Informa??es
Corria o anno de 1697.
Francisco Luiz d'Abreu, doutor em medicina, mudára sua residencia para Coimbra, esperan?ado em entrar no magisterio, conforme lh'o promettiam sua capacidade, vasto saber e creditos. Tinha casado, quatro annos antes, com Francisca Rodrigues de Oliveira, filha de abastados judeus de Ourem. N?o tinham filhos; mas dos bra?os de um ao outro saltava um menino de cinco annos, chamado Braz, acariciado com blandicias de filho. A crean?a tratava de padrinho o doutor, e á senhora chamava m?e. A esposa do medico, privada do goso de se ver assim amimada nos labios de anjo desentranhado de seu seio, jubilava de lhe ouvir aquelle doce nome de m?e, e toda se estremecia de maternal ternura chamando-lhe seu filho.
Grande numero de pessoas relacionadas com Francisco Luiz, presumia que o pequenino Braz era filho natural d'elle, e que Francisca de Oliveira, bem que israelita e perfida ao sacramento do baptismo, alojava no peito entranhas t?o christ?s que levara para sua companhia o menino, e lhe queria até á extremidade de lhe chamar filho, e consentir que elle lhe chamasse m?e.
Exceptuada a amoravel esposa do doutor, ninguem sabia em Portugal quem fossem os paes d'aquella crean?a. A ama, que a tinha amamentado, morrêra; e a pobre gente, que lhe assistira ao nascimento, ignorava o destino d'elle.
Um dia, como a crean?a, antes de ir-se á cama, entrasse a beijar a m?o do padrinho, Francisca beijou-a nas faces, e disse-lhe:
-N?o tornes a chamar padrinho ao teu amigo; chama-lhe pae, sim, Braz?
-Pois sim, m?esinha-disse a crean?a, e saiu pela m?o da creada.
Francisca proseguiu:
-Pois n?o é assim melhor?! Acabamos de nos convencer que elle é nosso filho.
-ó menina, respondeu o marido-esse convencimento parece-me difficil...
-Nosso filho gerado no cora??o...-tornou ella.
-Isso lá, sim; d'esse modo já eu o perfilhei; mas o peior é que ámanh? podem apparecer ahi umas entranhas menos phantasticas do que a tua maternidade de cora??o a reclamarem o que é seu legitimamente.
-Pois tu cuidas que elles voltam cá?! Podes ainda imaginar que elles vivem? Ha tres annos que n?o temos uma carta d'elles!
-Mas tambem n?o recebemos a certid?o de obito.
-Pois sim,-redarguiu Francisca-mas, se elles vivessem, as pessoas de Hollanda, a quem tu tens pedido tantas vezes novas d'elles; n?o t'as dariam, ainda mesmo que lhe n?o soubessem os verdadeiros nomes?!
-Acho-te raz?o; porém, custa-me a crer que elles tenham morrido ambos. O mais certo é o que eu tantas vezes te tenho dito...
-Que Fern?o Cabral tem recebido as cartas que elles te escrevem?
-Sim.
-N?o creio. Tu recebes cartas de Amsterdam, de Londres e de toda a parte. Se te subtrahissem umas, iam todas, homem. Cá, ninguem me tira a mim da cabe?a, que elles morreram em naufragio, ou os sicarios do fidalgo os mataram lá por fóra, ou... quem sabe?... a tamanho apuro de desgra?a chegariam, que se dessem a si a morte, como no seculo passado succedeu com tantos irm?os nossos.
-Póde ser-obtemperou Francisco Luiz;-mas teriam coragem de matar-se uns paes que deixavam esta crean?a?!... N?o é possivel! A ultima carta, que recebi de Antonio, aqui está-disse elle, tirando-a do segredo de uma gaveta-é de 4 de outubro de 1694. Escreve-me de Marselha. N?o se queixa de mingua de recursos. Revela uma certa seguridade de espirito, que é signal de boas aven?as com as miserias da vida. Diz que está em arranjos com alguns hebreus, filhos e netos de portuguezes, para se trasladarem com suas familias para uma colonia franceza, que, diz elle, talvez seja a de S. Domingos. Promette escrever-me quando se houver definitivamente resolvido, e depois...
