Os doidos
Tudo é alegre, á entrada: flores e arvores. D'ali a nada,-da porta para dentro parece já que passou o outomno por cima da primavera d'aquelle jardim!... Apagam-se as c?res, escurece o céo, ouve-se estalar a casca das arvores... Principiam as physionomias a transtornar-se; já os olhos n?o s?o outra cousa{6} sen?o buracos luzidios; cavam-se as faces, parecem caretas os sorrisos, n?o teem os gestos significa??o, as fei??es s?o vagas, a fórma tem contornos indecisos; tudo s?o personalidades phantasticas, existencias ficticias; linguagem que n?o se entende; gente estranha, que dá idéa dos habitantes da lua!...
Alguns dan?am, e cantam; e passa a tristeza n'aquella alegria, e transp?em-se effeitos de claro escuro na musica e na voz delles, envolvendo-lhes a idéa como n'um crepusculo!... Parece que se est?o avistando ali as vis?es de Swedenborg, aquelles espiritos do ar que conversavam uns com os outros e que se entendiam pelo piscar dos{7} olhos... Como essas taes conversas no fundo das nuvens, assim é desusado e insolito quanto por lá se ouve!
ás vezes chega a parecer-nos que é natural tudo aquillo; que o ser como nós somos e portar-se como nos portamos-é ser affectado, é ser pedante; que assim como na natureza tanto ha sensitivas como ha cevada e centeio, assim deve haver nas creaturas sentimentos complexos que a linguagem vulgar n?o poderia dar; que s?o elles quem tem juizo; melhor do que juizo, talento: a finura, o guindado, a quinta essencia do espirito; que em nós ha simplesmente mudan?a de conven??es; que elles est?o mais perto do{8} estado natural; que tudo vae da maneira de ver as cousas e de as julgar; da opini?o dos homens e do genio e moda dos tempos; que tambem o amor já foi outro quando inspirava as filhas dos patriarchas a dar de beber aos pastores; e depois, na Illiada, quando levava Helena ao leito nupcial de Páris; na Grecia, crean?a a quem ensinavam gracinhas anacreonticas; ébrio, nas orgias de Roma; na idade media, fada, estrella, anjo; mais tarde tendo azas como os desejos; e sendo hoje um casamento commercial, um dote de noiva, cem contos de réis em inscrip??es!...
Assim chega a pensar-se ali, que a vida, que é um entrudo, tambem{9} varíe de mascaras, de modas, de elegancia e de fallas; e que o estylo dos pobresinhos doidos, comquanto diverso do dos tempos em que vamos de tanto tino e conceito, seja talvez mais subtil, mais colorido, e mais exacto!...
Ha ali, hoje, quinhentos e onze d'esses infelizes; duzentas e cincoenta e sete mulheres, duzentos e cincoenta e quatro homens; tres crean?as idiotas. Quando o marechal Saldanha fundou este hospital em 1850 o numero dos alienados era de trezentos; ultimamente tem crescido por fórma que foi preciso augmental-o, acrescentar um pavimento, e annexar o edificio de recolhidas na travessa de S. Bernardino, onde v?o{10} pernoitar cem dos tranquillos e invalidos. Ha pensionistas e indigentes. Os pensionistas dividem-se em quatro classes: e pagam, conforme as commodidades e o numero de enfermeiros que requerem, 800 réis, 480 réis, ou 240 réis por dia, tendo os seus quartos em reparti??o separada; os da 1.a, 2.a e 3.a no mesmo pavimento; os da 4.a em sala commum.
Os doentes entram ali por ordem da auctoridade publica, ou a requerimento de particular,-com attestado do medico, auto de investiga??o, e, se s?o pobres, certid?o do parocho,-e ficam quinze dias em observa??o; findos elles, ou a doen?a n?o se verifica e s?o immediatamente{11} despedidos, ou, verificada a aliena??o, colloca-se o doente na reparti??o que o director lhe destina, e segue o tratamento.
