O Desgra?a
Entre os typos populares, que pouco a pouco v?o rolando a sepulturas ignoradas, deixando após si o rasto de uma vida sobremodo accidentada de peripecias quasi sempre sombrias-rasto que só um ou outro escriptor se compraz em prucurar desde a cadeia ao degredo, do albergue ao cemiterio-avulta na tradi??o portuense um homem que por longo tempo ahi foi o alvo das assuadas do rapazio e dos chascos dos frequentadores de botequim. Uns chamavam-lhe o José das Desgra?as, outros simplesmente o Desgra?a.
Parece dever inferir-se de t?o lutuosa alcunha que a popula??o da cidade lhe conhecia a biographia exuberante de lastimosos lances. Tal n?o ha. Quando elle passava coxeando arrimado ao seu bord?o, sobra?ada a guitarra inseparavel, de velho chapéo alto amassado, sobrecasaca abotoada, pendente a medalha de prata da guerra peninsular, annel d'ouro na m?o esquerda, na bocca o enorme cigarro que elle proprio manipulava com pontas de charuto, seguido do c?o fiel, que se chamava Junot, por motivos que mais tarde desvelaremos, o gentio das ruas ou sorria alvarmente da pittoresca pobresa do excentrico mendigo, ou rompia em apostrophes de ó Desgra?a! ó Desgra?a! que elle parecia n?o ouvir ou despresar em sua imperturbavel serenidade.{8}
E a popula?a, sem sequer suspeitar da tenebrosa origem do cognomento, quedava-se a ouvil-o, calmadas as arrua?as com que era saudado, quando elle, sentado á porta de um café, especialmente o do Jardim de S. Lazaro, come?ava a tanger melancolicamente a sua guitarra, na qual executava operas completas, queimando o seu enorme rolo de tabaco e contemplando, de cabe?a inclinada, o c?o que parecia escutal-o attentamente...
Depois, quando a m?o caía extenuada sobre as cordas silenciosas, affigurava-se, t?o alheado ficava, que estava rememorando maguas intimas, segredos da sua vida obscura, sem que parecesse dar tento das esmolas que lhe atiravam ao rega?o os que entravam ou saíam a porta do botequim.
ás vezes, como se n?o houvesse conseguido linimentar com a musica as recorda??es dolorosas acordadas no imo peito, voltava a tanger na guitarra uns dulcissimos arpejos que finalmente lhe serenavam a alma tempestuosamente alanceada, chorando por elle, que n?o tinha lagrimas.
Restituido á realidade da sua resignada nobresa, erguia-se firmado no bord?o, sobra?ava a guitarra, e continuava a peregrina??o, vagueando pelas ruas da cidade, sem todavia dirigir-se aos transeuntes e recebendo impassivel os óbolos que jámais solicitava. E o c?o, o leal companheiro de infortunio, seguia egualmente resignado seu dono, e quasi sempre indifferente ás provoca??es do rapazio que se divertia em apedrejal-o e a?ulal-o.
Frequentemente intervinha o Desgra?a amea?ando com o bord?o os perseguidores do seu dedicado companheiro; mas como o inquieto rapazio conhecesse que a velhice lhe desnervava o bra?o, entrava de levantar celeuma atroadora, em que, ainda assim, quasi sempre se distinguiam vozes de ?Morra o Desgra?a e o Junot! Vende o annel e n?o andes a pedir!?
Estranho homem devia de ser esse, que parecia guardar grande mysterio, e tinha por unico amigo, entre uma popula??o inteira, que o apupava, o c?o fiel, e por consola??o unica a sua guitarra, e por unica protec??o a piedade dos seus conterraneos, que elle n?o implorava.
O povo n?o suspeitava sequer que a biographia{9} d'aquelle homem justificasse o appellido. Quando o Desgra?a fazia chorar a guitarra entre os dedos, e o c?o denunciava comprehender a guitarra, como que ligeiramente se commovia a turba acatasolada, mas d'ahi a pouco, quando estrondeavam os apupos, era o c?o o unico espectador que mostrava lêr na physionomia do velho o mysterio de uma vida tormentosa.
Ria a gentalha torpe d'aquella intima convivencia de homem e c?o. E todavia n?o saía d'entre a arraia miuda o mais desgra?ado dos populares a dizer ao pensativo guitarrista: ?O teu c?o sente e n?o fala; eu falarei por elle. Soffres decerto muito e precisas consola??o. Eu sou tambem muito infeliz, muito mais do que tu, porque n?o tenho guitarra nem c?o. Deixa-me pois compartir do teu c?o e da tua guitarra, que eu te darei o que tu n?o tens, dois ouvidos que te escutem, uma voz que te responda.?
N?o. A desgra?a é t?o infeliz, que se ri da desgra?a; é ella que se desauctorisa a si mesma. Só lhe falavam para chasqueal-o, para lhe cuspir na face a zombaria que elle, absorto no seu continuo cogitar, deixava resvalar aos pés.