-Mais nada-atalhou Francisca-Ora, no Canadá, já sabemos que elles n?o est?o. N'outras colonias, tambem tu já sabes que ninguem os viu. Que havemos de pensar d'isto? Que se ha de suppor depois do silencio de tres annos?
-Que as cartas me s?o roubadas-insistiu o doutor.
-E tu a teimar, homem!... Oxalá que eu me engane; mas, se adivinho, Deus sabe que o menino está amparado, e que ha de ser sempre meu filho, ainda que o senhor me dê muitos filhos.
-Suicidarem-se!-proseguiu Francisco de Abreu, que parecia, de absorvido em suas cogita??es, n?o ouvir a esposa-Suicidarem-se n?o póde ser... Antonio Mour?o graduou-se em medicina em Paris ha quatro annos, e de lá passou para Hollanda. Um medico n?o chega a encarar com t?o feia miseria que lhe quebre o animo, ao extremo de o anniquilar. Antonio em qualquer parte acharia p?o, ainda que fosse máo physico; porém, com os talentos d'elle, n?o posso conceber máo medico. Seja o que f?r, Francisca. Eu espero ainda haver novas por alguns hebreus de Marselha. Hei de perguntar em que época e em que navios sairam colonos, e para onde sairam. N?o o fiz até agora por medo que as minhas cartas andem espiadas, e v?o dar ás m?os de Fern?o Cabral. Mas vou escrever ao nosso amigo Francisco de Moraes Taveira, que está em Lisboa de viagem para Fran?a, e pedir-lhe que indague quanto poder dos nossos irm?os de Marselha o destino dos colonos, com os quaes saiu Antonio de Sá Mour?o.
Francisca entrou á alcova do menino, e sentou-se-lhe á beira do catre a contemplal-o adormecido em sonhos, que lhe sorriam, a espa?os, na rosa entre-aberta dos labios.
Francisco Luiz de Abreu ficou escrevendo largas paginas ao seu amigo Francisco de Moraes, hebreu abastadissimo de Villa Flor, commerciante de pedras preciosas, que traficava nas principaes cidades de Europa e Asia.
Na volta do correio, Francisco de Moraes asseverou ao doutor que chegado a Fran?a, iria indagar pessoalmente a Marselha, e n?o pouparia despezas com os informadores que o satisfizessem. E, por esta occasi?o, lhe noticiava que fazia conta de trazer de Hollanda seu filho Heitor, que lá se estava educando em humanidades com seus tios, para estudar medicina em Coimbra; e, a tal respeito, accrescentava: ?N?o sei se érro em trazer o rapaz para Portugal; mas a m?e insta, chora, e definha-se a termos que receio que me ella morra. Seja o que Deus quizer. Aconselhar-lhe-hei o que lhe cumpre fazer, e espero que elle, por obediencia e desejo da vida, me attenda.?
Francisco Luiz deu-se logo pressa em pedir ao hebreu que n?o trouxesse para Portugal, como victima amarrada para o a?ougue, o pobre rapaz que lá fóra vivia sem receio da polé e da fogueira. Pintava-lhe, sem encarecimento, os perigos que amea?avam em Portugal um rapaz creado e educado entre israelitas doutos, e com elles affeito a dizer alto e destemidamente o seu pensar em coisas de religi?o. Recordava-lhe as numerosas victimas da inquisi??o, que preferiram morrer a desconfessar sua fé, antepondo a gloria do martyrio da idéa herdada de avós á hypocrisia de aceitarem apparentemente a religi?o dos carniceiros filhos de Domingos de Gusm?o. Lembrava-lhe a sublime coragem de Manuel Fernandes Villa Real, consul portuguez em Paris, e, n?o obstante, garrotado e queimado na pra?a da Ribeira em Lisboa no anno de 1652. Lembrava-lhe o lente de Coimbra Antonio Homem, queimado em 1624, e o advogado Miguel Henriques da Fonseca, Pedro Serr?o3 e outros, cuja inflexibilidade de caracter, comquanto perpetuasse honrada memoria, lhes custou affrontosissima morte, e deixou aberta por muito tempo amarga torrente de lagrimas.