O tratamento! Isto é,-o estudo, a observa??o constante, as experiencias, mil tentativas, o diligenciar permanente de chamar á raz?o e ao sentimento das cousas aquellas pobres cabe?as can?adas de sonhos, de lutas, de prazer ás vezes, de amarguras, de esperan?as, de enganos!... Vêl-os como medico, como philosopho, e como moralista,-unica maneira de poder assenhorear-se-lhe dos segredos. S?o doidos; mas de onde provém cada uma d'aquellas loucuras,-a de um, que nunca perde a pista do caracter{12} que tem, e em tudo que diz e no que faz vae de accordo sempre com a sua mania; a do outro que n?o póde juntar idéas; a d'aquelle, que conserva a lembran?a do que fez durante os accessos, e pede depois desculpa brandamente, humildemente; a d'este, que perdeu de todo a memoria; a d'aquell'outro, que a conserva de tudo, excepto de logares, ou de datas!?
Ah! é preciso vêl-os, por aquelles corredores interminaveis e singularmente alegres, em que a luz entra por todos os lados, e a cada passo por alguma janella se avistam campos e se descobre a cidade; é preciso vêl-os nos vae-vens de uma carreira e de uma fallacia,{13} que n?o can?a nunca, para um lado, para o outro, d'aqui, d'além, accionando, gritando, fallando-este a si mesmo, aquelle a ninguem, um á parede, outro ao céo!... Reis, sabios, escriptores, millionarios, todas as ambi??es, todos os orgulhos, todas as preoccupa??es, todas as vaidades. Lá vi um poeta; mostrou-me os seus ultimos versos, que se intitulam:
?Elogio
á ex.ma sr.a D. L. de S. F.
no dia natalicio de seu nascimento
dividido em tres partes.
Passado, presente e futuro.?
Um jornalista deu-me o programma do seu jornal novo:{14}
?Grande globo
do
Grande enredo
Jornal das mentiras purificadas
e saidas do funil
estampadas calligraphicamente em
papel, respeitando
as dignissimas auctoridades.?
Alguns têem grande habilidade, habilidade util e séria, s?o pintores, trabalham nas officinas, e fazem os differentes servi?os do hospital, dos banhos, e da quinta. á entrada, entre o gabinete do director e a secretaria, está logo a primeira aptid?o aproveitada,-o continuo, que é um doido! Leva papeis, traz papeis,{15} dá recados; está ali a toda a hora, desempenha perfeitamente, e n?o ganha nada.-Que li??o... a continuos!...
Por isso, quando se chega ali e a gente o vê, aquelle curioso porteiro, homem forte e sizudo, com o seu fatinho de briche,-todo grave, cortez, benevolo-n?o deixa de vir á idéa que, se lhe der na vineta, elle póde abrir a porta para se entrar... e n?o a querer abrir depois para se sair; e vae uma pessoa lembrando-se mesmo sem querer do caso do carvoeiro... O carvoeiro tinha lá ido para tratar de negocio, e foi entrando por ali dentro até o apanhar um guarda que o tomou por hospede novo, a{16} quem se devia dar um banho, como é costume quando para ali entram.
-Vamos ao banho, vamos! dizia o guarda.
-Qual banho?! retorquia o carvoeiro pasmado.
-é muito bom. Para se ficar limpinho. Vá, vá!
-Num quero, dizia o carvoeiro. Leba de xalaxas! Nunca tomei banhos na minha bida! Arreda para lá!
-é uma ceremonia, replicava o guarda; só uma ceremonia. é optimo para a saude, e de grande aceio.
O carvoeiro, como viu que instavam tanto, consentiu por fim em tomar o seu banhosito n'uma d'aquellas{17} magnificas tinas de marmore, admirado ao mesmo tempo de tantas atten??es que tinham com elle n'este estabelecimento do estado.
Vestiu-se depois outra vez, muito fresco, e quiz sair. Mas, sair querem elles todos e n?o se ouve por lá outra cousa.
-ámanh?, disse-lhe o guarda.
-ámanh?!?! redarguiu o homem.
-Sim proseguiu o guarda! habituado áquellas exigencias e provido sempre de paciencia e de fallas d?ces para se entender com os enfermos. ámanh?, quando o sr. director passar a visita, provavelmente dá-lhe alta, e vae vocemecê passear.{18}
-Paxar a bixita! uivou o carvoeiro. Eu n'um estou doido, démo!
