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Cartas de Inglaterra

Cartas de Inglaterra

Author: : José Maria E?a de Queirós
Genre: Literature
Cartas de Inglaterra by José Maria E?a de Queirós

Chapter 1 No.1

Afghanistan e Irlanda

Os inglezes est?o experimentando, no seu atribulado imperio da India, a verdade d'esse humoristico logar-commum do seculo XVIII: ?A Historia é uma velhota que se repete sem cessar.?

O Fado ou a Providencia, ou a Entidade qualquer que lá de cima dirigiu os episodios da campanha do Afghanistan em 1847, está fazendo simplesmente uma copia servil, revelando assim uma imagina??o exhausta.

Em 1847 os inglezes, ?por uma raz?o d'Estado, uma necessidade de fronteiras scientificas, a seguran?a do imperio, uma barreira ao dominio russo da Asia...? e outras coisas vagas que os politicos da India rosnam sombriamente, retorcendo os bigodes-invadem o Afghanistan, e ahi v?o aniquilando tribus seculares, desmantelando villas, assolando searas e vinhas: apossam-se, por fim, da santa cidade de Cabul; sacodem do serralho um velho emir apavorado; collocam lá outro de ra?a mais submissa, que já trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes; e, logo que os correspondentes dos jornaes têm telegraphado a victoria, o exercito, acampado á beira dos arroios e nos vergeis de Cabul, desaperta o correame e fuma o cachimbo da paz... Assim é exactamente em 1880.

No nosso tempo, precisamente como em 1847, chefes energicos, Messias indigenas, v?o percorrendo o territorio, e com grandes nomes de Patria e de Religi?o, prégam a guerra santa: as tribus reunem-se, as familias feudaes correm com os seus tro?os de cavallaria, principes rivaes juntam-se no odio hereditario contra o estrangeiro, o homem vermelho, e em pouco tempo é todo um rebrilhar de fogos de acampamento nos altos das serranias, dominando os desfiladeiros que s?o o caminho, a entrada da India... E quando por alli apparecer, emfim, o grosso do exercito inglez, á volta de Cabul, atravancado de artilharia, escoando-se espessamente, por entre as gargantas das serras, no leito secco das torrentes, com as suas longas caravanas de camelos, aquella massa barbara rola-lhe em cima e aniquila-o.

Foi assim em 1847, é assim em 1880. Ent?o os restos debandados do exercito refugiam-se n'alguma das cidades da fronteira, que ora é Ghasnat ora Candahar: os afghans correm, p?em o cerco, cerco lento, cerco de vagares orientaes: o general sitiado, que n'essas guerras asiaticas póde sempre communicar, telegrapha para o viso-rei da India, reclamando com furor refor?os, chá e assucar! (Isto é textual; foi o general Roberts que soltou ha dias este grito de gulodice britannica; o inglez, sem chá, bate-se frouxamente.) Ent?o o governo da India, gastando milh?es de libras, como quem gasta agua, manda a toda a pressa fardos disformes de chá reparador, brancas collinas de assucar, e dez ou quinze mil homens. De Inglaterra partem esses negros e monstruosos transportes de guerra, arcas de Noé a vapor, levando acampamentos, rebanhos de cavallos, parques de artilharia, toda uma invas?o temerosa... Foi assim em 1847, assim é em 1880.

Esta hoste desembarca no Indust?o, junta-se a outras columnas de tropa india, e é dirigida dia e noite sobre a fronteira em expressos a quarenta milhas por hora; d'ahi come?a uma marcha assoladora, com cincoenta mil camelos de bagagens, telegraphos, machinas hydraulicas, e uma cavalgada eloquente de correspondentes de jornaes. Uma manh? avista-se Candahar ou Ghasnat;-e n'um momento, é aniquilado, disperso no pó da planicie, o pobre exercito afghan com as suas cimitarras de melodrama e as suas veneraveis colubrinas do modelo das que outr'ora fizeram fogo em Diu. Ghasnat está livre! Candahar está livre! Hurrah!-Faz-se immediatamente d'isto uma can??o patriotica; e a fa?anha é por toda a Inglaterra popularisada n'uma estampa, em que se vê o general libertador e o general sitiado apertando-se a m?o com vehemencia, no primeiro plano, entre cavallos empinados e granadeiros bellos como Apollos, que expiram em attitude nobre! Foi assim em 1847; ha-de ser assim em 1880.

No emtanto, em desfiladeiro e monte, milhares de homens que, ou defendiam a patria ou morriam pela fronteira scientifica, lá ficam, pasto de corvos-o que, n?o é, no Afghanistan, uma respeitavel imagem de rhetorica: ahi, s?o os corvos que nas cidades fazem a limpeza das ruas, comendo as immundicies, e em campos de batalha purificam o ar, devorando os restos das derrotas.

E de tanto sangue, tanta agonia, tanto luto, que resta por fim? Uma can??o patriotica, uma estampa idiota nas salas de jantar, mais tarde uma linha de prosa n'uma pagina de chronica...

Consoladora philosophia das guerras!

No emtanto a Inglaterra goza por algum tempo a ?grande victoria do Afghanistan?-com a certeza de ter de recome?ar d'aqui a dez annos ou quinze annos; porque nem póde conquistar e annexar um vasto reino, que é grande como a Fran?a, nem póde consentir, collados á sua ilharga, uns poucos de milh?es de homens fanaticos, batalhadores e hostis. A ?politica? por tanto, é debilital-os periodicamente, com uma invas?o arruinadora. S?o as fortes necessidades d'um grande imperio. Antes possuir apenas um quintalejo, com uma vacca para o leite e dois pés d'alface para as merendas de Ver?o...

Outra historia melancholica é a da Irlanda. Quem n?o conhece as queixas seculares da Irlanda, da Verde Erin, terra de bardos e terra de santos, onde uma plebe conquistada, resto nobre de ra?a celtica, esmagada por um feudalismo agrario, vivendo em buracos como os servos gothicos, vae desesperadamente disputando á urze, á rocha, ao pantano, magras tiras de terra, onde cultiva, em lagrimas a batata? Todo o mundo sabe isto-e, desgra?adamente, esta Irlanda de poema e de novella é, em parte, verdadeira: além dos poucos districtos onde a agricultura é rica como em qualquer dos uberrimos condados inglezes, além de Cork ou Belfast, que têm uma industria forte-a Irlanda permanece o paiz da miseria, bem representada n'essa estampa romantica em que ella está, em andrajos, á beira de um charco, com o filhinho nos bra?os morrendo-lhe da falta de leite, e o c?o ao lado, t?o magro como ella, ladrando em v?o por soccorro...

Os males da Irlanda, muito antigos, muito complexos, provêm, sobretudo, do systema semi-feudal da propriedade.