As reflex?es do medico abalaram o judeu; mas n?o lhe demudaram a ten??o. Era Heitor, filho unico, herdeiro de grandes haveres; queria voltar á patria, onde o chamavam saudades de menino; tinha por si as lagrimas e instancias da m?e; promettia ser discreto e hypocrita; queixava-se do clima de Hollanda e de febres quartans. O pae era sósinho a querel-o afastado de Portugal, e assim mesmo andava em lucta comsigo mesmo, até que deliberou trazel-o de volta da sua excurs?o mercantil a Fran?a e outras na??es.
De Marselha escreveu Francisco de Moraes informando o seu amigo Abreu. Dizia que Antonio de Sá Mour?o, convidado com grandes lucros a ir estabelecer-se como medico no Canadá, ou Nova Fran?a, aceitara a proposta, e embarcara com sua mulher, resolvido a enriquecer-se no prosperado trafico dos pellames. Ajuntava que um dos tres navios, carregados de colonos, batido pela tormenta, se esgarrara do rumo, e f?ra a pique na costa de S. Domingos, a tempo que duas galeotas de flibusteiros, conhecidos como demonios do mar, na linguagem da peninsula britannica, faziam aguada n'uma bahia d'aquella infamada costa, onde poucos annos antes haviam naufragado tres naus francezas, capitaneadas pelo audacissimo colonisador Robert Cavalier de la Salle. Ajuntava o informador que n'aquelle navio perdido iam fatalmente o medico e sua mulher, com muitas pessoas das mais graudas da colonia, algumas das quaes se presumia que tinham caido nas m?os dos flibusteiros segundo informa??es de um gale?o hespanhol, que das pessoas embarcadas no navio perdido, até áquella hora, n?o viera noticia a Fran?a.
Francisco d'Abreu, lendo a carta, disse á esposa.
-Tinhas adivinhado desgra?adamente! O nosso Braz já n?o tem pae nem m?e. Agora podemos dispor do futuro d'esta crean?a. Vê tu que funesto remate houveram aquelles amores do meu pobre Antonio! Já n?o ha duvidar... Est?o mortos! Batam as m?os os gallileos, e folguem de ver que vingaram as ondas o que as lavaredas n?o poderam! Oh!... que vontade eu tenho de banhar o rosto d'este menino com as minhas lagrimas, e contar-lhe as desgra?as de seus paes.
-N?o-atalhou Francisca-n?o lhe digas nada; n?o digas! Que lucra elle em saber isso?... Vaes semear-lhe no cora??o odios e paix?es que, no futuro, lhe podem ser a sua perdi??o. Nem se quer lhe digas em tempo algum que seu pae era judeu. Quebremos-lhe, se podermos, este cond?o funesto!
N?o era m?e!...
No seguinte anno de 1698, o doutor Abreu, que nunca se descuidava de ter o ouvido fito aos rumores surdos da inquisi??o, recebeu mui secreto aviso de algum condiscipulo, que devia ser familiar do santo officio, qualidade com que o maior numero de medicos d'aquelle tempo se nobilitava; e tanto assim era, que algum medico, privado d'ella, dava a entender que pertencia mais ou menos á seita maldita; ou, como diziam, tinha uma, duas ou tres partes de judeu. O aviso mandava-o aperceber-se para trabalhos grandes.
Alvoro?ado com a pavorosa nova, o doutor quiz logo sair da patria, e refugiar-se em Damasco, onde tinha um tio que exercitara em Portugal a profiss?o de boticario, no Fund?o, até ao anno de 1652, em que f?ra queimado o capit?o Manuel Fernandes Villa-Real. Chamava-se o fugitivo Pedro Lopes.
Impediram-lhe ao doutor a precipitada fuga alguns parentes e amigos, que podiam bastante com os promotores do santo officio; recommendando-lhe, porém, que visitasse as egrejas com frequencia, e désse bem publicas demonstra??es de sua piedade.
Assim o cumpriu o doutor Francisco Luiz, bem que sua mulher mui violentada se prestasse a uma ostenta??o hypocrita, da qual a credula israelita se penitenciava com muitos jejuns e ora??es.
Decorridos mezes, fez-se auto da fé, e n'elle saiu condemnado a pris?o illimitada um Fern?o Vaz Lucena, parente do doutor. A maxima culpa d'este christ?o novo era o ter-se descaminhado e caido nas m?os dos inquisidores uma carta em verso, que Pedro Lopes, tio de Francisco Luiz d'Abreu, lhe escrevêra de Damasco. Esta carta indirectamente amea?ava a tranquillidade do lente de Coimbra; e, por amor d'ella, se formara a tempestade em que os amigos do lente viam ao longe o raio, o qual urgia conjurar com visitas aos templos e tregeitos bem publicos de piedade.