E ahi se zangava, e ahi gritava, e quanto mais se agitava mais o tomavam pelo... que n?o era,-até que chegou o fiscal que esclareceu o caso e o mandou para a rua, mudado tambem-como aquelles seus compatriotas do po?o, de quem já de uma vez contei a historia,-porque tambem tinha... lavado a cara!
A casa é triste; n?o poderia deixar de sêl-o, porque a imagina??o vê sempre em Rilhafolles o lasciate ogni speranza, um beco sem saida, o mais fatal dos carceres, e cuida sempre ouvir os gritos dos furiosos e o chicote dos enfermeiros... Entretanto{19} ella é o menos triste que uma casa d'essas póde ser, pelas condi??es especiaes em que está collocada, o ar e a luz, e tambem pela dedica??o notavel do director o sr. Guilherme Abranches, e pela escrupulosa diligencia dos empregados. é preciso ver com que methodo, com que bondade affavel, com que resignado carinho s?o ali tratados aquelles infelizes; conhecem-o quasi todos elles, dizem-o, disseram-m'o a mim uns poucos.
E todavia que balburdia, que capharnaum! Em todo o comprimento de um corredor gira impaciente um ambicioso que quer ser deputado, que se prop?e em todas as legislaturas, e anda constantemente{20} a ensaiar discursos.-Um, que nos diz que é coronel, e d'ali a nada que é marechal, e um instante depois que é elle o proprio marechal Saldanha, conta-nos os seus feitos d'armas da vespera e do dia.-Um piloto da barra, que entrou esta semana, mergulha nas lembran?as do mar e cae n'uma melancolia profunda.-Um, que foi porteiro do sr. bar?o de Santos, conta como foi que endoideceu, e é a verdade: indo a Loures enterrar junto de uma arvore duzentos mil réis de economias, e achando-se depois roubado.-Um mo?o, filho de gente pobre, entretem-se em cobrir cart?es do chamado jogo da gloria, e manda ao pae o dinheiro que ganha{21} n'isso. Um mathematico, bom latinista, que tem o curso do seminario de Santarem, enche o quarto de papelada e a papelada de calculos:-?Diga-me, pergunta-lhe o director, o senhor já prégava lá no seminario??-?Pois está visto, responde elle; como prégo aqui; a mesma coisa.?-Um, alegre e risonho, philosopho sem o cuidar, cora??o que ainda n?o saiu da infancia, nascido para ser alvo de qualquer ajuntamento, mostra-nos por uma janella os campos, os cabe?os virentes, os seus palacios, e algum particular gracioso e ainda n?o observado d'aquelles sitios que todos lhe pertencem.-Outro vae-se comsigo só pousar a um canto.-O famoso{22} Bertholo do Cadaval, que uma noite com uma faca na m?o poz em susto a villa inteira, conserva-se de collete de for?as, pallido e sinistro, com vontade sempre de matar alguem.
E riem-se uns dos outros; e uns dos outros me dizem ao ouvido de passagem, quando me vêem tomar apontamentos:
-N?o fa?a caso, n?o escreva o que elles dizem; s?o doidos!...{23}
As doidas
N'um comprido corredor com quartos de um lado e outro encontram-se primeiro as que ainda têem alguem n'este mundo; as que n?o est?o abandonadas de todo pela sorte á hediondez da sua desgra?a, e a quem a familia, ou algum parente, paga o quarto em que vivem. Essas s?o as felizes; ainda têem lá{24} de vez em quando quem as visite, quem lhes leve algum presentinho, quem lhes dê um dinheirito qualquer para apetites-comprar marmelada quasi sempre. S?o as felizes, essas; s?o as fidalgas,-as fidalgas de Rilhafolles!...
Passam n'aquelle corredor enorme-que o espectaculo monstruoso d'ellas torna maior ainda, correndo; umas gritando, apostrophando, outras fallando ás enfermeiras, outras encolhendo-se de receio ao vel-as, entrando nos quartos, saindo, entrando, dirigindo a palavra ás visitas ou passando-lhes ao lado orgulhosamente, desdenhosamente.