E todavia aquelle homem era um grande desgra?ado, que só tinha no mundo a sua guitarra, o seu c?o, e as suas recorda??es. O annel, que trazia na m?o esquerda, podia matar-lhe talvez um dia de fome, mas n?o haveria miseria que lh'o arrancasse do dedo, porque as suas recorda??es estavam n'aquelle annel.{10}
* * *
Na quinta das Ch?s
Na noite de 17 de fevereiro de 1809, a morgada viuva da quinta das Ch?s conferenciava gravemente com o seu capell?o n'uma das salas terreas do solar, a duas leguas de Braga, sobranceiro á aldeia de Carvalho d'éste. A morgada, senhora de uns sessenta annos, deixava entrever nas sombras da physionomia a tempestade que lhe agitava a alma; o capell?o, passeando de um para outro lado, enviesava á morgada olhares investigadores, que para logo revelariam perfidia e cupidez.
-é preciso partir, padre capell?o, dizia afflictivamente a morgada. Se os francezes logram atravessar o rio Minho, estar?o brevemente em Braga. A mim pouco me importaria a vida se n?o fosse Augusta, que a esta hora está dormindo na serenidade da sua innocencia. Tomára que chegasse o Teixeira para contar o que se passou. Diga o que disser, padre capell?o, é preciso pensar maduramente. Meu genro fez-me depositária de um thesouro, que eu hoje quero salvar de todos os perigos, custe o que custar, porque se me affigura que já estimo mais Augusta do que aos seus proprios paes, e a seu irm?o. Recebi minha neta aos 5 annos, porque á luz da consciencia conheci que melhor poderia eu sustentar uma crian?a, apesar das hypothecas da minha casa, do que um pobre capit?o do exercito poderia sustentar dois filhos. O padre capell?o administrava as propriedades. Que me restava a mim para n?o morrer de aborrecimento durante o dia? Augusta, a crian?a que me tinha sido confiada. Era ella a minha unica distrac??o, o meu unico amor; ha dez annos que este tecto lhe abriga a innocencia, e ha dez annos que eu aben??o a resolu??o de a chamar para amparo da minha velhice. Olhe que os annos tornam a gente egoista,{11} padre capell?o; a abnega??o é só apanagio da mocidade. N?o pense que me bastava a unica distrac??o do voltarete; é sempre a mesma cousa! Quando eu pe?o licen?a o padre capell?o prefere, e o Teixeira dá-lhe codilho. Tambem é boa embirra??o a sua de preferir sem jogo. Nem que tivesse vontade de fazer mal... E o dia, estes longos dias da provincia, que n?o teem fim! Era morrer de fastio. Augusta trouxe-me cuidados e variedade. A principio com as suas exigencias de crian?a; agora com as suas ingenuidades de donzella. Vi, anno a anno, desabotoar a fl?r. A fl?r, disse bem, porque Augusta é realmente uma rosa... de quinze annos. E é que eu a estimo como seu jardineiro que sou. Instantemente lhe pedi que se deitasse para que n?o ouvisse dizer ao Teixeira as proezas que os senhores francezes teem feito lá para esse rio Minho. Mas, padre capell?o, o que é certo é que eu já haveria partido para o Porto, se n'esta occasi?o estivesse prevenida com recursos. O padre capell?o bem sabe...
-Sei, sei, senhora morgada, que a occasi?o é má para todos.
-Se os caseiros pudessem pagar o resto das rendas...
-A senhora morgada devia conhecer o que é guerra sobre guerra. Tivemos esse excommungado Junot, mais as suas aves de rapina, a comer-nos os olhos da cara. Nem as egrejas respeitou, o maldito! A senhora morgada ainda fala em pedir o resto das rendas aos caseiros! E para quê? Para fugir para o Porto, para casa de seu genro, para abandonar as suas propriedades!
-O padre capell?o velará por ellas. é que eu bem sei os sustos que curti aqui durante a primeira invas?o. Se no Porto n?o estivesse a soldadesca do Taranco, teria fugido para lá.
-E que teima essa de me querer confiar as suas propriedades, capacitado como estou de que a senhora morgada supp?e que lh'as administro mal! Administro mal, administro, porque n?o for?o os caseiros a pagarem o resto das rendas para vossa senhoria o ir gastar no Porto com a familia de seu genro. Depois de uma guerra e em vesperas de outra é que a senhora morgada fala em pagar!
-Pagar é um dever, padre capell?o, e quanto mais{12} nos apressamos a fazer o que devemos tanto maior é o repouso do espirito. Bem sei que s?o más as circumstancias, mas é que tambem esta pobre gente se importa pouco com o calendario, e acha que todo o tempo é tempo. é que tambem n?o imaginam que se esconda a pobresa detraz de pergaminhos e genealogias. Pois esconde, se esconde! Sabe o padre capell?o que eu falei no resto das rendas porque n'esta occasi?o n?o ha dinheiro em casa. Ninguem melhor o sabe, porque lhe passam os negocios pela m?o. O que é certo é que eu sinto amea?os de pobresa...
-Nem tanto ao mar, senhora morgada...
-Se presinto! Vivo modestamente n'estas solitarias Ch?s, encantada nas gra?as d'Augusta, cerrando ouvidos ao bulicio da cidade que está proxima. N?o posso fazer despezas extraordinarias, é preciso n?o largar a brida da m?o para costear as indispensaveis.
-Os chás n?o s?o indispensaveis, senhora morgada...
-Mag?a-me a sua ironia, padre capell?o! Tanto mais que sabe como é limitado o servi?o da nossa mesa de jogo. E depois queria que eu fechasse as minhas portas na face do velho Teixeira, amigo leal da nossa casa desde a mocidade de meu marido? Sabe o padre capell?o como o morgado deixou as propriedades sobrecarregadas de hypothecas. Mal tenho podido rehabilitar o casal, apesar de todas as economias e da maxima absten??o d'obras de beneficencia...
