N?o é meu intento tra?ar a historia d'este ramo de litteratura. Direi, todavia, que d'aquelle modo continuou o romance, em todos os tempos, e sob todas as fórmas, a reproduzir em si, com mais ou menos naturalidade e viveza de c?res, as mudan?as que se v?o operando nas idêas e nos costumes.
D'est'arte se revestiu das fórmas classicas, quando, sob a influencia dos sabios e dos artistas, foragidos de Constantinopla, ao desmoronar do imperio do Oriente, se operou nas letras, nas artes, e no proprio viver da sociedade, a grande revolu??o denominada renascen?a, a qual foi inspirar-se nas obras grandiosas da antiga Grecia.
Do mesmo modo assumiu o romance a gravidade philosophica, quando Voltaire, Rousseau, e outros grandes pensadores do seculo passado, proclamando verdades, que faziam estremecer em seus thronos os monarchas despoticos, convidavam os estadistas a meditarem nos problemas sociaes, cuja semente assim lan?avam á terra; e excitavam os povos a reflectir na significa??o e importancia dos direitos do homem.
Assim o romance se tornou historico, logo que a sociedade, sentindo o mal estar de uma organisa??o que os progressos da civilisa??o iam fazendo caducar, recorria ao passado, como que procurando nos archivos da historia o elixir para se rejuvenescer; isto é, estudando nas antigas sociedades as fórmas governativas, que mais lhe quadrariam sob a revolu??o que se preparava.
Quando, em nossos dias, a applica??o do vapor á locomo??o e ás machinas industriaes, bem como a telegraphia electrica, pondo em facil e rapida communica??o todos os povos do globo, estabeleceram novas condi??es de existencia social, que h?o de operar for?osamente, em maior ou menor espa?o de tempo, uma transforma??o completa, n?o só no modo de viver, mas tambem na organisa??o da sociedade; quando a atten??o dos homens pensadores come?ava a fixar-se na grande revolu??o prevista, e a meditar nos difficeis problemas que ella em breve deveria offerecer á resolu??o dos philosophos e dos estadistas; quando a atten??o geral dos povos, desapegada das tradi??es do passado, se absorvia inteiramente na contempla??o do presente, admirando as maravilhas do progresso, anciando saciar-se dos gosos, que elle gera com m?o fecunda e prodiga, o romance, deixando tambem em repouso os archivos da historia, come?ou a inspirar-se nas scenas da vida actual. E ao passo que retratava a sociedade, dando colorido e relevo a cada uma das suas fei??es, lan?ava á arena da discuss?o as novas e grandes quest?es sociaes.
Porém, partindo do mesmo ponto, movidos por egual impulso, os romancistas contemporaneos, que se dedicaram a descrever os costumes e praticas da actualidade, dividiram-se em duas turmas, seguindo caminho differente. Uns, impellidos por uma idêa elevada e generosa, pintaram com c?res negras, mas verdadeiras, todas as angustias e miserias da sociedade moderna, estudando-lhes as causas, apontando os perigos futuros, fazendo avultar os defeitos e defficiencias das institui??es; chamando, em fim, a solicitude dos poderes publicos para o horrivel cancro, que vae corroendo o corpo social. á frente d'estes illustrados romancistas colocára-se Eugenio Sue.
Infelizmente, muitos discipulos d'esta eschola, esquecendo ou despresando os intuitos philosophicos do mestre, trataram sómente de deleitar; e reconhecendo as tendencias do seculo para os gosos sensuaes, e para os grandes sobresaltos do espirito e do cora??o, puzeram em ac??o todas as paix?es violentas, e todos os instinctos ferozes da humanidade. Compozeram d'est'arte, é bem certo, quadros grandiosos, cheios de vida e de anima??o, scintilantes de fogo e de energia, em que se succedem uns aos outros os episodios dramaticos, e as scenas tragicas. Mas, atravez das galas da poesia, com que os adornaram, e sob o brilho seductor dos ouropeis com que se esfor?am por atenuar, sen?o santificar, a hidiondez de torpezas e devassid?es repugnantes, transparece o virus da corrup??o da alma, ministrado em ta?a de ouro á mocidade inexperiente e ávida de commo??es fortes.
A outra turma de romancistas tem trilhado mais nobre senda, no desempenho de uma miss?o civilisadora e santa.
Os seus romances n?o deslumbrar?o, talvez, o espirito com o esplendor das imagens; n?o o sobresaltar?o com a rapida success?o de casos extraordinarios; n?o subjugam a raz?o, nem exp?em o cora??o a contínuo tremor com o longo encadeamento de commo??es violentas.