Que perversa e impia carta seria aquella, em que os inquisidores acharam motivo para condemnarem Fern?o Vaz Lucena a carcere perpetuo? N'um velho manuscripto que possuimos, chamado Memorias de Francisco Soares Nogueira, encontramos trasladada a carta, cuja copia n?o vem descabida ao ponto; e, se mais n?o vale, tem por si o merito de nos dizer como os boticarios hebreus conciliavam as letras amenas com a manipula??o dos ingentes xaropes d'aquelle tempo, posto que nem sempre conciliassem a inspira??o com a contagem das syllabas, segundo a arte poetica.
Dizia assim a carta:
Oh Fernando, oh Fernando,
até quando
ha de durar teu descudo,
entre o povo torpe e rudo?
Que serve estar aguardando?
Sabes a banda d'além...
e o que convem.
Quem se agarra, quem se afferra,
deixa o monte, deixa a serra,
e ao valle seguro vem.
N?o vês como arde esse matto,
mentecato,
que pouco a industria val?
Antes que chegue ao casal,
levanta cabana e fato!
N?o sejas aventureiro,
que o toureiro
sim (?), morre em seu officio.
Mais val ter outro exercicio,
que fundar em ser ligeiro.
Por que n?o queres ser forro?
Eu morro,
por n?o haver quem te arranque!
Se pódes vêr de palanque
por que queres andar no corro?
Tambem eu estive lá,
e sei o que ha;
tudo passei, tudo vi.
N?o se incerra o mundo ahi;
melhor mundo vae por cá;
o p?o é cá mais ens?sso,
e a carne sem chamb?o;
tambem cá se ganha p?o,
e n?o com tanto sobr'?sso.
A gente é cá sem reima,
de menos teima;
a terra fructos produz,
e o sol dá cá mais luz,
posto que tanto n?o queima.
Digo-te verdade mera:
considera;
e, se queres ter descan?o,
vem buscar o rio manso,
foge do mar que se altera;
foge do lago e da cova,
cousa nova,
e só n'isto me obedece.
Mova-te o proprio interesse,
quando o gr?o Deus te n?o mova;
que os lobos como rodeiam
sempre pream.
Divulgou-se a carta, depois do auto da fé. O doutor Abreu, assim que a viu, afervorou-se na frequencia de egrejas, batia nos peitos estrondosas punhadas, e ingranzava as contas das camaldulas, de modo que os ouvidos dos devotos podessem contar-lhe os quinze mysterios do rozario. Porém, como se a hypocrisia lhe n?o désse cau??o bastante segura, o lente de medicina, emquanto escoava os sonoros bogalhos, scismava no modo de fugir, sem dar ansa aos espias.
Apezar das camaldulas e dos protectores, a inquisi??o cada vez mais desconfiava da sinceridade do doutor; e o doutor, n?o menos vigilante que ella, cada hora, habilmente negociava a transferencia dos seus haveres ao estrangeiro.
O pequeno Braz era-lhe empê?o. N?o sabia elle se devia levar comsigo a crean?a. O perigo e o medo, concentrando-o no cogitar em salvar-se, tornava-o mais egoista em cuidados de si, e menos pensativo do futuro do pequeno. Francisca de Oliveira, por sua parte, queria muito á crean?a; mas n?o era bem o querer e amar maternal: faltava-lhe aquelle sentir-se viver, estremecer e morrer nas arterias do filho. Ent?o lhe seria a ella bom de comprehender que sómente é m?e aquella que sentiu as d?res da maternidade.
-Que ha de fazer-se ao pequeno? onde o deixaremos?-perguntava Francisco Luiz á mulher.
-Se o podessemos levar sem difficuldade...
-N?o podemos, por que eu já desconfio que nos será negado o passaporte. Temos de fugir; e escapar com uma crean?a desembara?adamente ninguem o faz. Bem sabes que nossos avós matavam os filhos que lhes retardavam e denunciavam a fuga.
-Deixa-se em casa dos nossos parentes-tornava ella.
-Isso é sacrificar os nossos parentes; porque o rapaz é considerado meu filho-observou o doutor.
