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O Regicida

O Regicida

Author: : Camilo Castelo Branco
Genre: Literature
O Regicida by Camilo Castelo Branco

Chapter 1 No.1

Antonio Leite, casado com Maria Pereira, e morador na villa de Guimar?es, em 1634, era o cuteleiro de maior voga em Portugal.

N'aquelle anno, tinham um filho, de nome Domingos, com dezesete annos de edade.

Quizera o pai ensinar-lhe a arte, que lhe dera fama e dinheiro. A m?e desejava que o rapaz fosse frade, consoante á vontade de seu irm?o fr. Gaspar de Sancta Thereza, leitor apostolico de moral no convento de S. Francisco de Lisboa.

Ora o rapaz n?o queria ser frade nem cuteleiro: aspirava ardentemente um officio mais prestadio ao genero humano infermi?o: queria ser boticario.

Era esperto o mo?o, n?o só porque appetecia ser boticario; mas porque realmente era agudo de intendimento, ladino, sedento de saber tudo e propenso a correr mundo, tendencia, na verdade, incompativel com a quieta??o da almejada botica.

Aos quinze annos, Domingos sabia latim, cursava philosophia de Aristoteles com um insigne mestre da ordem franciscana, e lia os cartapacios pharmaceuticos do frade boticario do mesmo convento.

Participou Maria a seu irm?o fr. Gaspar a inclina??o do filho. Respondeu o prudentissimo tio que lhe n?o torcessem a voca??o, por quanto em todos os misteres podia um bom christ?o servir o proximo e ganhar o ceo. E, em prova do seu applauso, mandou ir o sobrinho para Lisboa, afim de lhe arranjar mestre que o exercitasse e approvasse.

Foi Domingos Leite para a capital, e entrou como praticante na botica do Hospital Real, sob direc??o de Estev?o de Lima, o primeiro mestre de pharmacia entre os quarenta e trez boticarios de Lisboa.

Ao cabo do primeiro anno, o professor n?o tinha que lhe ensinar. Domingos intendia e aviava as receitas com rara destreza. A estatistica mortuaria, se n?o tinha diminuido, tambem n?o tinha augmentado. Todavia, o habil praticante mostrava-se descontente d'aquelle genero de vida, e de si comsigo resolvera encarreirar-se para outro destino mais adquado a umas vaidades do mundo que lhe estonteavam a cabe?a de mistura com o cheiro nauseativo das drogas moídas no gral.

Frequentava a famosa botica Luiz das Povoas, provedor da alfandega, que se comprazia de conversar com Domingos Leite em coisas de lettras, mormente poetas latinos. O rapaz revelou ao provedor o seu desgosto da botica, e rogou-lhe que o empregasse na alfandega. Vê-se que já em 1636 os bons talentos portuguezes, as aguias do genio, pairavam sobre as prêas alfandegueiras, como hoje em dia succede com tanto litterato que prefere á gloria de rimar ao ar livre a athmosphera aziumada dos armazens, e o fartum engulhoso da matullagem.

De feito, Luiz das Povoas accedeu á peti??o de Domingos Leite, nomeando-o escriv?o das ?Fructas? com 40:000 reis annuaes de ordenado.

Volvido um anno, o escriv?o das fructas confessou ao provedor que a sua voca??o definida n?o era bem a alfandega; que semelhante vida lhe desagradava por monotona; que o seu espirito precisava de repasto mais poetico; em fim, que se sentia alli embrutecer com trabalhos em que a intelligencia andava grávida de cifras e cifr?es, coisas indigestas para quem scismava em trechos de Virgilio ou estancias de Cam?es, quando a penna alinhavava a um tendeiro da rua de Quebra-Costas a conta dos direitos da alfarroba ou do cacáo.

-Que queres tu ser ent?o, Domingos Leite?-perguntou-lhe o bom amigo.

-Estou gostando arrebatadamente da muzica, desde que vossa mercê me levou ás festas da capella real. Se eu podesse arranjar o emprego de m??o da capella...

-Achas isso bom? Poucas ambi??es tens, rapaz!

