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A Relíquia

A Relíquia

Author: : E?a de Queirós
Genre: Literature
A Relíquia é um romance do escritor português Eça de Queirós, publicado em 1887. O autor deu-lhe como subtítulo, a agora célebre frase sobre a nudez forte da verdade – o manto diáfano da fantasia. A obra é influenciada pela Vida de Jesus, São Paulo de Ernest Renan e Memorias de Judas de Ferdinando Petruccelli della Gattina. Alguns autores acusaram Eça de Queirós de ter plagiado a obra de Petruccelli della Gattina.

Chapter 1 No.1

Meu av? foi o padre Rufino da Concei??o, licenciado em theologia, author de uma devota Vida de Santa Philomena, e prior da Amendoeirinha. Meu pai, afilhado de Nossa Senhora da Assump??o, chamava-se Rufino da Assump??o Raposo-e vivia em Evora com a minha avó, Philomena Raposo, por alcunha a ?Repolhuda,? doceira na rua do Lagar dos Dizimos. O papá tinha um emprego no correio, e escrevia por gosto no Pharol do Alemtejo.

Em 1853, um ecclesiastico illustre, D. Gaspar de Lorena, bispo de Chorazin (que é em Galilêa), veio passae o S. Jo?o a Evora, a casa do conego Pitta, onde o papá muitas vezes á noite costumava ir tocar viol?o. Por cortezia com os dois sacerdotes, o papá publicou no Pharol uma chronica, laboriosamente respigada no Peculio de Prégadores, felicitando Evora ?pela dita d'abrigar em seus muros o insigne prelado D. Gaspar, lume fulgente da Igreja, e preclarissima torre de santidade.? O bispo de Chorazin recortou este peda?o do Pharol para o metter entre as folhas do seu Breviario; e tudo no papá lhe come?ou a agradar, até o aceio da sua roupa branca, até a gra?a chorosa com que elle cantava, acompanhando-se no viol?o, a xacara do conde Ordonho. Mas quando soube que este Rufino da Assump??o, t?o moreno e sympathico, era o afilhado carnal do seu velho Rufino da Concei??o, camarada de estudos no bom Seminario de S. José e nas veredas theologicas da Universidade, a sua affei??o pelo papá tornou-se extremosa. Antes de partir de Evora deu-lhe um relogio de prata; e, por influencia d'elle, o papá, depois de arrastar alguns mezes a sua madra?aria pela alfandega do Porto, como aspirante, foi nomeado, escandalosamente, director da alfandega de Vianna.

As macieiras cobriam-se de fl?r quando o papá chegou ás veigas suaves d'Entre-Minho-e-Lima; e logo n'esse julho conheceu um cavalheiro de Lisboa, o commendador G. Godinho, que estava passando o ver?o com duas sobrinhas, junto ao rio, n'uma quinta chamada o Mosteiro, antigo solar dos condes de Lindoso. A mais velha d'estas senhoras, D. Maria do Patrocinio, usava oculos escuros, e vinha todas as manh?s da quinta á cidade, n'um burrinho, com o criado de farda, ouvir missa a Sant'Anna. A outra, D. Rosa, gordinha e trigueira, tocava harpa, sabia de cór os versos do Amor e Melancolia, e passava horas, á beira da agua, entre a sombra dos amieiros, rojando o vestido branco pelas relvas, a fazer raminhos silvestres.

O papá come?ou a frequentar o Mosteiro. Um guarda da alfandega levava-lhe o viol?o; e emquanto o commendador e outro amigo da casa, o Margaride, doutor delegado, se embebiam n'uma partida de gam?o, e D. Maria do Patrocinio rezava em cima o ter?o-o papá, na varanda, ao lado de D. Rosa, defronte da lua, redonda e branca sobre o rio, fazia gemer no silencio os bord?es e dizia as tristezas do conde Ordonho. Outras vezes jogava elle a partida de gam?o: D. Rosa, sentava-se ent?o ao pé do titi, com uma fl?r nos cabellos, um livro cahido no rega?o; e o papá, chocalhando os dados, sentia a caricia promettedora dos seus olhos pestanudos.

Casaram. Eu nasci n'uma tarde de sexta-feira de Paix?o; e a mam? morreu, ao estalarem, na manh? alegre, os foguetes da Alleluia. Jaz, coberta de goivos, no cemiterio de Vianna, n'uma rua junto ao muro, humida da sombra dos chor?es, onde ella gostava de ir passear nas tardes de ver?o, vestida de branco, com a sua cadellinha felpuda que se chamava Traviata.

O commendador e D. Maria n?o voltaram ao Mosteiro. Eu cresci, tive o sarampo; o papá engordava; e o seu viol?o dormia, esquecido ao canto da sala, dentro d'um sacco de baeta verde. N'um julho de grande calor, a minha criada Gervasia vestiu-me o fato pesado de velludilho preto; o papá poz um fumo no chapéo de palha; era o luto do commendador G. Godinho a quem o papá muitas vezes chamava, por entre dentes, ?malandro.?

Depois, n'uma noite de entrudo, o papá morreu de repente, com uma apoplexia, ao descer a escadaria de pedra da nossa casa, mascarado d'urso, para ir ao baile das senhoras Macedos.

Eu fazia ent?o sete annos; e lembro-me de ter visto, ao outro dia, no nosso pateo, uma senhora alta e gorda, com uma mantilha rica de renda negra, a solu?ar diante das manchas de sangue do papá, que ninguem lavára, e já tinham seccado nas lages. á porta uma velha esperava, rezando, encolhida no seu mantéo de baetilha.

As janellas da frente da casa foram fechadas; no corredor escuro, sobre um banco, um candieiro de lat?o ficou dando a sua luzinha de capella, fumarenta e mortal. Ventava e chovia. Pela vidra?a da cozinha, emquanto a Marianna, choramigando, abanava o fogareiro, eu vi passar no largo da Senhora da Agonia, o homem que trazia ás costas o caix?o do papá. No alto frio do monte a capellinha da Senhora, com a sua cruz negra, parecia mais triste ainda, branca e nua, entre os pinheiros, quasi a sumir-se na nevoa; e adiante, onde est?o as rochas, gemia e rolava, sem descontinuar, um grande mar d'inverno.

á noite, no quarto de engommar, a minha criada Gervasia sentou-me no ch?o, embrulhado n'um saiote. De quando em quando, rangiam no corredor as botas do Jo?o, guarda da alfandega, que andava a defumar com alfazema. A cozinheira trouxe-me uma fatia de p?o de ló. Adormeci: e logo achei-me a caminhar á beira d'um rio claro, onde os choupos, já muito velhos, pareciam, ter uma alma e suspiravam; e ao meu lado ia andando um homem nú, com duas chagas nos pés, e duas chagas nas m?os, que era Jesus, Nosso Senhor.

Passados dias, acordaram-me, n'uma madrugada em que a janella do meu quarto, batida do sol, resplandecia prodigiosamente como um prenuncio de coisa santa. Ao lado da cama, um sujeito risonho e gordo fazia-me cocegas nos pés com ternura e chamava-me bréjeirote. A Gervasia disse-me que era o snr. Mathias, que me ia levar para muito longe, para casa da tia Patrocinio: e o snr. Mathias, com a sua pitada suspensa, olhava espantado para as meias r?tas que me cal?ára a Gervasia. Embrulharam-me no chale-manta cinzento do papá; o Jo?o, guarda da alfandega, trouxe-me ao collo até á porta da rua, onde estava uma liteira com cortinas d'oleado.

Come?ámos ent?o a caminhar por compridas estradas. Mesmo adormecido, eu sentia as lentas campainhas dos machos: e o snr. Mathias, defronte de mim, fazia-me de vez em quando uma festinha na cara, e dizia: ?Ora cá vamos.? Uma tarde, ao escurecer, parámos de repente n'um sitio ermo, onde havia um lama?al; o liteireiro, furioso, praguejava, sacudindo o archote acceso. Em redor, dolente e negro, rumorejava um pinheiral. O snr. Mathias, enfiado, tirou o relogio da algibeira e escondeu-o no cano da bota.

Uma noite, atravessámos uma cidade onde os candieiros da rua tinham uma luz jovial, rara e brilhante como eu nunca vira, da fórma d'uma tulipa aberta. Na estalagem em que apeámos, o criado, chamado Gon?alves, conhecia o snr. Mathias: e depois de nos trazer os bifes, ficou familiarmente encostado á mesa, de guardanapo ao hombro, contando coisas do snr. bar?o, e da ingleza do snr. bar?o. Quando recolhiamos ao quarto, alumiados pelo Gon?alves, passou por nós, bruscamente, no corredor, uma senhora, grande e branca, com um rumor forte de sêdas claras, espalhando um aroma d'almiscar. Era a ingleza do snr. bar?o. No meu leito de ferro, desperto pelo barulho das seges, eu pensava n'ella, rezando Ave-Marias. Nunca ro?ára corpo t?o bello, d'um perfume t?o penetrante: ella era cheia de gra?a, o Senhor estava com ella, e passava, bemdita entre as mulheres, com um rumor de sêdas claras...

Depois, partimos n'um grande coche que tinha as armas do rei, e rolava a direito por uma estrada lisa, ao trote forte e pesado de quatro cavallos gordos. O snr. Mathias, de chinelas nos pés e tomando a sua pitada, dizia-me, aqui e além, o nome d'uma povoa??o aninhada em torno d'uma velha igreja, na frescura d'um valle. Ao entardecer, por vezes, n'uma encosta, as janellas d'uma calma vivenda faiscavam com um fulgor d'ouro novo. O coche passava; a casa ficava adormecendo entre as arvores; através dos vidros embaciados eu via luzir a estrella de Venus. Alta noite tocava uma corneta; e entravamos, atroando as cal?adas, n'uma villa adormecida. Defronte do port?o da estalagem moviam-se silenciosamente lanternas morti?as. Em cima, n'uma sala aconchegada, com a mesa cheia de talheres, fumegavam as terrinas; os passageiros, arripiados, bocejavam, tirando as luvas grossas de l?; e eu comia o meu caldo de gallinha, estremunhado e sem vontade, ao lado do snr. Mathias, que conhecia sempre algum mo?o, perguntava pelo doutor delegado, ou queria saber como iam as obras da camara.

Emfim, n'um domingo de manh?, estando a choviscar, chegámos a um casar?o, n'um largo cheio de lama. O snr. Mathias disse-me que era Lisboa; e, abafando-me no meu chale-manta, sentou-me n'um banco, ao fundo d'uma sala humida, onde havia bagagens e grandes balan?as de ferro. Um sino lento tocava á missa; diante da porta passou uma companhia de soldados, com as armas sob as capas d'oleado. Um homem carregou os nossos bahús, entrámos n'uma sege, eu adormeci sobre o hombro do snr. Mathias. Quando elle me poz no ch?o, estavamos n'um pateo triste, lageado de pedrinha miuda, com assentos pintados de preto: e na escada uma mo?a gorda cochichava com um homem d'opa escarlate, que trazia ao collo o mealheiro das Almas.