O povo irlandez é numeroso, exageradamente prolifico (nem a emigra??o, nem a morte, nem as epidemias, alliviam esta ilha muito cheia) e vive n'uma terra pobre, de cultura estreita, apenas no seu ter?o trabalhada: os proprietarios, lords inglezes ou escocezes, sempre ausentes das terras, n?o admittindo a despeza d'um schelling para as melhorar, est?o em Paris, est?o em Londres, comendo pecegos em janeiro, e jogando pelos clubs o whist a libra o tento: os seus procuradores e agentes, creaturas vorazes, sem liga??o com o solo nem com a ra?a, for?ados a remetter incessantemente dinheiro a SS. SS., interessados em conservar a procuradoria, cáem sobre o rendeiro, levantam-lhe a renda, for?am-n'o a vendas desastrosas, enla?am-n'o na uzura, tributam-n'o feudalmente, apertam-n'o com desespero como a um lim?o meio secco, até que elle verta n'um gemido o ultimo penny. Se o miseravel este anno, fatigando o torr?o, sustentando-se de hervas seccas, economisando o lume quando ha seis palmos de neve, consegue arrancar de si a somma que S. S., o Lord, reclama para offerecer uma esmeralda á loura Fanny ou á pallida Clementine, para o anno lá está enleado na divida, sem meios de comprar a semente, com uma terra exhausta a seus pés...

Ent?o o procurador, de lei em punho, vem, corre, penhora-o, vende-lhe o catre, expulsa-o do casebre, atira-lhe mulher, creancinhas e avós entrevados para as pedras do caminho... E ahi vae mais um bando de desgra?ados engrossar o lamentavel proletariado que pov?a a ?verde ilha dos bardos?. S?o milhares, s?o milh?es! Esta popula??o, com o ventre vazio, os pés nús sobre a geada, volta-se ent?o para a Inglaterra, a m?e Inglaterra, que tem a Lei, que tem a For?a, que tem a Responsabilidade: a Inglaterra, commovida na sua fibra christ?, volta-se para os seus economistas, os seus politicos: estes individuos pousam as suas vastas frontes nas suas vastas m?os, e arrancam das concavidades da sua sabedoria pharisaica esta resposta, a tenebrosa resposta da meia edade ás reclama??es do soffrimento humano:

-Paciencia! o remedio está no ceu...

A Inglaterra, valendo-se capciosamente do clero catholico da Irlanda, e da religiosidade da plebe, para a manter na resigna??o da miseria, acenando-lhe com as promessas c?r de ouro da bemaventuran?a-é um salutar espectaculo!

Sejamos, porém, justos: a Inglaterra manda tambem, aos milh?es de esfomeados, farinha e dois ou tres schellings: e o Punch faz-lhes a honra de lhes dedicar pilherias.

De tudo isto que resulta? Que o irlandez, vendo a fome no seu lar, a Inglaterra occupada com o dr. Tanner, o Punch muito divertido, e o ceu muito longe-faz uma trouxa dos seus andrajos, vae á villa mais proxima, apresenta-se ao comité dos Fenians ou á sec??o de Mollie Maguire e diz simplesmente:-Aqui estou!...

Estas duas associa??es secretas s?o terriveis e completam-se uma pela outra. Os Fenians, que estiveram um momento desorganizados, mas que têm hoje a prosperidade de uma institui??o publica, s?o uma seita politica, com o fim claro de conquistar a independencia da Irlanda: o seu meio é uma futura insurrei??o, batalhas á luz do dia, um esfor?o heroico de ra?a que sacode o estrangeiro.

é evidente, portanto, que a Inglaterra n?o tem nada a temer d'esta associa??o: uma esquadra no canal de S. Jorge, dez mil homens desembarcados, e os Fenians ser?o, no estylo da can??o, como a herva dos campos depois que passou o ceifador, um estendal de cousas sem vida. Mas n?o é assim com Mollie Maguire; esta constitue puramente uma conspira??o: os seus estatutos, os seus fins, a sua organiza??o, os seus chefes, tudo está envolvido n'um mysterio, que é o terror na Irlanda; só s?o claros os seus crimes. Ha um proprietario duro que levantou a renda? Uma noite, ou elle ou o seu procurador apparecem á beira de um caminho, com duas balas na cabe?a. Quem foi? Foi Mollie Maguire: foi ninguem, foi a Miseria, foi a Irlanda. Ha um senhorio, um agente, que fez uma penhora? á meia noite, a sua casa come?a a arder, e é n'um momento uma ruina fumegante. Quem foi? Mollie Maguire. Houve um burguez especulador que comprou o casebre de um proprietario penhorado? No outro dia lá está no fundo de uma lag?a, com um pedregulho ao pesco?o. Quem foi, coitado? Mollie Maguire. Todos os dias, n'estes ultimos mezes, s?o assim, dois, tres d'estes crimes-que têm em Inglaterra o nome de agrarios. Os tribunaes, a policia, já se n?o fatigam em devassas e em autos: para quê? Mollie Maguire é intangivel, Mollie Maguire é impessoal.

E se houvesse um magistrado t?o desgostoso da vida que quizesse descobrir d'onde viera a bala, o pedregulho ou o fogo-teria certamente, horas depois, o que tanto parecia desejar: um punhal atravez do peito. S?o verdadeiramente os processos do Nihilismo militante: nem falta a esta seita aquella vaga exalta??o mystica que complica o Nihilismo. Se Mollie (Mollie é o diminutivo de Maria) n?o é uma divindade, é pelo menos uma degenera??o fetichista da divindade: é a tenebrosa padroeira das desforras da plebe, aquella em quem os desgra?ados abandonados de Deus, do Deus official, do Deus da Missa, encontram soccorro, amizade, for?a-uma sorte de encarna??o feminina do diabo do Sabbath, confidente dos servos e dos feiticeiros da meia-noite.

A estas duas associa??es deve juntar-se uma terceira, legal essa, fallando alto nas pra?as, com jornaes, com taboleta, vivendo sob a protec??o da Constitui??o, respeitada da policia, e que se chama a Liga da Terra. O seu fim é promover, por meio de meetings e representa??es, uma vasta agita??o, um impulsivo movimento da opini?o, que force o parlamento inglez a reformar o systema agrario. Mas é realmente uma associa??o legal? S?o os seus fins t?o honestamente moderados, t?o estreitamente constitucionaes como se diz? Todo o mundo duvida. Na Irlanda, sempre que dois homens se reunem, conspiram: quando se sentem quatro, apedrejam logo a policia:-que será ent?o quando reconhecerem que s?o duzentos mil? Além d'isso, as reclama??es d'esta associa??o s?o de um vago singular: nada de pratico, nada de realisavel: apenas os velhos gritos sentimentaes da aspira??o humanitaria. E, ao mesmo tempo, os homens, que a dirigem, s?o espiritos positivos e experimentados. Ha aqui uma contradic??o assustadora. Sente-se que os chefes d'este movimento, sabendo bem que da Inglaterra nada têm a esperar, est?o simplesmente, sob as apparencias da legalidade, organisando a insurrei??o. Formular um programma pratico para o parlamento votar, seria, na opini?o d'elles, ocioso e pueril: as declama??es verbosas em que se falle muito de legalidade, ordem, parlamentarismo bastam-para illudir a policia... E n?o é duvidoso que, n'um certo momento, Fenians, Mollie Maguire e Liga da Terra formar?o um só movimento-o da revolta desesperada.