-Maxima absten??o!...
-é injusto, padre capell?o! Refere-se talvez á Augusta... N?o sabe que é filha de minha filha, casada por inclina??o com um honrado militar do exercito portuguez, a quem n?o basta unicamente a sua immaculada honradez para ser feliz! Era-me impossivel soccorrer a m?e; soccorri a filha. Eu n?o podia ir mais longe, sen?o teria ido. Sempre contrariedades! Sempre o padre capell?o a annunciar-me algum novo desastre! Ah! mas d'esta vez creia que n?o haverá desastre nem contrariedade que me véde o tirar dos hombros uma enorme responsabilidade, levando Augusta para a companhia dos seus, e minha tambem, porque ella é minha, e muito minha, pelo sangue e pelo cora??o... Em ultimo caso, recorrerei ao emprestimo...{13}
-Outro?
-é minha filha e meus netos que eu prejudico; o padre capell?o, n?o. Todavia, como é para bem d'elles, elles m'o perdoar?o. O padre capell?o por sua propria m?o recebe os juros das quantias que tem desembol?ado, e creio que as propriedades que conservo fartamente abastar?o ao pagamento do capital, no momento em que queira usar dos seus direitos de crédor.
-Eu n?o quero...
-Deixe-me figurar a peior hypothese, e evidenciar-lhe que lhe n?o causam detrimento os seus desembol?os.
-Falando francamente, senhora morgada, sou a dizer-lhe que o juro é pequeno...
-Augmente-o como lhe apraza. N?o é meu costume questionar cinco réis ao padre capell?o.
-Eu sou t?o pobre como a senhora morgada, tartamudeou o reverendo com um frouxo de tosse que denunciava estar providencialmente entalado com o osso da mentira.
A morgada gesticulou de incredulidade e enfado.
-Eu sou t?o pobre como a senhora morgada, reatou o capell?o ajudando-se a engulir a falsidade com um sorvo de rapé-e é á custa de trabalho que tenho recolhido escassas mealhas ao canto da gaveta. De inverno arrosto as neves da madrugada para saír aos campos a espionar os trabalhadores no interesse de vossa senhoria. No ver?o aguento as calmas do meio dia para os estimular ao trabalho. As horas feriadas de canceiras externas passo-as á banca a fazer a escriptura??o ou no quarto a rezar as minhas ora??es. Tenho envelhecido ao servi?o de vossa senhoria, e o magro peculio do pobre padre ao trabalho o devo. E o mais é que já vou achando ser horas de descan?ar... Vejo porém que n?o seria facil encontrar quem com zelosa dedica??o governasse a casa alheia, e, se me é canceira o dirigil-a a despeito da velhice, tambem me é consola??o o ouvir dizer-me a consciencia que devo trabalhar por n?o ver quem facilmente me substitua. Digam embora o senhor seu genro e a senhora sua filha o que quizerem, e me consta que dizem: a verdade é esta...
-Convenho, padre capell?o, e é por conhecer a sua desinteressada-a morgada deu a esta palavra{14} uma inflex?o sensivelmente ironica-desinteressada dedica??o, que tenho batido á sua porta sempre que a necessidade me obriga a incommodar alguem. Se lhe pedia agora para passar aviso aos caseiros, era porque n?o queria importunal-o com repetidas mercês...
-Nunca me incommodaram as ordens de vossa senhoria, atalhou o padre, curvando-se respeitosamente a meio da sala.
-Eu é que a mim mesma me incommodo com a ideia de incommodal-o, posto que eu n?o seja dos devedores que mais devem aborrecer por egoistas...
-Creio que já tive a honra de dizer á senhora morgada que a occasi?o é má para todos.-E proseguiu mirando ao alvo que elle queria attingir: Era porém grande a quantia que vossa senhoria desejava?
-A sufficiente para me transportar ao Porto com a menina, e para n?o tornar pesada a hospedagem que minha filha haja de dar-me. é preciso partir, padre capell?o, se os francezes n?o forem repellidos na fronteira. Entrar?o por esse Minho dentro furiosos, e eu n?o respondo só pela minha vida, que já pouco vale, mas tambem pela de Augusta, que me foi confiada em deposito. Que valeria a minha presen?a aqui? Os criados fugiriam decerto, e a edade do padre capell?o n?o lhe permittiria defender duas mulheres, ambas timidas, uma porque é velha, e outra porque é nova. Além de maior seguran?a que offerece o Porto, como grande cidade que é, Augusta poderá d'ali seguir melhor a sorte de seu pae e seu irm?o nos combates. N?o estará para aqui anciosa sem receber noticias que a tranquillisem. Aqui, quando ha guerra, apenas se sabe que ha guerra, e mais nada. O padre capell?o offereceu-se para ficar; desappareceram todas as difficuldades. Sem o seu offerecimento eu n?o poderia deixar desamparado o solar de meus avós. Teria de luctar angustiosamente entre o amor d'Augusta e o respeito á memoria de meus paes e meu marido. Se os invasores entrarem, respeitar?o porventura a sua velhice e as suas vestes, padre capell?o, se é que elles respeitam alguma cousa...