-O que mais me encanta é o viver com os meus poetas, e ter alli á m?o as delicias da musica. O ordenado é pequeno; mas setenta cruzados chegam e sobram. Lá ao diante, se eu grangear cabedal de saber para dar a lume algumas ideias que me cá refervem nos miólos, ent?o darei gloria ao meu nome. Quanto a bens de fortuna, lá está meu pai na officina a ganhar-me o patrimonio. Sou filho unico, e com pouco heide ir onde v?o os grandes.

-Olha tu que os grandes n?o come?aram por m??os da capella real...

-Bem sei; mas eu, quando desprender as azas, voarei do zimborio da capella, e irei poisar nas grimpas dos palacios.

-Vê lá se te aguentas no v?o, meu Icaro!-redarguiu o provedor-Cuidado comtigo que n?o tenhas de voltar á botica a manipular aquella herva bicha e o pastel de carne de gato com que me curaste das almorreimas...

-N?o tenha medo, sr. Luiz das Povoas. Os homens da minha tempera tem fados esquisitos! Eu, ás vezes, sinto uns deslumbramentos que me cegam! Se eu n?o fosse filho de meu pai cuteleiro, e pudesse desconfiar da honestidade de minha m?e, havia de crer que o meu sangue girou já nas veias dos duques de Guimar?es!

-Serás tu filho do real Encoberto D. Sebasti?o que se espera? Toma tento, Domingos, que n?o te fermente no mi?lo a parvoice do rei da Ericeira ou do rei de Penamacor, ou do pasteleiro do Escurial...-volveu casquinando o provedor da alfandega-Vê lá se contendes com o sr. D. Jo?o, duque de Bragan?a, a ver qual dos dois é o Encoberto das profecias do Preto ou do Caldeir?o, astrologo de Cascaes!... Emfim, rapaz dos meus peccados, eu fallarei ao sr. Miguel de Vasconcellos, e tu serás nomeado m??o da capella real com setenta cruzados; e, depois, quando te sentires com voadoiros de servir, ála-te do zimborio da capella; mas guarda-te de avoares com azas de páo dadas por algum cioso dos que seguem as damas da princeza Margarida a ouvir as antigas can?onetas do Guerreiro, os motetes do duque de Bragan?a, e os tonadilhos de Diogo de Alvarado. (Nota 1.a) Ora queira Deus!... és bem apessoado; tens-me uns requebros de poeta galan; lês muito pelo livro das Saudades de Bernardim Ribeiro, que os mo?os do monte de el-rei D. Manuel mataram a tiro na Rua Nova. (Nota 2.a) N?o vás tu pensar que o amor dá azas, e que o tracto com as Camenas te habilita a ser ruysenhor do pa?o!...

-A boa fortuna-replicou enfaticamente o mo?o-hade dar-m'a o engenho e a arte...

-Se a tanto me ajudar, disse o Cam?es, e a nada o ajudou, nem sequer a envisgar de raiz o cora??o d'aquella dama da rainha D. Catharina!.. Chamavam-lhe a Bocca-negra da alcunha da m?e; mas meu pai, que a viu no mesmo dia em que o poeta a encontrou na egreja das Chagas, n'uma sexta feira da Paix?o, em 20 de abril de 1542, disse-me que a menina era t?o esbelta como trêda. Que farte a cantou o poeta com diversos nomes; até que ella, norteando o cora??o a mais substanciosos amores, tractou cazamento com outro e finou-se antes de realisar o intento. á conta d'esta ingrata quatro vezes foi desterrado o nosso Homero. Primeiro, de Coimbra, onde estava a corte, para Lisboa. Veio a corte para Lisboa, desterraram-no para Santarem; depois para Africa, e por derradeiro para a India, d'onde voltou á mercê d'alguns passageiros. (Nota 3.a)

N?o s?o de mais estes exemplos referidos a um galan de Guimar?es que vai implumar as azas debaixo dos tectos reaes da vice-rainha duqueza de Mantua para depois voar...