Este era o estado da Irlanda ha dois mezes, quando se deu o caso inesperado do bill de compensa??o. Este projecto de lei apresentado pelo ministro Gladstone (parte por um sentimento liberal de justi?a, parte para agradecer os fortes servi?os dos irlandezes nas ultimas elei??es) n?o trazia certamente um remate aos males da Irlanda; mas, coarctando os abusos dos senhores, difficultando a arbitrariedade das ?expuls?es?, modificando a legisla??o barbara das penhoras, alliviava o trabalhador irlandez do ferreo calcanhar feudal que o esmaga. O bill passou entre os applausos da camara dos communs: mas escuso de acrescentar que a camara dos lords, essa augusta e gothica assemblêa de senhores semi-feudaes, o regeitou com horror, como obra execravel do liberalismo satanico!

Veem d'ahi o resultado: os agitadores da Irlanda, os seus prophetas, os seus chefes apossaram-se com enthusiasmo d'esta regei??o da camara dos lords-e utilisaram-n'a t?o habilmente, como Antonio utilisou a tunica ensanguentada de Cesar. Foram-n'a mostrando á plebe indignada, por campos e aldeias, gritando bem alto: ?Aqui está o que fizeram os lords, os vossos amos, os vossos exploradores! A primeira proposta justa, em bem da Irlanda, que se lhes apresenta, repellem-na! Querem manter-vos na servid?o, na fome, no opprobrio das velhas edades, no estado da ra?a vendida! ás armas!?

E desde ent?o a Irlanda prepara-se ardentemente para a insurrei??o: apesar dos cruzeiros que vigiam a costa, todos os dias ha desembarques de armas; o dinheiro, os voluntarios affluem da America; pelos campos vêm-se grupos de duzentos, trezentos homens, de espingardas ao hombro, fazendo exercicios como regimentos em vesperas de campanha; ainda que seja agora a epoca das colheitas, a popula??o n?o está nos campos, está nos meetings, nos clubs; e os tribunos, os agitadores, prodigalizam-se sem repouso. N?o falta, decerto, a estes homens nem coragem, nem aquella eloquencia pathetica que faz passar nas multid?es o arrepio sagrado. Um d'elles, Redathd, exclamava ha dias:

-Dizem-nos a cada momento: sêde justos, pagae ao lord, pagae ao senhorio! E citam-nos a palavra divina d'aquelle que disse: Dae a Cesar o que é de Cesar! Houve só um homem, Brutus, que deu a Cesar o que a Cesar era devido, um punhal atravez do cora??o!

Esta brutalidade tem grandeza. Agora imagine-se isto lan?ado a uma multid?o opprimida, com os gestos theatraes d'esta ra?a violenta, de noite, n'um d'estes sinistros descampados da Irlanda, que s?o todos rocha e urze, ao clar?o d'archotes, dando aquella intermittencia de treva e brilho que é como a alma mesma da Irlanda-e veja-se o effeito!

Em Inglaterra, mesmo, os optimistas consideram a insurrei??o quasi inevitavel para os frios do outomno. E o honesto John Bull prepara-se: já o ministro do interior está em Dublin, e é eminente a declara??o da lei marcial... N'este ponto, radicaes e conservadores s?o unanimes: se a Irlanda se levanta, que se esmague a Irlanda! Sómente John Bull declara que o seu cora??o ha-de chorar emquanto a sua m?o castigar... Excellente pae!

O jornal o Standard, o veneravel Standard, tinha ha dias uma phrase adoravel. ?Se, como é de temer, a Irlanda vier a esquecer-se do que deve a si e á Inglaterra?-exclamava o solemne Standard,-?é doloroso pensar que no proximo inverno, para manter a integridade do imperio, a santidade da lei e a inviolabilidade da propriedade, nós teremos de ir, com o cora??o negro de d?r, mas a espada firme na m?o, levar á Irlanda, á ilha irm?, á ilha bem amada, uma necessaria extermina??o.?

Extermina??o é muito: e quero crêr, que está alli, para rematar com uma nota grave, uma nota d'org?o, a harmonia do periodo. Mas o sentimento é curioso e raro: e seria um espectaculo maravilhoso vêr, no proximo inverno, John Bull percorrendo a Irlanda, cheio de ferocidade e afogado em ternura, com os olhos a escorrer de lagrimas e a sua bayoneta a pingar de sangue... -Ainda as fataes necessidades de um grande imperio! Volto ao meu desejo: um quintalejo, uma vacca, dois pés d'alface... E um cachimbo-o cachimbo da paz!

Chapter 2 No.2

ácerca de livros

Outubro chegou, e com este mez, em que as folhas cáem, come?am aqui a apparecer os livros, folhas ás vezes t?o ephemeras como as das arvores, e n?o tendo como ellas o encanto do verde, do murmurio e da sombra.

Estamos, com effeito, em plena Book-Season, a esta??o dos livros.

Estes dous mezes, setembro e outubro (e elles merecem-no porque como c?r, luz, repouso, s?o os mais simpathicos do anno) têm accumulado em si as mais interessantes seasons, as esta??es mais fecundas da vida ingleza.

A London-Season, a celebre esta??o de Londres, quando a Aristocracia, maior e menor, os dez mil de cima, como se dizia antigamente, o folhado, como se diz agora, recolhe dos parques e palacios do campo aos seus palacetes e jardinetes de Londres-passa-se em abril, junho e julho, verdade seja. Mas essa é uma v? e ?ca esta??o de trapos, de luvas de vinte bot?es, de lacaios, de champagne, de batota e de cotillon. Emquanto que as outras!...

Olhem-me para estas sabias, uteis, viris, solemnes seasons, que abundam n'estes dourados mezes de setembro e outubro. Isto sim! Aqui temos, por exemplo, a Congress-Season, a esta??o dos congressos.

Que espectaculo! Toda a verde superficie da Inglaterra está ent?o, de norte a sul, salpicada de manchas negras. S?o congressos em delibera??o. Ha-os de metaphysicos e ha-os de cosinheiros.

