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Miniaturas Romanticas

Miniaturas Romanticas

Author: : S. de Magalh?es Lima
Genre: Literature
Miniaturas Romanticas by S. de Magalh?es Lima

Chapter 1 No.1

?Como Amelia era formosa! que bondade a sua! que terna express?o a do seu rosto angelico; e, que sentimento! que grandeza d'alma!...

?Como n?o eram radiosos aquelles sonhos da loura crian?a, que á noite ia segredar á brisa os seus amores sentidos, em infantil rubor!...

?Oh!... e que meiguice n?o era a sua, espalhando t?o docemente o aroma de seus argenteos cabellos á vira??o perfumada da tarde, e despertando, ao longe, os echos da solid?o com o brando dedilhar da sua harpa portentosa!...

?Phantasma cruel, que, por tanto tempo, me alimentaste o porvir grandioso das minhas aspira??es ephemeras! Sombra implacavel d'um destino fallaz! Effigie derradeira d'uma chimera inutil! Espectro medonho da medonha existencia! Mulher! anjo! demonio! tudo emfim!...

?Porém, n?o!... renas?a uma cren?a, ao menos! reviva a fé, em nossos cora??es! dissipem-se as negruras da vida, e surja a aurora boreal d'um futuro certo, e de uma verdade eterna!...

Nestes termos apaixonados fallava o venerando presbytero, Francisco de Castro, ao seu affectuoso amigo, Alberto de Carvalhal, quando um raio furtivo do sol, penetrando de soslaio por entre a coma dos pinheiraes, que se erguiam altivos lá no cume das montanhas, os veio despertar do inebriante gozo e suavissimo prazer, em que, desde longas horas, se haviam esquecido dois amigos desditosos, profundamente adormecidos nos bra?os d'uma saudade infinda.

O pescador deixara a choupana, que lhe era consola??o extrema nas horas de afflictivos transes e doloroso penar, para ir estender a rede na praia mais proxima!

Ao longe ouvia-se a voz rouquenha e estridula do gondoleiro, accordando aos echos da sua alma o doce nome da amante ditosa, que, em terra, por elle velava, dia e noite.

O astro do dia, erguendo-se phantasticamente das salsas, escumosas ondas em que parecera mergulhado, havia desfeito as obscuras brumas, que lhe empanavam o brilho, espargindo sua luz etherea pelo espa?o infinito.

Tudo rejuvenescia, ao seu halito bemfazejo!

A planta, modesta e grata, elevava para o céu a corolla de feiticeiro encanto, gottejando compassadamente a ambrosia celeste de suas elegantes petalas, matizadas d'ouro e prata.

Rejubilava o passarinho no ramo frondente, pipitando a medo um eterno canto de amor e saudade.

A abelha, com a cabe?a esmaltada de pedras e diamantes, as azas variegadas como o iris, encetava sua laboriosa tarefa, sorvendo diligentemente o succo da nectaria, que junto lhe acenava.

Neste comenos, Francisco de Castro enla?ou seu bra?o direito pelo corpo do idolatrado amigo, convidando-o fraternalmente a retirar-se para casa.

--Vamos, meu bom amigo,--dizia elle,--recolhamo-nos ao meu humilde presbyterio, e lá lhe contarei ent?o, mais desafogadamente, os lances da minha existencia, se a tibieza do meu espirito tanto m'o permittir, e, antes d'isso, n?o afrouxar.

Chapter 2 No.2

Francisco de Castro era natural de Aveiro. Filho de paes indigentes, e de baixa condi??o, a sua juventude deslisara, naturalmente, por entre o vegetar monótono d'aquella cidade, sem outro incentivo que n?o fosse a salutar influencia de algum parente mais proximo, ou o conselho leal e franco de algum amigo intimo.

Chegado, porém, que foi á edade da raz?o, os seus sentimentos abriram-se-lhe em sensa??es suaves n'um porvir radiante, e despertaram n'elle um prurido irresistivel de ir em cata de melhores horisontes por esse mundo além.

Com este intuito, pois, deixou o nosso provinciano a terra da infancia, antecipadamente recommendado, e sobejamente abonado por um commendador, seu padrinho, com destino para os portos do Brasil.