-Sei todas essas historias, sr. provedor-atalhou Domingos Leite.-E sei outras muitas de egual moralidade, como a do poeta Jorge da Silva, que expiou no Limoeiro os seus amores a uma irm? de D. Jo?o III; e tambem sei que D. Jo?o da Silva, por malogrado amor á imperatriz Leonor, filha de D. Affonso V, se fez frade franciscano, chamou-se o Beato Amadeu, e disciplinou as rebeldes carnes, lembrando-se sempre do pa?o como S. Jeronimo se lembrava das virgens de Roma nos areaes do Mar Morto. N?o ignoro que D. Affonso V mandou degolar um Duarte de Souza que visitava fóra de horas uma das suas criadas. Sei, finalmente, o que custam sereyas da c?rte, desde que D. Jo?o I mandou queimar no Rocio o seu camareiro Fernando Affonso, por que uma dama da rainha se queimára nas chammas do gentil galan... Sei tudo o que diz ao intento das reflex?es de vossa mercê; mas eu já lhe declarei que vou attrahido á capella real pela musica á imita??o do penhasco arrastado por Orpheu; depois, irei, como Cezar, Quó Deus impulerit. De damarias n?o curo, nem por mulheres vai longe quem lhes procura a fortuna no rega?o. N?o me deu Deus geitos de pagem, nem de namorado de arrabil. Sou de Guimar?es, onde os cora??es tem mais a?o que flores. Tudo que ali nasce parece sahir da forja onde se fazem as rijas laminas das facas de matto e das alabardas.

Chapter 2 No.2

A residencia no pa?o da Ribeira facilitou ao mo?o da capella relacionar-se com fidalgos que o estremaram da turba da criadagem.

O capell?o-mór D. Jo?o da Silva, irm?o do marquez de Gouveia, agradecido ao rei intruso que, em 1625, dera a seu irm?o Manrique, conde de Portalegre, a coroa de marquez, ajoelhava nos estrados da vice-rainha, como outros muitos portuguezes que, volvidos quatro annos, a amea?aram de ser despejada á rua sobre o cadaver de Miguel de Vasconcellos (Nota 4.a)

Este D. Jo?o da Silva corria com os negocios da grande caza de seu irm?o, e sentia-se escasso de ideas e até de orthographia para dignamente fazer a correspondencia. Outros fidalgos lhe gabaram a esperteza de Domingos Leite, incitando-o a estipendial-o como secretario.

Convidado para o servi?o da casa do capell?o-mór, o mo?o da capella, perscrutando ao longe, na escrevaninha de D. Jo?o da Silva, uma aberta, para elevadas regi?es, acceitou o encargo com dobrado salario, e sahiu do pa?o com fastio á musica do Alvarado e aos vilhancicos do Guerreiro com que na noite do Natal lhe gelaram a piedade na alma e nos ouvidos.

Logo que poz m?o no archivo da casa de seu amo, assignalou-se a actividade intelligente do secretario.

Ganhando a confian?a de D. Jo?o e tambem a do marquez, entrou no segredo de certos actos clandestinos da politica, e por ahi lhe alvoreceram esperan?as de entrar em carreira mais frizante com a sua voca??o, que elle ainda n?o sabia ponctualmente qual fosse.

Com quanto os Silvas da casa de Portalegre ou Gouvêa n?o sejam nomeados entre os principaes fautores da conjura??o heroica a favor do duque bragantino, é averiguado que o marquez de Gouvêa e seus irm?os assentiram á subleva??o de 1640; d'outro modo D. Jo?o IV n?o nomearia seu mordomo-mór o marquez que recebêra o titulo da chancella de Filippe III, cujo mordomo-mór f?ra tambem.1

Em caza do aulico da vice-rainha conversava-se, planeavam-se alvitres ácerca da restaura??o, e n?o havia rezervas na presen?a de Domingos Leite, abonado por seus amos e pelo enthusiasmo dos seus dizeres conceituosos em annos t?o juvenis. Os douctores Jo?o Pinto Ribeiro e Jo?o Sanches de Baêna que, para assim dizer, foram o cerebro, o pensamento do gigante que estendeu bra?os de ferro no 1.o de dezembro, tinham justificado a confian?a dos fidalgos, dignando-se approvar a admiss?o de Domingos Leite Pereira ás reuni?es da gente media, afim de a ir educando e predispondo com argumentos patrioticos, mui eloquentemente discursados.

