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A Senhora Viscondessa

A Senhora Viscondessa

Author: : S. de Magalh?es Lima
Genre: Literature
A Senhora Viscondessa by S. de Magalh?es Lima

Chapter 1 No.1

Um baile

Temos baile em casa da sr.a viscondessa de B***.

á porta do palacete param trens sem conta. Descem os convivas, profusamente almiscarados.

No sal?o crusam-se os pares: elles, fragrantes, como uma rosa de Bengalla; ellas, voluptuosas e tépidas, como uma brisa do Oriente.

A sala é vasta, enorme, quadrangular. A cada canto uma mesa de marmore oleosa e de difficil lav?r. Do tecto dourado e semicircular pende um lustre de sessenta lumes, adornado de flores artificiaes e de vidrilhos verdes. A mobilia, de um estofo azul e assetinado, rivalisa em symetria com os mais encantados jardins de Granada.

As janellas abertas atrai?oam os segredos dos namorados. Como relampagos, reflectem-se na pra?a as vertigens da walsa.

Por sobre a sombra do arvoredo ondeia a luz phantasticamente. A cada um d'estes banhos despertam as aves nos seus ninhos. E a lua, a doce companheira da tristeza, vae illuminando o espa?o, o mar e as solid?es.

As flores derramam uns aromas acres e inebriantes. N'um esplendido vaso de porcellana de Sévres, abre uma mimosa camelia as suas longas e avelludadas petalas.

Umas plantas exoticas, orientaes, adornam o espa?o ladrilhado das janellas de sacada.

Entra a viscondessa na sala. Os grupos cessam de falar. Em redor d'ella tudo se apinha, tudo se confunde, tudo se baralha.

A valsa recome?a. Nos espelhos de crystal reflectem-se as estranhas imagens, que, n'esta noite, povoam o sal?o. Sobre as piscinas de marmore debru?am-se as avesinhas artificiaes--pobres avesinhas implumes feitas de pedra e de calcareo.

Estremecem docemente os cortinados da janella. Os peitos arfam de can?ados; e na parede o papel, como que exhala uns mysteriosos e prolongados calores.

--Quer v. ex.a conceder-me esta valsa?--diz um cavalheiro, offerecendo o bra?o a uma gentil dama de vinte annos.

E entrou no turbilh?o.

--Mas perd?o, senhora viscondessa... bem vê que na minha posi??o...

--Acompanhe-me, Alfredo.

E os dois seguiram para uma saleta proxima, situada á direita do sal?o.

Os creados serviram o chá. Na varanda fumavam e conversavam os cavalheiros. Algumas senhoras refaziam a sua toilette, em parte desfeita pelos ardores da dan?a.

--E acredita a senhora viscondessa, que eu realmente lhe podesse ser affei?oado nas condi??es em que me acho?

--E por que n?o, Alfredo, se eu o amo loucamente.

Um leve ruido interrompeu o dialogo.

A saleta era assaz confortavel. Uns moveis escuros a guarneciam tristemente. Ao longo da parede destacavam uns quadros sombrios, meigos, phantasticos. Em cima do fog?o agitava-se o pendulo do relogio, como se effectivamente nos quizesse recordar uma pulsa??o dolorosa.

A viscondessa, airosamente sentada n'um fofo sophá, volvia os olhos nervosos na direc??o da porta do baile.

--Ninguem nos ouvirá--exclamava ella de si para si.

E continuou a fallar para Alfredo, que, a longos passos, percorria a sala de um a outro extremo.

Entretanto a orchestra convidava a uma quadrilha.

Um elegante mo?o entrou na saleta.

--Venho lembrar a v. ex.a, minha senhora, que esta quadrilha me pertence.

A viscondessa acompanhou-o.

Alfredo só, roia um charuto furiosamente, quando novo ruido o despertou.

Defronte d'elle, e amea?ando-o com um punhal, estava um rapaz, cheio de febre, de odio e de vingan?a.

--Ouvi tudo--exclamou o intruso. Ou tu me promettes nunca amar a viscondessa, ou eu te assassino aqui, como um miseravel que és.

--Nunca!...--vociferou Alfredo, arrancando-lhe o punhal da m?o. Primeiro cahirás tu, desgra?ado. Já, já fora d'esta casa.......................

* * *

Este incidente, como é natural, perturbou a quadrilha, que ent?o se dan?ava. Acorreram todos. Os dois contendores haviam desapparecido da saleta.

O baile continuou.

Chapter 2 No.2

A Senhora Viscondessa

é uma mulher da moda--chlorotica, anemica, febril.