Que saudades se lhe n?o avivaram na mente, ao ver-se longe da patria e dos seus! que pavor n?o affrontou com o rugir da procella, e horrores do naufragio no alto mar! elle, que jámais havia ultrapassado os estreitos limites da sua terra natal! mas tambem, com que deleite, com que profunda emo??o, n?o mirava elle, por noites calmosas, o manto do firmamento azul, magestosamente recamado de estrellas, que se lhe desenhavam por cima da sua fronte! e o sereno marulhar das vagas, quebrando-se de mansinho no dorso da fragil embarca??o! e aquelle continuo acastellar de nuvens, debuxando t?o ridentes e phantasticas figuras por sobre a vastid?o dos mares!...

Como elle sonhava, ent?o!... Como se deixava arrastar t?o docemente pelos mundos ethereos de ignota phantasia, julgando ter já encontrado o almejado thesouro que ao longe lhe sorria! regressando rico e feliz ao solo natalicio, e vendo já os seus, agrupados em torno de si, beijando-o alegremente! E, comtudo, como foi diversa a realidade!...

Francisco de Castro desembarcára no Rio de Janeiro a 30 de mar?o de 1849. Procurando saber immediatamente onde era a rua Direita, ahi se dirigiu, sem mais delonga, aos srs. Costa Pereira & C.a, ricos proprietarios d'uma casa commercial, e correspondentes de seu padrinho n'aquella cidade.

Tanto que foram entregues as cartas, que devidamente o recommendavam, appareceu um caixeiro convidando-o a entrar, e, apertando-lhe fraternalmente a m?o, como signal evidente de futura e benevola camaradagem.

D'aqui foi o nosso provinciano levado á presen?a d'um dos donos do estabelecimento, que o interrogou minuciosamente ácerca da sua vida passada, animando-o amigavelmente a entrar no escabroso labutar d'aquelle labyrintho commercial, e acolhendo-o para logo em sua casa, consoante a praxe de ha muito estabelecida n'aquelle paiz.

Eis aqui, pois, como Francisco de Castro se iniciou na vida activa do commercio, desejoso, sem duvida, de trabalhar, quanto o comportassem as suas for?as, e esfor?ando-se o mais possivel por grangear, dentro de pouco, os meios de subsistencia necessarios para prover decentemente ás necessidades de sua familia, que tanto o havia mister.

A fortuna foi-lhe, porém, adversa. Cahiu, quando menos o julgava, e cahiu, para nunca mais se levantar.

Repugnava lhe á sua indole, em extremo ardente, o vêr-se um dia inteiro acorrentado a um balc?o, n?o mirando a outro horisonte, que n?o fosse o sedi?o positivismo do--Deve--e Ha de haver.

Can?ado já d'aquelle pandemonio tumultuoso de gelo e de cifras, intentava uma ou outra vez espairecer os olhos lassos de fadiga e semsaboria, levantando um olhar modesto e casto para uma casa fronteira, em cuja janella voejava brandamente uma andorinha gentil.

Foi isto mais que sufficiente para elle ser despedido, ao cabo de alguns mezes, da residencia, onde t?o familiarmente havia sido acolhido, logo após a sua chegada.

Assim vagueou incerto, por alguns mezes, bemquisto por uns, odiado por outros, sustentando, a cada passo, uma lucta ingente e dolorosa comsigo proprio; e regressando, mais tarde, á patria com o vivo remorso de nada haver contribuido para o bem estar de seus paes, e de ter ido, além d'isso, semear a desordem e a confus?o no seio d'uma familia extranha.

Por isso, mingoado de recursos, apenas chegou a Portugal, Francisco de Castro, n?o contando mais de trinta annos de edade, resolveu-se a tomar ordens, expiando, com o sacrificio de seus derradeiros dias, uma mocidade, no parecer de muitos, estouvada e febril, que jámais podera olvidar.

Estava elle, um dia, meditando deliciosamente, á sombra de annoso cedro, recolhendo, na sua debilitada imagina??o, as sombras longinquas d'esta tragedia estupenda, que se passa entre Deus, o homem e o universo, quando um desconhecido, eventualmente, se acercou d'aquelles sitios!

Era Alberto de Carvalhal!