E o ensejo veio bem de molde á explos?o das iras de um portuguez palavroso. N'aquelle anno de 1637 era o povo esmagado com tributos; e a nobreza, menos ferida nas suas rendas, olhava de esconso para a desgra?a das classes mechanicas, e de fito para os seus proprios interesses. N?o obstante, alguns fidalgos sob-capa incitavam ao longe os motins. Nos tumultos de Evora, houve precedencia de conciliabulos em que dois homens da cidade e um estranho e desconhecido das turbas oraram de fei??o a irritar a rebeldia ás execu??es tributarias do corregedor André de Moraes Sarmento.

Os sediciosos eborenses eram Sezinando Rodrigues e Jo?o Barradas; e o de fóra era o quasi imberbe Domingos Leite Pereira, que depois de haver pedido na pra?a a cabe?a do corregedor, e rompido os diques á onda popular contra o arcebispo e outros fidalgos que sahiram de cruz al?ada a socegar os amotinados, appareceu orando ás turbas preceitos de prudencia e respeito ao anci?o conde de Basto.

Vê-se que a voca??o do rapaz, afinal, era a politica.

Em 1638 morreu D. Jo?o da Silva. Logo o marquez de Gouvêa chamou aos segredos da sua escrevaninha Domingos Leite, exonerando-o dos encargos impertinentes da administra??o da caza, e investindo-o de occupa??o mais condigna. Os seus trabalhos meditados e escriptos eram relativos á republica, já trasladando papeis mysteriosos que se trocavam entre Portugal e Castella, já discorrendo de lavra propria declama??es contra o uzurpador, as quaes eram lidas com um sorriso de complacencia por Jo?o Pinto Ribeiro, e repetidas com enfaze pelo padre Nicolau da Maya aos lagrimosos burguezes da caza dos ?Vinte-e-quatro.?

A importancia do filho do cuteleiro crescia á medida que o perigoso levantamento da na??o calcada se avisinhava da destemida audacia de muitos e da receiosa prudencia de alguns. Domingos Leite aliáva á energia intellectual a impavidez nas mensagens arriscadas. Uma noite se offerecêra elle para entrar ao segundo andar do pa?o da Ribeira cujos corredores conhecia, e apunhalar na sua propria camara Miguel de Vasconcellos. Galardoaram-lhe com louvores o romano intento; mas dispensaram-no de antecipar o sacrificio de uma vida, que poderia abrir a sepultura de muitas vidas preciosas. Acceitaram-lhe, todavia, a melindrosa miss?o de ir a Madrid prevenir alguns fidalgos affectos á restaura??o, já quando Miguel de Vasconcellos, desde os tumultos de Evora, o trazia espiado como suspeito de ser o ardente caudilho dos amotinados a casa do corregedor Moraes Sarmento.

N'esta commiss?o associou-se Domingos Leite a um Roque da Cunha, homem passante dos 40 annos, que elle havia conhecido nas assemblêas populares do padre Nicolau da Maya, ardente impulsor do resgate do reino.

Roque vivia mysteriosamente e apenas sabia o nome de sua m?e, uma D. Vicencia, de quem ao diante se fará men??o.

Era temido como valente, e conceituado como perverso; mas ninguem o excedia em vehemencia de applausos, quando Domingos Leite proclamava ácerca da independencia da patria.

A vaidade do orador transpoz os obstaculos erguidos pela má fama do seu enthusiastico ouvinte, e foi procurar um amigo em Roque da Cunha. Travaram-se de intima estima, a ponto de lhe abrir o cofre dos seus segredos o homem, cujos haveres procediam de fonte desconhecida e for?osamente impura.

Entre diversas aventuras referiu o arrebatado patriota que os seus bens eram a paga de uma boa ac??o; porém mesquinha paga; pois que se elle podesse contal-a em dias de liberdade para a patria, os portuguezes deveriam ladrilhar-lhe de ouro as ruas por onde passasse. Expendido o caso, depois de o exordiar com o enfaze de um Sc?vola, disse que f?ra elle quem matára com um tiro de pistola Pedro Barbosa de Luna, desembargador da casa da supplica??o, pai de Miguel de Vasconcellos. Deste homicidio havia elle cobrado alguns mil cruzados: e, posto que o mandante f?sse um opulento mercador que assim vingava a justi?a de um pleito postergada pelo desembargador, Roque da Cunha recebêra os tantos mil cruzados com os olhos postos na patria captiva. (Nota 5.a)

Este feito, com outros significativos de esfor?o e destemor, captaram a indole de Domingos Leite propensa á admira??o da bravura que em Roque da Cunha era real?ada por intendimento e gra?a no desplante com que assoalhava os vicios ao seu unico amigo.

