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O Inferno

O Inferno

Author: : Auguste Callet
Genre: Literature
O Inferno by Auguste Callet

Chapter 1 No.1

O bem

(BEM NEGATIVO, MONGES, ANACHORETAS, ETC.)

Se a morte vos sobresaltêa antes da penitencia, diz-se que sois condemnado por erro de espirito, por fraqueza dos sentidos, por um lance d'olhos, por um desejo culposo, e condemnado, sem esperan?a, tanto como se houvesseis sido um ladr?o calejado, um parricida, um atheu. Lá vos está esperando o Senhor da vida; e ahi ides enredado em vosso peccado como ave cahida no la?o. E tudo se acabou; tudo, sem que os vossos longos servi?os ao genero humano contrabalancem o peccado final!

Se, no entanto, comparaes tudo que se ha mister fazer para ganhar o ceo ao pouco que basta para cahir no inferno, sereis for?ado a reconhecer que as probabilidades s?o dissimilhantes, e que o mais certo, fa?a-se o que se fizer, é a condemna??o.

D'onde procede nas imagina??es vivas a dominante preoccupa??o de evitar o inferno; e d'ahi, pelo conseguinte, e desde os primeiros seculos, uma especie de singulares virtudes, mais espantosas que bellas, mais extravagantes que insinuativas: virtudes falsas, sem utilidade do proximo, bem que os theologos no'l-as inculquem por ideal da perfei??o christ?. Tal é o retiro ao deserto, a renuncia??o propria, o morrer antecipado, o fugir combates da vida, o desquite de deveres da familia e da cidade, a ociosidade contemplativa e penitente, a macera??o, o jejum, o perpetuo silencio, a insula??o, o odio ao mundo, a ora??o entre quatro paredes. é, tambem, a santifica??o do celibato, como se a fecundidade dos sexos houvesse sido amaldi?oada, como se fosse culpa continuar a filia??o de Ad?o, e virtude esterilisar em si os embri?es da vida humana.

E certo é que, admittido o inferno, e a queda original, e o ensinamento que lhe anda annexo, que outra conclus?o se colhe? Multiplicar os homens, para que? para multiplicar os peccados? Se é t?o duvidosa a salva??o! Se a condemna??o é t?o facil! Para que nos enla?aremos á orla d'um abysmo onde o esposo póde despenhar-se com a esposa e o pae com os filhos? Bastantissimos mentecaptos se casam, e povoam terra e inferno de desgra?ados. N?o seria melhor deixar acabar o mundo? Bemaventurados os celibatarios! Os sabios s?o os reclusos, os anachoretas, os eremitas. S?o como os viajantes que, em navio a pique, desamparam os companheiros, e salvam-se a nado. Cuidam só do seu salvamento; cada qual por si; soccorrer o irm?o tem o risco de naufragio. Fazei como elles, navegantes; deixae no navio em soss?bro mercadorias, thesouros, e vossas mulheres, e m?es, e vossos filhos, e fazei-vos ao largo: recresce a borrasca; rasga-se a vela; quem poder salve-se.

Bemditos sejam pois esses foragidos do mundo, mortos ao mundo e seus modelos, Sime?o sobre a columna, Jo?o no muladar, esses desvariados todos macillentos, sujos, comidos de insectos. Grande vantagem levam: n?o tem que vêr com a terra, e já est?o meios mettidos no ceo: o diabo já mal os póde aprezar.

N?o é, todavia, a perfei??o dos ascetas aquella que o Filho do homem nos exemplificou. Trinta e tres annos habitou Elle a terra, e quarenta dias sómente ermou no deserto, n?o para nos lá attrahir; mas, a meu vêr, para nos distancear, pois que foi no deserto, e ahi tam sómente, que o espirito das trevas o tentou. Anteriormente havia Elle vivido trinta annos com a sua familia; e viveu o restante entre peccadores. é para notar que nas suas modestas occupa??es, sob o colmado do carpinteiro, e mais tarde nos campos, nas cidades, nas tavernas, em meio do povo que ensinou, curou e nutriu, n?o ousou o diabo tental-o!