Aqui, duzentos individuos carrancudos e descontentes elaboram uma nova ordem social; além, uma multid?o de sabios, acocorados, semanas inteiras, em torno de um objecto escuro, n?o pódem chegar á conclus?o se é um tijolo vilmente recente ou uma laje da camara nupcial da rainha Ginevra; e adiante cavalheiros anafados e luzidios assentam a doutrina definitiva da engorda do leit?o-esse amor!

Os congressos mais notaveis este anno f?ram-o de medicina em Londres, a que assistiram mil e tresentos congressistas medicos e cirurgi?es dos dois mundos e dos dois sexos, e onde se prometteu á humanidade, para d'aqui a annos, a suppress?o das epidemias pelas vaccinas; o da British Association, a grande Sociedade das Sciencias (congresso annual celebrado este anno em York) em que o presidente, sir John Lubbock, esse amavel sabio que tem passado a existencia a estudar as civiliza??es inferiores dos insectos, laboriosas democracias de formigas, deploraveis oligarchias de abelhas-occupou-se d'esta vez, dando um balan?o á sciencia durante os ultimos cincoenta annos, a mostrar algumas das estupendas habilidades d'esse outro ephemero insecto, o Homem: e emfim o congresso annual da Egreja, celebrado em Newcastle, composto de bispos, dignitarios ecclesiasticos, theologos, doutores em divindade, este largo clero anglicano, o mais douto e litterario da Europa. N'este, entre outros assumptos discutiu-se a Influencia da Arte na vida e no pensar religioso: mas, quanto a mim, o resultado mais nitido foi o revelar incidentalmente que a frequenta??o dos templos, em Inglaterra, diminue de um ter?o todos os dez annos, ao passo que o espirito de religiosidade cresce nas massas, tornando-se assim o sentimento religioso cada dia mais desprendido das fórmas caducas e pereciveis das religi?es.

N'este momento ha outros congressos-o dos Metallurgistas, o das Sciencias Sociaes, o dos Telegraphistas, o Archeologico, o dos Gravadores, o dos... emfim, centenares. Até o dos Browninguistas. N?o sabem o que s?o os Browninguistas? Uma vasta associa??o, tendo por fim estudar, commentar, interpretar, venerar, propagar, illustrar, divinisar as obras do poeta Browning. Isto, mesmo n'este paiz de arrebatados enthusiasmos intellectuais, me parece um pouco forte. Browning é sem duvida, com Shelley, Shakspeare e Milton, um dos quatro principes da poesia ingleza: mas tem o inconveniente de estar vivo. Elle proprio assiste, materialmente, com o seu paletot e o seu guarda chuva, ao congresso de que é objecto espiritual e assumpto: e fatalmente, pelo effeito mesmo da sua presen?a, a admira??o litteraria tende a tornar-se idolatria pessoal, e os shake hands que elle distribue come?am naturalmente a ser mais apreciados no congresso que os poemas que elle escreveu. Por isso mesmo que o divinisam, o amesquinham: n?o é ent?o o grande poeta de Inglaterra, é o idolo particular dos Browninguistas, deixa assim de ser um espirito fallando a espiritos-para ser apenas um manipanso aterrorizando supersticiosos.

Mas, continuando com as esta??es, temos ainda a Yachting-Season, a esta??o nautica, das regatas, das viagens em yacht. Hoje em Inglaterra ter um yacht é, como entre nós montar carruagens, o primeiro dever social do rico ou do enriquecido, uma das fórmas mais triviaes do conforto luxuoso. Um yacht n?o é só um frágil e airoso barco de cincoenta toneladas e vela branca; póde ser tambem um negro e poderoso vapor de duas mil toneladas e sessenta homens de tripula??o. N'este ultimo caso, em logar de bordejar gentilmente em redor das fl?res e das relvas da ilha de Wight, ou de ir mergulhar n'essas prodigiosas paisagens marinhas do alto Norte da Escossia, vae dar a volta ao mundo, carregado de biblias para os pequenos patagonios e de champagne e d'amor para as lindas missionarias, vestidas de marinheiras. A vida de yacht tem os seus costumes especiaes, a sua etiqueta, a sua phraseologia, a sua moral propria, e sobretudo a sua litteratura. A litteratura de yacht é vasta-William Black, o autor das Azas Brancas, do Nascer do Sol, da Princeza de Thude, o seu romancista official: um paisagista maravilhoso, de resto, tendo na sua penna todo o vigor do pincel d'um Jules Breton.

Temos igualmente n'este mez a Shooting-Season, a esta??o da ca?a ao tiro, que abre no 1.o de setembro com uma solemnidade tal, e no meio de um interesse publico t?o intenso, t?o fremente-que me dá sempre ideia do que devia ter sido nas vesperas da Grande Revolu??o a abertura dos Estados Gerais. Pe?o perd?o d'esta abominavel compara??o-mas a carne é fraca, e eu considero esta esta??o sublime. é n'ella que se ca?a o grouse, e é durante ella que se come o grouse. N?o sabem o que é o grouse? é um passaro do tamanho da perdiz, que vive (Deus o aben??e!) nos moors, ou descampados da Escossia... Agora deixem-me repousar um momento, e ficar aqui, n'um extasi manso, pensando no grouse, com as m?os cruzadas sobre o estomago, o olho enternecido, lambendo o labio... N?o imaginem que eu sou um guloso. Mas nunca se deve fallar nas coisas boas sem venera??o. Lord Beaconsfield, esse mestre do bom gosto, deu-nos o exemplo quando, tendo mencionado n'um dos seus livros o ortolan, esse outro delicioso passaro, acrescentou-que o peitinho gordo do ortolan é mais delicioso que o seio da mulher, o seu aroma mais perturbador que os lilazes, e o sabor da sua febra melhor que o sabor da verdade. Póde-se dizer o mesmo do grouse.

Continuando, temos a Burglary-Season, a esta??o dos assaltos e roubos ás casas. Esta come?a tambem em setembro, quando a gente rica sai de Londres e deixa os seus palacetes, ou fechados, ou ao cuidado de um velho e somnolento guarda-port?o. Os salteadores de Londres, corpo social t?o bem organisado como a propria policia, procede ent?o systematicamente, por quadrilhas disciplinadas, usando os mais perfeitos meios scientificos no arrombamento e no saque d'essas propriedades abarrotadas de cousas ricas...

Temos a Lecture-Season, ou esta??o das conferencias. O seu nome explica-a e seria longo detalhar-lhe a organisa??o. Basta dizer que n'esta esta??o n?o ha talvez um bairro em Londres (quasi podia dizer uma rua), nem uma aldeia no resto do paiz, em que se n?o veja, cada noite, um sujeito, com um copo d'agua, dissertando sobre um assumpto, deante d'uma audiencia compacta, attenta, interessada e que toma notas. Os assumptos s?o tudo-desde a ideia de Deus até á melhor maneira de fabricar graxa. E os conferentes s?o todo o mundo-desde o professor Huxley até um qualquer cavalheiro, o senhor Fulano de Tal, que sóbe á plataforma a contar as suas impress?es de viagem ás ilhas Fidji, ou as aptid?es curiosas que observou no seu c?o...