Tal era o companheiro escolhido nas mensagens arriscadas de Evora e de Madrid. E tanto Domingos Leite encareceu depois os servi?os do amigo, na volta a Portugal, que vingou leval-o comsigo a Villa Vi?osa, e apresental-o ao duque, no acto de lhe entregar cartas dos fidalgos com a noticia dos planos discutidos no palacio dos Almadas.

Chapter 3 No.3

O que o leitor sabe sobejamente da historia seria impertinencia repetir-lh'o no romance.

A revolu??o de 1640 é t?o fallada, desde a escola de instruc??o primaria até ás festividades rhetoricas de cada 1.o de dezembro, que a pessoa intelligente em cuja m?o este livrinho tem o prestimo de a livrar de ler outro peor, me está pedindo que dê vivas á independencia nacional e passe ávante.

Seja assim, para agradar a V. Ex.a e n?o defraudar historiadores que n?o tem, quando historiam, analoga considera??o com os novellistas.

O duque de Bragan?a era já D. Jo?o IV; e Domingos Leite Pereira, desde Janeiro de 1641, era escriv?o da correi??o do civel da corte, logar que rendia para mais de trezentos mil reis-quantia valiosissima n'aquelle tempo. Além d'isso f?ra-lhe facultado arrendar o officio e continuar exercendo o posto de secretario do marquez de Gouvêa, mordomo-mór de el-rei, e do seu conselho de estado e despacho. O marquez, indo semanalmente á c?rte, levava comsigo no coche o seu secretario: e bem que o deixasse na sala da espera, algumas vezes o rei admittiu ao gabinete de despacho o diserto mo?o folgando de o ouvir remedar alguns bassos e tiples da capella real da princeza Margarida. é notorio que D. Jo?o IV foi muito caroavel de musica; e, sendo analphabeto em quasi tudo, publicou em 1649 uma Defesa da musica em lingua castelhana, para dar bom exemplo de patriotismo aos escriptores coevos. (Nota 6.a) Concorriam em Domingos Leite Pereira predicados bastantes a distinguirem-no. As meninas cazadoiras viam o rapaz de vinte trez annos, esbelto, valoroso, bemquisto dos fidalgos, estimado de el-rei. Os paes d'estas meninas viam o escriv?o da correi??o do civel, o secretario do conselheiro de estado, o mancebo fadado para coisas grandes.

Nem sequer uma leve mancha de judeu, mulato, ou mouro na candidez de tantos meritos! nem fama publica de vicios, em epoca t?o eivada da corrup??o da mocidade! Bastava a honrar-lhe os creditos de bom christ?o ser elle sobrinho de fr. Gaspar de Sancta Thereza, já prior de franciscanos, e t?o bom patriota que havia sido elle o primeiro que déra a ideia de despregar o bra?o de Jezus crucificado afim de persuadir ao povo revolto no 1.o de dezembro que a imagem do Redemptor desencravára a m?o da haste da cruz para aben?oar o povo que lhe estendia os devotos bra?os banhados de sangue!

O manuscripto que vai architectando este livro, ao entrar no periodo amoroso de Domingos Leite, diz singelamente: ?sahiram-lhe muitos cazamentos.? E, nomeando algumas noivas de nascimento illustre, repára e nota que o escriv?o do civel se esquivasse a aparentar-se com familias primaciaes regeitando a neta de um bispo do Funchal, que era muito parenta da casa de Bragan?a e descendente de reis. (Nota 7.a)