-Tenho uma boa idéa-ajuntou elle-entreguemol-o a Francisco de Moraes, de Villa Flor, que sabe a historia d'esta crean?a, e lhe ha de servir de pae com os sobejos da sua riqueza. N?o ha tempo a perder. Vou escrever-lhe para Lisboa, e pedir-lhe que me espere por estes quinze dias.
Francisco de Moraes Taveira aceitou gratamente o encargo, tanto por lhe ser offerecido pelo doutor Abreu, como por ser o orph?osinho filho do desventurado israelita, que perdêra provavelmente a vida, quando cuidava ganhal-a com honra.
Desde que a resposta chegou, Francisca, olhando a face carinhosa da crean?a, chorava sempre. Quanto mais o estreitava ao peito, mais o menino lhe sorria, como se com afagos quizesse mitigar as angustias desconhecidas, que via no rosto lagrimoso de sua m?e. Já ella pedia ao marido que n?o deixasse o menino; vacillava já tambem o doutor; e, muito instado da esposa e do cora??o, que a si mesmo se reprehendia, deliberou resolver-se em Lisboa, segundo se lhe figurasse facil ou difficil a passagem para outro reino.
Nas ferias d'aquelle anno, o lente simulou uma jornada a Ourem, sua patria, e foi em direitura a Lisboa. O santo officio de Coimbra reparou na saida, e lan?ou pesquizas. Informaram-no de alguns processos de liquida??o de patrimonios e venda de bens, que o doutor Abreu rapidamente negociára na terra de sua mulher. D'isto foi avisado o inquisidor geral, de modo que já em Lisboa o promotor instaurava processo, quando o lente alli chegou.
Avisado pelo medico mais convisinho dos segredos da inquisi??o, Francisco Luiz deu-se pressa em sair de Lisboa com destino a Inglaterra. Negaram-lhe passaporte. Aterrado d'esta contrariedade, significativa de maiores violencias, mudou de residencia para casa segura, que lhe dispoz o hebreu de Villa Flor.
A vigilancia dos esbirros estava attenta sobre os navios hollandezes principalmente, e pouco menos sobre quaesquer outros de commercio com portos estrangeiros. Francisco de Moraes, avassalando com ouro a piedade do piloto de uma nau portugueza destinada á India, introduziu no navio o doutor e sua mulher, considerados mercadores e proximos parentes do piloto. As arcas de suas preciosidades entraram com os passageiros; tudo que mais e menos caro lhes era foi com elles, exceptuado o pequenino Braz, que dormia á hora em que elles partiram, e nem acordou ao cair-lhe nas faces as lagrimas dos seus bemfeitores.
Ao amanhecer-lhe o dia seguinte, Braz perguntou pela m?e. Ai! se ella o fosse, n?o perguntaria o desamparadinho por sua m?e.
Respondeu-lhe um mo?o de vinte annos, que os seus amigos tinham ido fóra de Lisboa, e voltariam passados alguns dias. A crean?a chorou em silencio, como quem conhecia que o prantear-se seria desagradecer as caricias que lhe fazia o filho de Francisco de Moraes.
Era elle o mancebo que o hebreu de Villa Flor f?ra buscar a Amsterdam.
Heitor Dias da Paz distrahia a crean?a de seis annos com brinquedos proprios da meninice. Parecia que um ao outro se estavam divertindo. Heitor quiz instituir-se mestre do a b c do pequeno; mas as gra?as infantis do discipulo encantavam-no por maneira, que era coisa de muito rir vêl-os ambos despegarem do alphabeto para se andarem correndo pela casa no jogo dos esconderêlos.
Dentro em pouco, as lembran?as dos fugitivos hebreus eram apenas brevissima tristeza de saudade na memoria de Braz.
Heitor, desejoso de ver a terra do seu nascimento, foi para Villa Flor, e levou comsigo o menino. Francisco de Moraes, por mêdo de que, n'alguma hora, a inquisi??o lhe quizesse galardoar a astucia no escape do sobrinho de Pedro Lopes, accendendo em honra d'elle as santas rezinas da fé, tratou de sumir-se na sua provincia, dando-se por can?ado de amontoar riquezas.