Esta, olha para nós com serenidade e indifferen?a, e parece dizer{25} com a vista que tudo é sempre o mesmo n'este mundo e que n?o ha ver n'elle nada de novo-grito melancholico, que tem atravessado as edades; idéa triste e fria.
Aquella, que viveu de um sonho e encadeiou todos os seus desejos a uma chimera,-cora??o ardente, alma profunda e vasta para quem o amor foi tudo,-odeia os homens, indigna-se, enfurece-se em os vendo, e mergulha nas sombras escuras da loucura, nos abysmos tenebrosos da sua idéa fixa, como se procurasse de cada vez segredos novos que a tornem senhora das for?as ignoradas da natureza e lhe dêem voz e mando no mundo dos espiritos.{26}
Essa, d'ali, conta uma historia. Uma historinha galante. Gostou de alguem. é mo?a e bonita; o alguem era bonito e mo?o. Até aqui tudo é risonho, e ella sorri. Depois, veem as nuvens; quizeram affastal-a d'elle, para a levar a outro; o outro era um senhor: o alguem n?o tinha outra riqueza sen?o ella gostar d'elle; o outro era poderoso, o alguem era ninguem; casaram-a com o outro. E o resto? O resto n?o quer ella dizel-o; e é como se o haja deitado ao mar n'uma d'aquellas caixinhas,-t?o fechadas que ninguem as podia abrir,-que os pescadores das Mil e uma noites achavam ás vezes e de que sahia fumo escuro pelas fendas!{27}
A d'além, n'aquelle quarto, estirada sobre um colx?o: levantando-se, deitando-se, vindo á porta, estorcendo-se, caindo prostrada: reerguendo-se mais sonhadora, mais desejosa da felicidade e da vida, pensando no amor, sempre no amor e nas venturas ineffaveis: rasgando-se, compondo-se, suspirando, anceiando, é uma mulata; tem duzentos contos de réis de fortuna. N'um dos seus quartos ha um piano, onde vi outras tocando, em quanto ella arredada de tudo e de todos estava entregue apenas á sua inquieta phantasia. é uma mulher esbelta, opulenta de fórmas, lembrando as feiticeiras do Oriente; uma d'essas organisa??es colossaes{28} como as que a terra produzia quando era nova e que absorviam em si umas poucas de existencias!...
As enfermeiras tratam de a tranquillisar, quando observam que com o ver visitas principie a agitar-se; encostam mais a porta do quarto: e continuam caminhando gravemente, com o seu ar impenetravel; impenetravel ao ponto de se estar sempre em duvida ao ver o olhar vago d'ellas se tambem ser?o...-se as doentes tambem ser?o enfermeiras?
V?o andando de chave na m?o, e apresentam ao director uma ou outra doente que precise ser examinada. Em geral teem ar de boas creaturas essas empregadas, e corrigem{29} um pouco pela sua presen?a a impress?o penosa que se experimenta ao atravessar aquelle triste captiveiro.
As doidas cercam-as, pucham por ellas, pedem-lhes para alcan?ar do director ordem de saida: que já é tempo, que é de mais, que n?o podem já...
-ámanh?! respondem ellas sempre. ámanh?.
E as pobres doidas ficam-se sorrindo áquella palavra:-ámanh?!
Uma, aqui, sem fazer caso do delirio que vae em roda d'ella n?o faz sen?o costurar; coser, coser, coser; e gritam, e pulam, e dan?am, e ralham, e atropelam-a, e ella vae costurando, cosendo, cosendo, tranquillamente,{30} prudentemente, como se f?ra o sol no meio da noite, a ac??o no meio da idéa, a ras?o no meio da loucura!
Outra falla sósinha, e ri. De que está a fallar sempre? De que está sempre a rir? Está a rir das coisas, e a fallar de um certo, por causa de quem veiu a observar que a maior parte dos amantes ficariam contrariados com o possuir para sempre e sem partilhas o objecto da sua adora??o; e que, se se dirigem mais homenagens ás casadas do que ás solteiras, é porque o marido é um obstaculo que ninguem supprime, e dá, por isso mesmo, a melhor latitude a protestos de dedica??o. Está á janella a olhar para os campos{31} e a farejar tormenta em tudo-no voejar dos passaros, na pressa das formigas... Queixa-se de ter conhecido a vida, á sua custa;-a peor maneira de conhecer as coisas. ás vezes n?o é segura, e quando se exalta vae dando bofetadas em quem apanha; previnem-me disto.