Passava ent?o por ser uma das mais lindas mulheres da classe media, em Lisboa, Maria Isabel, filha de um ricasso da rua dos Tanoeiros, Jo?o Bernardes, de alcunha o Traga-malhas. Aos quinze annos era a mo?a t?o tentadora, os fidalgos t?o tentadi?os, e a honra das familias t?o menosprezada, que a m?e de Maria Izabel fez voto ao sancto Antonio de fr. Bartholomeu dos Martyres accender-lhe luz toda a noute para que lhe vigiasse a filha emquanto ella fosse solteira: tamanha era a falta de illumina??o e policia na rua dos Tanoeiros em 1639! (Nota 8.a)

Como era filha unica e seus pais contavam bons vinte mil cruzados em moeda, Maria teve mestre de escripta em casa-um padre de boa fama, do qual ao diante daremos ampla e funesta noticia. Formosa, rica e esclarecida, por consequencia um optimo cazamento para filho segundo de caza illustre, e o mais que podia ambicionar Domingos Leite.

Foi o tio fr. Gaspar quem lhe fallou o cazamento, por ser muito da familia Traga-malhas, e director espiritual da m?e da noiva.

Maria, ao principio, balbuciava respostas evasivas a respeito de cazar-se; porém, quando viu Domingos Leite, e o ouviu dizer-lhe umas palavras t?o candidas que mais o pareciam pelo que o rosto respiráva de amorosa brandura, decidiu-se apaixonadamente.

No entretanto, quando tudo era alegria na familia, Maria Isabel escondia-se a chorar, e fazia promessas valiosas ao sancto Antonio do sabido nicho em troca de um milagre de costa acima. Lá ao diante, formará o leitor conceito da natureza do milagre solicitado, e ent?o verá que tal era elle que o sancto, se o n?o fez, foi por que realmente n?o p?de.

O escriv?o do civel da corte recebeu os emboras dos amigos mais ou menos invejosos, quando annunciou o seu noivado com a filha do Traga-malhas; e redobrou a inveja das congratula??es ao saber-se que o rico tanoeiro dotára a filha com dez mil cruzados. Ora para aproximadamente computarmos o valor de dez mil cruzados n'aquelle anno de 1642, basta saber-se que, no anno anterior, o mais opulento negociante de Lisboa, Pedro de Bae?a, thesoureiro da alfandega, condemnado á morte em supplicios atrozes, como cumplice na conjura??o de alguns fidalgos contra D. Jo?o IV, offereceu em troca da vida a enorme quantia de trinta mil cruzados!

Domingos Leite Pereira foi presenteado com rica baixela de prata pelo rei, quando alfaiava a sua casa no sitio chamado o Salvador. O marquez de Gouvêa assistiu como padrinho do cazamento, e o prelado franciscano deu a ben??o nupcial aos conjuges, e uma preciosa gargantilha de diamantes á esposada, por ordem de sua irm?, e de seu cunhado, pais do desposado.

Principiou na alc?va conjugal, quando os anjos do amor e da ventura deviam vedar os umbraes d'ella á tristeza e á desgra?a, uma secretissima lucta de desconfian?a e lagrimas, de invectivas affrontosas e juramentos de m?os erguidas. Quem diria que, áquella hora alta da noite, uma formosa mulher, com as tran?as desatadas em serpentes pelas espaduas convulsas, ajoelhava aos pés do marido, e, lavada em lagrimas, solu?ava:

-Eu te juro que nunca amei outro homem! N?o intendo as perguntas que me fazes! Fui creada no rega?o de minha m?e! Nunca sahi de casa sen?o para a igreja, e sempre com minha m?e! Os homens que para mim olhavam uma vez n?o me tornavam a ver... N?o me perguntes se amei alguem n'este mundo, que mettes a tua alma no inferno, e me dás vontade de me ir afogar no Tejo com a minha vergonha!..

Já se vai vendo que o padre Sancto Antonio do nicho assistia de longe e neutral a este lance.

A luz do dia seguinte n?o alvorejou na alma entenebrecida de Domingos Leite Pereira. Apenas rompeu a manh?, o noivo sahiu do thalamo como de um cavalete de tractos, e foi em direitura procurar o seu antigo mestre de pharmacia Estev?o de Lima. Admittido á escrevaninha do matutino boticario do Hospital real, revelou no rosto livido o febril anceio de intender as anomalias possiveis na estructura do corpo humano. Disse elle ao sabio em poucas e tartamudas palavras a ignorancia que o atormentava.