Assim se reuniram em felicidade ainda n?o experimentada, os paes de Heitor, contando como elemento de sua boa sorte a posse do orph?o, que, de muito amado que era, n?o sentia falta dos seus primeiros amparadores.
O faro das bestas-feras
Por espa?o de quatro annos se gosou Heitor Dias das doces reminiscencias de infancia, sem querer saber de estudos nem do destino. Os paes n?o o incitavam a empregar seu tempo em letras que lhe abrissem carreira de gloria. Fechada sabiam elles que ella estava aos hebreus, salvo a das sciencias; folgariam de o ver luzir entre os famigerados Zacutos; mas muito mais se compraziam de o ter entre si a recado de toda a suspeita de inimigos e do perigo de se relacionar com imprudentes amigos.
Decorridos, porém, quatro annos, em 1703, Heitor Dias da Paz pediu ao pae que o deixasse ir estudar medicina a Coimbra, porque lhe era já pesada a ociosidade e desvalia de sua vida. Francisco de Moraes, confiado na discri??o do mo?o, concedeu-lhe licen?a. Heitor pediu que o deixasse levar com elle o seu irm?osinho Braz Luiz, para, desde os dez annos, o ir encaminhando nos estudos conducentes á carreira da medicina. A generosa lembran?a foi applaudida pelos velhos, e o pequeno agradeceu-a com lagrimas de alegria.
Do pupilo ou, segundo as presump??es do vulgo de Coimbra, filho do doutor Abreu, já ninguem se lembrava quando, corridos cinco annos, lá voltou. Heitor a ninguem disse de quem fosse aquelle menino. Apresentava-o como orph?o pobrinho, cuja educa??o elle tomára a seu cargo. O pequeno já tambem mal se recordava dos seus bemfeitores, e quando fallava de algum d'elles, chamando-lhes pae ou m?e, o filho de Francisco de Moraes recommendava-lhe que a pessoas estranhas n?o dissesse nada do pouco de que ainda se lembrava.
Heitor entrou no primeiro anno da faculdade em artes, depois de ter sido examinado em humanidades. N'este exame, em coisas de grammatica, sciencia que ent?o reunia muitas especies hoje distinctas, o hebreu de Villa Fl?r, mais descuidada que intencionalmente, defendeu proposi??es que destoaram asperrimamente nas orelhas orthodoxas dos examinadores. Sem embargo, deram-n'o como apto, reservando mentalmente o espiarem-lhe os actos com a vigilancia propria de quem quer salvar uma alma em risco de perder-se.
Braz Luiz entrou no collegio de S. Paulo a estudar latinidade com precoce e admiravel entendimento. Causou certo assombro nos frades que liam no collegio a ignorancia do mo?o em doutrina christ?, interrogaram-n'o minudenciosamente sobre o viver da familia que o educara. Braz respondia que os seus bemfeitores resavam, e elle tambem resava por um livrinho de ora??es. Apresentaram-lhe diversos livros de piedade para que d'entre elles escolhesse o da sua resa. O pequeno sentiu um bate no cora??o, comprehendeu instantaneamente o perigoso d'aquelle interrogatorio, e saíu-se bem do aperto, indicando o cathecismo de fr. Bartholomeu dos Martyres. Poucos dias volvidos, Braz Luiz papagueava toda a doutrina, dando a entender que apenas lhe f?ra necessario recordar o que sabia desde a primeira infancia. Esta esperteza n?o enganou os mestres. Os primeiros fios da teia entraram logo em urdidura; e já as inquietas consciencias dos frades n?o levavam as noites d'um somno.
No entanto, Heitor levou a cabo, com muita applica??o e extremado engenho o seu primeiro anno. Foi a ferias, levou comsigo Braz Luiz, e contou ao pae a inquiri??o porque passára o menino sobre o cathecismo christ?o. Francisco de Moraes agourou mal d'este exame, e pediu ao filho que, em vez de voltar a Coimbra, se passasse a Hollanda. Heitor Dias engenhou raz?es para combater os sustos do pae, e voltou ao segundo anno de medicina, levando Braz ao segundo anno de latim.
Os de S. Paulo repetiram o inquerito com ardilosos rodeios. Braz, já cabalmente instruido, cortava-lhes as voltas com respostas por demasia atiladas; de modo que deu for?a ás suspeitas, mostrando estar apercebido para destruil-as.