Como o prado, que, sob o sol da primavera, se veste de verdores, que vae matisando pouco a pouco de flores singelas, mas rescendendo de suaves aromas, resplandecentes e encantadoras pela viveza e variedade das c?res; e que no inverno troca as alegrias em tristezas, as galas em miseria, para outra vez folgar e enriquecer-se sob o novo sceptro de Flora; assim nas produc??es d'estes romancistas alternam-se as scenas meigas e suaves da familia com os tristes acasos da sorte, com as tribula??es da desventura, emfim, com as tempestades da vida. N'estes quadros avultam tambem os contrastes, como na natureza; os toques de luz e de sombra, colhidos nas vicissitudes da fortuna e no tumultuar das paix?es. Figuram ahi alguns dos vicios e crimes, que s?o no mundo moral a imagem das for?as destruidoras no mundo physico. Mas apresentam-se, n?o com o semblante vellado, embora por véo transparente, que mal deixa distinguir-lhes a fealdade; n?o com as fei??es embellesadas e disfar?adas com arrebiques e lou?ainhas, que fascinem e lhes conciliem as sympathias das almas ingenuas e credulas, mas sim taes quaes s?o, na sua completa nudez, em toda a sua asquerosa deformidade.
Finalmente, d'esta lucta entre o bem e o mal, figurada n'estes romances, sáe a virtude ou o arrependimento coroado pela felicidade, e o crime ou o vicio punido pela justi?a dos homens, ou pela de Deos, que dos proprios vicios e crimes fez gerar o castigo que os pune na terra.
A esta turma de romancistas, a que pertence a eschola allem?, veiu associar-se uma outra, ainda mais singela e modesta, talvez, mas tambem guiada pelo mesmo impulso generoso de deleitar, moralisando. Comp?e-se esta de um certo numero de auctores de contos e tradi??es populares, entre os quaes occupa logar de honra D. Antonio de Trueba.
Nascido na Biscaya em 1821, uma das provincias da romantica e cavalleirosa Hespanha, t?o original no curso e transforma??es do seu longo viver; nascido na Biscaya, repetimos, onde se tem conservado mais arraigado o respeito ás tradi??es do passado, o amor aos antigos fóros populares, e o apego aos velhos costumes, D. Antonio de Trueba n?o podia eximir-se a essa triplice e poderosa influencia.
Bebendo com o leite aquelle respeito; bafejado desde o ber?o por aquelle amor; preso áquelles costumes pelas mais doces recorda??es da infancia, o seu espirito difficilmente poderia deixar de revoltar-se contra o progresso, que tudo nivela, abatendo o que era grande, e exaltando o que era humilde; contra as idêas do seculo, que mofam das cren?as do passado; que despojam de poesia as tradi??es; que parecem tender a materialisar a vida á for?a de commodidades e gosos, creados para deleite dos sentidos.
Resuscitando, pois, as tradi??es das antigas eras, empenhou-se em fazer reviver, com todo o brilho d'outr'ora, as santas cren?as de seus maiores.
Pondo em parallelo, em alguns dos seus contos populares, os costumes da velha sociedade com os que se v?o modificando e surgindo no meio do desenvolvimento do espirito humano, insurge-se, é certo, contra o progresso, e, apontando para a corrup??o que elle gera e alimenta, deixa expandir-se a sua indigna??o.
Mas, quando se pensa em que o auctor d'esses contos e tradi??es foi creado no remanso e singeleza da vida campestre; quando se considera em que os dias da infancia e da adolescencia se lhe deslisaram tranquillos e alegres no seio da familia, sem que viessem perturbar-lhe o repouso, desvairar-lhe as idêas e corromper-lhe o cora??o, o bulicio das cidades, o tumultuar das paix?es e a seduc??o dos vicios; quando se reflecte em que os verdores, e as suaves harmonias, e os contrastes pittorescos do seu valle natal lhe infundiram n'alma a doce poesia da natureza; e que os carinhos e maximas moraes de uma extremosa m?e e virtuosa perceptora lhe fizeram o espirito meigo, franco, recto e eminentemente religioso; quando se attenta em tudo isto, comprehende-se, acha-se natural, e desculpa-se aquella insurrei??o contra os progressos do seculo.