Ha ainda outras esta??es que basta enunciar: a Hunting-Season, a esta??o da ca?a á raposa (isto é todo um mundo); a Cricket-Season, a esta??o em que se joga o cricket,-e em que se vêm d'estes edificantes espectaculos: doze cavalheiros, vindos do fundo da Australia, outros doze partindo dos altos da Escossia, e encontrando-se em Londres a jogar ao desafio uma tremenda partida que dura tres dias, na presen?a arrebatada de um povo em delirio!

Temos tambem a Angling-Season, a esta??o da pesca á linha, institui??o nobilissima a que a humanidade deve o salm?o e a truta. é o sport favorito da alta burguezia culta, da magistratura, dos homens de sapiencia, d'aquela parte da velha aristocracia sobre que mais pesam as responsabilidades do Estado. Todo este mundo, de solemne respeitabilidade e de alto ceremonial-pesca á linha. Talvez por isso, de todos os sports inglezes, a pesca á linha é um dos que têm produzido uma litteratura mais consideravel-t?o consideravel que a sua bibliografia, a simples enumera??o dos seus tratados, occupa um livro de duzentas paginas! Ahi observo com respeito a noticia de um ponderoso estudo sobre a Pesca á linha entre os Assyrios...

Só esta semana a litteratura da pesca á linha nos deu já dois livros, segundo as listas: A carteira de um pescador á linha, Pela beira dos rios.

Temos ainda a Traveling-Season, a esta??o das viagens, quando o famoso touriste inglez faz a sua appari??o no continente. N'esta epoca (setembro e outubro) todo o inglez que se respeita (ou que, n?o podendo em sua consciencia respeitar-se, pretende ao menos que o seu visinho o respeite) prepara umas dez ou doze malas e parte para os paizes do sol, do vinho e da alegria. Os anjos (se o n?o sonharam, como diz Jo?o de Deus) devem assistir ent?o, do seu terra?o azul, a um espectaculo bem divertido: toda a Inglaterra fervilhando no porto de Dover-e d'ahi successivamente partirem longos formigueiros de touriste, riscando de linhas escuras o continente, indo alastrar os valles do Rheno, negrejando pela neve dos Alpes acima, serpenteando pelos vergeis da Andaluzia, atulhando as cidades da Italia, inundando a Fran?a! Tudo isto s?o inglezes. Tudo isto traz um Guia do Viajante debaixo do bra?o. Tudo isto toma notas. Isto ás vezes viaja com a esposa, a cunhada, uma amiga da cunhada, uma conhecida d'esta amiga, sete filhos, seis creados, dez c?es, e outros c?es conhecidos d'estes c?es; e isto paga por tudo isto sem resmungar! N?o: n?o digo bem, resmungando sempre. Esta viagem de prazer passa-a quasi sempre o inglez a praguejar (mentalmente-porque nem a Biblia nem a respeitabilidade lhe permitem praguejar alto).

A verdade é que o inglez n?o se diverte no continente; n?o comprehende as linguas; estranha as comidas; tudo o que é estrangeiro, maneiras, toilettes, modos de pensar, o choca; desconfia que o querem roubar; tem a vaga cren?a de que os len?óes nas camas d'hotel nunca s?o limpos; o vêr os theatros abertos ao domingo e a multid?o divertindo-se amargura a sua alma christ? e puritana; n?o ousa abrir um livro estrangeiro porque suspeita que ha dentro cousas obscenas; se o seu Guia lhe affirma que na cathedral de tal ha seis columnas e se elle encontra só cinco, fica infeliz toda uma semana e furioso com o paiz que percorre, como um homem a quem roubaram uma columna; e se perde uma bengala, se n?o chega a horas ao comboio, fecha-se no hotel um dia inteiro a comp?r uma carta para o Times, em que accusa os paises continentaes de se acharem inteiramente n'um estado selvagem e atolados n'uma putrida desmoralisa??o. Emfim o inglez em viagem, é um ser desgra?ado. é evidente que eu n?o alludo aqui á numerosa gente de luxo, de gosto, de litteratura, de arte: fallo da vasta massa burgueza e commercial. Mas mesmo esta encontra uma compensa??o a todos os seus trabalhos de touriste quando, ao recolher a Inglaterra, conta aos seus amigos como esteve aqui e além, e trepou ao Monte Branco, e jantou n'uma table-d'-hote em Roma e, por Jupiter! fez uma sensa??o dos diabos, elle e as meninas!...

Que mais esta??es temos ainda? A Speech-season, a esta??o dos discursos, quando, nas ferias do parlamento, todos os homens publicos se espalham pelo paiz discursando, perante enormes meetings, sobre os negocios publicos. é uma das fei??es mais curiosas da vida politica em Inglaterra...

Ha outras muitas esta??es em setembro e outubro, mas n?o me lembram agora. E emfim, para n?o ser injusto, devo mencionar tambem o Outomno.

De todas estas, para mim, naturalmente, a mais interessante é a Book-Season, a esta??o dos livros.

Isto n?o quer dizer que fóra d'esta esta??o (outubro a mar?o) se n?o publiquem livros em Inglaterra-longe d'isso, Santo Deus! Como n?o quer dizer que fóra da London-Season se n?o dance, ou fóra da Travelling-Season se n?o viaje. Significa simplesmente que as grandes casas editoras de Londres e d'Edimburgo reservam, para as lan?ar n'esta epocha as suas grandes novidades. Um livro de Darwin, um estudo de Matthew Arnold, um poema de Tennyson, um romance de Georges Meredith ser?o evidentemente guardados para a esta??o. De resto, durante todo o anno n?o s'interrompe, n?o cessa essa publicidade phenomenal, essa vasta, ruidosa, inundante torrente de livros, alastrando-se, fazendo pouco a pouco sobre a crosta da terra vegetal do globo, uma outra crosta de papel impresso em inglez.

N?o sei se é possivel calcular o numero de volumes publicados annualmente em Inglaterra. N?o me espantaria que se pudessem contar por dezenas de milhares. Aqui tenho eu deante de mim, no numero de ontem do Spectator, a lista dos livros lan?ados esta semana: NOVENTA E TRES OBRAS! E isto é apenas a lista do Spectator. Apenas o que se chama aqui Litteratura Geral. N?o se contam as reimpress?es; nem as edi??es dos classicos, em todos os formatos, desde o in-folio, que só um Hercules póde erguer, até ao volume miniatura, cujo typo reclama microscopio, e em todos os pre?os desde a edi??o que custa 50 libras, até á que custa 50 réis: n?o se contam as traduc??es de livros estrangeiros, sobretudo as litteraturas da antiguidade: n?o se conta, emfim, essa incessante produc??o das Universidades, essa outra levada de gregos e latinos, de commentarios, de glossarios, de in-folios, que lan?am de si, aos caix?es, as imprensas de Clarendon.