A este tempo sobejamente sabia o conselho da inquisi??o que os christ?os novos de Villa Fl?r, se n?o eram sinceros judeus, tambem n?o eram sinceros catholicos. Qualquer das coisas, no entender dos theologos, era egual á outra como affrontamento á verdadeira religi?o.
Heitor Dias da Paz andava espreitado. Seus condiscipulos propriamente o provocavam a quest?es theologicas, das quaes elle se desembara?ava, dando-se como ignorante de subtilezas e aceitando os dogmas sem discuss?o. O conceito dos espi?es de sua consciencia n?o melhorava por isso; quando muito, concediam-lhe a boa qualidade de judeu discreto.
Assim correu o segundo anno da sua formatura, sem acontecimento que o precatasse contra alguma violencia.
Voltou Heitor ao terceiro anno, com o cora??o retalhado de saudades de sua m?e que ficava morta. Levou comsigo para Coimbra o pae que se queria deixar morrer na alcova d'onde lhe levaram o cadaver da esposa. A convivencia do filho deu-lhe alma, e esperan?a de peito onde inclinar a cabe?a na velhice. N?o obstante, a saudade levou-o ás portas da morte.
Aquella ida do velho a Coimbra foi desgra?a para Heitor. Francisco de Moraes, em risco de vida resistira a receber os sacramentos, porque o seu morrer, sem ritual de religi?o alguma, queria elle que fosse um como adormecer inclinado ao respaldo da cadeira. Estrondeou o escandalo nas abobadas dos conventos. Heitor, com o rosto coberto de lagrimas, quando sua alma estava a mendigar palavras de consola??o, porque via alli o pae moribundo, tinha de explicar ás cataduras severas dos frades e visinhos a turva??o de seu pae, e a, por isso, involuntaria priva??o de sacramentos. Redarguido nas satisfa??es que dava, replicou talvez com descomedimento, quando já seu pae se tinha passado a Villa Fl?r. Da replica, provavelmente, foi lavrada acta no gabinete do procurador fiscal do santo officio. O certo foi que, vinte dias depois, Heitor Duarte da Paz, ao entrar nos geraes da universidade, foi acercado de tres familiares, que o conduziram ao carcere da inquisi??o.
Bemdita a m?o da Providencia, que já tinha fechadas as palpebras da m?e d'aquelle mo?o!
Braz Luiz, comquanto desde o momento em que o seu protector foi preso ficasse privado de recursos para continuar como pensionario em S. Paulo, n?o foi despedido. Os frades paulistanos consideravam-no optimo estudante, e alma nova para se deixar fecundar em proveito da santa religi?o. Além de que o orph?o, esquecido do nome de seus paes, sen?o engeitado d'elles, n?o tinha culpa minima do hebraismo de quem o protegia. N'este mesmo parecer assentaram os frades dominicanos: honra lhes seja. E, portanto, Braz Luiz conservou-se no collegio a expensas da casa, sem licen?a do reitor4, e por largo tempo ignorante do destino de seu bemfeitor, até que, no fim d'aquelle anno de 1704, os mestres lhe disseram que Heitor Dias da Paz se estava purificando de peccados gravissimos, para remedio dos quaes lhe acudira a vigilancia misericordiosa do santo tribunal da inquisi??o.
Braz chorou muito, e caíu febril na cama. O chorar e o adoecer do mo?o mereceu compaix?o dos mestres, que o consolaram com esperan?as seguras de que o seu protector havia de sair limpo e absolto d'entre as m?os dos filhos de S. Domingos.
Recobrou o estudante saude, a tempo que Heitor Dias da Paz era transferido á inquisi??o de Lisboa, por motivos mais ou menos extraordinarios, que n?o vingámos averiguar. O que a toda luz evidenciámos é que o hebreu esteve preso desde 10 de janeiro de 1704 até 12 de setembro de 1706.
E como saiu elle do carcere? Absolto? Penitenciado? As feras das cavernas da santa casa esphacellaram-lhe as carnes? Deixaram-lhe ao menos o cora??o com algum sangue, aquelle cora??o de vinte e oito annos, para ainda se restaurar de encontro ao seio reparador d'uma esposa, que o anjo dos desamparados lhe houvesse entreluzido nas trevas da sua masmorra de seiscentos dias e seiscentas noites?