Olhar vivo, e transparente, como um chrystal. Na sua doce pallidez o que quer que seja das vis?es de Schiller. No andar, porte altivo, donairoso, esbelto. As longas insomnias, apaixonadas, tornaram-n'a triste e contemplativa, como uma virgem de Murillo.

é viscondessa; faz muitas esmolas e possue trens faustuosos.

Acabam de soar duas horas nos relogios da cidade. Um calor intenso abrasa as cal?adas. Corria o mez de Maio de 1859. No Largo de Cam?es, o sol, batendo de chapa, sobre um telhado visinho, reflectira-se estranhamente nos aposentos da viscondessa.

No corredor presentira-se o ranger de um leito. O cortinado de cambraia foi delicadamente afastado por uma m?o de marfim, pequena e esculptural.

--Virginia, Virginia--gritou uma voz sonora, de timbre metalico e adocicado.

A porta do quarto, abrindo-se, deixou entre vêr o rosto de uma formosa crean?a, loura como um cherubim e tentadora como Eva.

--V. ex.a chamou, minha senhora?

--Sim, chamei.--Traze-me o meu roup?o branco e vem ajudar-me a vestir.

E a viscondessa, bocejando infantilmente tornou a cahir no travesseiro, doida de somno e ébria de amor.

Adormeceu de novo.

Uma hora volvida veio Virginia encontral-a sentada n'uma poltrona, defronte do espelho.

Fingia que lia. Do rega?o pendia-lhe um romance francez. Com a m?o direita desviava as tran?as fartas, que, por vezes caprichavam em cahir-lhe sobre o peito. O bra?o esquerdo, abra?ando o espaldar da cadeira, servia-lhe de encosto.

De subito ergueu-se como uma estatua. Procurou um pente e largou-o com desfastio. Olhou para o relogio, tocou a campainha, e tornou a sentar-se.

--Estou aqui, minha senhora. Deseja alguma cousa?

--Ah! Estavas aqui. Ora vejam que cabe?a a minha que nem sequer havia dado por tal.--Manda-me arranjar o almo?o, anda.

--Por mais que me digam a senhora n?o anda b?a--murmurava a ladina da creada, correndo espevitadamente.

A viscondessa, sempre inquieta, ergueu-se novamente. Percorreu o corredor e entrou na sala de jantar. Dirigiu se a um periquito, que ali tinha, tirou-o da gaiola e come?ou de afagal-o meigamente.

--Coitadinho do meu bijou--exclamava ella com do?ura.

Foi-se depois ao canario, trouxe-o para a mesa, e destribuindo com elle a comida, que mal provava, introduziu-o no seio.

Um c?o pequeno, felpudo, ensaboado e luzente, como verniz, fazia pendant com os dois personagens, acima descriptos. Joli lhe chamava a viscondessa. Nunca sahia da sala de jantar. Era o seu theatro d'elle. Ali aprendêra a ser guloso e concupiscente. Quando a senhora chegava, elle, de um pulo, saltando lhe ao rega?o, para logo principiava de lamber-lhe as faces e os cabellos. A dona da casa aceitára, sem repugnancia, este tributo quotidiano.

Alêm do c?o havia um gato maltez, elastico, como uma serpente e indolente como um chin.

Entre o c?o e o gato existia uma mediadora: era a viscondessa. Por fim os dois rivaes fizeram tréguas. Chegaram até a comer no mesmo prato, brincando como dois amigos.

Nos seus dias de melancholia, a viscondessa, orph? de pae e m?e, sem parentes, só no mundo e senhora de ricos haveres, reunindo em redor de si t?o variada e interessante familia, sentia-se mais feliz, e porventura mais esquecida do que nunca.

O gato aquecia, o c?o lambia, e as aves entretinham, cantando.

Emfim bateram quatro horas. A Viscondessa bocejou mais uma vez.

--Se elle, ao menos, me amasse...--dizia ella, erguendo-se.

E, continuando pelo corredor, entrou no boudoir, onde a esperava a cabelleireira.

Vestiu um chambr?o de cachemira azul; e, sentando-se na cadeira que lhe offereceram divagou, ao acaso, durante uma hora.

Quando acordou estava realmente encantadora.

O cabello, frisado a capricho, imprimia-lhe um aspecto senhoril e grave. O rosto desanuviara-se-lhe. Foi ao espelho, e, como fl?r que ao sol desabrocha, sorriu-se maliciosamente.

--Achas-me bonita, assim?--perguntou ella a Virginia.