O padre capell?o, julgando haver já simulado a precisa resistencia á partida da morgada, apostrophou de golpe:{15}
-Mas, voltando ao caso, senhora morgada, ponhamos os pontos nos i i. Quanto desejava vossa senhoria?
-Eu... cem moedas talvez.
-Cem moedas é muito, senhora morgada, e eu n?o estou prevenido.
-Pois veja o padre capell?o se póde obter essa quantia, que eu cederei a qualquer exigencia de juro.
-Menos de 15 por cento n?o será possivel, senhora morgada...
-Pagarei os 15 por cento; trate o padre capell?o de negociar sem demora as cem moedas.
-Hum! rouquejou o padre. Veremos. Póde ser que se abra alguma porta ao homem honrado que só em grande estreiteza deixa d'abrir a sua. ámanh? falaremos, senhora morgada. Vou fazer as minhas rezas emquanto n?o chega o palrador do Teixeira com noticias dos francezes...
E saíu da sala em direc??o ao seu quarto.
A morgada, vendo-se só, pareceu respirar com sofreguid?o, como o encarcerado que conquista a liberdade e, como elle, pareceu conversar comsigo mesma:
-Que alma de marmore a d'este homem! é um inimigo que tenho de portas a dentro e que conservo porque me n?o permitte o animo nem a edade travar lucta com t?o arteiro contendor, que apara todos os golpes na batina com beatitude irritante.
Depois levantou-se, agitou a campainha, e esperou com os olhos fitos na porta que apparecesse a criada.
-A menina dorme? perguntou.
-Dorme, senhora morgada.
-Accende o candieiro e abre a mesa. Quando bater o sr. Teixeira, manda entrar.
Palavras n?o eram ditas, resoou a aldrava do port?o.
Momentos depois entrava á sala o velho Teixeira, fidalgo retirado das pompas da c?rte por conselho da consciencia que o advertia de que estava a empobrecer d'um dia a outro. N'aquelles tempos que precederam a retirada da familia real para o Brazil, as tenta??es de Lisboa eram tantas, e t?o dispendiosas, que n?o admirava que um cortez?o immolasse a celebradas{16} damarias o seu opulento morgado do Minho. Alguma coisa salvára porém o velho aulico do muito que na c?rte consumira. Trouxera de lá a palaciana compostura que real?a até mesmo na decadencia. Maneiras e palavras, pesadas com fina discre??o, estavam desculpando a cada passo as sombras que por mais d'uma vez denunciavam n?o ser impeccavelmente crystalina a reputa??o das a?afatas da rainha D. Maria I.
Entrou o fidalgo e logo correu a morgada a perguntar-lhe anciosamente:
-Que noticias nos traz vossa senhoria?
-Boas, senhora morgada, se póde haver boas noticias quando a tempestade, que se descondensa n'um ponto, amea?a n'outro.
-Inda bem! inda bem! apostrophou a morgada relanceando um olhar d'alegria á porta do quarto onde estava descan?ando a neta.
O padre capell?o, sem se dar o incommodo de desculpar a ligeireza com que alinhavara as suas ora??es, appareceu mordido de curiosidade.
-E o caso é que pensei que das indaga??es já n?o sobrava tempo para o nosso voltarete!-disse o Teixeira sentando-se a um gesto da morgada.-Venho tarde, e porei por desculpa da demora o bom empenho que tinha em poder satisfazer a justa anciedade de vossa senhoria.
-N?o obstante serem boas as informa??es, supplico-lhe que n?o aggrave as c?res do quadro, dado que entre por ahi de improviso a minha neta, que se recolheu aos seus quartos, por ordem minha, para n?o ser testemunha auricular da narrativa no caso de que fosse lugubre.
-Os francezes foram repellidos heroicamente, disse o fidalgo baixando a voz.
-Vamos a isso! atalhou o padre capell?o fungando uma pitada.
O fidalgo proseguiu:
-Os francezes n?o ousaram metter-se ao Minho, que vae de monte a monte, com a agua que tem caído, por se arreceiarem da cheia. Trouxeram por terra os barcos que puderam obter na Guardia, e puzeram-n'os a nado no Tamuge.
-Que artes teem os malditosl exclamou o capell?o{17} lembrando-se de que n?o haveria thesouro que resistisse á astucia franceza.
-Deixe ouvir... observou a morgada.
-Eram vinte e tantos os barcos, que pretendiam abicar á praia do Camarido. Trez separaram-se, ao descer o rio, e chegando primeiro á praia, os soldados desembarcaram. Os outros barcos tiveram que luctar, e muito, contra a maré que lhes era adversa. Isto durou toda a noite. Só hontem de madrugada foi que o Champalimaud percebeu claramente a tentativa do inimigo, e que mandou fazer fogo de fuzilaria. Um dos barcos foi a pique; outro despeda?ou-o o mar. Os francezes dos trez primeiros barcos refugiaram-se no Camarido. Estes desastres deram alento aos paisanos, que se embarcaram para atacar o inimigo no rio, protegidos pela artilharia da Areia Grossa e da Insua, e pelos soldados do 21. Os francezes, contrariados pela correnteza das aguas e pela resistencia dos nossos, retrocederam para a margem direita do Minho, desesperando d'atravessal-o. Ent?o bateram os nossos a matta do Camarido, encontrando dentro mais de trinta francezes, um dos quaes consta ser capit?o e haver declarado o nome do general em chefe de todo o exercito. Chama-se Soult o general...