Ai! a tafula! a tafula! Lá armou o seu chapeu com bocados de chita e papel de todas as c?res; duas rolhas, uma penna de rama, e o badalo da campainha. é a catita! é a janota! Pobre e desgra?ada elegante, que tem a mania das modas, préga uma saia ao meio da outra para figurar vestido de cauda grande, quer ver-se nos espelhos,{32} quer que a achem galante, que a admirem, que digam nos jornaes que estava deliciosa no baile de tal, que tambem deu uma soirée onde estava a primeira sociedade, que a sua toilette era primorosa, que está já em vesperas de partir para o campo, que toda a Lisboa vae ficar saudosa d'ella... E conversa comnosco, e dá ao leque, e coqueteia, e mostra-nos as pulseiras, os anneis fingidos, a sombrinha improvisada; e toda se requebra, e comp?e a manga, e pucha a camisinha, e, cuidando ás vezes que se está dan?ando os Lanceiros, faz-nos a cortezia.
Uma menina, que deve ter vinte annos, apparece á porta de um{33} quarto onde est?o algumas mais tranquillas a costurar e a fazer crochet. Olha para mim fixamente e como esperando que eu lhe falle. O director vendo isso, pergunta-lhe se me conhece.
-Parece-me que conhe?o, responde ella.
O director diz-lhe o meu nome.
-é isso mesmo; já vi o retrato n'um livro.
é da Ericeira, esta menina; muitas das leitoras se lembram talvez d'ella, e toda a gente que ali tem ido a banhos lhe conheceu o pae,-o chamado Ericeira, o capit?o Ericeira, que morreu ha poucos mezes. Nos fins do ultimo outomno procurou-me uma manh? um homem{34} baixo, vermelho, atochado, de cabe?a grande, sobrancelhas fartas, perna curta, tronco forte, especie de Han de Islandia em velho; trazia uma carta do meu amigo Augusto Tallone, que m'o apresentava dizendo que por ter lido um folhetim meu a respeito da Ericeira elle quizera conhecer-me;-era o pobre capit?o. Conversámos um pouco de tempo; elle fallava com difficuldade. Agradeci-lhe o favor da sua visita e despedimo-nos até o ver?o, na idéa de que eu fosse á Ericeira este anno; morreu tres mezes depois, coitado, e agora fui encontrar a filha em Rilhafolles!...
A pobre menina tem um parecer agradavel; n?o alegre, mas suave{35} e resignado. As poucas coisas que disse ao director nada tinham de tresvariado nem de demente; o aspecto mesmo é natural, assim no olhar como nos modos. Tem por entretenimento a mania de fazer versos, e cedeu-me uns que estava compondo e que lhe pedi; s?o versos certos, euphonicos, mas em que n?o se percebe nunca a idéa e em que as palavras baralham tudo:
Amei, infanta e leda como a aurora
Dos sonhos d'esse infante adormecido;
Ao rei o teu gemido, o teu trovar,
Ao throno o teu sondar encanecido.
Harpejo d'alma, lhana, feiticeira,
Gotejo em teu rollar mil alegrias,
E colho em cada nota que desfiro
Insomnias do porvir, crueis magias.{36}
Felizmente ellas n?o teem a consciencia da miseria humana que as esmaga; e v?o vivendo, vivendo até chegarem a velhas, algumas.
A que, de todas, me produziu mais viva impress?o foi uma formosa rapariga que n?o quer fallar, e que tem levado a teima por diante atravez de todas as diligencias. Estava n'uma das salas, agachada a um canto; parecendo n?o reparar no que se passava em redor d'ella, de olhos no ch?o, com a cabe?a encostada ás m?os, ar de recolhimento profundo e invencivel. é o primeiro exemplo de mutismo por teima que tenho visto; e irreflectidamente, insensivelmente, disse-lhe n?o sei o quê na esperan?a de que{37} ella responderia. O director, que se prestou com a mais amavel paciencia a todas as minhas curiosidades, disse-lhe:
-Vamos; levante-se; est?o fallando comsigo!