Qual mimosa sensitiva, que se contráe e desfallece ao simples contacto da m?o indiscreta ou bemfazeja, como se a ferisse duro e trai?oeiro golpe; assim Trueba se confrangiu logo que, transpondo as montanhas do seu pacifico valle, e achando-se de improviso face a face com a sociedade, que desconhecia, viu, como que offuscando o brilho das grandes idêas do progresso, os sentimentos nobres e patrioticos, e as aspira??es elevadas e generosas do cora??o humano, luctando por toda a parte, e quasi sempre vencidas pela ambi??o do poder e das honras, pela cubi?a do ouro, pela sêde dos gosos e dos prazeres, pela fortuna dos mais atrevidos, e pela inveja dos menos felizes. Irritou-se, vendo as conveniencias partidarias e individuaes supplantarem muitas vezes o interesse publico; vendo as leis severas e inexoraveis para com os fracos e desvalidos, e frouxas e flexiveis para com os poderosos ou protegidos; vendo elevaram-se homens, que a falta de merito condemnava á obscuridade, emquanto ficavam esquecidos e occultos, nas sombras da modestia e da humildade, muitos cidad?os dos mais prestantes; ouvindo apregoar maximas e alardear virtudes e servi?os, que os exemplos e os factos desmentiam; indignou-se, reconhecendo no curso da civilisa??o as tendencias do seculo para converter nos gelos da descren?a e do egoismo o ardor da fé, a luz benefica da esperan?a, o fogo santo da abnega??o, do amor do proximo e da patria!
Na confronta??o do presente com o passado o seu juizo n?o podia deixar de ser desfavoravel ao primeiro, porque tudo o que via e ouvia, annuviando-lhe os verdadeiros resplendores do progresso, contrariava as suas idêas e os seus habitos, e derrocava pela base os poeticos e formosos castellos, que phantaseara nos sonhos dourados da adolescencia.
E a sua rapida passagem da estreiteza de apertado valle, segregado por assim dizer, do resto da Hespanha, para a amplid?o dos grandes centros industriaes, para o seio da turbulenta e voluptuosa Madrid, offuscando-lhe a vista, como se sahira de improviso das trevas para a claridade, for?osamente lhe havia de obstar a que visse n'essa anarchia das ideias, n'esse desenfreamento das paix?es, n'essa relaxa??o dos costumes, emfim, n'essa corrup??o moral, que tanto o escandalisavam, as consequencias naturaes da grande e inevitavel revolu??o social, que estamos presenceando.
N?o lhe deixaria attentar em que este acontecimento é o resultado dos maravilhosos descobrimentos do seculo XIX, os quaes acabando com as distancias, pondo em intimas e faceis rela??es todos os povos do globo, e na presen?a uns dos outros todos os cultos religiosos, as locubra??es dos sabios de todo o mundo, todos os productos da terra e da industria humana, haviam de produzir, por effeito de uma for?a irresistivel, o duro embate das velhas idêas e dos interesses á sombra d'ellas creados, com as idêas e interesses, que os progressos humanitarios iam gerando e desenvolvendo. N?o lhe permittiria reconhecer que d'aquelle embate havia de nascer a lucta a todo o transe; da lucta o exacerbamento das paix?es; d'estas o affrouxamento dos vinculos sociaes e dos proprios la?os de familia; e de tudo isto a desordem nas idêas e a corrup??o geral nos costumes.
é este o triste apanagio das revolu??es, que tendem, n?o a derrubar um throno, ou a mudar uma ou outra institui??o, mas sim a assentar em bases inteiramente novas o edificio social. A nossa época é, infelizmente, um d'esses periodos de desmoronamento, e por conseguinte de transi??o, que apparecem de seculos a seculos na historia geral das na??es, como gigantescos e temerosos marcos, erguidos no caminho por onde a Providencia impelle a humanidade, para assignalarem e separarem as grandes phases da civilisa??o.
Portanto essa condemna??o dos progressos do seculo, que apparece em alguns dos contos de Trueba, em ras?o dos motivos que lhe d?o origem, n?o deslustra, antes pelo contrario honra o seu cora??o bondoso e o seu caracter justo e leal. Mas se alguem, mais severo, ou menos attento ao que expendi em seu abono, quizer lan?ar-lhe em rosto as suas opini?es reaccionarias, leve-lhe em conta a belleza dos quadros que tra?a com suavissimo pincel; a singelesa e elegancia do estylo, com que dá relevo e vida ás meigas scenas de familia e aos risonhos paineis da natureza, e, finalmente, a moralidade que ressumbra de todas as paginas dos seus livros.
M?es que tendes filhos e que fundaes a sua felicidade e a vossa em mandal-os para Madrid ou para a America; lêde este conto, que para vós o escrevo.
N?o penseis que é inven??o minha o que vou narrar-vos; come?a esta historia no dia 10 de novembro de 1836, época em que Madrid era, peor e melhor do que hoje. Quem n?o entender o que deixo dito lembre-se do que succede com a baixella de prata, que, quanto mais a esfregam, mais brilha e menos peza.
Havia em Madrid um frio intensissimo: nevára na véspera, e antes que a neve tivesse tido tempo de derreter nas ruas, sobreviera uma geada fortissima, o que junto ao vento de Madrid, que mata um homem e n?o apaga um candil, dava á temperatura d'aquella heroica cidade o caracter e a temperatura da Siberia.