-Elles tambem escolhem-n'os pelos nomes! interrompeu o padre para quem toda a prosodia era difficil, incluindo a latina e a... portugueza.
-Os paisanos, segundo se dizia em Braga, fizeram proezas, continuou placidamente o fidalgo. Até as mulheres acudiram com fouces ro?adouras e forcados.
-Nunca as m?os lhes d?am... observou impudentemente o capell?o
-Pelo meio dia atacaram os francezes Villa Nova da Cerveira, sendo ainda repellidos brilhantemente pelos nossos, tropa e povo. Mas, senhora morgada, o que mais dava que falar era a coragem de trez rapazes de Valen?a, que se arrojaram a ir encravar um morteiro, que os francezes tratavam de assestar contra a pra?a. Isto é o que se sabe desde manh?; o que já se terá passado pertence a Deus e aos que est?o em armas.
-Mas que lhe parece a vossa senhoria: entrar?o ou n?o entrar?o? perguntou a morgada.{18}
-Para que nos havemos de illudir com mentirosas esperan?as? Os invasores s?o poderosos e por mais d'uma parte poder?o entrar, ao passo que os nossos, divididos para guarnecerem as fronteiras, perdem muito de sua for?a n'essa mesma divis?o.
-Com que ent?o n?o se fala por ora em guerra! disse de improviso a morgada ouvindo abrir a porta do quarto d'Augusta.
O fidalgo já n?o teve tempo de responder porque sentiu na sala os passos da menina.
-Ent?o n?o ha guerra? exclamou Augusta com graciosa innocencia.
-N?o ha, n?o ha, respondeu amavelmente o fidalgo; a n?o ser a do nosso voltarete.
E continuou, convidando a morgada a sentar-se:
-Permitta-me vossa senhoria, senhora morgada que eu continue a assestar a bateria dos codilhos contra a muralha de preferencias do nosso reverendo. Ent?o, padre capell?o, quer sentar-se?... Em que estava pensando t?o absorto?
-Estava pensando que se n?o puderem entrar pelo litoral, poder?o entrar por Chaves, porque o castello está desmantelado, disse o capell?o com a maxima impudencia ou com a maxima velhacaria.
-O quê?! perguntaram todos a um tempo, incluindo Augusta, que pareceu fulminada de raio.
-Ah! sim... isto é quando elles entrarem. Vamos lá fazer a partida.{19}
* * *
Pomba que presente sangue
A morgada das Ch?s passou agitadamente essa noite, e do inquieto cogitar na solid?o do seu quarto resultou levantar-se decidida a partir n'esse dia com a neta.
O padre capell?o negociou as cem moedas... comsigo mesmo, dizendo que as obtivera d'um proprietario mediante o desconto dos juros d'um semestre adiantado.
Partiu a morgada, de manh?, para o Porto, acompanhada por Augusta, depois de haver entregado as chaves da sua casa ao capell?o, que tinha nos labios um sorriso de alvar alegria. Tambem a morgada estava radiosa do duplo jubilo de poder respirar desopprimida da sombra d'aquelle homem, e de ir collocar sob o amparo paternal a neta querida do seu cora??o. Nas faces d'Augusta havia egualmente um reflexo d'intimo contentamento, n?o só porque a aproximavam dos paes, mas porque a levavam para os bra?os do irm?o, a quem ternamente estremecia, e com o qual permutava cartas diarias perfumadas das mais suaves fragrancias do amor de familia.
A menina contava quinze annos, como já sabemos; o irm?o, que se chamava José Maria, tinha dezeseis. Estas duas crean?as eram filhas do capit?o do exercito Gra?a Strech, que em 1809 morava á rua nova do Almada[2]. O appellido Strech inculca á primeira vista procedencia estrangeira, e realmente é d'origem germanica. O pae do capit?o Gra?a, allem?o de nascimento, f?ra capit?o de navios, e tivera por ultimo um modesto estabelecimento commercial em Cima do Muro. Os dois filhos de Gra?a Strech nasceram porem á rua Direita, na casa que divide a rua de Santo Ildefonso da rua de Santo André, e onde elle morára durante os annos de 1793 e 1794.
Augusta era tudo o que se póde imaginar de graciosamente feminil na época em que nos é dado conhecel-a. O pintor que quizesse retratal-a facilmente lan?aria á tela os cabellos loiros, naturalmente annelados; os olhos d'um azul suavissimo como os mais formosos horizontes; as faces d'uma brancura levemente rosada; a estatura mignonne,-tudo quanto póde haver de mais correcto e d?ce em figura de mulher. Mas a difficuldade estaria seguramente em reproduzir no retrato a meiga morbidez dos lirios que se abrem ao desabrochar da manh?. E n'ella brotava a mulher das gra?as da crean?a, como um lirio á luz da aurora.
José Maria era uma organisa??o inteiramente opposta á de sua irm?. Dir-se-ia que ella havia nascido para rosa, e elle para roble; ella para succumbir, e elle para luctar. Desenhavam-se no seu corpo de dezeseis annos os contornos athleticos d'um spartano. Olhos vivos, e pretos como os cabellos; talhe esbelto, maneiras sacudidas e ageis. Pois que elle era a for?a e Augusta a brandura, affigurava-se providencial essa disparidade de constitui??es, e até de genios, para que a fl?r pudesse ser protegida pela sombra do roble.