--Deslumbrante--minha rica senhora.

E a viscondessa, toda vaidade e tenta??o, foi-se até á cosinha, pretextando umas ordens para o jantar.

Voltou depois ao quarto. A um ligeiro impulso cahira-lhe o roup?o. Sorrindo-se, envergou umas saias pesadas e cheias de gomma. Remirou-se novamente ao espelho. Com um pincel, mergulhado em carmim, deu c?r ao rosto, naturalmente desmaiado. Apertado o espartilho e collocada a tournure enfiou um rico vestido de setim. Chamou Virginia e pediu alfinetes. Pregou o vestido, pregou o cabello, pregou as saias, pregou-se a si e sahiu do boudoir.

--Ora esta! e n?o me ia agora esquecendo o crême imperatrice--monologava ella, voltando á saleta.

Defronte do espelho, recuando dois passos e fazendo tregeitos para um o outro lado, empoeirou-se gravemente.

Extrahiu do gavet?o um len?o de cambraia; destapou um vidrito de jockey-club, perfumou-se e entrou na sala do baile.

O piano estava aberto. A viscondessa sentou-se. Dedilhou, ao acaso, uma escala e aborreceu-se.

Olhou para um espelho, mudou um dos ganchos do cabello e abriu a janella.

Uma brisa tépida soprava apenas. O sol ia declinando no horisonte. Nas ruas mexiam-se as multid?es apressadamente. Alguns cavalheiros de chapéu na m?o limpavam o suor da testa. As damas, mesmo á janella, agitavam os leques phreneticamente. Os freguezes entravam nos botequins, e pediam sorvetes.

Estava proxima a hora do passeio, a hora de luar, a hora de amor.

Seriam oito horas, quando a viscondessa cerrou a janella. Chegára-lhe finalmente a vontade de jantar.

Caminhou lentamente, deixando após de si um rumor surdo, e mui semelhante ao remexer de folhas, agitadas pelo vento.

Insaciavel, hysterica, nervosa, sentou-se á mesa pela segunda vez n'aquelle dia. Provou de tudo sem comer de nada. Bebeu um gólo de malvasia e fez-lhe uma careta insupportavel. Limpou os labios de coral e mandou arranjar o trem.

Prompta a carruagem e cal?adas as luvas dirigiu-se para o theatro de D. Maria.

Representava-se a Vida de um rapaz pobre n'essa noite. A Viscondessa admiravel de bellesa e encanto, provocava de continuo os binoculos das plateias.

No fim do 3.o acto a porta da frisa abriu-se. Era Alfredo que entrava. A Viscondessa sorriu-se.

--Sabe, Alfredo, que o esperei hoje todo o dia?

--E n?o o ter eu adivinhado, senhora viscondessa?

--Se imaginasse o aborrecimento em que vivo decerto n?o seria t?o cruel para commigo.

--Mas, minha senhora, a minha posi??o... emfim... eu n?o sei...V. ex.a...

E a orchestra, tocando uma symphonia, deu o signal de despedida.

--Alfredo, enleiado e timido, sahiu da frisa. A Viscondessa cumprimentou-o, e, como sempre sorriu-se tristemente. O espectaculo continuou.

á sahida do theatro, quando a Viscondessa, acompanhada por um creado, punha o pé direito no estribo da carruagem um desconhecido, abeirando-se d'ella entregára-lhe um pequeno bilhete, ligeiramente perfumado.

Os cavallos partiram a galope. Apenas chegada a casa, a senhora, toda receio e anciedade, abriu o bilhete.

Desengano, desengano cruel! N?o era de Alfredo a letra...

Mas de quem poderia ser? A quem attribuir aquellas palavras ardentes?

?Amo-te--escrevêra o anonymo.--Doidamente te amo. Tu decidirás da minha sorte. Sou pobre, sou operario. Embora! Hei de conquistar-te ainda mesmo atravez do sangue do meu rival.

--Sempre é muito atrevido!...--exclamava a viscondessa, despindo-se já.

Acendeu depois um charuto, um excellente charuto havano.

A pouco e pouco foram-se-lhe os olhos estreitando. Para um lado pendeu a cabe?a abrasada, e para outro o bra?o, cuja m?o deixava cahir o charuto, quasi apagado.

Languida, abatida, sensual a senhora adormeceu finalmente.

Virginia chegára pé ante pé e retirára a luz. O palacete, envolto em trévas, acompanhára o somno da sua rainha.

E assim se passava a vida da Viscondessa.

Chapter 3 No.3

Alfredo

Alfredo da Silveira nascêra embalado pelos sorrisos da fortuna.