Ha n'esta litteratura geral uma especie de que o inglez n?o se farta-a litteratura de viagens. Já n?o fallo nos romances: isso n?o constitue hoje uma produc??o litteraria, é uma fabrica??o industrial.

Na vida domestica ingleza, a novela tornou-se um objecto de primeira necessidade como a flanella ou as fazendas de algod?o; e, portanto, toda uma popula??o de romancistas se emprega em manufacturar este artigo, por grosso, e t?o depressa quanto a penna póde escrever, arremessando para o mercado as paginas mal seccas no ancioso conflicto da concorrencia.

Mas a gula, a gulodice de livros de viagem é tambem consideravel, e de resto bem explicavel n'uma ra?a expansiva e peregrinante, com esquadras em todos os mares, colonias em todos os continentes, feitorias em todas as praias, missionarios entre todos os barbaros, e no fundo d'alma o sonho eterno, o sonho amado de refazer o Imperio Romano. Isto produziu um outro typo de industrial das lettras-o prosador viajante.

Antigamente contava-se a viagem quando casualmente se tinha viajado: o homem que visitava paizes longinquos, se achava em aventuras pittorescas, á volta, repousando ao canto do seu lume, tomava a penna e ia revivendo esses dias n'uma agradavel rememora??o de impress?es e paisagens. Hoje n?o. Hoje emprehende-se a viagem unicamente para se escrever o livro. Abre-se o mappa, escolhe-se um ponto do Universo bem selvagem, bem exotico, e parte-se para lá com uma resma de papel e um diccionario. E toda a quest?o está (como a concorrencia é grande) em saber qual é o recanto da terra sobre que ainda se n?o publicou livro! Ou, quando o paiz é já toleravelmente conhecido, se n?o terá ainda alguma aldeola, algum afastado riacho sobre que se possam produzir trezentas paginas de prosa...

Quem hoje encontrar em algum intrincado ponto do Globo um sujeito de capacete de corti?a, lapis na m?o, binoculo a tiracollo, n?o pense que é um explorador, um missionario, um sabio colligindo floras raras-é um prosador inglez preparando o seu volume.

Nada elucida como um exemplo. Aqui está a lista dos livros de viagens publicados em Londres n'estas duas ultimas semanas.

é claro que eu n?o os li, nem sequer os enxerguei. Copio os titulos, sómente, da lista de dous jornaes de critica: o Atheneum e a Academy. Note-se que estes livros s?o quasi sempre bem estudados: d?o o tra?o e a linha que pinta, a paysagem com a sua c?r e luz, a cidade com o seu movimento e fei??es; s?o graphicos e s?o criticos; têm a geographia e têm a observa??o; e mais ou menos fazem reviver com o detalhe caracteristico, o povo visitado, na sua vida domestica, a sua religi?o, a sua agricultura, o seu sport, os seus vicios, a sua arte se a tem. Calcule-se, pois, a importancia d'esta litteratura, que se torna assim um inquerito sagaz, paciente, correcto, feito ao Universo inteiro.

Aqui está, com os titulos traduzidos, o que se publicou n'estes quinze dias: A minha jornada a Medina-Entre os filhos de Han-Nas aguas salgadas-Longe, nos Pampas-Sanctuarios de Piemonte-O novo Jap?o-Uma visita á Abyssinia-Vida no oeste da India-Pelo Mahakam acima, e pelo Barita abaixo-A cavallo pela Asia Menor-Scenas de Ceyl?o-Atravez de cidades e prados- No meu Bungaló-As terras dos Matabeles-Fugindo para o sul-Terras do sol da meia-noite-Peregrina??es na Patagonia-O Soudan egypcio-Terra dos Maggiyres-Atravez da Siberia-Notas do mundo do Oeste-Caminhos da Palestina-Norsk, Lapp e Finn (onde será isto Santo Deus?!)-Guerras, peregrina??es e ondas (que titulo, Deus piedoso!)-A linda Athenas-A peninsula do Mar Branco-Homens e casos da India-A bordo do ?Rapoza?-Sport na Crimêa e Caucaso-Nove annos de ca?adas na Africa-Diario de uma pregui?osa na Sicilia-A leste do Jord?o...

Ainda ha outros, ainda ha muitos-e em quinze dias!

Seria curioso dar parallelamente a lista de poemas, livros de poesias, odes, balladas, tragedias, annunciados ou já publicados na primeira quinzena da esta??o; mas n?o tenho paciencia em revolver todo esse lyrismo. Ha uma ?grande sensa??o?: o livro de Dante Rosseti, um dos mestres modernos: o resto é apenas um bando amoroso e triste de rouxinóes.

N?o menos espessas, nem menos compactas s?o as listas dos livros de Theologia, Controversia, Exegese, etc.,-exhalando de si uma melancholia de cemiterio. Em metaphysica ha o costumado sortimento-macisso e vago, como diria Herbert Spencer. Em historia, biographia, critica, as listas bibliographicas vêm riquissimas... Emfim, ao que parece, é uma formidavel e grandiosa esta??o de livros. Aos romances, nem alludo: mont?es, montanhas-e monturos!

Uma pastora meio-selvagem das Ardennes, que nunca vira outro espectaculo mais grato ao seu cora??o do que as cabras que guardava, foi um dia trazida das suas serranias a Pariz, quando no boulevard passava, com a tricolor ao vento, um regimento em marcha. A pobre donzella fez-se branca como a cêra, e só poude murmurar n'uma beatitude suprema:

-Jesus! tanto homem!

Eu sei que estou aqui fazendo o papel ridiculo d'esta pastora, e balbuciando, com a bocca aberta, como se chegasse tambem das Ardennes:

-Jesus! tanto livro!

Mas n?o é este grito, como o da pastora, natural?

O beduino do deserto d'Oeste, que, passando a Serrania Lybica, avista pela primeira vez, immenso, lento, enchendo um valle, o rio Nilo, exclama espantado:

-Allah! tanta agua!

A agua é a sua preoccupa??o: todas as tristezas das areias que habita vêm da falta da agua: mais que ninguem sente as maravilhas que a agua produz; e no seu grito ha uma timida reprehens?o a Allah! ?Tanta agua aqui, e t?o pouca lá d'onde eu venho!...?

Assim eu venho... Mas o resto da compara??o complete-a, antes, o leitor astuto.