Mal imita Christo quem foge o mundo que Elle procurava. O sepultar-se um homem nos antros, a jejuar e a rezar por longo tempo, o sequestro da sociedade, o silencio, corpos macerados mal enroupados em pelles, exorcismos furiosos, luctas no vacuo, intrepidez baldada, e tantissimos outros piedosos desatinos n?o recordam exemplos do Salvador, mas sim as aberra??es dos sectarios do oriente. N?o póde ser isto a perfei??o que Jesus veio ensinar aos homens; que tal chamada perfei??o muitissimos seculos antes d'Elle já era conhecida dos pag?os idolatras, que tinham seus corybantes e vestaes, e bem assim dos judeus, mormente dos Essenios que a tinham aprendido dos magos da Chaldêa. Tal perfei??o praticavam-a na India fanaticos sem numero, cuja ra?a ainda subsiste. Importamo'l-a dos mesmos paizes que nos mandaram a doutrina dos anjos rebeldes e a da reprova??o dos homens-doutrinas cujo natural fructo é tal casta perfei??o. Se o ideal da perfei??o humana fosse isto, inutil seria o christianismo; pois que já os brahmanes a tinham ensinado dous mil annos antes do presepio, e os bouddhistas a tinham realisado mil annos antes dos monges da Thebaida.

é certissimo que os bouddhistas n?o visam exactamente ao mesmo sc?po que os monges catholicos: aquelles buscam em suas austeridades a morte absoluta, a destrui??o de sua personalidade, o serem absorvidos no ser universal, ao mesmo tempo que os monges, se renunciam ao seu eu neste mundo, é para o retomarem n'outra vida. é, comtudo, egualmente certo que, sem embargo da diversidade dos fins, vigora em ambas as seitas um principio commum, sendo que por identicas vias e praticas procuram a eterna bemaventuran?a uns, e outros o perpetuo dormir, a eterna insensibilidade. Só de per si o desejo do ceo n?o bastaria a inspirar a uns o mesmo proceder que inspira aos outros o desejo da anniquila??o: pelo que, n?o é o desejo, sen?o o medo que pov?a os desertos. Os bouddhistas, por egual com os christ?os transviados, temem os soffrimentos infindos, os males sempre a renascer, se n'este mundo n?o attingirem a vida perfeita; e tanto para elles como para os nossos monges, vida perfeita é o absterem-se da vida, é a virgindade, o jejum, a penitencia, a soledade, o extasis, o antecipar a morte, um complexo de estereis virtudes, n?o filhas do amor, sen?o do mêdo.

Tal é, na sua mais elevada express?o, o bem que a cren?a do inferno produz n'esta vida. Causa espanto que os protestantes hajam conservado este dogma! é, porém, mais para espantar que elles, ao mesmo tempo que o conservam, destruam os mosteiros e inpugnem o celibato. N?o ha ahi imaginar maior inconsequencia! A primitiva Igreja, que elles pretendem resurgir, cria sem duvida nas penas eternas, é isto mais que muito verdadeiro; mas pelo menos, operava em conformidade com sua fé. N'aquelle tempo, os esposos, ainda em vigorosa mocidade, guardavam continencia, sob pena de peccarem, durante o advento e quaresma, e nas festas e dias de jejum, pouco mais ou menos tres quartas partes do anno. D'elles alguns, para maior perfei??o, n?o usavam nunca os direitos conjugaes, e envelheciam sob o tecto nupcial, em voluntario celibato, denegando-se as frias caricias que o irm?o faz a sua irm?. Os ricos empobreciam-se, despojando-se espontaneamente de seus haveres, e os pobres lidavam para viver, mas descuidosos de amontoar, nem como previdencias para a velhice e infermidade, nem para legarem a filhos. Conta-se que desadoravam empregos publicos, e evitavam, como escolhos da alma, as emprezas lucrativas nomeadamente as commerciaes. Nunca espectaculos, nem jogos, nem dansas, nem folias. Sobriedade extrema, vestidos nem apontados nem de pre?o, jejuns em barda, orar dia e noite, lucta incessante e pertinaz contra a natureza. O seu distinctivo de christ?os era aquelle. Uma leve falta, acareava-lhes a excommunh?o; e, antes de absoltos, eram experimentados em seu arrependimento, por espa?o de mezes e annos, quando o n?o eram até morrerem. Em quanto durava a penitencia, eram apontados, n?o só nos templos, durante os mysterios, sen?o tambem no exterior e nas rela??es da vida civil; e, por cima de ninguem os querer á sua meza, até as esmolas lhes regeitavam.

Diz com ras?o Fleury que a vida dos nossos monges regulares corre parêlhas com a do commum dos fieis da Igreja nascente, cuja continua??o é[2]. E accrescenta[3] que já entre aquelles fieis havia ascetas d'ambos os sexos vivendo reclusos. Eram os mais perfeitos, e exemplares. Taes ascetas, verdadeiros ascendentes dos monges contemplativos, trappistas, cartuchos, carmelitas, claristas, etc., esfor?avam-se por imitar a vida de Jo?o Baptista no deserto e a de Elias no Carmelo.