Teve uma casa que vendeu. E que bonita casa! Situada na orla da praia extendia-se deante d'ella o oceano como um vasto len?ol, cujas dobras phantasticas se encolhiam e desencolhiam, consoante as horas e as marés.

N'essa casa viu a luz Alfredo. Ahi, envolto com o maternal carinho, aprendera elle a entoar as primeiras trovas da infancia; ahi tambem suspiroso, como um lago, e candido, como o céu, aprendêra a ser um filho honrado e um cidad?o benemerito.

Mas a infancia, esvaecida n'uma manh? de rosas, deixára após de si o lucto de um cora??o e a orphandade de uma familia.

A solitaria vivenda, circundada de fest?es e madre-silvas, sentira-se isolada e triste. Na vira??o da tarde já as flores silvestres n?o derramavam, como outr'ora, uns aromas t?o vivos e t?o profundamente salutares e amenos.

Ausentara-se dali a mulher angelica, boa, virtuosa, cujo espirito, evolado nas azas da saudade, f?ra perante Deus rogar pela felicidade de seu unico filho.

E Alfredo chorou e chorou deveras...

Estava, porêm, na primavera da vida. Auspiciado pelas brisas da mocidade demandou a capital, cujo ruido o captava em extremo.

Dirigiu-se para Lisb?a e ahi fixou residencia.

Para qualquer que o visse seria o seu rosto gentil e levemente effeminado o mais seguro passa-porte de uma fina e aprimorada educa??o.

Usava de ordinario fato preto a que dava real?e uma esplendida camelia, artisticamente collocada na boutonniére.

Elegiaco por condi??o nada havia que o satisfizesse. Um vacúo immenso lhe torturava a existencia. Filho do tédio e vivendo para o tédio o seu espirito, agrilhoado por uma nostalgia sem limites, experimentava de continúo um mal-estar insupportavel, atroz, corrosivo, e porventura uma doen?a impossivel de definir-se.

A sua complei??o delicada, e consumida pelos vinhos, agitava-se alternadamente entre dois mundos infinitos e contradictorios. Amava e n?o amava, queria e n?o queria, pensava e n?o pensava.

Alto, magro, nervoso tudo o impressionava com uma fatalidade irresistivel. O mundo era-lhe um phantasma sombrio, chimerico, cuja sombra elle amaldia?oava, a todas as horas, no café, na rua, no bordel, na sociedade emfim.

Mulheres havia que sonhavam com o seu bigode louro, a sua cabelleira phantastica, e os seus sorrisos provocadores, ingenuos e ligeiramente ironicos.

Elle, porêm, detestava as mulheres em espirito, aproveitando-lhes o corpo e a carne, como um mero passa-tempo social.

Só uma vez amou, e, como Christo, doidamente, loucamente, profundamente.

Ent?o foi ditoso muito ditoso.

A felicidade mirara-se n'elle, como uma donzella no seu espelho. N?o lhe faltaram nem as cren?as do ber?o nem as extravagancias da juventude. Tudo lhe sorrira, desde o leito que primeiro o amamentou até ao vinho, ao terrivel vinho que ultimamente o prostituiu.

F?ra ditoso...

Viajando viu muita coisa!

Viu mulheres novas que se abandonavam aos velhos; crean?as loucas que se entregavam ás orgias, cuspindo na face das m?es; politicos mercenarios, que, á maneira das mulheres de Babylonia, alugavam ao primeiro, que na estrada passava, a honra e a consciencia; exploradores sem conta, eternas Shylocks da publica miseria; paes que despresavam os filhos, irm?os que matavam os irm?os, m?es que vendiam as filhas.

Viu muita coisa...

Passeando, admirou muito!

No Oriente encontrou mulheres formosas, pallidas, sansuaes. Depois passou á Grecia, a sábia, a divina m?e, onde Corina mais tarde teve o seu ber?o de flores. E ainda percorreu Roma, aquella Roma dos Cesares e da rocha tarpeia e Verona a patria de Julietta, e a Escocia o theatro de Macbeth.

Admirou muito...

Bebeu sempre!

Provou o incomparavel tokai, esplendido falerno dos tempos modernos, encheu-se de absyntho e saboreou o alcool com delicia.

Bebeu sempre...

Fumou com ard?r!

O chibuca, o opio, o havano tudo lhe embriagou os sentidos, fazendo d'elle uma alma pag? e um corpo lascivo, m?rno, cheio de tédio e de languidez.

Fumou com ardor...

Amou delirantemente!