Quando a morgada das Ch?s chegou ao Porto, entrou-se de profundo arrependimento por ter feito vingar a sua resolu??o. Em casa da familia Strech era grande a tristeza. O pae e o irm?o[3] estavam no exercito, e portanto a tristeza provinha da anciedade com que o azar dos combates alvoro?a sempre as familias dos militares.
-Eu trouxe Augusta, dizia a morgada, chorando, á filha, para que, se houvesse de correr perigos, n?o ficasse o meu cora??o atormentado de medonha responsabilidade; porque mais facilmente saberia aqui noticias do pae e do irm?o do que nas Ch?s; e porque{21} finalmente o Porto offerecia maiores garantias e seguran?a do que qualquer outra terra.
De feito, a cidade do Porto era julgada inexpugnavel, e a ella se acolhera grande parte da popula??o do Minho, á medida que os acontecimentos da guerra se iam desdobrando.
Tratemos de saber quaes foram.
Os francezes, impossibilitados de seguir o caminho do litoral, que lhes tinha sido ordenado, marcharam para Traz-os-Montes no proposito de entrar em Portugal pelo valle do Tamega. No dia 8 de mar?o estavam as avan?adas francezas á vista de Chaves, que no dia 10 foi sitiada, rendendo-se no dia 12. O marechal Soult, vendo-se impossibilitado de guardar os prisioneiros, despediu as milicias e as ordenan?as, que estavam dentro da pra?a, depois de lhes exigir juramento de que nunca mais pegariam em armas. As pra?as da tropa de linha convidou-as a bandearem-se no seu exercito; ellas unanimemente aceitaram com o proposito de desertar, como aconteceu.
O sonho de Soult era tomar o Porto, e para o realisar tinha nada menos que dois caminhos: o que vae a Villa Real e o que vae a Braga. O marechal preferiu o segundo, por ser o menos accidentado. Chegado que fosse a Braga, só encontraria no caminho do Porto a difficuldade da passagem do Ave em Santo Thyrso. Seguiu, pois, o exercito francez para as alturas de Barroso no dia 14. O general Bernardim Freire d'Andrade, tendo noticia de que os piquetes francezes escaramu?avam na Portella de Avado e em Villarelho da Raia com as avan?adas do general Silveira, commandadas pelo coronel Magalh?es Pizarro, tomou desde logo todas as medidas possiveis para salvar o Porto, repartindo as suas pequenas for?as por Salamonde, Ruiv?es, Salto e Ponte do Cavez, guarnecendo a raia, e mandando occupar Amarante o brigadeiro Victoria, a cujas ordens militavam o capit?o Gra?a Strech e seu filho.
No dia 15 foi Freire de Andrade insultado pela popula??o de S. Gens, quando voltava de visitar os postos entre Braga e Ruiv?es. O fim a que avisava o general portuguez era retardar a marcha do inimigo sobre Braga, quanto lhe fosse possivel, para dar tempo a que d'aquella cidade saíssem para a defeza do Porto as muni??es e o laboratorio. Depois de haver{22} expedido ordem ao brigadeiro Victoria para se internar no Porto, recolheu-se Freire d'Andrade no dia 17 a Braga, encontrando por todo o caminho vestigios da grandissima exalta??o popular, que se levantára mal que soou a noticia da aproxima??o dos francezes. Dado o signal de rebate, o povo do Minho saíu em turbamulta a esperar o inimigo em Carvalho d'éste, e outros logares convisinhos, armado de chu?os, fouces ro?adouras, e mais instrumentos proprios do seu uso.
Em Carvalho d'éste houve brodio geral, constante de p?o e vinho, a expensas d'alguns particulares patriotas, o que n?o obstou a que um dos membros da sordida junta de seguran?a apresentasse o rol das despezas. Procedendo-se a uma collecta geral, que foi voluntariamente paga, ficou o povo duplamente esfomeado, porque a contribui??o parece que só aproveitou á junta de seguran?a.
Avisinharam-se, finalmente, os francezes da cidade de Braga, e conhecendo Freire d'Andrade, no dia 17 em que ali entrou, que era impossivel qualquer defeza, mandou retirar pela estrada do Porto, resolvido a embargar denodadamente o passo ao inimigo n'essa marcha.
Todavia o povo, suppondo-o traidor por n?o se haver empenhado em ac??o geral com os invasores, saíu-lhe ao encontro em Carapoa, e já ahi seria morto se lhe n?o valesse Antonio Berardo da Silva, commandante de uma brigada de ordenan?as.
Removido o inesperado perigo, seguiu o general seu caminho, mas encontrando-o as ordenan?as de Tabosa, prenderam-n'o e conduziram-n'o a Braga, onde, chegado que foi é pris?o do Aljube, a popula?a desenfreada o arremessou pelas escadas abaixo, acabando de matal-o ás chu?adas.
Subsequentemente foram tambem immolados á sanha popular, em Braga, o quartel-mestre general de Bernardim Freire, Custodio Gomes Villas Boas, o corregedor da cidade, Bernardo José de Passos, e outros; e em Santo Thyrso, D. Jo?o Correa de Sá e Manoel Ferreira Sarmento.