Era a Vicencia, a criada da tia Patrocinio. O snr. Mathias subiu os degraus conversando com ella, e levando-me ternamente pela m?o. N'uma sala forrada de papel escuro, encontrámos uma senhora muito alta, muito secca, vestida de preto, com um grilh?o d'ouro no peito; um len?o r?xo, amarrado no queixo, cahia-lhe n'um bioco lugubre sobre a testa; e no fundo d'essa sombra negrejavam dois oculos defumados. Por traz d'ella, na parede, uma imagem de Nossa Senhora das D?res olhava para mim, com o peito trespassado d'espadas.

-Esta é a titi, disse-me o snr. Mathias. é necessario gostar muito da titi... é necessario dizer sempre que sim á titi!

Lentamente, a custo, ella baixou o car?o chupado e esverdinhado. Eu senti um beijo vago, d'uma frialdade de pedra: e logo a titi recuou, enojada.

-Credo, Vicencia! Que horror! Acho que lhe puzeram azeite no cabello!

Assustado, com o beicinho já a tremer, ergui os olhos para ella, murmurei:

-Sim, titi.

Ent?o o snr. Mathias gabou o meu genio, o meu proposito na liteira, a limpeza com que eu comia a minha sopa á mesa das estalagens.

-Está bem, rosnou a titi seccamente. Era o que faltava, portar-se mal, sabendo o que eu fa?o por elle... Vá, Vicencia, leve-o lá para dentro... Lave-lhe essa ramella, veja se elle sabe fazer o signal da cruz...

O snr. Mathias deu-me dois beijos repenicados. A Vicencia levou-me para a cozinha.

á noite vestiram-me o meu fato de velludilho; e a Vicencia, séria, d'avental lavado, trouxe-me pela m?o a uma sala em que pendiam cortinas de damasco escarlate, e os pés das mesas eram dourados como as columnas d'um altar. A titi estava sentada no meio do canapé, vestida de sêda preta, toucada de rendas pretas, com os dedos resplandecentes de anneis. Ao lado, em cadeiras tambem douradas, conversavam dois ecclesiasticos. Um, risonho e nedio, de cabellinho encaracolado e já branco, abriu os bra?os para mim, paternalmente. O outro, moreno e triste, rosnou só ?boas noites.? E da mesa, onde folheava um grande livro de estampas, um homemzinho, de cara rapada e collarinhos enormes, comprimentou, atarantado, deixando escorregar a luneta do nariz.

Cada um d'elles vagarosamente me deu um beijo. O padre triste perguntou-me o meu nome, que eu pronunciava Tedrico. O outro, amoravel, mostrando os dentes frescos, aconselhou-me que separasse as syllabas e dissesse The-o-do-ri-co. Depois acharam-me parecido com a mam?, nos olhos. A titi suspirou, deu louvores a Nosso Senhor de que eu n?o tinha nada do Raposo. E o sujeito de grandes collarinhos fechou o livro, fechou a luneta, e timidamente quiz saber se eu trazia saudades de Vianna. Eu murmurei, atordoado:

-Sim, titi.

Ent?o o padre mais idoso e nedio chegou-me para os joelhos, recommendou-me que fosse temente a Deus, quietinho em casa, sempre obediente á titi...

-O Theodorico n?o tem ninguem sen?o a titi... é necessario dizer sempre que sim á titi...

Eu repeti, encolhido:

-Sim, titi.

A titi, severamente, mandou-me tirar o dedo da bocca. Depois disse-me que voltasse para a cozinha, para a Vicencia, sempre a seguir pelo corredor...

-E quando passar pelo oratorio, onde está a luz e a cortina verde, ajoelhe, fa?a o seu signalzinho da cruz...

N?o fiz o signal da cruz. Mas entreabri a cortina; e o oratorio da titi deslumbrou-me, prodigiosamente. Era todo revestido de sêda r?xa, com paineis enternecedores em caixilhos floridos, contando os trabalhos do Senhor; as rendas da toalha do altar ro?avam o ch?o tapetado; os santos de marfim e de madeira, com aureolas lustrosas, viviam n'um bosque de violetas e de camelias vermelhas. A luz das velas de cera fazia brilhar duas salvas nobres de prata, encostadas á parede, em repouso, como broqueis de santidade; e erguido na sua cruz de pau preto, sob um docel, Nosso Senhor Jesus Christo era todo d'ouro, e reluzia.

Cheguei-me devagar até junto da almofada de velludo verde, pousada diante do altar, cavada pelos piedosos joelhos da titi. Ergui para Jesus crucificado os meus lindos olhos negros. E fiquei pensando que no céo os anjos, os santos, Nossa Senhora e o Pai de todos, deviam ser assim, de ouro, cravejados talvez de pedras: o seu brilho formava a luz do dia; e as estrellas eram os pontos mais vivos do metal precioso, transparecendo através dos véos negros, em que os embrulhava á noite, para dormirem, o carinho beato dos homens.

Depois do chá, a Vicencia foi-me deitar n'uma alcovinha pegada ao seu quarto. Fez-me ajoelhar em camisa, juntou-me as m?os, ergueu-me a face para o céo. E dictou os Padre-Nossos que me cumpria rezar pela saude da titi, pelo repouso da mam?, e por alma d'um commendador que f?ra muito bom, muito santo, e muito rico, e que se chamava Godinho.

* * * * *

Apenas completei nove annos, a titi mandou-me fazer camisas, um fato de pano preto, e collocou-me, como interno, no collegio dos Isidoros, ent?o em Santa Isabel.

Logo nas primeiras semanas liguei-me ternamente com um rapaz Chrispim, mais crescido que eu, filho da firma Telles, Chrispim & C.^a, donos da fabrica do fia??o á Pampulha. O Chrispim ajudava á missa aos domingos; e, de joelhos, com os seus cabellos compridos e louros, lembrava a suavidade d'um anjo. ás vezes agarrava-me no corredor e marcava-me a face, que eu tinha feminina e macia, com beijos devoradores; á noite, na sala, d'estudo, á mesa onde folheavamos os somnolentos diccionarios, passava-me bilhetinhos a lapis, chamando-me seu idolatrado o promettendo-me caixinhas de pennas d'a?o...

á quinta-feira era o desagradavel dia de lavarmos os pés. E tres vezes por semana o sebento padre Soares, vinha, de palito na bocca, interrogar-nos em doutrina e contar-nos a vida do Senhor.

-Ora depois pegaram, e levaram-no de rastos a casa de Caiphás... Olá, o da pontinha do banco, quem era Caiphás?... Emende! Emende adiante!... Tambem n?o! Irra, cabe?udos! Era um judeu o dos peores... Ora diz que, lá n'um sitio muito feio da Judêa, ha uma arvore toda d'espinhos, que é mesmo d'arripiar...

A sineta do recreio tocava; todos, a um tempo e d'estalo, fechavamos a cartilha.

O tristonho pateo de recreio, areado com saibro, cheirava mal por causa da visinhan?a das latrinas; e o regalo para os mais crescidos era tirar uma fuma?a do cigarro, ás escondidas, n'uma sala terrea onde aos domingos o mestre de dansa, o velho Cavinetti, frisado e de sapatinhos decotados, nos ensinava mazurkas.

Cada mez a Vicencia, de capote e len?o, me vinha buscar depois da missa, para ir passar um domingo com a titi. Isidoro Junior, antes de eu sair, examinava-me sempre os ouvidos e as unhas; muitas vezes, mesmo na bacia d'elle, dava-me uma ensaboadella furiosa, chamando-me baixo sebento. Depois trazia-me até á porta, fazia-me uma caricia, tratava-me de seu querido amiguinho, e mandava pela Vicencia os seus respeitos á snr.^a D. Patrocinio das Neves.

Nós moravamos no Campo de Sant'Anna. Ao descer o Chiado, eu parava n'uma loja de estampas, diante do languido quadro d'uma mulher loura, com os peitos nús, recostada n'uma pelle de tigre, e sustentando na ponta dos dedos, mais finos que os do Chrispim, um pesado fio de perolas. A claridade d'aquella nudez fazia-me pensar na ingleza do snr. bar?o: e esse aroma, que tanto me perturbára no corredor da estalagem, respirava-o outra vez, finamente espalhado, na rua cheia de sol, pelas sêdas das senhoras que subiam para a missa do Loreto, espartilhadas e graves.

A titi, em casa, estendia-me a m?o a beijar: e toda a manh? eu ficava folheando volumes do Panorama Universal, na saleta d'ella, onde havia um sofá de riscadinho, um armario rico de pau preto, e lithographias coloridas, com ternas passagens da vida purissima do seu favorito santo, o patriarcha S. José. A titi, de len?o r?xo carregado para a testa, sentada á janella por dentro dos vidros, com os pés embrulhados n'uma manta, examinava solicitamente um grande caderno de contas.

ás tres horas enrolava o caderno; e de dentro da sombra do len?o come?ava a perguntar-me doutrina. Dizendo o Credo, desfiando os Mandamentos, com os olhos baixos, eu sentia o seu cheiro acre e adocicado a rapé e a formiga.

Aos domingos vinham jantar comnosco os dois ecclesiasticos. O de cabellinho encaracolado era o padre Casimiro, procurador da titi: dava-me abra?os risonhos; convidava-me a declinar arbor arboris, currus curri; proclamava-me com affecto ?talenta?o.? E o outro ecclesiastico elogiava o collegio dos Isidoros, formosissimo estabelecimento de educa??o, como n?o havia nem na Belgica. Esse chamava-se padre Pinheiro. Cada vez me parecia mais moreno, mais triste. Sempre que passava por diante d'um espelho, deitava a lingua de fóra, e alli se esquecia a estical-a, a estudal-a, desconfiado e aterrado.

Ao jantar o padre Casimiro gostava de vêr o meu appetite.

-Vai mais um bocadinho da vitellinha guisada? Rapazes querem-se alegres e bem comidos!...

E padre Pinheiro, palpando o estomago:

-Felizes idades! Felizes idades em que se repete a vitella!

Elle e a titi fallavam ent?o de doen?as. Padre Casimiro, córadinho, com o guardanapo atado ao pesco?o, o prato cheio, o copo cheio, sorria beatificamente.

Quando, na pra?a, entre as arvores, come?avam a luzir os candieiros de gaz, a Vicencia punha o seu chale velho de xadrez e ia levar-me ao collegio. A essa hora, nos domingos, chegava o sujeitinho de cara rapada e vastos collarinhos, que era o snr. José Justino, secretario da confraria de S. José, e tabelli?o da titi, com cartorio a S. Paulo. No pateo, tirando já o seu paletot, fazia-me uma festa no queixo, e perguntava á Vicencia pela saude da snr.^a D. Patrocinio. Subia; nós fechavamos o pesado port?o. E eu respirava consoladamente-porque me entristecia aquelle casar?o com os seus damascos vermelhos, os santos innumeraveis, e o cheirinho a capella.

Pelo caminho a Vicencia fallava-me da titi, que a trouxera, havia seis annos, da Misericordia. Assim eu fui sabendo que ella padecia do figado; tinha sempre muito dinheiro em ouro n'uma bolsa de sêda verde; e o commendador Godinho, tio d'ella e da minha mam?, deixára-lhe duzentos contos em predios, em papeis, e a quinta do Mosteiro ao pé de Vianna, e pratas e lou?as da India... Que rica que era a titi! Era necessario ser bom, agradar sempre á titi!