Curavam elles pois, como já dissemos, uma perfei??o diversa da de Jesus: anhelavam a perfei??o negativa, qual os judeus e os orientaes a preconisavam; judaisavam sem darem d'isso tento, e os christ?os seus imitadores continuavam inadvertidamente a tradi??o, n?o já de Jesus, mas de Jo?o Baptista e Elias, tradi??o congruentissima com o inferno. Já no tempo das persegui??es era povoada a Thebaida; n?o tinha ent?o a Igreja um tecto debaixo do ceo; e só depois que principiou a erguer templos é que edificou mosteiros, sua primeira obra depois que sahiu das catacumbas. é pois evidentissimo, em que peze aos protestantes, que o catholicismo n?o se apartou do espirito dos tempos apostolicos, nem das praticas de ent?o, e que a vida monachal detestada por elles, é ainda hoje em dia o que outr'ora foi, a mais bella flor, e o mais mimoso fructo dos dogmas hebraicos, que elles t?o piedosamente tem conservado.

[2] Costumes dos israelitas e christ?os, tom. II, cap. 53.

[3] Costumes dos israelitas e christ?os, cap. 26.-Citei esta excellente obra por que ella é manuseada por todos, e facilima de consultar. De mais a mais, depara-nos a indica??o das fontes onde o auctor bebeu, dispensando-nos assim de as indicarmos n'este livro.

Chapter 2 No.2

A carmelita ou o ideal da perfei??o theologica.

Comvosco admiro as religiosas que, sob diversos nomes e com diversos habitos, assistem ao genero humano, tanto com suas ora??es, com o seu trabalho quotidiano, com toda a celeridade de seus pés, com toda a agilidade de suas m?os, como com todas as for?as de seu ser. Credes que n?o é possivel seguir mais do que ellas os divinos vestigios do Salvador. Ah! quanto vos enganaes! Quanto s?o baixas e eivadas de heresia as vossas idêas! A perfei??o n?o consiste na vida activa e benefica das irm?s da caridade; onde ella está, segundo o ensinamento dos theologos, é na vida contemplativa.

Se procuraes, senhora, o modêlo para vós e vossos filhos, encontral-o-eis na carmelita, com preferencia á irm? da caridade. Aquella morreu para o mundo, jaz no seu cubiculo como em um tumulo. Vá quem quizer agasalhar orph?os, ensinar ignorantes, restaurar peccadores, curar doentes, ensinar officios a servos, dar voz a mudos. Affronte quem quizer o contagio de nossos vicios! Quem quizer que cure a nossa lepra! Esses cuidados vulgares n?o os quer a carmelita para si. Aos pés do altar, com os bra?os levantados ao Senhor, é o seu posto. N?o se bulirá d'alli, ainda que todo o paiz arda ensanguentado. N?o lhe digaes: vosso irm?o está a morrer; vossos sobrinhos vos est?o chamando. N?o lhe digaes: arde a peste na cidade; á vossa porta está a maca. Ha muito que ella concebeu tedio do mundo; n?o lhes leveis novas d'elle, que perturbarieis o seu socego. Quanto menos ella se inquieta d'essas transitorias miserias, mais os theologos a admiram. N'isso mesmo,-crêl-o-eis?-é que está, segundo elles, a sua superioridade sobre a irm? da caridade, cujo cora??o virginal arfa como cora??o de m?e ao grito da criancinha[4].

A carmelita n?o pensa, nem tem que pensar sen?o em sua propria salva??o, e tal pensar é um manancial das commo??es que unicamente lhe s?o permittidas. Bem que ella viva dez, vinte, cincoenta annos sob o veo, fará todos os dias, á mesma hora e da mesma maneira, a mesma coisa sem poder por seu arbitrio alterar-lhe o minimo. S?o-lhe pautados os movimentos, e contados os passos. Em todo o curso de sua vida n?o ha a menor surpreza, o minimo abalo, o imprevisto, a menor liberdade, ou eleva??o espontanea das faculdades moraes. Est?o definidas e immutaveis as suas rela??es com todas as coisas animadas ou inanimadas que a cercam: n?o se afei?oa, n?o escolhe, n?o se decide. é-lhe prohibido ganhar affecto a coisas e a pessoas. A abelha é mais livre do que ella em sua colmeia, e menos inflexivel que as regras monasticas é o instincto que a dirige. Uma communidade de freiras parece-se a um povo de automatos e n?o a um enxame de seres viventes. E essa é que é a condi??o pela qual a harmonia subsiste. N'estas sociedades contra natureza, é prudente que a natureza seja algemada; pois, se lhe dessem folga, ella se revoltaria; e por tanto é for?oso esmagar a liberdade como cautela para que a licen?a n?o vingue. é pois a carmelita em todos os seus actos mera machina. Tem alma para obedecer e trabalhar na sua interior perfei??o, destruindo em si, cada vez mais, vontades, desejos, e individualidade até ás raizes. Onde está a lucta está a vida. N'esse immutavel centro, solitario e silencioso, onde se caminha sem mudar de piso, passa a adolescencia sem curiosidade, e a velhice sem experiencia nem memoria. Ahi nada se renova; o dia que chega nada promette; o dia que finda nada deixa; é a vida um livro, cujas paginas em v?o se folhêam: sobre essas paginas brancas ha uma só phrase, do come?o ao fim, sempre a mesma: ?pensa em ti, pensa na eternidade.?