No mesmo dia da morte do general Bernardim Freire de Andrade tomavam os francezes posi??o em frente de Carvalho d'éste, sendo repellidos no primeiro ataque.{23}
O bar?o d'Eben commandava as nossas tropas, com as quaes se havia bandeado a gente das aldeias convisinhas. Entre a popula?a contavam-se os criados da quinta das Ch?s que desampararam o padre capell?o, sempre prompto a castigal-os, e odiado por elles.
Pelas onze horas da noite chegaram, para refor?ar o posto, a legi?o de Salamonde e duas companhias do regimento de Vianna. Soldados e povo estavam famelicos. Durante a noite um magote de populares, engrossado pelos criados da morgada, bateu ao port?o da quinta. Ao primeiro chamamento n?o respondeu ninguem; ao segundo assomou a uma das janellas a cabe?a silicosa do padre capell?o.
-P?o e vinho! gritou a turba.
-N?o está cá a senhora morgada, tartamudeou o reverendo.
-é o mesmo; abra a porta, contestou o gentio.
Como porém a impaciencia da turba fosse muita, a popula?a metteu a porta dentro a tempo que o padre atravessava o pateo de lampe?o em punho.
Um dos populares vibrou-lhe uma chu?ada que o prostrou, e logo outro, que era criado da casa, acrescentou:-Vamos á burra do padreca; no que f?r da senhora morgada n?o se toca.
No dia seguinte atacou o inimigo novamente Carvalho d'éste, e no dia 20 voltou ao ataque, apparecendo em grande for?a.
Parece que a Providencia havia aconselhado a morgada das Ch?s a fugir de um ponto onde a lucta foi mais renhida, porque, posto que os populares a respeitassem, o inimigo caiu no dia 20 em forte columna sobre Carvalho d'éste, empenhando-se ataque geral, e sendo desesperada a posi??o dos nossos, que fugiram em grande confus?o, acossados muito de perto pela cavallaria franceza.
No pateo da quinta das Ch?s tinham os nossos quinze barris de polvora que, n?o podendo ser salvos, por estar muito proximo o inimigo, foram incendiados por ordem do bar?o d'Eben, perecendo oito homens na execu??o d'esse servi?o.[4] As chammas, enleiando-se pelos alpendres encostados ao edificio, acabaram por envolvel-o, e, horas depois dos francezes{24} entrarem em Braga, e a tempo que o povo enfuriado matava os presos encarcerados no Aljube, ardia, chammejando como fornalha enorme, o solar das Ch?s, a duas leguas de distancia da cidade invadida.
A noticia da tomada de Braga só se soube no Porto no dia 22, quer dizer, quarenta e oito horas depois.
Havia dias que o brigadeiro Victoria se tinha internado n'esta ultima cidade com as suas for?as, por ordem do agora fallecido Bernardim Freire de Andrade. Como já sabemos, o capit?o Gra?a Strech e seu filho militavam ás ordens deste brigadeiro. Portanto, teve Augusta occasi?o de abra?ar o irm?o e o pae, que procuraram serenar com palavras de carinho e conforto os receios do angustiado cora??o da menina.
A morgada, quando soube que os francezes tinham rompido por Carvalho d'éste sobre Braga, apesar de ignorar os pormenores da lucta, a morte do capell?o e o incendio do solar, agradeceu ao anjo da guarda a inspira??o da resolu??o tomada.
N'esse mesmo dia foi o Porto theatro de lastimosas scenas.
Conhecida a derrota de Braga, dirigiu-se a popula?a á cadeia da Rela??o, reclamando a entrega dos presos da Inconfidencia, e arrancando para fóra dos muros do carcere o brigadeiro Luiz d'Oliveira e mais quatorze infelizes, que foram arrastados pelas ruas até Villa Nova de Gaya, d'onde a gentalha ensanguentada os precipitou, do Caes da Bica, á corrente do Douro, por haverem sido condemnados á morte pelo tribunal popular constituido na Porta do Olival.
Só o bispo, D. Antonio José de Castro, poderia, por muito respeitado que era, conter a furia dos cannibaes das ruas, mas, provavelmente para n?o incorrer no desagrado da canalha contrariando-lhe os brutaes instinctos, deixou-a espostejar á vontade os presos da Inconfiencia.
Sua excellencia reverendissima é que se n?o arriscou a ser conceituado de jacobino.
Quando a turba descia com os presos a cal?ada dos Clerigos, ouvia-se na rua Nova do Almada a celeuma das victimas e dos algozes.
Augusta, tremula de horror, acolheu-se nos bracos do irm?o, que obtivera licen?a para sair por alguns{25} momentos do seu posto na linha de defesa, e poz as m?os supplicando a Deus que a tirasse do mundo onde os homens se estavam despeda?ando como feras no sert?o.
Só as caricias de José Maria lograram aquietal-a, quando a vozeria soava mais longe, porque já a multid?o havia enveredado pela rua das Flores, caminho da Ribeira.
A m?e e a avó pareciam agonisar abra?adas em estreito amplexo.
O marechal Soult, senhor de Braga, podia recuperar as suas communica??es com Tuy ou marchar sobre o Porto, mas, como era natural, attenta a importancia d'esta cidade e a fama das suas riquezas, optou pelo segundo dos caminhos a tomar, porque melhor realisaria assim o seu sonho de conquistador.