Chapter 3 O INVERNO EM LONDRES

Eis ahi o inverno. Já todos os dias o encontro, e, agora mesmo, lhe ou?o fóra, na rua, sob a nevoa tristonha d'esse fim d'outubro, a voz dolente e vaga: n?o é o velho semi-deus de attributos mythologicos, com a barba em flocos de neve sobre o manto branco de neve, soprando nos dedos, e o classico feixe de lenha a tiracollo: é um rapag?o enfarruscado, de casquete e chicote em punho, que vae conduzindo uma carro?a negra com um forte percheron aos varaes, pelo macadam já endurecido da geada, e soltando de porta em porta, o seu preg?o melancholico: Coals! coals! (carv?o! carv?o!)

Est?o, pois, findos os dias purpureados do lindo outomno inglez! Nada iguala o encanto suavizador e meigo dos meados d'outubro nestes condados do Sul. Um passeio, ao meio da tarde, nas pittorescas margens do Severn, ou ainda ao longo do Avon, riba que a memoria de Shakspeare torna quasi sagrada, ou pelas collinas amaveis de Surrey, é o mais belo, o mais util repouso que póde ter o espirito sobresaltado, can?ado dos livros, ou do duro movimento da vida.

Tem-se aqui alguma coisa d'aquella paz etherea, que os poetas pag?os sonhavam nas perspectivas ineffaveis dos Elysios: sómente a natureza particular do Norte, as linhas da architectura saxonia, o arranjo das culturas, d?o a fei??o romantica e elegiaca que falta á paysagem latina.

Caminha-se n'uma luz ligeira, de um dourado triste, de um enternecimento quasi magoado: o verde das relvas sem fim que se pisam, verde repousado e adormecido sob as grandes ramagens das arvores seculares e aristocraticas, solemnes, isoladas, immoveis n'um recolhimento religioso, leva a alma insensivelmente para alguma cousa de muito alto e de muito puro: ha um silencio de uma extraordinaria limpidez, como o que deve haver por sobre as nuvens, um silencio que n?o existe na paysagem dos climas quentes, onde o labor incessante das seivas muito forte parece fazer um vago rumorido, um silencio que pousa no espirito com a influencia de uma caricia. E a cada momento s?o fundos encantadores de paysagem, de um vaporisado azul, com alguma torre d'Abbadia coberta de heras, que surge d'entre robles, ou uma rica avenida de parques, onde se entreveem vestidos claros correndo sobre as relvas, ou a historica architectura de um castello, de bandeira feudal na torre, que de repente apparece n'uma eleva??o, com os seus terra?os de marmore escuro, os grandes prados onde pastam ou repousam os animaes de luxo, os faiscantes meandros do rio entre a verdura e sons tristes de trompa, vindos da profundidade dos arvoredos...

D'aqui a dias, porém, por collina e valle, só haverá a triste nevoa humida que dura mezes, ou a neve redemoinhando ao vento...

Esta monotonia, que come?a escurecendo os campos desde novembro, vae causar este anno uma innova??o excellente nos costumes sociaes da Inglaterra. Vae haver, de dezembro a maio, uma esta??o d'inverno em Londres.

Como sabem, Londres só é habitado desde os come?os de maio até aos primeiros dias quentes de agosto. O resto do anno, Londres é a cahida Palmyra ou a tenebrosa planicie do deserto da Petrêa. Ficam lá, é verdade, entre tres a quatro milh?es de humanidade: mas é uma humanidade subalterna, feita de barro vill?o, sem valor social em Inglaterra: é a humanidade que n?o tem castellos, nem parques de tres legoas, nem o seu nome no Livro d'Ouro, nem yachts de luxo para bordejar nas costas da Escossia; é a humanidade que n?o tem nas arterias o famoso sangue normando, esse sangue invejado, mais precioso que o de Christo, cantado por todos os poetas da c?rte, e que foi importado pelos brutamontes cobertos de ferro, e pelludos como féras, que acompanhavam a estas ilhas Guilherme da Normandia; é emfim a humanidade que Carlos Stuart, o Bem-amado, chamava a canalha, e que o grande sacerdote da Bella Helena, o pobre Offenbac, designava, com tanto criterio, pelo nome de vil multid?o:-é o trabalhador, o artifice, o artista, o professor, o philosopho, o operario, o romancista, tudo o que pensa, cria e produz.

é esta fresca ralé que fica em Londres: de modo que apenas a humanidade superior, os dez mil de cima, como aqui t?o pittorescamente se diz, partem para os seus castellos, as suas villas á beira mar, ou os seus yachts.-Londres, apenas habitado pela turba abjecta, torna-se sobre a face da terra, como a lamentavel Cacilhas. Nenhum gentleman que se respeite e queira manter o seu bom nome social ousaria confessar que esteve em Londres em janeiro: correria o risco de ser tomado por um tendeiro, ou, peior, por um philosopho, um poeta, um d'esses seres rastejantes, vis como o lixo, sem castello e sem matilha de c?es, que nenhuma Lady quereria ter no seu ?rol de visitas?.

Se um gentleman, tendo negócios instantes em Londres, é for?ado a vir a este deserto de plebeus, guarda um incognito severo; n?o chegará talvez a p?r barbas posti?as; mas só se arrisca pelas ruas no fundo escuro de um cupé com os stores descidos, e o paletot rebu?ando-lhe a face. Todavia uma aventura t?o poderosa poucos a ousam!

Pois bem, tudo isto se vae reformar! E este anno será moda passeiar em Piccadilly, ou florear de rosa ao peito em Pall-Mall, em pleno janeiro, na espessura dos nevoeiros. Esta revolu??o consideravel foi, como todas as fecundas revolu??es, tramada, prégada, popularisada pelas mulheres.

Havia longos annos que estes anjos soffriam com impaciencia a melancholia da vida do campo, durante o longo inverno saxonio. Ainda, nos primeiros tempos, depois de deixar as glorias de Londres e os esplendores da season, a existencia era toleravel. Havia as regatas elegantes de Cowes; ia-se estar uma semana na ilha de Wight; depois vinham as festas da abertura da ca?a; seguia-se a epocha dos yachts, as viagens ás costas da Noruega, ás Hebbidas, ás praias elegantes da Normandia; depois, quando a c?rte está na Escossia, vinha a ca?a do veado, os bailes de gellies das montanhas... Emfim, vivia-se.

Mas, com a chegada de dezembro, da neve, uma formidavel lei social, a fashion, obrigava os dez mil de cima a recolherem-se aos seus castellos, á solid?o do campo. E ahi come?ava para as damas o tedio memoravel!