á porta do collegio a Vicencia dizia ?Adeus, amorzinho,? e dava-me um grande beijo. Muitas vezes, de noite, abra?ado ao travesseiro, eu pensava na Vicencia, e nos bra?os que lhe vira arrega?ados, gordos e brancos como leite. E assim, foi nascendo no meu cora??o, pudicamente, uma paix?o pela Vicencia.

Um dia, um rapaz já de bu?o chamou-me no recreio lambisgoia. Desafiei-o para as latrinas, ensanguentei-lhe lá a face toda, com um murro bestial. Fui temido. Fumei cigarros. O Chrispim sahira dos Isidoros; eu ambicionava saber jogar a espada. E o meu alto amor pela Vicencia desappareceu um dia, insensivelmente, como uma fl?r que se perde na rua.

E os annos assim foram passando: pelas vesperas de Natal accendia-se um brazeiro no refeitorio, eu envergava o meu casac?o forrado de baeta e ornado d'uma gola d'astrakan; depois chegavam as andorinhas aos beiraes do nosso telhado, e no oratorio da titi, em lugar de camelias, vinham bra?adas dos primeiros cravos vermelhos perfumar os pés d'ouro de Jesus; depois era o tempo dos banhos de mar, e o padre Casimiro mandava á titi um gigo d'uvas da sua quinta de Torres... Eu comecei a estudar rhetorica.

* * * * *

Um dia o nosso bom procurador disse-me que eu n?o voltaria mais para os Isidoros, indo acabar os meus preparatorios em Coimbra, na casa do dr. R?xo, lente de Theologia. Fizeram-me roupa branca. A titi deu-me n'um papel a ora??o que eu diariamente devia rezar a S. Luiz Gonzaga, padroeiro da mocidade estudiosa, para que elle conservasse em meu corpo a frescura da castidade, e na minha alma o medo do Senhor. O padre Casimiro foi-me levar á cidade graciosa onde dormita Minerva.

Detestei logo o dr. R?xo. Em sua casa soffri vida dura e claustral; e foi um ineffavel gosto quando, no meu primeiro anno de Direito, o desagradavel ecclesiastico morreu miseravelmente d'um anthraz. Passei ent?o para a divertida hospedagem das Pimentas-e conheci logo, sem modera??o, todas as independencias, e as fortes delicias da vida. Nunca mais rosnei a delambida ora??o a S. Luiz Gonzaga, nem dobrei o meu joelho viril diante de imagem benta que usasse aureola na nuca; embebedei-me com alarido nas Camellas; affirmei a minha robustez esmurrando sanguinolentamente um marcador do Trony; fartei a carne com saborosos amores no Terreiro da Herva; vadiei ao luar, ganindo fados; usava moca; e como a barba me vinha, basta e negra, aceitei com orgulho a alcunha de Rapos?o. Todos os quinze dias porém escrevia á titi, na minha boa letra, uma carta humilde e piedosa, onde lhe contava a severidade dos meus estudos, o recato dos meus habitos, as copiosas rezas e os rigidos jejuns, os serm?es de que me nutria, os d?ces desaggravos ao Cora??o de Jesus á tarde, na Sé, e as novenas com que consolava a minha alma em Santa-Cruz no remanso dos dias feriados...

Os mezes de ver?o em Lisboa eram depois dolorosos. N?o podia sahir, mesmo a espontar o cabello, sem implorar da titi uma licen?a servil. N?o ousava fumar ao café. Devia recolher virginalmente á noitinha: e antes de me deitar tinha de rezar com a velha um longo ter?o no oratorio. Eu proprio me condemnára a esta detestavel devo??o!

-Tu lá nos estudos costumas fazer o teu ter?o? perguntára-me, com seccura, a titi.

E eu, sorrindo abjectamente:

-Ora essa! é que nem posso adormecer sem ter rezado o meu rico ter?o!...

Aos domingos continuavam as partidas. O padre Pinheiro, mais triste, queixava-se agora do cora??o, e um pouco tambem da bexiga. E havia outro commensal, velho amigo do commendador Godinho, fiel visita das Neves, o Margaride, o que f?ra delegado em Vianna, depois juiz em Mangualde. Rico por morte de seu mano Abel, secretario da Camara Patriarchal, o doutor aposentára-se, farto dos autos, e vivia em ocio, lendo os periodicos, n'um predio seu na Pra?a da Figueira. Como conhecêra o papá, e muitas vezes o acompanhará ao Mosteiro, tratou-me logo com authoridade e por você.

Era um homem corpulento e solemne, já calvo, com um car?o livido, onde destacavam as sobrancelhas cerradas, densas e negras como carv?o. Raras vezes penetrava na sala da titi sem atirar, logo da porta, uma noticia pavorosa. ?Ent?o, n?o sabem? Um incendio medonho, na Baixa!? Apenas uma fumara?a n'uma chaminé. Mas o bom Margaride, em novo, n'um sombrio accesso d'imagina??o, compuzera duas tragedias; e d'ahi lhe ficára este gosto morbido d'exagerar e d'impressionar. ?Ninguem como eu, dizia elle, saborêa o grandioso...?

E, sempre que aterrava a titi e os sacerdotes, sorvia gravemente uma pitada.

Eu gostava do dr. Margaride. Camarada do papá em Vianna, muitas vezes lhe ouvira cantar, ao viol?o, a xacara do conde Ordonho. Tardes inteiras vagueára com elle poeticamente, pela beira da agua, no Mosteiro, quando a mam? fazia raminhos silvestres á sombra dos amieiros. E mandou-me as amendoas mal eu nasci, á noitinha, em sexta-feira de Paix?o. Além d'isso, mesmo na minha presen?a, elle gabava francamente á titi o meu intellecto, e a circumspec??o dos meus modos.

-O nosso Theodorico, D. Patrocinio, é mo?o para deleitar uma tia... V. exc.^a, minha rica senhora, tem aqui um Telemaco!

Eu córava, modesto.

Ora foi justamente passeando com elle no Rocio, n'um dia d'agosto, que eu conheci um parente nosso, afastado, primo do commendador G. Godinho. O dr. Margaride apresentou-m'o, dizendo apenas:-?o Xavier, teu primo, mo?o de grandes dotes.? Era um homem enxovalhado, de bigode louro, que f?ra galante e desbaratára furiosamente trinta contos, herdados de seu pai, dono d'uma cordoaria em Alcantara. O commendador G. Godinho, mezes antes de morrer da sua pneumonia, tinha-o recolhido por caridade á secretaria da Justi?a, com vinte mil reis por mez. E o Xavier agora vivia com uma hespanhola chamada Carmen, e tres filhos d'ella, n'um casebre da rua da Fé.

Eu fui lá n'um domingo. Quasi n?o havia moveis; a bacia da cara, a unica, estava entalada no fundo r?to da palhinha d'uma cadeira. O Xavier toda a manh? deitára escarros de sangue pela bocca. E a Carmen, despenteada, em chinelas, arrastando uma bata de fust?o manchada de vinho, embalava sorumbaticamente pelo quarto uma crian?a embrulhada n'um trapo e com a cabecinha coberta de feridas.

Immediatamente o Xavier, tratando-me por tu, fallou-me da tia Patrocinio... Era a sua esperan?a, n'aquella sombria miseria, a tia Patrocinio! Serva de Jesus, proprietaria de tantos predios, ella n?o podia deixar um parente, um Godinho, definhar-se alli n'aquelle casebre, sem len?oes, sem tabaco, com os filhos em redor, esfarrapados, a chorar por p?o. Que custava á tia Patrocinio estabelecer-lhe, como já fizera o Estado, uma mesadinha de vinte mil reis?

-Tu é que lhe devias fallar, Theodorico! Tu é que lhe devias dizer... Olha essas crian?as. Nem meias teem... Anda cá, Rodrigo, dize aqui ao tio Theodorico. Que comeste hoje ao almo?o?... Um bocado de p?o d'hontem! E sem manteiga, sem mais nada! E aqui está a nossa vida, Theodorico! Olha que é duro, menino!

Enternecido, prometti fallar á titi.

Fallar á titi! Eu nem ousaria contar á titi que conhecia o Xavier, e que entrava n'esse casebre impuro onde havia uma hespanhola, emmagrecida no peccado.

E para que elles n?o percebessem o meu ignobil terror da titi, n?o voltei á rua da Fé.

No meado de setembro, no dia da Natividade de Nossa Senhora, soube pelo dr. Barroso que o primo Xavier, quasi a morrer, me queria fallar em segredo.

Fui lá, de tarde, contrariado. Na escada cheirava a febre. A Concha, na cozinha, conversava por entre solu?os com outra hespanhola, magrita, de mantilha preta e corpetesinho triste de setim c?r de cereja. Os pequenos, no ch?o, rapavam um tacho d'a?orda. E na alcova o Xavier, enrodilhado n'um cobertor, com a bacia da cara ao lado, cheia de escarros de sangue, tossia, despeda?adamente:

-és tu, rapaz?

-Ent?o que é isso, Xavier?

Elle exprimiu, n'um termo obsceno, que estava perdido. E estirando-se de costas, com um brilho secco nos olhos, fallou-me logo da titi. Escrevera-lhe uma carta linda, de rachar o cora??o: a fera n?o respondera. E, agora, ia mandar para o Jornal de Noticias um annuncio, a pedir uma esmola, assignando ?Xavier Godinho, primo do rico commendador G. Godinho.? Queria vêr se D. Patrocinio das Neves deixaria um parente, um Godinho, mendigar assim, publicamente, na pagina d'um jornal.

-Mas é necessario que tu me ajudes, rapaz, que a enterne?as! Quando ella lêr o annuncio, conta-lhe esta miseria! Desperta-lhe o brio. Dize-lhe que é uma vergonha vêr morrer ao abandono um parente, um Godinho. Dize-lhe que já se rosna! Olha, se hoje pude tomar um caldo, é que essa rapariga, a Lolita, que está em casa da Benta Bexigosa, nos trouxe ahi quatro cor?as... Vê tu a que eu cheguei!

Ergui-me, commovido.

-Conta commigo, Xavier.

-Olha, se tens ahi cinco tost?es que te n?o fa?am falta, dá-os á

Concha.

Dei-lh'os a elle: e sahi, jurando-lhe que ia fallar á titi, solemnemente, em nome dos Godinhos e em nome de Jesus!

Depois do almo?o, ao outro dia, a titi, de palito na bocca, e vagarosa, desdobrou o Jornal de Noticias. E decerto achou logo o annuncio do Xavier, porque ficou longo tempo fitando o canto da terceira pagina onde elle negrejava, afflictivo, vergonhoso, medonho.