Lembro-me t?o bem...

A onda brincava travêssa sobre a praia longinqua. Uma brisa tépida, apenas, semelhando um leque de plumas, agitava docemente as vagas do Oceano. Como o arfar de uma mulher aos vinte annos, assim a natureza suspirava languida, nervosa, etherea.

E ao longe, atravez das brumas phantasticas, scintillaram seus vestidos brancos, suas faces pallidas e seu olhar azul.

Sorrira-lhe pela primeira vez o ideal no horisonte da vida.

Aproveitou a serenidade do crepusculo para lhe fallar. Disse-lhe o que sentia. A crean?a encarou-o duas, tres, quatro, cinco vezes, sorrindo-se amavelmente.

Volvidos dias tornou-se a encontrar com ella n'um immenso, escuro pinhal. Ali confidenciaram largamente. Juraram amar-se.

E elle na sua louca estulta ingenuidade ousou acredital-a.

Desgra?ado do mo?o, que tinha um cora??o, impossivel de esmagar.

Quando, passados annos, lhe disseram que ella se havia tornado uma grande mulher do mundo, a eterna bas-bleu dos sal?es, sentiu-se inanimado quasi, imbelle, exangue.

Tentou afastar de si o gélido phantasma que o perseguia sem cessar, e que mesmo em vida lhe seria triste mortalha. Em cata d'ella correu, voou. Precipitou-se, finalmente n'um theatro, onde, pela quarta vez, a contemplou mais scintillante que uma esmeralda e mais loura ainda que um archanjo.

á sahida do espectaculo experimentou um estranho choque no seu hombro direito. Olhou e viu-a a ella que lhe acenava com uma das m?os. Aproximou-se ent?o. No lagedo da sala existia um pequeno bilhete que elle apanhou cuidadosamente.

?Espero-o amanh?, á uma hora da tarde?--escrevêra ella a lapis.

E, cheio de anciedade, tambem elle esperou pela aprazada hora.

Ao penetrar no seu quarto, d'ella, tremeu involuntariamente. Um singular ruido lhe captou os sentidos. Emilia jogava, e, na febre do jogo, ria descompostamente.

Sentou-se ao lado de um desconhecido.

Terminado o jogo seguira-se o Cognac.

Beberam todos.

Emilia levantou-se depois, e cerrou hermeticamente todas as janellas do quarto. Derramaram-se perfumes em larga escala. No centro foi collocado um braseiro.

D'entro em duas horas estavam todos adormecidos. Só Alfredo, sentindo-se abafado, morto, enraivecido e n?o podendo conter mais a asphyxia que lentamente o devorava, come?ou de gritar terrivelmente, terminando por desfechar dois tiros de revolver na direc??o da porta de entrada.

Acorreu muita gente. A porta foi arrombada.

Entraram todos.

O feio silencio do tumulo envolvia a casa d'aquella mulher. Para um lado seis cadaveres de homens com os olhos arregalados, a bocca semi-aberta e o corpo ensanguentado; para outro lado uma mulher com os vestidos rotos, o cabello arrancado e as faces horrivelmente maceradas.

?Emilia, Emilia...--exclamava elle repetidas vezes.

E só os echos repeliam:

?Emilia, Emilia...[1]

Desde ent?o para cá Alfredo, endurecido no cynismo e na indifferen?a, tem arrastado uma vida monotona, semsabor, aborrecida.

Levanta-se ordinariamente á uma hora da tarde doente, triste, sonhando uns males terriveis, imaginarios.

N?o almo?a nunca. O appetite fugiu-lhe com as extravagancias do estomago. Nem mesmo tem já paladar.

Percorre as ruas authomaticamente olhando as vitrines das lojas, a cujas esquinas estaciona.

Frequenta os bailes, mais por uma necessidade de espirito do que por um enthusiasmo juvenil.

Como Falstaff ceia muito: espantosamente, loucamente. Pela madrugada recolhe-se a um quarto solitario, que alugou e onde vive só, sem creado nem creada.

Lê e escreve no restaurante, sua habitual residencia.

Na noite em que o encontrámos no sal?o da viscondessa, recolhia-se elle a casa mais melancholico do que o costume.

--Mas quem será o maldito rival?--monologava elle de si para comsigo. Acham pouco ainda? pois bem. Tambem tu cahirás, minha querida viscondessa. Tentou-te o demonio estupido: serás uma das suas victimas.

E entrou no café.

[1] Este facto que para muitos passará por inverosimil, deu-se, todavia, proximo de Lisb?a, em 1854.

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