterem-se nas coisas. Quem as arma que as desarme. Vae por ahi uma gritaria, um desespero que é de cortar o cora??o. Bem se sabe o que o Miguel fará se entrar aqui. S?o mortes, confiscos, donzellas violentadas, crean?as insultadas nos seus lindos olhos azues, a maldita c?r constitucional. A elles póde n?o importar isso, mas nós n?o queremos a desgra?a na nossa querida terra. Se teimarem em fugir, abandonando ao carrasco mulheres e crean?as, ensinar-lhe-emos á for?a o seu dever!
Como sempre, f?ra avassallado Jo?o pela fé do velho liberal:
-Sim! Sim! Diz muito bem.
E no rosto lia-se-lhe uma formal decis?o.
Agora Juvencio approximava-se, commovido, os olhos rasos de agua:
-Quando f?res pae, Jo?osinho, comprehenderás a minha d?r. Tenho aqui em cima tres filhas, e já um neto, cujos cabellos loiros s?o o meu encanto! A minha familia é a minha religi?o. Tudo quanto sou, me tornei por causa d'elles! A minha alegria é o reflexo da sua alegria, a minha vida é o trasbordar da sua vida, a mesma que em mim se definha e n'elles se perpetúa. A mulher é t?o velha como eu, mas ellas s?o novas e lindas. Queres saber o que os padres prégam do pulpito abaixo? Que é preciso matar as malhadas, as filhas de liberaes como as minhas, de preferencia as gravidas, porque as crean?as já trazem no ventre o ferrete da malhadice! A minha filha casada está para dar-me outro neto. Calcula agora as minhas queridas filhas, e os olhos azues do meu lindo neto, pasto de soldados e de frades! N?o! N?o ha de ser assim!
-Na nossa terra n?o entram esses barbaros!
Mais calmo, limpando as lagrimas, aliviado pelo desabafo, Juvencio continuou:
-é preciso que n?o entrem! Toda a esperan?a da liberdade portuguesa depende de nós. Se fossemos vencidos reinaria o Miguel por toda a parte. é o que agora dir?o no conselho ao major Quintino. O futuro de Portugal está-se jogando, n'este instante, ali! A ilha Terceira póde defender-se, e ha-de defender-se! é t?o bravia a costa do mar, que faz por si só uma muralha, e se n'ella nos vencerem, temos as do castello. A nossa terra é t?o insignificante, estará dizendo Quintino, que n'um dia se corre toda em volta a pé. Pois quanto mais pequena f?r, maior o exemplo! Ha-de acabar-se a dependencia. Tornaram isto um degredo, um escoadouro de tudo quanto tem de mau. Mandam para cá o refugo dos funccionarios, o que lhes n?o serve de nada. Pois se o mal vem de lá, ha-de ir-lhe de cá a li??o! Aqui foi o reino do Prior do Crato; aqui viveu ainda por dois annos o Portugal independente, vendido pela fidalguia ao rei de Hespanha; ha-de ser aqui o sacrario da liberdade, que depois reviverá em Portugal!
Observou a pra?a, e ficou descontente:
-Ein? Tudo na mesma. Mau signal. Já tiveram tempo de decidir qualquer coisa. Pois vamos até lá a vêr se espertam.
Desappareceu no interior da loja.
Estremecia Jo?o n'um fremito de independencia.
Sim, resistir aos de fóra, acabar com essa escravid?o, o navio cujas noticias o amea?avam, o primo do continente a quem estava destinada a mulher amada. Queria-a para si, e havia de defendel-a com o ardor com que Juvencio pretendia bater-se pela familia.
E assim como para o velho constitucional se identificavam os dois amores, tornando-se um a amplia??o do outro, sendo o lar o mais sentido representante do maior, assim Maria se lhe tornava o symbolo da sua terra, amea?ada pelos de longe, dominada, como parte da sua popula??o, pelo preconceito, pelo fanatismo.
Percorria-o um fremito de bravura, manifestava-se-lhe, ao influxo da occasi?o, a hereditariedade guerreira; e sentia-se prompto a combater por ella e pela liberdade, já sem o triste acanhamento em que se humilhára ante a frieza do seu olhar altivo, ante o desdem de um bo?al marialva.
Veiu de dentro Juvencio, de chapeu alto, vendo-se-lhe o barretinho por baixo, emquanto, de costas, pretendia fechar a porta interior; trazia o capote preso nos fechos de prata, e debaixo d'elle um volume que lhe tolhia os movimentos.
Voltou-se, sorriu ao encarar com Jo?o, e pediu-lhe que encostasse a porta da rua.
Desembara?ou-se, poz em cima da meza uma espingarda de pederneira e o cinto de cartuchos.
Fechou ent?o a porta, metteu a grande chave n'uma gaveta, foi depois verificar a escorva, e por fim desembainhando a espada posta á cinta, mostrou a Jo?o, que assistia n'uma impassivel gravidade de homem feito, a lamina onde se lia: ?Constitui??o ou Morte?.
Tivera-a muito bem escondida como uma reliquia, e nem as persegui??es do maldito Stokler lh'a poderam arrancar.
Cingiu o cinto da polvora, enfiou no hombro a bandoleira da espingarda e deitou por cima o capote azul, encobrindo as armas.
N'uma ternura paternal poz a m?o no hombro do rapaz, ao despedir-se:
-Adeus, e mette-te em casa, Jo?osinho. Temol-a tramada!
-Em casa, eu?-protestou quasi offendido pelo conselho.-Olhe tambem para isto, senhor Juvencio.
E da alta bengala de madeira preta e cast?o de marfim, arrancou um agudo estoque, e sacou das amplas algibeiras do casaco duas pistolas de pederneira.
-Est?o carregadas!
Enternecera-se o velho:
-Pois tambem tu, pequeno! Oh! Com rapazes assim a victoria é nossa.
Muito orgulhoso, Jo?o gracejava:
-Ent?o o senhor, sósinho, é que havia de defender esta terra toda, lá por ella ser t?o pequena? Eu tambem sou terceirense, tambem tenho direito ao meu peda?o!