Ella poz-se de pé. é uma rapariga alta, bem feita, de cabe?a lindissima, a mais bonita cabe?a de mulher que se póde vêr, brilhante, inspirada, olhos grandes e melancholicos resguardados por longas pestanas, cabello negro e farto, fei??es accentuadas, express?o dominadora; certa gra?a aspera; o que quer que seja de ca?a brava; a bellesa crua, como fructa verde; uma formosura dos montes e das serras, ardente e pittoresca!{38}
Teem sido baldadas quantas tentativas se teem feito para alcan?ar d'ella que se resolva a fallar. Ultimamente o director recorreu aos banhos fortes; e havia já conseguido, na vespera exactamente do dia em que lá estive, que, ao sobresaltar-se com o calor da agua, ella dissesse: ?Ai Jesus?! Taes s?o as duas unicas palavras que essa pobre creatura tem dado desde que ha uns poucos de mezes para ali entrou; um ?ai?, e o nome por excellencia, o nome divino, que diz todas as agonias e todas as esperan?as, emblema da humanidade e symbolo de todos os emblemas que a alumiam: = Jesus!...
Havia já tres horas que andavamos{39} por aquelles corredores e por aquellas salas; e, ao descer uma das escadas, suppondo que iamos sair n?o pude deixar de dizer ao sr. dr. Abranches:
-Emfim!
Mas o director sorriu-se, e retrocou:
-Falta-lhe ver os idiotas.{40}
{41}
Os idiotas
Por mais seguro que se esteja de si e dos outros; por mais vaidosa confian?a que uma pessoa tenha no seu juizo, e na lealdade dos empregados de Rilhafolles,-é inevitavel o olhar, de quando em quando, como que receioso, para aquelles guardas que fazem o favor de{42} nos formar sequito, com um molho de chaves na m?o.
Têem cara de bons, devem ser optimos, propensos a affectos benignos, e dotados de inexhaurivel fonte de branduras-estou persuadido; mas d?o ás vezes um geito ao corpo, e de outras vezes olham-se entre si como piscando os olhos, com um modo natural, naturalissimo de certo, bem sei, mas que o sentimento febril de terror-que invencivelmente se apodera de quem ali se encontra, sem estar habituado a ir lá-transforma em indicios de uma perfidia atroz!
Quando nos encaminhavamos para ir ver os idiotas, cortámos por uns corredores que se me figuraram{43} mais escuros, e descemos por uma escada tortuosa, um pouco sinistra, que levava tempo a descer, e dava tempo a pensar,-um diacho de escada que acordava idéas phantasticas de corredores talhados em penedias, paredes com hyerogliphicos e prociss?es pintadas, quartos, com po?os e ganchorras, para ir dar a outros quartos de onde desemboquem outros corredores, mosqueados de gavi?es e serpentes;-lendas de pedra que só os doidos entendam bem, mas que nos dêem a pensar a nós que tambem póde succeder o ficarmos lá...
Eu olhava de esguelha para o director, e chegava a parecer-me ás vezes que me olhava elle tambem{44} de soslaio. é o terror, horror, pavor, de Rilhafolles. Sentimento especial que só ha ali, que só ali se conhece. Lembra-me aquelle-caso de um sujeito, a quem o dr. Pulido no tempo em que foi director d'este hospital convidou de uma occasi?o a jantar dizendo-lhe que lhe havia de mostrar os doidos.
-Nunca viste? perguntava-lhe o doutor.
-N?o, nunca vi.
-Pois has de ver. é curioso.
Pozeram-se á mesa em companhia de dois doidinhos socegados, pessoas finas que estavam recolhidas em Rilhafolles havia pouco tempo.
O sujeito olhava para elles pouco{45} á vontade, pensando de si para si no nadinha imperceptivel que separa a raz?o da loucura...