Ent?o pareceu-me vêr, voltados para mim, lá do fundo nú do casebre, os olhos afflictos do Xavier; a face amarella da Concha, lavada de lagrimas; as pobres m?osinhas dos pequenos, magras, á espera da c?dea de p?o... E todos aquelles desgra?ados anciavam pelas palavras que eu ia lan?ar á titi, fortes, tocantes, que os deviam salvar, e dar-lhes o primeiro peda?o de carne d'aquelle ver?o de miseria. Abri os labios. Mas já a titi, recostando-se na cadeira, rosnava com um sorrisinho feroz:

-Que se aguente... é o que succede a quem n?o tem temor de Deus e se mette com bebedas... N?o tivesse comido tudo em relaxa??es... Cá para mim, homem perdido com saias, homem que anda atraz de saias, acabou... N?o tem o perd?o de Deus, nem tem o meu! Que pade?a, que pade?a, que tambem Nosso Senhor Jesus Christo padeceu!

Baixei a cabe?a, murmurei:

-E ainda nós n?o padecemos bastante... Tem a titi raz?o. Que se n?o mettesse com saias!

Ella ergueu-se, deu as gra?as ao Senhor. Eu fui para o meu quarto, fechei-me lá, a tremer, sentindo ainda regeladas e amea?adoras, as palavras da titi, para quem os homens ?acabavam quando se mettiam com saias.? Tambem eu me mettera com saias, em Coimbra, no Terreiro da Herva! Alli, no meu bahú, tinha eu documentos do meu peccado, a photographia da Thereza dos Quinze, uma fita de sêda, e uma carta d'ella, a mais d?ce, em que me chamava ?unico affecto da sua alma? e me pedia dezoito tost?es! Eu cosera essas reliquias dentro do f?rro d'um collete de pano, receando as incessantes rebuscas da titi, por entre a minha roupa intima. Mas lá estavam, no bahú de que ella guardava a chave, dentro do collete, fazendo uma dureza de cart?o que qualquer dia poderiam palpar os seus dedos desconfiados... E eu acabava logo para a titi!

Abri devagarinho o bahú, descosi o f?rro, tirei a carta deliciosa da Thereza, a fita que conservára o aroma da sua pelle, e a sua photographia, de mantilha. Na pedra da varanda, sem piedade, queimei tudo, amabilidades e fei??es: e sacudi desesperadamente para o sagu?o as cinzas da minha ternura.

N'essa semana n?o ousei voltar á rua da Fé. Depois, um dia que choviscava, fui lá, ao escurecer, encolhido sob o meu guarda-chuva. Um visinho, vendo-me espreitar de longe as janellas negras e mortas do casebre, disse-me que o snr. Godinho, coitado, f?ra para o hospital n'uma maca.

Desci, triste, ao comprido das grades do Passeio. E, no crepusculo humido, tendo ro?ado bruscamente por outro guarda-chuva, ouvi de repente o meu nome de Coimbra, lan?ado com alegria.

-Oh, Rapos?o!

Era o Silverio, por alcunha o Rinch?o, meu condiscipulo, e companheiro de casa das Pimentas. Estivera passando esse mez no Alemtejo, com seu tio, rica?o illustre, o bar?o d'Alconchel. E agora, de volta, ia vêr uma Ernestina, rapariguita loura, que morava no Salitre, n'uma casa c?r de rosa, com roseirinhas á varanda.

-Queres tu vir cá um bocado, ó Rapos?o? Está lá outra rapariga bonita, a Adelia... Tu n?o conheces a Adelia? Ent?o que diabo, vem vêr a Adelia... é um mulher?o!

Era, um domingo, noite de partida da titi; eu devia recolher religiosamente ás oito horas. Cocei a barba, indeciso. O Rinch?o fallou da brancura dos bra?os da Adelia: e eu comecei a caminhar ao lado do Rinch?o, enfiando as luvas pretas.

Munidos d'um cartucho de pasteis e de uma garrafa de Madeira, encontrámos a Ernestina a coser um elastico nas suas botinas de duraque. E a Adelia, estendida no sofá, de chambre e em saia branca, com os chinelos cahidos no tapete, fumava um cigarro languido. Eu sentei-me ao lado d'ella, commovido e mono, com o meu guarda-chuva entre os joelhos. Só quando o Silverio e Ernestina correram dentro á cozinha, abra?ados, a buscar copos para o Madeira, ousei perguntar á Adelia, córando:

-Ent?o a menina d'onde é?

Era de Lamego. E eu, novamente acanhado, só pude gaguejar que era tristonho aquelle tempo de chuva. Ella pediu-me outro cigarro, cortezmente, dizendo-me-o cavalheiro. Apreciei estes modos. As mangas largas do seu roup?o, escorregando descobriam bra?os t?o brancos e macios que entre elles a Morte mesma deveria ser deleitosa.

Fui eu que lhe offereci o prato onde a Ernestina collocára os pasteis.

Ella quiz saber o meu nome. Tinha um sobrinho que tambem se chamava

Theodorico; e isto foi como um fio subtil e forte que veio, do seu

cora??o, enrodilhar-se no meu.

-Porque é que o cavalheiro n?o p?e o guarda-chuva alli a um canto? disse-me ella, rindo.

O brilho picante dos seus dentinhos miudos fez desabrochar dentro em mim uma fl?r de madrigal.

-é para n?o me tirar d'aqui d'ao pé da menina nem um instantinho que seja.

Ella fez-me uma cocega lenta no pesco?o. Eu, aboborado de g?zo, bebi o resto do Madeira que ella deixára no calice.

A Ernestina, poetica, e cantando o fado, aninhou-se nos joelhos do Rinch?o. Ent?o a Adelia, revirando-se languidamente, puxou-me a face-e os meus labios encontraram os seus no beijo mais sério, mais sentido, mais profundo que até ahi abalára o meu sêr.

N'esse d?ce instante, um relogio medonho, com o mostrador fingindo uma face de lua, e que parecia espreitar-me de sobre o marmore d'uma mesa do mogno, d'entre dois vasos sem fl?res, come?ou a dar dez, horas, fanhoso, ironico, pachorrento.

Jesus! era a hora do chá em casa da titi! Com que terror eu trepei, esbaforido, sem mesmo abrir o guarda-chuva, as viellas escuras e infindaveis que levam ao Campo de Sant'Anna! Em casa, nem tirei as botas enlameadas. Enfiei pela sala; e vi logo, lá ao fundo, no sofá de damasco, os oculos da titi, mais negros, assanhados, esperando por mim e fuzilando. Ainda balbuciei:

-Titi...

Mas já ella gritava, esverdinhada de cólera, sacudindo os punhos.

-Relaxa??es em minha casa n?o admitto! Quem quizer viver aqui ha de estar ás horas que eu marco! Lá deboches e porcarias, n?o, emquanto eu f?r viva! E quem n?o lhe agradar, rua!

Sob a rajada estridente da indigna??o da snr.^a D. Patrocinio, padre Pinheiro e o tabelli?o Justino tinham dobrado a cabe?a emba?ados. O dr. Margaride, para apreciar conscienciosamente a minha culpa, puxou o seu pesado relogio d'ouro. E foi o bom Casimiro que interveio, como sacerdote, como procurador, influente e suave.

-D. Patrocinio tem raz?o, tem muita raz?o em querer ordem em casa...

Mas talvez o nosso Theodorico se tivesse demorado um pouco mais no

Martinho, a ouvir fallar d'estudos, de compendios...

Exclamei amargamente:

-Nem isso, padre Casimiro! Nem no Martinho estive! Sabe onde estive? No convento da Encarna??o! é verdade, encontrei um condiscipulo meu, que ia lá buscar a irm?. Hoje era festa, a irm? tinha ido passar o dia com uma tia, uma commendadeira... Estivemos á espera, a passear no pateo... A irm? vai casar, elle andou a contar-me do noivo, e do enxoval, e do apaixonada que ella está... Eu morto por me safar, mas com ceremonia do rapaz, que é sobrinho do bar?o d'Alconchel... E elle zás, zás, a fallar da irm?, e do namoro, e das cartas...

A tia Patrocinio uivou de furor.

-Olha que conversa! Que porcaria de conversa! Que indecente conversa para o pateo d'uma casa de religi?o! Cala-te, alma perdida, que até devias ter vergonha!... E fique entendendo! Para outra vez que venha a estas horas, n?o me entra em casa! Fica na rua, como um c?o...

Ent?o o dr. Margaride estendeu a m?o pacificadora e solemne:

-Está tudo explicado! O nosso Theodorico foi imprudente, mas o sitio onde esteve é respeitavel... E eu conhe?o o bar?o d'Alconchel. é um cavalheiro da maior circumspec??o, e um dos mais abastados do Alemtejo... Talvez mesmo um dos mais ricos proprietarios de Portugal... O mais rico, direi!... Mesmo lá fóra n?o haverá fortuna territorial que lhe exceda. Nem que se lhe compare!... Só em porcos! Só em corti?a! Centenares de contos! milh?es!

Erguera-se; o seu vozeir?o empolado rolava serras d'ouro. E o bom

Casimiro murmurava, ao meu lado, com brandura:

-Tome o seu chásinho, Theodorico, vá tomando o seu chásinho. E creia que a tia n?o deseja sen?o o seu bem...

Puxei, com a m?o a tremer, a minha chavena de chá: e, remexendo desfallecidamente o fundo d'assucar, pensava em abandonar para sempre a casa d'aquella velha medonha que assim, me ultrajava diante da Magistratura e da Igreja, sem considera??o pela barba que me come?ava a nascer, forte, respeitavel e negra.

Mas, aos domingos, o chá era servido nas pratas do commendador G. Godinho. Eu via-as, macissas e resplandecentes, diante de mim: o grande bule terminando em bico de pato; o assucareiro cuja aza tinha a fórma d'uma cobra assanhada; e o paliteiro gentil em figura de macho trotando sob os seus alforges. E tudo pertencia á titi. Que rica que era a titi! Era necessario ser bom, agradar sempre á titi!...

Por isso, mais tarde, quando ella penetrou no oratorio para cumprir o ter?o, já eu lá estava, de rojos, gemendo, martellando o peito, e supplicando ao Christo de ouro que me perdoasse ter offendido a titi.

* * * * *

Um dia emfim cheguei a Lisboa, com as minhas cartas de doutor mettidas n'um canudo de lata. A titi examinou-as reverente, achando um sabor ecclesiastico ás linhas em latim, ás paramentosas fitas vermelhas, e ao sêllo dentro do seu relicario.

-Está bom, disse ella, estás doutor. A Deus Nosso Senhor o deves, vê n?o lhe faltes...

Corri logo ao oratorio, com o canudo na m?o, agradecer ao Christo de ouro o meu glorioso grau de bacharel.

Na manh? seguinte, estando ao espelho, a espontar a barba, que agora tinha cerrada e negra, o padre Casimiro entrou-me pelo quarto, risonho e a esfregar as m?os.

-Boa nova vos trago aqui, snr. doutor Theodorico!...

E depois de me acariciar, segundo o seu affectuoso costume, com palmadinhas d?ces nos rins, o santo procurador revelou-me que a titi, satisfeita commigo, decidira comprar-me um cavallo para eu dar honestos passeios, e espairecer por Lisboa.

-Um cavallo! Oh, padre Casimiro!

Um cavallo. E além d'isso, n?o querendo que seu sobrinho, já barbado, já letrado, soffresse um vexame, por lhe faltar ás vezes um troco para deitar na salva de Nossa Senhora do Rosario, a titi estabelecia-me uma mezada de tres moedas.