Quando se n?o tem um chateau e parque como os de Inglaterra, póde parecer um sonho de paraizo o viver n'essas faustosas residencias, entre maravilhas d'arte, accumuladas por gera??es, com mobilias de duzentos contos, um servi?o de sessenta criados, vinte cavallos na cocheira e um parque de trez legoas, um parque de romance, para passeiar sobre a neve dura quando o ceu brilha claro. Mas a desgra?ada dama, desde o seu primeiro dente acostumada a tantos explendores, já lhes n?o encontra encanto; uma simples corrida, n'um velho fiacre de Londres, de loja em loja, é-lhe cem vezes mais doce.

Depois, a vida do castello é de um vasio pardo e tristonho. Os homens, esses, de manh?, teem a ca?a, os galopes furiosos, devorando prados, saltando sebes atraz de uma raposa espavorida, ao grito barbaro de hally-hó! Depois á noite, tomado o banho e vestida a casaca, tem o grog forte no fumoir. Mas as desgra?adas damas? Todas bebem grog-mas raras s?o as que ca?am. O dia é-lhes lugubre. Uma burgueza, em Inglaterra, tem sempre uma occupa??o, mesmo nas existencias ricas: borda, pinta em porcellana, faz camisas para os pequenos Patagonios, ensina a ler os filhos dos caseiros, escreve as suas memorias ou corresponde-se com um Theologo sobre pontos difficeis de doutrina. Mas um dama das dez mil n?o faz nada; os seus grandes talentos, a toilette, a gra?a de receber, a intriga politica, o brilho da conversa??o, o chic esthetico, cousas em que prima, n?o lhe servem no isolamento relativo do castello, sob as torrentes da chuva. O seu palco natural é o sal?o de Londres. Alli no campo, nas longas galerias onde pendem as bandeiras que os seus antepassados tomaram em Azincourt ou Poitiers, ou, se os avósinhos nunca invadiram a Fran?a, as bandeiras compradas no antiquario da esquina, Mylady boceja; ou estendida n'um sofá, na sua robe-de-chambre de brocado branco de Genova, com uma novella cahida no rega?o, olha os flocos de neve empoando os grandes carvalhos do parque...

Depois vem a noite. é o peior. Os homens que fizeram talvez cinco legoas de galope atraz das rapozas, ou que se estiveram adestrando em jogos athleticos, têm somno. De gardenia na casaca e perola negra na camisa, estendidos para o fundo do sofá, derreados, meio adormentados pelo Nocturno de Chopin que um anjo louro preludia ao fundo da sala, s?o t?o inuteis para a flirtation, o espirito, a intriga, o amor, como se fossem empalhados.

Debalde as pobres damas fizeram uma toilette de duzentas libras: debalde resplandecem, ás mil luzes de cêra, os seus hombros de deusas. De nada valle. O gentleman anceia por deixar a sala, ir reconfortar-se com o seu brandy and soda, estirar aquelles membros que a raposa can?ou, em len?óes bem perfumados e bem bassinés, e ressonar forte.

Esta situa??o era intoleravel.

E os homens mesmo soffriam. Galopar n'um cavallo de pre?o sobre a terra dura da neve, ao ladrar da matilha, por uma manh? de brisa fria-tem encanto. Mas póde-se isso comparar á delicia de ir tagarelar para o club, ter todas as noites trez ou quatro bailes, fazer phrases sobre a quest?o do Oriente, e ceiar com Miss Fanny, n'um quente boudoir de veludo, emquanto fóra a plebe patinha na lama de Londres?! N?o, n?o se póde comparar.

E por isso veio o momento psychologico, como diz esse illustre homem de prosa, o snr. De Bismarck, em que ladies e lords concordaram que o inverno no campo era bom para os lobos; e que para pares de Inglaterra, Londres era preferivel. E ahi está como se vae ter esta cousa inesperada na vida ingleza-o inverno em Londres.

E, todavia, Deus sabe que elle n?o é agradavel, esse inverno de Londres! De manh?, ao acordar, tem-se deante da janella uma sombra opaca, espessa, parda, arripiadora e sinistra: é necessario fazer a barba, com o gaz flammejando; almo?a-se com todas as velas do candelabro accesas, e a carruagem que nos conduz é precedida de um archote. Ao meio dia esta decora??o de inverno muda; a sombra perde o tom pardo e, por grada??es odiosas, ganha um amarello de óca e come?a a exalar um vapor fetido. Respira-se mal, a roupa toma um pegajoso humido sobre a pelle, os edificios que nos cercam apparecem com as linhas vagas e chimericas das cidades malditas do Apocalypse, e o estrondo de Londres, este rude, tremendo estrepito, que deve lá em cima incommodar a corte do ceu, adquire uma tonalidade surda e roncante como um fragor n'um subterraneo.

Depois, á noite, outra mudan?a: toda esta sombra, este nevoeiro grosso, molle gorduroso, desfaz-se em chuva... Em chuva, digo eu? Em lama, em lama mal liquida, que escorre, pinga, vem babada de um ceu negro.

O gaz parece c?r de sangue; como todo o mundo, para combater esta nevoa gelante e mortal, bebe forte e bebe seguido, ha nas ruas um vago vapor de alcool, que passa nos halitos: isto excita, irrita, impelle a turba ao vicio. O ruido intoleravel das ruas, a pressa da multid?o violenta, o rude flammejar das vitrinas d?o uma accelera??o brutal ao sangue, uma vibra??o quasi dolorosa aos nervos; pensa-se com intensidade, caminha-se com impeto, deseja-se com furor; a besta humana inflamma-se: quer-se alguma coisa de forte e de animal, a lucta, o excesso, a gula, o abrasado do cognac, a paix?o. Londres n'uma noite de inverno, exhala violencia e crime. E póde-se affirmar que em cada uma das tipoias, que, aos milhares e aos milhares, passam como flechas, n'um relampejar rubro de lanternas, vae um cidad?o ou uma cidad? commettendo ou preparando-se para commetter, com excep??o da pregui?a, um dos sete peccados mortaes.

De uma coisa se póde ter a certeza: é que n?o ha de faltar, aos que v?o fazer o seu inverno a Londres, assumpto de cavaco. Além dos livros que se annunciam, dos escandalos que n?o h?o-de faltar, das modas que sempre se inventam, a politica, só por si, é todo um ramalhete; revolta certa na Irlanda; processo por alta trai??o dos chefes da Liga da Terra, deputados da Irlanda; nova guerra no Afghanistan, onde Cabul se insurreccionou; toda a Africa do Sul em rebelli?o; complica??es sinistras do lado do Oriente; desintelligencias estridentes entre os radicaes no poder... Emfim, um encanto.

Era em circumstancias identicas que o famoso Granville, o homem das Memorias, olhando n'um come?o de primavera para todos os lados do horizonte politico e social, e n?o vendo (em 1830) sen?o presagios negros de revolta, guerra, crises e perigos para a patria, dizia, banhado em jubilo, quasi em extasi:

-Meu Deus, que deliciosas noites se v?o passar no Club!

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