D. Jo?o Quijano, rico banqueiro que morava na rua de Toledo, estava no seu escriptorio, situado nos baixos da casa, com seu sobrinho D. Lucas, e n'uma sala contigua trabalhavam em silencio, sentados ás suas carteiras, dois caixeiros encarregados da contabilidade e da correspondencia. O gabinete do banqueiro tinha um postigo com vidra?a que dava para o escriptorio geral, e pelo qual o tio e o sobrinho espreitavam amiudadas vezes, no intuito de se certificarem se os caixeiros cumpriam as suas obriga??es; phrase de que D. Lucas se servia para os fazer trabalhar, quando os ouvia fallar em cousas alheias aos assumptos commerciaes da casa.
D. Jo?o era homem de cincoenta annos, pouco mais ou menos, córado, robusto, de nariz grande e cabelleira t?o bem arranjada e composta, que os proprios caixeiros n?o teriam dado por ella, se n?o f?ra o genio de sua mulher D. Joanna, que, nos seus accessos de cólera, lh'o lan?ava em rosto, chamando-lhe ?tio cabelleira?.
D. Lucas devia ter os seus vinte oito a trinta annos; era pouco mais alto que um c?o sentado, e nem a sua phisionomia, nem as suas palavras revelavam talento ou bondade de cora??o. N?o obstante isso tolerava-lhe o tio os defeitos, e até sentia estima por elle, n?o só por ser empregado antigo da casa, mas tambem porque podia dizer-se que era D. Lucas quem carregava com todo o peso do estabelecimento.
-Veja lá, tio, disse D. Lucas a D. Jo?o, levantando os olhos para um relogio, que estava collocado na parede, em frente da escrevaninha do banqueiro,-se tem de ir á Bolsa, n?o se descuide que s?o quasi duas horas.
-Parece-me que n?o vou lá hoje, respondeu D. Jo?o; quem ha de saír de casa por um tempo d'estes? A vida é curta, e se eu morrer... tocam os sinos a defuncto, e está tudo acabado... Demais deve estar por ahi a chegar o pequeno e tenho desejos de o vêr. Recebi pelo correio uma carta de meu irm?o Martinho, na qual este me diz que o rapaz saíu de lá no primeiro do mez, na carro?a de Chomin, e segundo o meu calculo, temol-o por ahi hoje. Talvez n?o fosse mau mandar o Toribio á estalagem.
-N?o sei para que; quando elle chegar, cá virá ter.
-O pobre pequeno deve vir tolhido de frio.
-N?o lhe dê isso cuidado; n?o inspira compaix?o quem vem como elle para Madrid, comer bom p?o e boa carne, em vez de comer br?a e batatas n'uma aldeia da Biscaya.
-Pois apesar d'isso estou bem certo de que preferiria encontrar hoje, ao apear-se da carro?a, a cosinha de seus p?es, com a sua priguiceira e um bom fogo de rama de pinheiro, a entrar n'esta habita??o ricamente mobilada e com chaminé á franceza.
-Parece-lhe que o empreguemos em compras e recados?
-N?o foi essa por certo a ideia de seus paes quando resolveram mandal-o para Madrid. é preciso collocal-o no escriptorio a fim de que, pouco a pouco, se vá instruindo e orientando no negocio.
-Pouco a pouco! Verá como antes de um mez o fa?o saber mais do que Merlin. A letra com sangue entra...
-N?o concordo comtigo, Lucas. Toma conta, n?o lhe ponhas sequer a m?o; n?o quero que aconte?a com este o que aconteceu com outros, que á for?a de maus tratos, os entonteceste, e tive que os mandar para a terra...
Dispunha-se D. Lucas a tomar a defesa do seu barbaro systema d'educa??o, quando tocou a campainha;-calaram-se de subito, tio e sobrinho, applicando o ouvido na direc??o do portal.
-Elle ahi está! exclamaram ambos a um tempo, ao ouvirem no patamar a voz do pequeno que saudava o creado que f?ra abrir-lhe a porta.
-Senhor, disse este com sorriso d'escarneo, apparecendo á entrada do escriptorio, está aqui Chomin com o rocim-chegado.
D. Jo?o franziu as sobrancelhas como descontente de que o creado se atrevesse a proferir o estupido equivoco que vae escripto em italico, ao passo que o sobrinho soltou uma estrondosa gargalhada em honra da gra?a de Toribio, que era um asturiano tonto com preten??es a faceto:
-Que entrem, respondeu D. Jo?o.
Com effeito Chomin, que era um dos recoveiros das provincias Vascongadas, entrou no escriptorio, acompanhado d'um menino de doze a treze annos.