Ahi vem agora com que espancar o tedio do mosteiro. á mingoa de grandes e formidaveis combates do lar domestico e da sociedade, isto é, da vida real qual Deus a fez, a ociosa carmelita pugna heroicamente contra sua raz?o, contra seus sentidos, imagina??o, e faculdades inactivas. Crê resistir ao diabo, resistindo á necessidade de operar, de amar, de saber, e ser util: estafa em puerilidades a sua virtude. Se durante o officio, uma mosca lhe pousa no nariz, é um caso, é uma prova??o. Se está distrahida, assalteam-na remorsos; se impaciente, vai confessar-se d'isso. Uma pulga é outro inimigo terrivel, outra occasi?o de grande queda ou de grande victoria! Um alfinete mal pregado, um vêo descomposto, uma lembran?a, um gemido, um pensamento clandestino, o rastilho d'um rato atraz do armario, um Ave esquecido, ó cathastrophe! ó remorso! ruina de Si?o! prantos de Job! brados de Rachel! transportes de Jeremias! Qualquer bagatella a alvoro?a como materia de peccado mortal; qualquer futilidade lhe avulta com propor??es monstruosas; pesa gr?os de areia, e mede os atomos.

Pois se ella conseguiu esquecer sua familia, seu paiz e o mundo, n?o a cuideis completamente impassivel como se vos figura: o que ella fez foi concentrar em si e para si o amor e piedade que nega aos outros. Idolatra-se, n?o ao modo dos sybaritas, mas por um theor que, posto n?o seja sensual, n?o é menos egoista: absorve-se em contempla??o de sua alma; no proprio cora??o preenche o vacuo de familia e de amigos, e de quantas creaturas de lá expulsou. Contempla-se sósinha, entre o inferno e o céo, a tremer perante um tal espectaculo, e sempre fluctuando entre estes abysmos, ora nas alturas, ora nas profundezas, passa de um delirio a outro, e das palpita??es do terror ao extase dos seraphins.

Eu por mim n?o sei se Deus sorri a taes futilidades, a tal vida que n?o é viver, e a tal morte que n?o é morrer; mas os theologos affirmam que é n'isto que a perfei??o consiste.

E for?oso é concordar que elles tem raz?o, se ha inferno. Se ha inferno, a irm? da caridade é imprudente, e nós, os admiradores d'ella, somos sandeus. O sequestro mais rigoroso é a consequencia legitima, natural, necessaria e fatal d'este dogma selvagem. O alicerce, a porta e o tecto do mosteiro é aquelle dogma, que desata as sociedades naturaes e viventes avinculadas pelo amor; é elle o occulto liame d'aquellas sociedades de automatos que n?o permaneceriam um dia, nem hora, nem momento, se tal dogma fosse proscripto. Sem inferno, a vida claustral n?o se percebe; com inferno, n?o ha imaginal-a mais a ponto, e é obrigatorio confessar que, de feito, a perfei??o está n'ella, visto que a raz?o está com ella.

N?o obstante, filhos do seculo, n?o renuncieis afogadilho de seculo, que vol-o prohibem os theologos.

Ficai entre peccadores, no foco das tenta??es, dos escandalos, dos erros, e das ciladas que vos tramam. Razoavel coisa seria fugir para o porto seguro que vos offerecem; mas n?o vades; continuae a navegar entre restingas, á mercê dos tuf?es, aos clar?es dos relampagos. O convento n?o vos quadra; porque n?o foi feito para muitos.

Entendo, direis, que o convento se abriu para os entes mais debeis, para os incapazes n?o só de ajudar a outrem, mas tambem da mesma mente se salvarem, sem se arriscarem ás tempestades. Faz-se mister ás almas frageis e justamente timidas o estreito cenobio do claustro, a protec??o das gradarias, a escravid?o, as regras, o véo sobre os olhos, a morda?a nos labios; sem o que se perderiam. Em quanto os valentes combatem, v?o ellas esconder-se longe do inimigo.