Movido pela profunda tristeza, que subitamente accommettera Francisco de Castro, e pela curiosidade irrequieta de querer sondar os arcanos d'aquella alma formosa, que bem se deixava entrever na sua fronte generosa e ampla, e n'aquelle seu vulto insinuante e nobre, já curvado ao peso d'uma paix?o prematura, e d'um destino atroz, que lhe seccára a seiva da vida, e lhe emmurchecera as flores mais ridentes da sua primavera; Alberto aproximou-se do logar, onde o presbytero se sentára, e prorompeu nos termos seguintes:

--N?o sei se, da minha parte, haveria indiscri??o, em vir quebrar-lhe este momento de goso ineffavel e placida medita??o, accordando-o á triste realidade da vida?! Confio, porém, no perd?o da sua generosidade.

--Bem pelo contrario, meu caro. Um amigo é sempre bemvindo, e, se uma ou outra vez nos apraz a solid?o, é certo que a sua continua??o nos causaria insupportavel tedio. Precisamos d'uma urna depositaria dos nossos segredos; do mesmo modo que a planta carece do orvalho para vicejar e crescer. Sente-se aqui ao meu lado, e assista comigo ao mais pavoroso de todos os espectaculos que só a natureza nos sabe prodigalisar, e que a maioria dos homens, no meio de seu estupido orgulho, olham indifferentes.

Travada, assim, a intimidade entre estes dois cora??es, que á primeira vista pareciam entender-se bem; facil lhe foi, a Alberto de Carvalhal, que Francisco de Castro lhe narrasse circumstanciadamente os tristes episodios de alguns dos seus dias passados.

Com este alvitre pois, enla?ados pela mutua sympathia, aquelles dois amigos encaminharam-se para casa, onde, depois de terem almo?ado jubilosamente, Francisco de Castro, coadjuvado pelo attencioso ardor do seu companheiro, encetou o drama da sua vida com as palavras, que v?o ler-se no seguinte capitulo.

Chapter 3 No.3

?Foi por uma tarde serena de abril. Eu, crian?a ainda, dos meus 13 annos, divagava, triste e solitario pela margem graciosa do meu limpido Vouga, contemplando aquelle espectaculo de mystico enlevo, aquella hora de profundos arr?bos e de gostosa melancholia, em que o Creador mais parece fallar directamente ao cora??o do homem,--quando, inopinadamente, me pareceu ouvir, a poucos passos do logar onde me encontrara, o estalido rapido e secco d'um instrumento metallico.

Em poucos minutos galguei um comoro, que me separava d'aquelle sitio desastroso, encontrando-me face a face com dois personagens, que, muito intencionalmente, tinham escolhido o silencio d'aquella hora para ali virem bater-se n'um duello de morte. Quiz dissuadil-os de similhante proposito: nada consegui.

?Travou-se uma lucta feroz, e, dentro de pouco tempo, um dos adversarios jazia por terra, coberto de pó, e revolvendo-se cruelmente no sangue de suas proprias feridas. Ainda experimentei, uma e muitas vezes, levantar o moribundo, e conduzil-o á primeira guarida, que se me deparasse opportunamente. Tudo foi baldado, porém.

?O outro adversario, apenas viu o contendor prostrado, e sem for?as, abandonou o campo, e fugiu. Que fazer, em tal conjunctura? Eu, só, ali, sem uma pessoa unica, que podesse velar por elle. nem sequer uma gotta d'agua para o refrigerar momentaneamente!!

?Felizmente, meia hora n?o era passada, quando, ao clamor da minha voz, accorreu áquelle logar um trabalhador, que, casualmente, se recolhia a casa. Em poucas palavras, contei-lhe o succedido, convidando-o a que velasse pelo ferido, emquanto eu, a?odado, correria á cidade a dar parte do acontecido.

?E assim foi com effeito. Dei-me pressa em correr á visinha povoa??o. Em vinte minutos estava de volta com dois valentes companheiros para logo o conduzirmos a um logar seguro, como a urgencia do caso nol-o ordenava.

?Sem saber, porém, o nome do individuo, nem t?o pouco a sua procedencia, julguei prudente entregal-o ao cuidado d'um desgra?ado, mas honrado agricultor, que, de bom grado, o acolheu no seio de sua familia, dispensando-lhe todo o desvelo e sollicitude, que sóe sempre encontrar-se no tugurio do pobre.