Estev?o de Lima ouviu-o cabeceando, baixou os oculos da testa sobre o promontorio do nariz, ergueu-se silencioso, abeirou-se das altas estantes dos seus livros, e tirou as seguintes obras de medicina, que ia sacudindo da poeira, e atirando para sobre a banca: Amatus Lusitanus (ou Jo?o Rodrigues de Castello Branco) Abraham Nehemias, Thomaz Rodrigues da Veiga, Antonio Luiz, Jo?o Valverde, Garcia Lopes, Averroes, Affonso Rodrigues de Guevara.

Quando desempoava o ultimo, affirmou o douto boticario:

-Este physico é chav?o na materia, se bem me recordo.

E, percorrendo a lista alphabetica das coisas notaveis, poz o dedo infallivel na quest?o subjeita, e disse ao offegante interlocutor:

-Veja isso a paginas 488, columna 1.a

O contheudo da columna 1.a da pagina 488 da obra admiravel, chamada De re anatomica, n?o se reproduz, em respeito ás damas que se dispensam de saber anatomia, apezar da senhora Deraisme, certa adversaria conspicua de Dumas, para a qual o saber sciencias da organisa??o humana é coisa util ás damas maridadas.

Qualquer que fosse, porém, o contexto da pagina consoladora, é certo que na face de Domingos Leite transpareceu a claridade da interior alegria, e tanto era o desafogo, e desoppresso o respirar do mo?o, que se abra?ou no seu antigo mestre, exclamando:

-Vossa mercê apagou-me o inferno da alma, e tirou-me da m?o o ferro uxoricida!

-ó mentecapto!-volveu Estev?o de Lima-Quem querias tu matar?!

-Ella que me infamára aos olhos do homem que m'a atirou aos bra?os com uma gargalhada!

-Sobre infamado, matador!-acudiu Estev?o-Ruim philosopho és, Domingos Leite! Se o meu auctor Guevara te n?o defendesse a esposa com o escudo da phisica, ainda assim deveras christ? e honradamente desligar de ti a mulher indigna, e salvar tua honra interpondo o juizo do mundo como juiz na tua causa. A sentenciada seria ella; e tu, se fosses lastimado, n?o perderias com isso o direito á venera??o dos homens de bem.

-Excellentes ras?es...-atalhou Domingos Leite;-mas, sr. Estev?o, se eu um dia f?r enganado, n?o me dê essas nem outras melhores, que eu n?o lh'as escutarei...

Discorreram sobre o assumpto breve espa?o, porque Domingos Leite anciava reconciliar-se com a esposa, pedir-lhe perd?o da injuria, indemnisal-a das perguntas ultrajantes com affagos de noivo apaixonado e repêzo da injusti?a.

Maravilhou-se Maria Isabel, quando o esposo entrou alegre, e a surpresou enfardelando nos bahús os seus vestidos.

-Que fazes?!-perguntou elle já de má sombra.

-Arranjava a minha roupa...

-Com que intento?

-De me voltar a caza de meu pai.

-Fugindo?

-Fugindo, n?o; livrando-te da mulher innocente que tu cobriste de affrontamentos.

Demudou-se-lhe o semblante em ares supplicantes, e dobraram-se-lhe os joelhos aos pés da esposa illibada pela pagina 488, columna 1.a, do livro De re anatomica do physico thaumathurgo Affonso Rodrigues de Guevára.

-Perdoas-me?-balbuciou Domingos Leite, ungindo-lhe a cara de lagrimas.

E ella, que ainda tinha pudor na consciencia, sentiu embargar-se-lhe na garganta a palavra que perdoava, e ajoelhou tambem apertando-o freneticamente ao cora??o.

Amaram-se em redobro desde aquelle momento: elle porque offendera uma innocente; ella... porque o sancto Antoninho do nicho lhe fizera afinal o milagre. ?E, se n?o era milagre, diria ella comsigo, onde foi meu marido desfazer as suas suspeitas? quem o despersuadiu??

Nós é que sabemos como foi.

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