No seu caminho se arrastam gemebundos alguns fugitivos, fallidos de animo, cahidos por terra, feridos de suas proprias armas, e quem sabe se alguns heroes alanciados no cora??o! Entendo, direis, que o claustro é o refugio dos pusillanimes, o porto dos naufragados, o hospital dos infermos, e aqui se mostra a apparente raz?o porque nem toda a gente lá póde entrar.

Está enganado o duro leitor, que nada percebe dos mysterios theologicos. Saiba pois que o claustro é o asylo dos fortes; e que só lá s?o recebidos os athletas a primor, mais puros e intrepidos, a fl?r da juventude christ?. N?o soffre a menor duvida que é mil vezes mais de perigo a sociedade onde os soccorros s?o muito menos do que os retiros aben?oados. Que nos faz isso! De logar abrigado e onde a gra?a superabunda é que os poucos s?o repulsos, com quanto, ao primeiro intuito, nos pare?a creado para elles; ao mesmo tempo que do baluarte das luctas angustiosas se retiram os fortes, com quanto pare?a tambem este o seu logar proprio.

Os coxos, os cegos e os inermes s?o postos na li?a sanguinosa; os mais aguerridos soldados enclaustram-se. Espantem-se e riam-se, que a coisa é assim; e, sen?o, perguntem-no á Sorbonna.

E assim é preciso que seja, pois que a perfeita vida é a claustral, que, no entender dos theologos, vem a ser a mais avêssa ás inclina??es de nossa natureza viciosa, e, por conseguinte, a de mais difficil observancia; mas, porque é impraticavel na sociedade, n?o se lhe dispensa de ser exemplo á sociedade; e, sem presump??es de lá chegar, devemos propender para ella continuamente, visto que estamos tanto mais á beira do inferno quanto longe d'aquella vida perfeita.

Que se hade fazer, pois? Eis o problema. Cada qual tem no mosteiro um trilho feito, e o futuro certo, portanto está quite de cuidados que fóra d'ahi seguem a pobreza, o trabalho, e até a riqueza, além das responsabilidades que a toda a hora pendem dos actos de uma vontade livre, n'um viver sempre fluctuante.

No mosteiro é tudo exemplos edificantes; e, posto que seja defezo ahi grangear um amigo, em compensa??o n?o se adquirem inimigos.

Nem impe?os, nem disputas, nem conflictos, males que a liberdade produz, sendo que a servid?o lhes esmaga os embri?es. No exterior é tudo recolhimento, paz, ordem, silencio, e esfor?o; perturba??es, se as ha lá, vem do intimo e do recondito do nosso ser. O unico inimigo que ahi ha que recear é o diabo, tal invisivel e impalpavel adversario que todos trazem comsigo, fracos e fortes, mundanos e frades; porém tal inimigo perde no claustro boa parte das suas prerogativas; porque alli n?o está elle como em sua casa, e no seu reino: s?o-lhe menos os ministros, os vassallos, e os recursos. O recluso, afóra a pessoal energia de que é dotado e lhe assignala a voca??o, topa ahi de todos os lados conselhos e amparos; e como quer que tenha em frente aquelle unico inimigo, soccorre-se de mil auxilios, que faltam ao homem do seculo, e, máo grado a sua fraqueza original, vence-os. Que fazemos pois n'este misero mundo em que a infermidade nos algema? Ha aqui o rir, o chorar, o renhir, o disputar, o abra?ar-mo-nos, o odiarmo-nos, perseguirmo-nos, e o aniquillar-se o homem contra homem: é uma reluctancia sem fim, e sem regra, um retinir de espadas, um estrondear de martellos, de carros, de machinas, de cantares, de gemidos, um cháos, uma desordem, da qual a clausura n?o poderia dar-nos sombra de idêa. Aqui, s?o mil os objectos em que a alma anda repartida; as diminutas for?as que temos dispersam-se. Acolá o inimigo identificado comnosco, traz escolta de auxiliares, e a lucta interna de que ninguem se izempta, complica-se com as luctas externas e inevitaveis. Cada homem tem de bater-se com uma legi?o. Quantos cuidados! Quantos deveres! Quantas incertezas e anciedades! Quantas encruzilhadas sem nome, sem pharol, sem sahida! Que poeiras, e que sombras!

Considerae aquella m?e de familia a quem encareceis as virtudes da carmelita.