Abracei com calor o padre Casimiro. E desejei saber se a amoravel inten??o da titi era que eu n?o tivesse outra occupa??o além de cavalgar por Lisboa, e lan?ar pratinhas na salva de Nossa Senhora.

-Olhe, Theodorico, eu parece-me que a titi n?o quer que você tenha outro mister sen?o temer a Deus... O que lhe digo é que o amigo vai passal-a boa e regalada... E agora, ande, vá-lhe lá dentro agradecer, e diga-lhe uma coisinha mimosa.

Na saleta, onde brilhavam pelas paredes os feitos piedosos do patriarcha S. José, a titi, sentada a um canto do sofá de riscadinho, fazia meia, com um chale de Tonkin pelos hombros.

-Titi, murmurei eu encolhido, venho aqui agradecer...

-Está bom, vai com Deus.

Ent?o, devotamente, beijei-lhe a franja do chale. A titi gostou. Eu fui com Deus.

Come?ou d'ahi, farta e regalada, a minha existencia de sobrinho da snr.^a D. Patrocinio das Neves. ás oito horas, pontualmente, vestido de preto, ia com a titi á igreja de Sant'Anna, ouvir a missa do padre Pinheiro. Depois d'almo?o, tendo pedido licen?a á titi, e rezadas no oratorio tres Gloria Patri contra as tenta??es, sahia a cavallo, de cal?a clara. Quasi sempre a titi me dava alguma incumbencia beata: passar em S. Domingos, e dizer a ora??o pelos tres santos martyres do Jap?o; entrar na Concei??o Velha, e fazer o acto de desaggravo pelo Sagrado Cora??o de Jesus...

E eu receava tanto desagradar-lhe, que nunca deixava de dar estes ternos recados que ella mandava a casa do Senhor.

Mas era este o momento desagradavel do meu dia: ás vezes, ao sahir, surrateiro, do port?o da igreja, topava com algum condiscipulo republicano, dos que me acompanhavam em Coimbra, nas tardes de prociss?o, chasqueando o Senhor da Cana Verde.

-Oh, Rapos?o! pois tu agora...

Eu negava, vexado:

-Ora essa! N?o me faltava mais nada! Sou mesmo lá de carolices... Qual! entrei aqui por causa d'uma rapariga... Adeus, tenho a egua á espera.

Montava-e de luva preta, a perna bem collada á sella, um bot?osinho de camelia no peito, ia caracolando, em ocio e luxo, até ao largo do Loreto. Outras vezes deixava a egua no Arco do Bandeira, e gozava uma manh? regalada no bilhar do Montanha.

Antes do jantar, em chinelas, no oratorio com a titi, eu fazia a jaculatoria a S. José, aio de Jesus, custodio de Maria e amorosissimo patriarcha. á mesa, adornada apenas por compoteiras de doce de calda em torno d'uma travessa d'aletria, eu contava á titi o meu passeio, as igrejas em que me deleitára, e quaes os altares alumiados. A Vicencia escutava com devo??o, perfilada no seu lugar costumado, entre as duas janellas, onde um retrato de nosso santo padre Pio IX enchia a tira de parede verde, tendo por baixo, pendente d'um cord?o, um velho oculo d'alcance, reliquia do commendador G. Godinho. Depois do café a titi, lentamente, cruzava os bra?os; e o seu car?o sumia-se, dormente e pesado, na sombra do len?o r?xo.

Eu ia enfiar as botas; e, authorisado agora por ella a recrear-me fóra de casa até ás nove e meia, corria ao fim da rua da Magdalena, ao pé do largo dos Caldas. Ahi, com resguardo, encolhido na gola do meu sobretudo, cosido com o muro, como se o candieiro de gaz que alli havia fosse o olho inexoravel da titi-penetrava sofregamente na escadinha da Adelia...

Sim, da Adelia! Porque nunca mais me esquecera, desde a noite em que o Rinch?o me levou ao Salitre, o beijo que ella me dera, languida e branca, sobre o sofá. Em Coimbra procurára mesmo fazer-lhe versos: e esse amor dentro do meu peito foi no ultimo anno de Universidade, no anno de Direito ecclesiastico, como um maravilhoso lirio que ninguem via e que perfumava a minha vida... Apenas a titi me estabeleceu a mezada das tres moedas, corri em triumpho ao Salitre; lá havia as roseirinhas á janella, mas a Adelia já lá n?o estava. E foi ainda o prestante Rinch?o que me mostrou esse primeiro andar, junto ao largo dos Caldas, onde ella agora vivia patrocinada por Eleuterio Serra, da firma Serra Brito & C.^a, com loja de fazendas e moelas na Concei??o Velha. Mandei-lhe uma carta ardente e séria, pondo reverentemente no alto: ?Minha senhora.? Ella respondeu, com dignidade:-?O cavalheiro póde vir aqui ao meio dia.? Levei-lhe uma caixinha de pastilhas de chocolate, atada com uma fita de sêda azul: pizando commovido a esteira nova da sala, eu antevia, pela engommada brancura das bambinellas, a frescura das suas saias; e o rigido alinho dos moveis revelava-me a rectid?o dos seus sentimentos. Ella entrou, um pouco constipada, com um chale vermelho pelos hombros. Reconheceu logo o amigo do Rinch?o; fallou da Ernestina, com severidade, chamando-lhe ?porcalhona.? E a sua voz enrouquecida, o seu defluxo, davam-me o desejo de a curar nos meus bra?os, d'um longo dia d'agasalho e somnolencia, sob o peso dos cobertores, na penumbra molle da sua alcova. Depois ella quiz saber se eu era empregado ou estava no commercio... Eu contei-lhe com orgulho a riqueza da titi, os seus predios, as suas pratas. Disse-lhe, com as suas m?os grossas presas nas minhas:

-Se a titi agora rebentasse, eu é que lhe punha á menina uma casa chic!

Ella murmurou, banhando-me todo na negra do?ura do seu olhar:

-Ora! o cavalheiro, se apanhasse o bago, n?o se importava mais commigo!

Ajoelhei sobre a esteira, tremulo, esmagando o peito contra os seus joelhos, offertando-me como uma rez; ella abriu o seu chale, aceitou-me misericordiosamente.

Agora, á noitinha (emquanto Eleuterio, no club da rua Nova do Carmo, jogava a manilha) eu tinha alli na alcova da Adelia a radiante festa da minha vida. Levára para lá um par de chinelas-era o eleito do seu seio. ás nove e meia, despenteada, envolta á pressa n'um roup?o de flanella, com os pés nús, acompanhava-me pela escadinha de traz, colhendo em cada degrau, nos meus labios, um beijo lento e saudoso.

-Adeus, Délinha!

-Agasalha-te, riquinho!

E eu recolhia devagar ao campo de Sant'Anna, ruminando o meu gozo!

O ver?o passou, languidamente. Os primeiros ventos d'outono levaram as andorinhas e as folhagens do campo de Sant'Anna: e logo n'esse outubro, de repente, a minha vida se tornou mais facil, mais larga. A titi mandára-me fazer uma casaca; e eu estreei-a, com permiss?o d'ella, indo ouvir a S. Carlos o Poliuto-opera que o dr. Margaride recommendára, como ?repassada de sentimentos religiosos e cheia de elevada li??o.? Fui com elle, de luvas brancas, frizado. Depois, no outro dia, ao almo?o, contei á titi o devoto enredo, os idolos derrubados, os canticos, as fidalgas que estavam nos camarotes, e de que lindo velludo vestia a rainha.

-E sabe quem me veio fallar, titi? O bar?o d'Alconchel, o rica?o, tio d'aquelle rapaz que foi meu condiscipulo. Veio apertar-me a m?o, esteve um bocado commigo no sal?o... Tratou-me com muita considera??o.

A titi gostou d'esta considera??o.

Depois, tristemente, como um moralista magoado, queixei-me do nedio decote d'uma senhora immodesta, núa nos bra?os, núa no peito, mostrando toda essa carne, esplendida e irreligiosa, que é a desola??o do justo e a angustia da Igreja.

-Jesus, Senhor, que vexame! Acredite a titi, estava com nojo!

A titi gostou d'este nojo.

E passados dias, depois do café, quando eu me dirigia, ainda de chinelas, ao oratorio, a fazer uma curta peti??o ás chagas do nosso Christo d'ouro-a titi, já de bra?os cruzados e somnolenta, disse-me d'entre a sombra do len?o:

-Está bom, se queres, volta hoje a S. Carlos... E lá quando te appetecer, n?o te acanhes, tens licen?a, pódes ir gozar um bocado de musica... Agora que estás um homem, e que parece que tens proposito, n?o me importa que fiques fóra, até ás onze ou onze e meia... Em todo o caso a essa hora quero estar já de porta fechada, e tudo prompto, para come?armos o ter?o.

Ella n?o viu o triumphante lampejar dos meus olhos. Eu murmurei, requebrado, a babar-me de gosto devoto:

-Lá o ter?o, titi, lá o meu querido ter?o n?o perdia eu, nem pelo maior divertimento... Nem que el-rei me convidasse para um chásinho no pa?o!

Corri, delirante, a enfiar a casaca. E este foi o come?o d'essa anhelada liberdade que eu conquistára laboriosamente, vergando o espinha?o diante da titi, macerando o peito diante de Jesus! Liberdade bem vinda, agora que Eleuterio Serra partira para Paris, fazer os seus fornecimentos, e deixára a Adelia só, solta, bella, mais jovial, mais fogosa!

Sim, decerto, eu ganhára a confian?a da titi com os meus modos pontuaes, sisudos, servis e beatos! Mas o que a levára a alargar assim, com generosidade, as minhas horas de honesto recreio, f?ra (como ella disse confidencialmente ao padre Casimiro) a certeza de que eu ?me portava com religi?o e n?o andava atraz de saias.?

Porque para a tia Patrocinio todas as ac??es humanas, passadas por fóra dos portaes das igrejas, consistiam em andar atraz de cal?as ou andar atraz de saias:-e ambos estes d?ces impulsos naturaes lhe eram igualmente odiosos!

Donzella, e velha, e resequida como um galho de sarmento; n?o tendo jámais provado na livida pelle sen?o os bigodes do commendador G. Godinho, paternaes e grisalhos; resmungando incessantemente, diante de Christo nú, essas jaculatorias das Horas de piedade, solu?antes de amor divino-a titi entranhára-se, pouco a pouco, d'um rancor invejoso e amargo a todas as fórmas e a todas as gra?as do amor humano.

E n?o lhe bastava reprovar o amor como coisa profana: a snr.^a D. Patrocinio das Neves fazia uma carantonha, e varria-o como coisa suja. Um mo?o grave, amando sériamente, era para ella ?uma porcaria!? Quando sabia d'uma senhora que tivera um filho, cuspia para o lado, rosnava-?que nojo!? E quasi achava a Natureza obscena por ter creado dois sexos.