Depois, por acaso, perguntou ao dr. Pulido como é que costumava fazer para levar para ali os enfermos. O dr. Pulido fixou-o com o olhar um pouco vago que tinha, bem devem lembrar-se d'isto os que o conheceram-e que parecia de alguma maneira ser o reflexo do olhar dos doentes, e respondeu:
-N?o custa nada. Em sendo pessoas de certa classe, a familia pede-me para ir vel-as, convidam-se a jantar, veem sem desconfian?a, e, t?o depressa cá as apanho, em ellas querendo ir-se embora já acham as portas fechadas.{46}
O outro ouviu isto cobrindo-se de suores frios, e acudiu-lhe a idéa de que aquelle convite tambem fosse um la?o. á sobremesa puchou pelo relogio, pediu desculpa de n?o se poder demorar, levantou-se á pressa, despediu-se, e ao chegar ao pateo largou a correr.
é que, além do estonteamento em que se fica ao vêr aquelles desgra?ados, ha uma vertigem peor ainda-é a que resulta de os ouvir.
Quando chegámos ao pateo dos idiotas, estavam acocorados quasi todos elles como as gallinhas no choco, pasmadinhos para o muro, ou fazendo riscos na terra com o dedo. N?o lhes importa ar puro,{47} nem horisonte; que o terreno seja vasto ou n?o seja, que haja verdura ou n?o, que estejam presos ou livres, para elles é o mesmo. Fincam os cotovellos nos joelhos, encostam a cara ás m?os, e v?o dando á cabe?a como os bonecos da feira, n'um movimento sempre igual.
Ha lá uns patetas, que quasi toda a gente conhece por andarem no servi?o dos banhos,-um sobretudo, que é popularissimo, o que tem voz de tiple-mas esses s?o a conta d'aquella missanga; a nata, a flor dos idiotas!... Preparam os banhos com a maior diligencia, s?o modelos de cortezia benevola, perguntam com affectuoso interesse {48} se a gente gosta da agoa sobre o quente, recommendam, com agrado que captiva, que se toque a campainha em querendo que elles appare?am de novo, e estacam de bocca aberta em avistando o bello sexo! Ah! esses s?o os idiotas tafues, os idiotas como se quer. N?o servem para muito; mas, bem aproveitados, até podiam servir para se encostar ás esquinas pelo Chiado fóra, ou espécar ás portas das salas nos bailes,-como janotas!
O tal que tem voz de tiple, toca flauta. Toca flauta, e é um melomano de n?o se parar com elle. Em se lhe fallando de gostar de musica, redargue logo:
-Se gosto de musica! Mas eu{49} como musica, senhor, musica é que eu como!...
E ahi tira da flauta, e com uma ancia de sopro capaz de fazer virar faluas, larga a tocar coisas incalculaveis.
Mas isso s?o idiotas á maneira do que manda o diccionario da lingua portugueza de Fonseca-?Idiota, adj. es. de 2 g. ignorante, sem estudos.? E disse. A natureza, porém, vae um pouco mais longe do que o diccionario; e a pobre creatura humana recua atterrada na presen?a de uma aluvi?o de desgra?ados que ha em Rilhafolles, n?o como o da flauta, que falla e toca, mas dos que n?o fallam: n?o pensam: n?o ouvem: chiam, guincham,{50} riem, e babam-se. Esses s?o um pouco mais do que ignorante e sem estudos, e a gente ao vel-os tem vontade de segurar a cabe?a, fragil como aquelle vaso de cristal a cujos manes Heliogabalo levantou um mausoleu para eternisar a memoria das ebriedades que lhe devia,-tal é o medo que se sente de que ella estale e se quebre como a ta?a do Cesar idolatra,-com a differen?a de que estes manes, que s?o as idéas e as paix?es, em se caindo em idiota... n?o voltariam nunca mais!...
Est?o para ali, no pateo; uns, passivos, fixos, sem sensa??es, parados e quietos, como o soldado na guarita, olhando no direito do{51} nariz, capazes de ficar encostados á parede o dia todo...
Outros, agachados, conchegando o peito e as pernas, olhando sem saber para onde, nem se perceber para o quê; existencia vasia; vida sem drama; o horror sem lances.
Um, está gordo. Testa de um dedo de largura, cara de pau, pan?udo, bonacheir?o,-certo ar de paspalhice, immobilidade de figura decorativa.