é pobre, todos os seus parentes s?o pobres, os filhinhos rotos, famintos, quasi sempre doentes, o marido alquebrado do trabalho, ou que, desanimando, se envileceu e a espanca, um patr?o, um proprietario, credores, mestres, amos, amigos, e que amigos! conselheiros, mas conselheiros de Job! Se tal m?e é rica, tem uma casa que reger, creados a dirigir, os quaes nem fizeram voto de pobreza, nem de obediencia; filhos a educar, sagrados interesses que defender, rela??es que receber, um marido a contentar, quer seja honrado ou n?o, quer seja piedoso ou impio. Com vontade ou sem ella está continuamente a bra?os com as paix?es alheias, com caprichos, interesses, vontades e affectos contrarios; de continuo em face de circumstancias imprevistas, casos litigiosos e incertos, onde lhe é for?oso resolver-se quando qualquer resolu??o é perigosa, n?o o sendo menos os perigos, se se absteem. é preciso que ella, se quer salvar-se, seja a um tempo economica e caritativa; communicativa, mas discreta; umas vezes branda, e outras inflexivel; expedita, mas reflexiva; previdente, mas conformada a todos os sobresaltos da fortuna; que viva ao mesmo tempo em si, e nos outros, para si, e para todos: miss?o indefinivel, cheia de contrastes, de atravancos, de cruzes, mais ardua e mais difficil que a miss?o da freira.

Digam embora que esta m?e de familia tem na sua miseria satisfa??es, tranquillidade e jubilos que n?o goza a carmelita: depende isso de saber se os jubilos de que fallam s?o comparaveis ás d?res que a freira ignora. De mais, esqueceis que esses prazeres s?o um engodo e que se prendem n'elle sem o conhecer, e se prendem tambem quando o conhecem. A saciedade, o desgosto, e o cansa?o s?o as naturaes barreiras da voluptuosidade. Chegará até ahi a mulher christ?? N?o o permitta Deus. Até onde irá? é ponto mathematico que separa o peccado do prazer licito; e, quando o limite se procura, onde fica elle já? Raras vezes estamos a sós com a serpente como Eva no Eden, e a freira na cella. á mesa e em toda a parte ha quem vos distraia, seduza e arraste; bebemos sem sêde; está a bocca repleta, mas os olhos famintos; o gozo que satisfaz a precis?o aguilh?a o desejo. Quem houver de parar a tempo na ladeira onde o aventurarmo-nos é permittido, ha de ter mil vezes mais vigilancia, cuidado e poder sobre si, do que lhe seria preciso para lá n?o p?r o pé. Conceder alguma coisa á natureza é conti?ar o fogo que quizeramos extinguir; é alimentar o le?o que desejaramos estrangular. Das delicias menos carnaes, toucador, conversa??o, emprego de teres e do tempo, é ainda mais desconhecido o limite, maior a liberdade, e mais temivel a responsabilidade.

N?o me fallem de umas satisfa??es mentirosas que o terror empe?onha quando se pensa n'ellas, e que o inferno cor?a, quando se n?o pensa no inferno. Por certo que é duro, mas o mais prudente é regeital-as. A absten??o é uma lei simples, clara, e breve: é bastante que haja coragem para a praticar sobretudo nos votos conventuaes. A freira, com o andar do tempo, afaz-se á lucta; curva-se ao jugo; os sentidos privados de excita??es amortecem, até que, por fim, a coragem se torna t?o inutil quanto lhe foi em todo o tempo inutil o espirito de proceder. Mas, se a lucta intima se prolongasse, a freira para evitar os desvios e as fugitivas rebeldias do corpo e da vontade, careceria de ter até ao seu derradeiro suspiro o inferno diante dos olhos, o cilicio na cintura, e o terror na alma. Assim é, mas que importa? Comparado aos soffrimentos de uma m?e, o que é o cilicio de uma virgem? Quem ousará comparar essas duas existencias? Comparar receios pessoaes com receios generosos? Combates sem testemunhas a combates exemplares? Trabalhos infructiferos a fecundos suores? E fallando sisudamente, e na melhor fé, se uma d'essas duas pessoas devesse copiar a outra, n?o é de certo a m?e que deveria servir de modelo? A irm? da caridade n?o é já de si m?e? E a esposa de José que trouxe em seu seio, e nutriu com seu leite o Filho do Homem, e ao pé da cruz lhe recebeu o ultimo alento, n?o foi ella, em sua amargura, a m?e adoptiva de Jo?o, o amigo d'Aquelle por quem chorava?