Rica, apreciando o conforto, nunca quizera em casa um escudeiro-para que n?o houvesse na cozinha, nos corredores, saias a ro?ar com cal?as. E apesar de irem embranquecendo os cabellos da Vicencia, de ser decrepita e gaga a cozinheira, de n?o ter dentes a outra criada chamada Eusebia, andava-lhes sempre remexendo desesperadamente nos bahús, e até na palha dos enxerg?es, a vêr se descobria photographia d'homem, carta d'homem, rasto d'homem, cheiro d'homem.

Todas as recrea??es mo?as; um passeio gentil com senhoras, em burrinhos; um bot?o de rosa orvalhado offerecido na ponta dos dedos; uma decorosa contradan?a em jucundo dia de Paschoa; outras alegrias, ainda mais candidas, pareciam á titi perversas, cheias de sujidade, e chamava-lhes relaxa??es. Diante d'ella já os sisudos amigos da casa n?o ousavam mencionar d'essas emoventes historias, lidas nas gazetas, e em que transparecem motivos d'amor-porque isso a escandalisava como o desbragamento de uma nudez.

-Padre Pinheiro! gritou ella um dia furiosa, com os oculos chammejantes para o desventuroso ecclesiastico, ao ouvil-o narrar d'uma criada que em Fran?a atirára o filho á sentina. Padre Pinheiro! Fa?a favor de me respeitar... N?o é lá pela latrina! é pela outra porcaria!

Mas era ella propria que sem cessar alludia a desvarios e a peccados da Carne-para os vituperar, com odio: atirava ent?o o novello de linha para cima da mesa, espetando-lhe raivosamente as agulhas de meia-como se trespassasse alli, tornando-o para sempre frio, o vasto e inquieto cora??o dos homens. E quasi todos os dias, com os dentes rilhados, repetia (referindo-se a mim) que se uma pessoa do seu sangue, e que comesse o seu p?o, andasse atraz de saias, ou se désse a relaxa??es, havia d'ir para a rua, escorra?ado a vassoura, como um c?o.

Por isso agora as minhas precau??es eram t?o apuradas que, para evitar me ficasse na roupa ou na pelle o delicioso cheiro da Adelia, eu trazia na algibeira bocados soltos d'incenso. Antes de galgar a triste escadaria de casa, penetrava subtilmente na cavalhari?a deserta, ao fundo do pateo; queimava no tampo d'uma barrica vazia um peda?o da devota resina; e alli me demorava, expondo ao aroma purificador as abas do jaquet?o e as minhas barbas viris... Depois subia; e tinha a satisfa??o de vêr logo a titi farejar, regalada:

-Jesus, que rico cheirinho a igreja!

Modesto, e com um suspiro, eu murmurava:

-Sou eu, titi...

Além d'isso, para melhor a persuadir ?da minha indifferen?a por saias,? colloquei um dia, no soalho do corredor, como perdida, uma carta com sêllo-certo que a religiosa D. Patrocinio, minha senhora e tia, a abriria logo, vorazmente. E abriu, e gostou. Era escripta por mim a um condiscipulo d'Arrayollos; e dizia, em letra nobre, estas cousas edificantes: ?Saberás que fiquei de mal com o Sim?es, o de philosophia, por elle me ter convidado a ir a uma casa deshonesta. N?o admitto d'estas offensas. Tu lembras-te bem como já em Coimbra eu detestava taes relaxa??es. E parece-me ser uma grandissima cavalgadura aquelle que, por causa d'uma distrac??o que é fogo-viste-lingui?a, se arrisca a penar, por todos os seculos e seculos, amen, nas fogueiras de Satanaz, salvo seja! Ora n'uma d'essas refinadissimas asneiras n?o é capaz de cahir o teu do C.-Raposo.?

A titi leu, a titi gostou. E agora eu vestia a minha casaca, dizia-lhe que ia ouvir a Norma, beijava com un??o os ossos dos seus dedos;-e corria, ao largo dos Caldas, á alcova da Adelia, a afundar-me perdidamente nas beatitudes do Peccado. Alli, á meia luz que dava através da porta envidra?ada o candieiro de petroline da sala, os cortinados de cambraia e as saias dependuradas tomavam brancuras celestes de nuvem; o cheiro dos pós d'arroz excedia em do?ura o olor dos junquilhos mysticos; eu estava no céo, eu era S. Theodorico; e sobre os hombros nús da minha amada desenrolavam-se as madeixas do seu cabello negro, forte e duro como a cauda d'um corcel de guerra.

N'uma d'essas noites, eu sahia d'uma confeitaria do Rocio, de comprar

trouxas d'ovos para levar á minha Adelia-quando encontrei o dr.

Margaride que me annunciou, depois do seu abra?o paternal, que ia a S.

Carlos vêr o Propheta.

-E você, vejo-o de casaca, naturalmente tambem vem...

Fiquei varado. Com effeito vestira a casaca, dissera á titi que ia gozar o Propheta, opera de tanta virtude como uma santa instrumental d'igreja... E agora tinha de soffrer o Propheta, deveras, entalado n'uma cadeira da Geral, ro?ando o joelho do douto magistrado-em vez de pregui?ar n'um colch?o amoroso, vendo a minha deusa, em camisa, comer o seu docinho d'ovos.

-Sim, com effeito, tambem eu ia d'aqui para o Propheta, murmurei aniquilado. Diz que é uma musicasinha de muita virtude... A titi gostou muito que eu viesse.

Com o meu inutil cartucho de trouxas d'ovos, lá fui subindo, melancolicamente, ao lado do dr. Margaride, a rua Nova do Carmo.

Occupamos as nossas cadeiras. E na sala resplandecente, branca e com tons d'ouro, eu pensava saudosamente na alcova sombria da Adelia, e no desalinho das suas saias-quando reparei que d'uma friza ao lado uma senhora loura e madura, uma Ceres outonal, vestida de sêda c?r de palha, voltava para mim, a cada d?ce arcada das rebecas, os seus olhos claros e sérios.

Perguntei logo ao dr. Margaride se conhecia aquella dama ?que eu costumava encontrar ás sextas na igreja da Gra?a, visitando o Senhor dos Passos, com uma devo??o, um fervor...?

-O sujeito que está por traz, a abrir a bocca, é o visconde de Souto Santos. E ella ou é a mulher, a viscondessa de Souto Santos, ou a cunhada, a viscondessa de Villar-o-Velho...

á sahida, a viscondessa (de Souto Santos ou de Villar-o-Velho) ficou um momento á porta esperando a sua carruagem, embrulhada n'uma capa branca que uma pennugem orlava, delicadamente; a sua cabe?a pareceu-me mais altiva, incapaz de rolar, tonta e pallida, n'um travesseiro d'amor; a cauda c?r de palha alastrava-se sobre as lages; era esplendida, era viscondessa; e outra vez me procuraram, me trespassaram os seus olhos claros e sérios.

A noite estava estrellada. E, descendo o Chiado em silencio ao lado do dr. Margaride, eu pensava que, quando todo o ouro da titi fosse meu e dourasse a minha pessoa, eu poderia ent?o conhecer uma viscondessa de Souto Santos ou de Villar-o-Velho, n?o na sua friza, mas na minha alcova, já cahida a grande capa branca, despidas já as sêdas c?r de palha, alva só do brilho da sua nudez, e fazendo-se pequenina entre os meus bra?os... Ai, quando chegaria a hora, d?ce entre todas, de morrer a titi?

-Quer você vir tomar o seu chá ao Martinho? perguntou-me o dr. Margaride ao desembocarmos no Rocio. N?o sei se você conhece a torrada do Martinho... é a melhor torrada de Lisboa.

No Martinho, já silencioso, o gaz ia adormecendo entre os espelhos ba?os; e havia apenas n'uma mesa do fundo um mo?o triste, com a cabe?a enterrada entre os punhos diante d'um capilé.

O Margaride encommendou o chá-e vendo-me olhar com inquieta??o os ponteiros do relogio, affirmou-me que eu chegaria a casa ainda a horas de fazer a minha tocante devo??o com a titi.

-A titi agora, disse eu, n?o se importa que eu esteja até mais tarde...

A titi agora louvado seja Deus, tem mais confian?a em mim.

-E você merece-o... Faz-lhe a vontade, é sisudo... Ella pouco a pouco tem-lhe ganho amizade, segundo me diz o Casimiro...

Ent?o lembrei-me da velha affei??o que ligava o dr. Margaride ao padre Casimiro, procurador da tia Patrocinio e seu zeloso confessor. E, arrebatando a opportunidade, dei um leve suspiro, abri o meu cora??o ao magistrado, largamente, como a um pai.

-é verdade, a titi tem-me amizade... Mas acredite v. exc.^a, dr. Margaride, que o meu futuro inquieta-me ás vezes... Olhe que tenho pensado mesmo em ir a um concurso para delegado. Até já indaguei se seria difficil entrar como despachante na alfandega. Porque emfim a titi é rica, é muito rica; eu sou seu sobrinho, unico parente, unico herdeiro; mas...

E olhei anciosamente para o dr. Margaride, que, pelo loquaz padre Casimiro, conhecia talvez o testamento da titi... O silencio grave em que elle ficou, com as m?os cruzadas sobre a mesa, pareceu-me sinistro: e n'esse instante o criado trouxe a bandeja do chá, sorrindo, e felicitando o magistrado por o vêr melhor do seu catarrho.

-Deliciosa torrada! murmurou o doutor.

-Excellente torrada! suspirei eu cortezmente.

De vez em quando o dr. Margaride esfuracava um queixal; depois limpava a face, os dedos; e recome?ava a mastigar devagar, com delicadeza e com religi?o.

Eu arrisquei outra palavra timida.

-A titi, é verdade, tem-me amizade...

-A titi tem-lhe amizade, atalhou com a bocca cheia o magistrado, e você é o seu unico parente... Mas a quest?o é outra, Theodorico. é que você tem um rival.

-Rebento-o! gritei eu, irresistivelmente, com os olhos em chammas, esmurrando o marmore da mesa.

O mo?o triste, lá ao fundo, ergueu a face de cima do seu capilé. E o dr.

Margaride reprovou com severidade a minha violencia.

-Essa express?o é impropria d'um cavalheiro, e d'um mo?o comedido. Em geral n?o se rebenta ninguem... E além d'isso o seu rival n?o é outro, Theodorico, sen?o Nosso Senhor Jesus Christo!

Nosso Senhor Jesus Christo? E só comprehendi, quando o esclarecido jurisconsulto, já mais calmo, me revelou que a titi, ainda no ultimo anno da minha formatura, tencionava deixar a sua fortuna, terras e predios, a Irmandades da sua sympathia e a padres da sua devo??o.

-Estou perdido! murmurei.

Os meus olhos, casualmente, encontraram, lá ao fundo, o mo?o triste diante do seu capilé. E pareceu-me que elle se assemelhava a mim como um irm?o, que era eu proprio, Theodorico, já desherdado, sordido, com as botas cambadas, vindo alli ruminar as d?res da minha vida, á noite, diante d'um capilé.

Mas o dr. Margaride acabára a torrada. E estendendo regaladamente as pernas, consolou-me, de palito na bocca, affavel e perspicaz.