?O ferimento n?o f?ra mortal. O cirurgi?o assistente, apenas decorrido o primeiro mez, para logo o declarara livre de perigo, concedendo-lhe egualmente a liberdade de dar alguns passeios pelos campos e devezas mais proximas, com o intuito de tornar mais rapida a sua convalescen?a.

?Pouco tempo depois, instaurou-se um processo para proceder a uma averigua??o rigorosa sobre aquelle facto lamentavel. No dia aprazado para esse fim fui obrigado a comparecer na audiencia, como testemunha ocular, que, infelizmente, houvera sido.

?E fui pontual, n'esse dia, apparecendo, sem difficuldade no tribunal, onde pouco depois teria de julgar-se um crime de ha muito reprovado pela moral, e pelo direito. Estava impolluta a minha consciencia, n?o me arguindo de cousa alguma, a n?o ser o ter eu envidado todos os meus esfor?os, posto que inuteis, para salvar um desgra?ado.

?Por isso, quando me chegou a vez de fallar, contei singela e lealmente o que me f?ra licito vêr e presenciar. O juiz figurára-se-me satisfeito com o meu depoimento. A minha má sina, porém, já ent?o me come?ava a perseguir.

?Após alguns momentos de silencio, e geral expecta??o, o réu come?ou a narrar circumstanciadamente tudo o que lhe houvera succedido; vindo eu, finalmente, ao conhecimento de que elle era um mancebo natural de Lisboa, descendente de preclara stirpe, a quem uma paix?o violenta, e uma rivalidade sem limites haviam arruinado physica e moralmente.

?Estavam as cousas neste ponto, quando seus olhos, por acaso, se fixaram na minha humilde pessoa. Parecera-me encontrar n'aquelle olhar o quer que era de satanico e sinistro, que me horrorisou até á medulla dos ossos. E, de feito, n?o me illudi.

?Alguns instantes depois, aquelle individuo, para quem eu f?ra o anjo custodio n'um momento de suprema desventura, apontava-me ao publico como um dos principaes cumplices n'aquelle crime; e asseverando até abertamente ter sido o meu desejo immediato o assassinal-o para lhe roubar o pouco que comsigo trouxera, se, por ventura, um transeunte n?o tivesse ido em seu auxilio, arrancando-o ás minhas m?os.

?D'esta vez a minha indigna??o tocou o seu zenith. Os olhos chispavam-me fogo; o cora??o, afogueado em cholera, batia-me apressado e violento. Quiz fallar, mas n?o pude. A voz prendera-se-me na garganta. Alcei os olhos para o céu, e caí, subitamente accommettido por dolorosa syncope. O que depois d'isto se passou, nem eu o sei, meu amigo.

?Quando, no dia immediato, descerrei as palpebras amortecidas ao astro do dia, encontrei-me isolado, n'uma alcova escura e humida, com uma estreita gelosia apenas, no v?o da parede, por onde se coava, a custo, um tenue raio de luz.

?Por informa??es colhidas posteriormente, concluí ser aquelle o carcere, que, logo após o julgamento, me f?ra predestinado para justa expia??o do meu delicto. Appellei para a ac??o da divina Providencia, e soffri resignado o peso da minha cruz.

?Lembrei-me, ent?o, de minha pobre e santa m?e, ralada de desgosto, de meu excellente pae, de meus pequeninos e innocentes irm?os, emfim, de tudo o que me era caro neste mundo, e chorei... chorei... muito...

Neste ponto, o venerando apostolo de Christo, n?o p?de, por mais tempo, suffocar a sinceridade de seu cora??o. Levantou-se do escabello, em que se havia sentado, com dois fios de grossas lagrimas a deslisarem-lhe brandamente pelas faces macillentas; e, de subito, al?ou a adufa da janella, como se pêso enorme lhe affrontasse a vista. Alberto acompanhou-o n'aquelle movimento convulsivo, auxiliando-o de boa mente a volver as negras paginas do livro fatal da sua vida. Depois, sentaram-se novamente, e Francisco de Castro, fortificado pelas ternas consola??es d'um amigo sincero e bom, continuou, mais alentado, a sua historia até ali encetada.

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