Que jactancia é essa ent?o d'um desprendimento de affectos e vontades? Para que querem insinuar em nossos lares taes inquieta??es, terrores e escrupulos, unicas occupa??es do claustro? E para que é, em nome do ceo, sobrecarregar de jejuns e abstinencias a jornaleira, a camponeza, a m?e, que já vacillam sob o fardo do padecer e trabalhar?

Vê-se que theologia e bom siso s?o coisas infelizmente contradictorias. Vê-se que seria preciso abolir o inferno para que depois viesse a renuncia das macera??es, terrores e falso ideal que um claro entendimento reprova.

Mas porque n?o se apaga o inferno? Extincto elle, brilharia o purgatorio com luz mais viva e salutar. O inferno é que faz odiosa a liberdade, rebaixando-a e vilecendo-a; o purgatorio volve-a estimavel, real?ando-lhe bellezas, dignidade e grandeza, sem lhe dissimular os perigos e as penas. Quem crê no castigo eterno, enterra o talento para que o Senhor lhe n?o toque. Quem melhor conhece o Senhor e sua justi?a faz render cinco talentos em casa do banqueiro, arriscando-se a perdel-os. O purgatorio actualmente de que vos serve? Dizem que a pobre carmelita se abalan?a a lá arder milhares de annos, por causa de algum secreto estremecimento do seu corpo que ella tanto disciplinou; por causa do captivo espirito que t?o enfreado trazia, ou, emfim, á conta do cora??o generoso, cujas pulsa??es tantas vezes abafára.

O purgatorio deve aterrar principalmente a freira e os que vivem como ella; ora os mundanos n?o tem raz?o de se affligirem, antes devem consolar-se, pensando n'aquelle logar de supplicio. A nós, filhos do seculo, n?o nos é racionalmente permittido aspirar áquella dolorosa felicidade, que é castigo dos sanctos e o seu primeiro galard?o ao mesmo tempo. Em vez, porém, de o desejar, e desejar em v?o, como nós o temeriamos, se elle fosse a unica estancia em que se cumprisse a justi?a de Deus! Que mudan?a se faria em tudo d'este mundo! A perfei??o e a salva??o n?o estaria na ociosidade em joelhos, no terror em ora??o, no fugir ao proximo, no entregarmo-nos a algumas priva??es e d?res corporaes, arbitrariamente substituidas ás d?res e sacrificios de uma vida proveitosa. Ent?o se entenderia que ha dous modos de abusar de nossas faculdades, uma que está no desprezo d'ellas, com receio de as usar inconvenientemente; outra que consiste em nos servirmos d'ellas indiscretamente e ao avesso das inten??es da Providencia que nol-as deu.

A doutrina do Evangelho n?o é doutrina de absten??o; é doutrina de ac??o: causa porque o purgatorio lhe quadra melhor que o Evangelho. Carecemos menos de frades que de christ?os. Se o inferno refreia o mal, tambem impede o bem. A amea?a seria salutar; mas ella faz mais que amea?ar, empedra como a cabe?a de Meduza quem a encara a fito. Tende a supprir com uma especie de passibilidade estupida a livre e intelligente actividade da alma. N?o derime o egoismo, exalta-o a mais n?o poder, e tal exalta??o devidamente localisada no deserto, n'uma gruta, no claustro, é medonha de vêr-se no seio das familias.

[4] Elles comparam as irm?s da caridade áquella mulher de Bethania chamada Martha, a qual, vendo entrar Jesus em sua casa, se deu pressa em lhe servir a ceia; e comparam a carmelita á Magdalena que, em vez de ajudar Martha nas suas diligencias, lavava e perfumava os pés do divino hospede, enxugando-os com os seus cabellos. Diz porém o Evangelho que Jesus estava á meza quando Magdalena lhe abra?ou e ungiu de lagrimas os pés. N?o ha palavra na rela??o dos apostolos, d'onde possamos colher que é melhor orar pelos famintos do que alimental-os. O contrario é que lá se diz; e quando Jesus nos faz assistir de antem?o ao julgamento do dia final, exclama: tive fome, e vós me alimentastes; tive frio, e me vestistes. A scena de Bethania, e o louvor dado a Magdalena, n?o desluz o claro ensino do Evangelho. Este episodio prova sómente que n?o basta alimentar os pobres, mas que tambem é mister instruil-os como filhos de Deus, os melhores amigos de Jesus, e sua visivel imagem na terra: o que rigorosamente fazem as irm?s da caridade, e n?o fazem as contemplativas.

Chapter 3 No.3

Discurso de uma mulher de sociedade que havia tocado a perfectibilidade theologica

De que serve amar-se a gente n'este mundo? Acaso nascemos uns para os outros?