-Nem tudo está perdido, Theodorico. N?o me parece que esteja tudo perdido... é possivel que a senhora sua tia tenha mudado d'idéa... Você é bem comportado, amima-a, lê-lhe o jornal, reza o ter?o com ella... Tudo isto influe. Que é necessario dizel-o, o rival é forte!

Eu gemi:

-é d'arromba!

-é forte. E devo acrescentar, digno de todo o respeito... Jesus Christo padeceu por nós, é religi?o do Estado, n?o ha sen?o curvar a cabe?a... Olhe, quer você a minha opini?o? Pois ahi a tem, franca e sem rebu?o, para lhe servir de guia... Você vem a herdar tudo, se D. Patrocinio, sua tia e minha senhora, se convencer que deixar-lhe a fortuna a você é como deixal-a á Santa Madre Igreja...

O magistrado pagou o chá, nobremente. Depois, na rua, já abafado no seu paletot, ainda me disse baixinho:

-Com franqueza, que tal, a torrada?

-N?o ha melhor torrada em Lisboa, dr. Margaride.

Elle apertou-me a m?o com affecto-e separamo-nos, quando estava dando a meia noite no velho relogio do Carmo.

Estugando o passo pela rua Nova da Palma, eu sentia agora bem claramente, bem, amargamente, o erro da minha vida... Sim, o erro! Porque até ahi, essa minha devo??o complicada, com que eu procurára agradar á titi e ao seu ouro, f?ra sempre regular, mas nunca f?ra fervente. Que importava murmurar com correc??o o ter?o diante de Nossa Senhora do Rosario? Diante de Nossa Senhora em todas as suas encarna??es, e bem em evidencia para commover a titi, eu devia mostrar habilmente uma alma ardendo em labaredas de amor beato, e um corpo pisado, penitente, ferido pelos picos dos cilicios... Até ahi a titi podia dizer com approva??o: ?é exemplar.? Era-me preciso, para herdar, que ella exclamasse um dia, babada, de m?os postas: ?é santo!?

Sim! eu devia identificar-me tanto com as coisas ecclesiasticas e submergir me n'ellas de tal sorte, que a titi, pouco a pouco, n?o podesse distinguir-me claramente d'esse conjunto ran?oso de cruzes, imagens, ripan?os, opas, tochas, bentinhos, palmitos, andores, que era para ella a Religi?o e o Céo; e tomasse a minha voz pelo santo ciciar dos latins de missa; e a minha sobrecasaca preta lhe parecesse já salpicada d'estrellas, e diaphana como a tunica de bem-aventuran?a. Ent?o, evidentemente, ella testaria em meu favor-certa que testava em favor de Christo e da sua d?ce Madre Igreja!

Porque agora, eu estava bem decidido a n?o deixar ir para Jesus, filho de Maria, a aprazivel fortuna do commendador G. Godinho. Pois quê! N?o bastavam ao Senhor os seus thesouros incontaveis; as sombrias cathedraes de marmore que atulham a terra e a entristecem; as inscrip??es, os papeis de credito que a piedade humana constantemente averba em seu nome; as pás d'ouro que os Estados, reverentes, lhe depositam aos pés trespassados de pregos; as alfaias, os calices, e os bot?es de punho de diamantes que elle usa na camisa, na sua igreja da Gra?a? E ainda voltava, do alto do madeiro, os olhos vorazes para um bule de prata, e uns insipidos predios da Baixa! Pois bem! disputaremos esses mesquinhos, fugitivos haveres-tu, ó filho do Carpinteiro, mostrando á titi a chaga que por ella recebeste, uma tarde, n'uma cidade barbara da Asia, e eu adorando essa chaga, com tanto ruido e tanto fausto, que a titi n?o possa saber onde está o merito, se em ti que morreste por nos amar de mais, se em mim que quero morrer por n?o te saber amar bastante!... Assim pensava, olhando de través o céo, no silencio da rua de S. Lazaro.

Quando cheguei a casa, senti que a titi estava no oratorio, sósinha, a rezar. Enfiei para o meu quarto, surrateiramente; descalcei-me; despi a casaca; esguedelhei o cabello; atirei-me de joelhos para o soalho-e fui assim, de rastos, pelo corredor, gemendo, carpindo, esmurrando o peito, clamando desoladamente por Jesus, meu Senhor...

Ao ouvir, no silencio da casa, estas lugubres lamenta??es de arrastada penitencia, a titi veio á porta do oratorio, espavorida.

-Que é isso, Theodorico, filho, que tens tu?...

Abati-me sobre o soalho, aos solu?os, desfallecido de paix?o divina.

-Desculpe, titi... Estava no theatro com o dr. Margaride, estivemos ambos a tomar chá, a conversar da titi... E vai de repente, ao voltar para casa, alli na rua Nova da Palma, come?o a pensar que havia de morrer, e na salva??o da minha alma, e em tudo o que Nosso Senhor padeceu por nós, e dá-me uma vontade de chorar... Emfim, a titi faz favor, deixa-me aqui um bocadinho só, no oratorio, para alliviar...

Muda, impressionada, ella accendeu reverentemente, uma a uma, todas as velas do altar. Chegou mais para a borda uma imagem de S. José, favorito da sua alma, para que fosse elle o primeiro a receber a ardente rajada de preces que ia escapar-se, em tumulto, do meu cora??o cheio e ancioso. Deixou-me entrar, de rastos. Depois, em silencio, desappareceu, cerrando o reposteiro com recato. E eu alli fiquei, sentado na almofada da titi, co?ando os joelhos, suspirando alto-e pensando na viscondessa de Souto Santos ou de Villar-o-Velho, e nos beijos vorazes que lhe atiraria por aquelles hombros maduros e succulentos, se a podesse ter só um instante, alli mesmo que fosse, no oratorio, aos pés de ouro de Jesus, meu Salvador!

* * * * *

Corrigi ent?o a minha devo??o e tornei-a perfeita. Pensando que o bacalhau das sextas-feiras n?o fosse uma sufficiente mortifica??o, n'esses dias, diante da titi, bebia asceticamente um copo d'agua e trincava uma c?dea de p?o: o bacalhau comia-o á noite, de cebolada, com bifes á ingleza, em casa da minha Adelia. No meu guarda-roupa, n'esse duro inverno, houve apenas um paletot velho, t?o renunciado me quiz mostrar aos culpados regalos da carne; mas orgulhava-me de ter lá, purificando os cheviottes profanos, a minha opa r?xa de irm?o do Senhor dos Passos, e o devoto habito cinzento da Ordem Terceira de S. Francisco. Sobre a commoda ardia uma lamparina perennal diante da lithographia colorida de Nossa Senhora do Patrocinio: eu punha todos os dias rosas dentro d'um copo, para lhe perfumar o ar em redor; e a titi, quando vinha remexer nas minhas gavetas, ficava a olhar a sua padroeira, desvanecida, sem saber se era á Virgem, ou se era a ella, indirectamente, que eu dedicava aquelle preito da luz e o louvor dos aromas. Nas paredes dependurei as imagens dos santos mais excelsos, como galeria d'antepassados espirituaes de quem tirava o constante exemplo das difficeis virtudes; mas n?o houve de resto no céo santo, por mais obscuro, a quem eu n?o offertasse um cheiroso ramalhete de Padre-Nossos em fl?r. Fui eu que fiz conhecer á titi S. Telesforo, Santa Secundina, o beato Antonio Estronconio, Santa Restituta, Santa Umbulina, irm? do gr?o S. Bernardo, e a nossa dilecta e suavissima patricia Santa Basilissa, que é solemnisada juntamente com S. Hypacio, n'esse festivo dia d'agosto em que embarcam os cirios para a Atalaya.

Prodigiosa foi ent?o a minha actividade devota! Ia a matinas, ia a vesperas. Jámais falhei igreja ou ermida onde se fizesse a adora??o ao Sagrado Cora??o de Jesus. Em todas as exposi??es do Santissimo eu lá estava, de rojos. Partilhava sofregamente de todos os desaggravos ao Sacramento. Novenas em que eu rezei contam-se pelos lumes do céo. E o Septenario das D?res era um dos meus d?ces cuidados.

Havia dias em que, sem repousar, correndo pelas ruas, esbaforido, eu ia á missa das sete a Sant'Anna, e á missa das nove da igreja de S. José, e á missa do meio dia na ermida da Oliveirinha. Descansava um instante a uma esquina, de ripan?o debaixo do bra?o, chupando á pressa o cigarro: depois voava ao Santissirno exposto na parochial de Santa Engracia, á devo??o do Ter?o no convento de Santa Joanna, á ben??o do Sacramento na capella de Nossa Senhora ás Pic?as, á novena das Chagas de Christo, na sua igreja, com musica. Tomava ent?o a tipoia do Pingalho, e ainda visitava, ao acaso, de fugida, os Martyres e S. Domingos, a igreja do convento do Desagravo e a igreja da Visita??o das Selesias, a capella de Monserrate ás Amoreiras e a Gloria ao Cardal da Gra?a, as Flamengas e as Albertas, a Pena, o Rato, a Sé!

á noite, em casa da Adelia, estava t?o derreado, mono e molle ao canto do sofá,-que ella atirava-me murros pelos hombros, e gritava, furiosa:

-Esperta, morc?o!

Ai de mim! Um dia veio, porém, em que a Adelia, em vez de me chamar morc?o, quando, esfalfado no servi?o do Senhor, eu mal podia ajudal-a a desatacar o collete-passou, sempre que os meus labios insaciaveis se collavam de mais ao seu collo, a empurrar-me, a chamar-me carra?a... Foi isto pelas alegres vesperas de Santo Antonio, ao apparecerem os primeiros manjaric?es, no quinto mez da minha devo??o perfeita.

A Adelia come?ára a andar pensativa e distrahida. Tinha ás vezes, quando eu lhe fallava, um modo de dizer ?hein??, com o olhar incerto e disperso, que era um tormento para o meu cora??o. Depois um dia deixou de me fazer a caricia melhor, que eu mais appetecia-a penetrante e a regaladora beijoca na orelha.

Sim, decerto permanecia terna... Ainda dobrava maternalmente o meu paletot; ainda me chamava riquinho; ainda me acompanhava ao patamar em camisa, dando, ao descollar do nosso abra?o, esse lento suspiro que era para mim a mais preciosa evidencia da sua paix?o;-mas já me n?o favorecia com a beijoquinha na orelha.

Quando eu entrava abrazado-encontrava-a por vestir, por pentear, molle, estremunhada e com olheiras. Estendia-me a m?osinha desamoravel, bocejava, colhia pregui?osamente a viola: e emquanto eu, a um canto, chupando cigarros mudos, esperava que se abrisse a portinha envidra?ada da alcova que dava para o céo-a deshumana Adelia, estirada no sofá, de chinelas cahidas, beliscava os bord?es, murmurando, por entre longos ais, cantigas de estranha saudade...

N'um arranco de ternura, eu ia ajoelhar-me á beira do seu peito. E lá vinha logo a dura, a regelada palavra:

-Está quieto, carra?a!

E recusava-me sempre o seu carinho. Dizia-me: ?n?o posso, estou com azia.? Dizia-me: ?adeus, tenho a d?r na ilharga.?