Ou?amos o sr. Soriano historiando o roteiro que o marechal Soult seguiu de Braga ao Porto: ?Deixando portanto em Braga a divis?o do general Heudelet, para lhe defender a rectaguarda contra as incurs?es do general portuguez, José Antonio Botelho de Sousa e Vasconcellos, que commandava as for?as da divis?o da raia, entre os rios Lima e Minho, dividiu o seu exercito em trez columnas, a primeira marchou pela estrada de Guimar?es a S. Justo, com ordem de for?ar a passagem do Ave de Cima e occupar o campo do lado de Pombeiro; a segunda, commandada pelo proprio Soult em pessoa, marchou logo direita á Barca da Trofa; e a terceira, deixando Barcellos, para onde de Braga tinha sido mandada, tomou a estrada da ponte do Ave. A passagem d'este rio foi fortemente disputada pelos portuguezes, sendo a columna da esquerda obrigada a bater-se renhidamente em Guimar?es, Pombeiro, Negrellos, e sobretudo n'este ultimo ponto, onde morreu o bravo general Jardon, cuja falta muito sentida foi pela totalidade do exercito inimigo. A marcha da columna do centro foi interrompida na Barca da Trofa, por se ter n'ella cortado a ponte do Ave; mas Soult, vendo o grande cumulo das nossas for?as ali, for?ou a passagem em S. Justo, ganhando a margem opposta. Desde ent?o facil lhe foi a columna da direita fazer o mesmo, ficando assim vencida a passagem do Ave em todos os pontos, e portanto aberto inteiramente o caminho em direitura para a cidade do Porto, a{26} cujos entrincheiramentos o exercito francez chegou no dia 27 de mar?o.?
Na tarde d'esse mesmo dia a guarda avan?ada do inimigo, acampado em S. Mamede de Infesta, adeantou-se até um quarto de legua das baterias do Porto.
Ouviu-se na cidade o fogo indicativo da aproxima??o dos francezes. Para logo se espalhou o terror, n?o obstante terem sido organisados alguns elementos de resistencia.
As familias que tinham os seus empenhados nas linhas de defeza, afflictivamente receiavam os perigos de uma grande catastrophe, pois que ainda quando a lucta fosse coroada pela victoria, havia de interp?r-se aos primeiros combates e aos louros do triumpho um mar de sangue portuguez.
Que dolorosa commo??o n?o seria a de Augusta, que torturado soffrer nas vascas da anciedade n?o seria o seu, ao ouvir estrondear á distancia o fogo que os invasores assestavam contra as linhas de defeza, onde combatiam o pae e o irm?o! Aquellas trez mulheres, a avó, a m?e e a filha, ajoelhadas deante de uma imagem de Nossa Senhora, cerrando convulsamente os olhos a cada detona??o longinqua, dir-se-iam outros tantos authómatos, empedrados pelo terror, se n?o f?ra o ciciar dos labios e o abrir e fechar nervoso das palpebras.
Sabem como baloi?a a haste do lirio, quando o sopro calido da tempestade proxima passa esfuziando por entre a folhagem das plantas que lhe offereciam resguardo?
Tal era Augusta, lirio vasado em moldes de mulher, entre os dois cora??es amigos, o da avó e o da m?e, que já n?o podiam garantir-lhe protec??o.
Conhecera o marechal Soult que era má a fortifica??o da cidade e má a guarni??o, e expediu no dia 28 um emissario propondo capitula??o. O emissario, para se n?o arriscar á morte, serviu-se de um ardil de guerra e disse-se incumbido de negociar a entrega do exercito francez mediante condi??es favoraveis.
Entrou o bispo em negocia??o, cuja má fé, por parte dos invasores, estava manifesta na circumstancia de continuar a ser intenso o ataque durante todo o dia.
N'essa tarde ouviu-se subitamente grande celeuma{27} nas ruas. Recresceu a anciedade no presupposto de serem as avan?adas francezas.
A morgada das Ch?s teve a coragem precisa para se aproximar da vidra?a, e viu um militar francez rodeado de grande turba de populares que gritavam enfuriadamente: ?Morra o Maneta! Morra!?
Adivinhou-lhe o cora??o que era um emissario, que provavelmente ia á bateria de S. Francisco a parlamentar com o bispo. Quasi defronte das janellas, como augmentassem as vozes de: Morra Loison, morra o Maneta, o militar francez levantou ambos os bra?os para desfazer o equivoco. N?o obstante, a popula?a arremettia contra o cavallo em que elle vinha montado, e a celeuma rugia temerosamente.
A morgada correu a abra?ar a filha e a neta, ajoelharam orando fervorosamente, e longo tempo supplicaram que um raio da Providencia illuminasse o cora??o do povo, para que á desgra?a da invas?o n?o sobreviesse a furia da represalia.
O emissario francez n?o era effectivamente o general Loison, mas o general Foy; com blandicias e amea?as, escriptas por Soult, vinha prop?r a rendi??o, que foi recusada.
Com este acontecimento fechou a tarde do dia 28 tempestuosa e triste, como se o céo compartisse do luto da terra. ás detona??es do trov?o respondiam as detona??es da artilharia.{28}
[2] Chamava-se ent?o rua Nova, porque o celebre governador da cidade. Francisco d'Almada e Mendon?a, fallecido em 1804, tinha transformado a antiga rua das Hortas n'esta nova rua, que tomou o seu nome.
[3] Por decreto de 11 de dezembro de 1808 toda a na??o foi obrigada a pegar em armas.
[4] Este facto consta do relatorio do proprio bar?o.
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