Somos apenas companheiros de viagem que uma eventualidade ajuntou por momentos, mas que breve se h?o de apartar, e talvez para sempre. Prestemo-nos de passagem alguns servi?os, mas por amor de Deus, sem nos ligarmos reciprocamente. Por que ha de a gente amar-se? Vós que me ouvis, sabeis quem sou? E eu que vos fallo sei quem vós sois? Tendes um ar angelical, ó meu irm?o, mas o interior de vossa alma n?o o vejo; o semblante do homem é enganador; a sua lingua é atrai?oada, as suas proprias virtudes s?o perfidas.

N'este mundo é tudo armadilha e mentira. Que demencia o amar, quando, com certeza, ninguem póde fiar-se d'outrem! Que injusti?a querer um que o amem, quando nem a si mesmo se conhece alguem, e a cada hora se altera o genio, e ninguem póde fiar mais da dura??o de seus sentimentos que da dura??o de sua vida! Viajamos mascarados, só conhecidos de Deus, mas t?o occultos a nós mesmos quanto aos outros. A que propendemos? Mal o sabemos, t?o fluctuante é a nossa raz?o. Se melhor nos conhecessemos, a maior parte de nós se mutuaria rancores; em vez, porém, de se odiarem, os homens se entre-buscam no seio das trevas, attrahidos pelo mysterio que os innubla, e que devêra, se elles fossem discretos, afugental-os uns dos outros.

Ah! n?o nos amemos, n?o nos amemos! Ai d'aquelle que dá seus amores á creatura! Ai dos que se amam sobre a terra! é sombra que abra?a a sombra, é o nada que se une ao nada. Amavel é só o bem: o restante é detestavel. Meu pai, honro-te e sirvo-te, por que vai n'isso um dever meu, e porque podes ser, sem que eu o saiba, um santo; amar-te, porém, n?o posso, porque, se n'este instante morresses, ninguem me certificaria de que Deus te perdoára. Eu devo amar em ti, sómente o bem occulto que ahi póde estar, e o amo em ti como nas outras creaturas, sem predilec??o por alguma; porque esse bem occulto n?o provém d'ellas; e, se em ti existe-o que eu n?o sei, mas muito desejo-n?o procede de ti. N?o te julgo, meu pai. Se eu escutasse o sangue, creio que te amaria até culpado, unicamente porque és meu pai, e eu me lembro de ter dormido em teus bra?os. Mas estes momentos da natureza corrompida já eu venci. Nada me és. Tracto da minha salva??o servindo-te e honorificando-te; mas amar-te seria perder-me, por que amar o homem em si mesmo é amar o peccado. Na outra vida n?o ha maridos, nem esposas, nem paes, nem filhos, nem familia. Pais e filhos, m?es e filhas, irm?os e irm?s ser?o separados no dia do juizo, desatados todos os vinculos. N?o amemos ninguem, ninguem! Já póde ser que o inferno se esteja escancarando para aquelle que amarmos, e quem sabe se nós n?o cahiremos lá tambem empurrados pelo nosso amor? Nada de sentimentos cegos; nada de sentimentos corruptores. A ternura do homem é um disfarce de odio; e mais valera que elle nos odiasse francamente. N?o amemos ninguem! ninguem! Póde ser que por ao pé de nós andem condemnados, cujos nomes ignoramos. N?o amemos alguem, que nos n?o vá sahir algum reprobo.

Sou tua serva, ó meu esposo; servir-te-hei, obedecer-te-hei; e para te agradar o dever me for?ará a cumprir o que me pedires do cora??o, que n?o é teu.

S?o doentes os nossos filhos? Por que te assustas? S?o hospedes que te foram confiados, e que tu deves esperar vêr irem-se ao primeiro aceno de quem t'os mandou. Eu que os trouxe no seio e os criei, vel-os-hei ir, sem lagrimas. Quem sabe onde ir?o quando nos deixarem? Cumpria que lhes vissemos o fundo d'alma para os amarmos. Praza a Deus que elles morram na sua divina gra?a! é o meu mais ardente voto; e, se mais além eu fosse, a minha ternura seria fraqueza. Se elles v?o ao céo, hei de eu chorar-lhe tamanha dita! E se s?o condemnados.... N?o amemos ninguem, ninguem, nem os nossos filhos sequer! Familia temos só uma: é Deus com os seus anjos, e confessores e santos. Tudo mais n?o merece uma lagrima nem um sorriso. Roguemos, por tanto, uns pelos outros, filhos do peccado, mas nada de nos amarmos.

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