Este, sentado no ch?o, junta um montinho de folhas, e depois disp?e-as a seu modo em carreirinhos: mas, se succede desmandarem-se-lhe, faz como a Sibylla de Cumas, que em o vento lh'as espalhando tirava dali o sentido. Depois, vergando{52} a cabe?a, fica a olhar para ellas...
Já estiveram alguma vez ao pé de uma cova aberta no cemiterio? Chega a parecer que os cadaveres s?o as almas dos tumulos, e que o sepulchro é que morre em n?o tendo ossos dentro.
Tambem com os idiotas, quando a gente olha para elles, pergunta o que será feito do que devia ter havido dentro d'aquellas cabe?as, e parece que elles é que n?o existem já.
N?o se lhes falla: que poderia dizer-se-lhes, se o da flauta é o formica leo d'aquelle pateo horrivel? se elles percebem mal os gestos, e alguns n?o ouvem? se o destino{53} os seccou como o sol secca os regueiros!...
Lembram o cortejo de Momo. Anda-lhes o corpo a cavallo nas pernas; teem cabe?a de quem viu bicho; esgroviados: sorrir bruto: dando sempre aos hombros: uma especie, nos modos, do perfil de uma bengalla com cast?o figurando um saguí; voz difficil; meio gagos: o que quer que seja de um palha?o morto!...
Um, perdeu de todo a memoria, depois de um ataque de congest?o cerebral; e está para ali sem dar accordo de si. Tratam-o como ás crean?as; recommendam-lhe que n?o metta os dedos no nariz, e que n?o ande de joelhos pelo ch?o para{54} n?o estragar as cal?as. Elle ouve, e esquece-se.
Alguns mastigam palavras, as mesmas palavras sempre, muito contentes, a rir sosinhos...
A macaca apparece aos pulos. Conhecem-a todos por este nome. N?o tem outro. Quando a mandam chamar, diz-se: ?Chamem a macaca?; os guardas acenam-lhe e dizem-lhe:-?Anda cá, macaca!? Ella vem. Toda a gente que foi alguma vez a Rilhafolles nos ultimos annos a conhece. Entrou para ali no dia 5 de setembro de 1855. Tinha nove annos. Entrava no mundo pela peior das portas,-pela porta de Rilhafolles. Era enfesada, cabecinha aguda, orelhas grandes, ar bestial;{55} ali lhe tem crescido o corpo, ha dezeseis annos. N?o pede de comer, nem lhe importa isso. Diz-lhe o instincto que a natureza e a sociedade lhe devem um prato de sopas no jantar de cada dia e espera que lh'o v?o metter na boca. Quando v?o dar-lh'as, come-as,-sem cuidado e sem agradecimento. Agradecimento de quê? Quem imagina que o ar no dia de ámanh? já n?o seja respiravel, e que o sol nunca mais torne a sair? O mesmo se dá para ella com as sopas. é abrir a bocca, e lá lhe ir?o parar. Está gorda, agora, com os seus vinte e quatro annos. O director diz que está magnifica; e queria que eu lhe apalpasse a cabe?a para vêr{56} até que ponto é molle. Consideram geralmente lá em Rilhafolles que ella está muito bem; saudavel e feliz. E dahi,-talvez! Pobre macaca! Desraizada do mundo, e plantada na vida como uma cebola de jacintho na agua!...
Passam ali a sua vida, no pateo, e quando olham uns para os outros-n?o sei se se vêem. Toda a gente faz alguma coisa, elles n?o fazem nada; toda a gente pensa alguma coisa, elles n?o pensam em coisa alguma; até os animaes teem memoria, e lembram-se de quem lhes faz mal, de quem lhes faz festas, conhecem as pessoas com quem teem vivido:-elles n?o se lembram nem conhecem ninguem. Uma aranha é{57} mais do que elles! a aranha arranja a teia, elles n?o arranjam nada!... De fóra d'aquella casa, anda ahi pela cidade o espirito, a religi?o, a politica, a honra, o crime, as desordens da turba: elles n?o sabem nada d'isso; est?o exilados no mundo, e ouvem apenas cortando os ares os gritos bravios dos furiosos!{58}
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