Eu sacudia os joelhos, recolhia ao Campo de Sant'Anna-espoliado, miserrimo, chorando na escurid?o da minha alma pelos tempos ineffaveis em que ella me chamava morc?o!

Uma noite de julho, macia como um velludo preto e pespontada d'estrellas, chegando mais cedo a casa d'ella, encontrei a portinha aberta. O candieiro de petroline, pousado no soalho do patamar, enchia a escada de luz;-e dei com a Adelia, em saia branca, fallando a um rapaz de bigodinho louro, embrulhado pelintramente n'uma capa á hespanhola. Ella empallideceu, elle encolheu-quando eu surgi, grande e barbudo, com a minha bengala na m?o. Depois a Adelia, sorrindo, sem perturba??o, vera e limpida, apresentou-me ?seu sobrinho Adelino.? Era filho da mana Ricardina, a que vivia em Vizeu, e irm?o do Theodoriquinho... Tirando o chapéo, apertei na palma larga e leal os dedos fugidios do snr. Adelino:

-Estimo muito conhecel-o, cavalheiro. Sua mam?, seu mano, bons?

N'essa noite a Adelia, resplandecente, tornou a chamar-me morc?o, restituiu-me o beijinho na orelha. E toda essa semana foi deliciosa como a d'um noivado. O ver?o ardia; e come?ára na Concei??o Velha a novena de S. Joaquim. Eu sahia de casa á hora repousante em que se regam as ruas, mais contente que os passaros chalrando nas arvores do campo de Sant'Anna. Na salinha clara, com todas as cadeiras cobertas de fust?o branco, encontrava a minha Adelia de chambre, fresca de se ter lavado, cheirando a agua de colonia, e aos lindos cravos vermelhos que a toucavam; e depois das manh?s calorosas, nada havia mais idyllico, mais d?ce que as nossas merendas de morangos na cozinha, ao ar da janella, contemplando bocadinhos verdes de quintaes e ceroulas humildes a seccar em cordas... Ora uma tarde que assim nos apraziamos, ella pediu-me oito libras.

Oito libras!... Descendo á noite a rua da Magdalena, eu ruminava quem m'as poderia emprestar sem juro e rasgadamente. O bom Casimiro estava em Torres, o prestante Rinch?o estava em Paris... E pensava já no padre Pinheiro (cujas d?res de rins eu lamentava sempre com affecto) quando avistei a escapar-se, todo encolhido, todo surrateiro, d'uma d'essas viellas impuras onde Venus Mercenaria arrasta os seus chinelos-o José Justino, o nosso José Justino, o piedoso secretario da confraria de S. José, o virtuosissimo tabelli?o da titi!...

Gritei logo: ?boas noites, Justininho!? E regressei ao Campo de Sant'Anna, tranquillo, gozando já a repenicada beijoca que me daria a Délinha, quando eu risonho lhe estendesse na m?o as oito rodellas d'ouro. Ao outro dia cedo, corri ao cartorio do Justino, a S. Paulo, contei-lhe a pranteada historia d'um condiscipulo meu, tisico, miseravel, arquejando sobre uma enxerga, n'uma fetida casa d'hospedes, ao pé do largo dos Caldas.

-é uma desgra?a, Justino! Nem dinheiro tem para um caldinho... Eu é que o ajudo: mas, que diabo, estou a tinir... Fa?o-lhe companhia, é o que posso; leio-lhe ora??es, e Exercicios da vida christ?. Hontem á noite vinha eu de lá... E acredite você, Justino, que nem gósto d'andar por aquellas ruas, t?o tarde... Jesus, que ruas que indecencia, que immoralidade!... Aquelles beccos d'escadinhas, hein?... Eu hontem bem percebi que você ia horrorisado: eu tambem... De sorte que esta manh? estava no oratorio da titi, a rezar pelo meu condiscipulo, a pedir a Nosso Senhor que o ajudasse e que lhe désse algum dinheiro, e vai pareceu-me ouvir uma voz lá de cima da cruz a dizer: ?entende-te com o Justino, falla ao nosso Justininho, elle que te dê oito libras para o rapaz...? Fiquei t?o agradecido a Nosso Senhor! De modo que aqui venho, Justino, por ordem d'Elle.

O Justino escutava-me, branco como os seus collarinhos, dando estalinhos tristes nos dedos;-depois, em silencio, estendeu-me uma a uma sobre a carteira as oito moedas d'ouro. Assim eu servi a minha Adelia.

Fugaz foi porém a minha gloria!

D'ahi a dias estando no Montanha, regalado, a gozar uma carapinhada-o criado veio avisar-me que uma mocinha trigueira e de chale, a snr.^a Marianna, esperava por mim á esquina... Santo Deus! A Marianna era a criada da Adelia. E corri, a tremer, certo de que a minha bem-amada ficára soffrendo da sua abominavel d?r na sua branca ilharga. Pensei mesmo em come?ar o Rosario das dezoito appari??es de Nossa Senhora de Lourdes, que a titi considera efficacissimo em casos de pontada ou de touros tresmalhados...

-Ha novidade, Marianna?

Ella levou-me para dentro d'um pateo onde cheirava mal; e ahi, com os olhos vermelhos, destra?ando furiosamente o chale, rouca ainda da bulha que tivera com a Adelia, rompeu a contar-me coisas torpes, execrandas, sordidas. A Adelia enganava-me! O snr. Adelino n?o era sobrinho: era o querido, o chulo. Apenas eu sahia, elle entrava: a Adelia dependurava-se-lhe do pesco?o, n'um delirio; e chamavam-me ent?o o carra?a, o carola, o bode, vituperios mais negros, cuspindo sobre o meu retrato. As oito libras tinham sido para o Adelino comprar fato de ver?o; e ainda sobrára para irem á feira de Belem, em tipoia descoberta, e de guitarra... A Adelia adorava-o com pieguice e com furor: cortava-lhe os callos; e os suspiros da sua impaciencia, quando elle tardava, lembravam o bramar das cervas, nos mattos quentes, em maio!... Duvidava eu? Queria uma evidencia? Que fosse n'essa noite, tarde, depois da uma hora, bater á portinha da Adelia!

Livido, apoiado ao muro, eu mal sabia se o cheiro que me suffocava vinha do canto escuro do pateo-se das immundicies que borbulhavam da bocca da Marianna, como d'um cano d'esgoto rebentado. Limpei o suor, murmurei, a desfallecer:

-Está bom Marianna, obrigadinho, eu verei, vá com Deus...

Cheguei a casa t?o sombrio, t?o murcho, que a titi perguntou-me, com um risinho, se eu ?malhára abaixo da egoa.?

-Da egoa?... N?o, titi, credo! Estive na igreja da Gra?a...

-é que vens t?o enfiado, assim com as pernas molles... E ent?o o Senhor hoje estava bonito?

-Ai, titi, estava rico!... Mas n?o sei porquê, pareceu-me t?o tristinho, t?o tristinho... Até eu disse ao padre Eugenio: ?ó Eugeninho, o Senhor hoje tem desgosto!? E disse-me elle: ?Que quer você, amigo? é que vê por esse mundo tanta patifaria!? E olhe que vê, titi! Vê muita ingratid?o, muita falsidade, muita trai??o!

Rugia, enfurecido: e cerrára o punho como para o deixar cahir, punidor e terrivel, sobre a vasta perfidia humana. Mas contive-me, abotoei devagar a quinzena, recalquei um solu?o.

-Pois é verdade, titi... Fez-me tanta impress?o aquella tristeza do Senhor que fiquei assim um bocado amarfanhado... E de mais a mais tenho tido um desgosto: está um condiscipulo meu muito mal, coitadinho, a espichar...

E outra vez, como diante do Justino (aproveitando reminiscencias do Xavier e da rua da Fé), estirei a carcassa d'um condiscipulo sobre a podrid?o d'uma enxerga. Disse as bacias de sangue, disse a falta de caldos... Que miseria, titi, que miseria! E ent?o um mo?o t?o respeitador das coisas santas, que escrevia t?o bem na Na??o!...

-Desgra?as, murmurou a tia Patrocinio, meneando as agulhas da meia.

-é verdade, desgra?as, titi. Ora como elle n?o tem familia e a gente da casa é desleixada, nós os condiscipulos é que vamos por turnos servir-lhe d'enfermeiros. Hoje toca-me a mim. E queria ent?o que a titi me désse licen?a para eu ficar fóra, até cerca das duas horas... Depois vem outro rapaz, muito instruido, que é deputado.

A tia Patrocinio permittiu:-e até se offereceu para pedir ao patriarcha S. José que fosse preparando ao meu condiscipulo uma morte somnolenta e ditosa...

-Isso é que era um grande favor, titi! Elle chama-se Macieira... O

Macieira vesgo. é para S. José saber.

Toda a noite vagueei pela cidade, adormecida na molleza do luar de julho. E por cada rua me acompanharam sempre, fluctuantes e transparentes, duas figuras, uma em camisa, outra de capa á hespanhola, enroscadas, beijando-se furiosamente-e só desligando os bei?os pisados para rirem alto de mim e para me chamarem carola.

Cheguei ao Rocio quando batia uma hora no relogio do Carmo. Ainda fumei um cigarro, indeciso, por debaixo das arvores. Depois voltei os passos para a casa da Adelia, vagaroso, e com medo. Na sua janella vi uma luz enlanguecida e dormente. Agarrei a grossa aldraba da porta,-mas hesitei com terror da certeza que vinha buscar, terminante e irreparavel... Meu Deus! Talvez a Marianna, por vingan?a, calumniasse a minha Adelia! Ainda na vespera ella me chamára riquinho, com tanto ardor! N?o seria mais sensato e mais proveitoso acreditar n'ella, tolerar-lhe um fugitivo transporte pelo snr. Adelino, e continuar a receber egoistamente o meu beijinho na orelha?

Mas ent?o á idéa lacerante de que ella tambem beijava na orelha o snr. Adelino, e que o snr. Adelino também dizia ai! ai! como eu-assaltou-me o desejo ferino de a matar, com desprezo e a murros, alli, n'esses degraus onde tantas vezes arrulhára a suavidade dos nossos adeuses. E bati na porta com um punho bestial como se fosse já sobre o seu fragil, ingrato peito.

Senti correr desabridamente o fecho da vidra?a. Ella surgiu em camisa, com os seus bellos cabellos revoltos:

-Quem é o bruto?

-Sou eu, abre.

Reconheceu-me-a luz dentro desappareceu; e foi como se aquella torcida de candieiro, apagando-se, deixasse tambem a minha alma em escurid?o, fria para sempre e vazia. Senti-me regeladamente só, viuvo, sem occupa??o e sem lar. Do meio da rua olhava as janellas negras, e murmurava: ?ai, que eu rebento!?

Outra vez a camisa da Adelia alvejou na varanda.

-N?o posso abrir, que ceei tarde e estou com somno!

-Abre! gritei erguendo os bra?os desesperados. Abre ou nunca mais cá volto!...

-Pois á fava, e recados á tia.

-Fica-te, bebeda!

Tendo-lhe atirado, como uma pedrada, este urro severo, desci a rua muito teso, muito digno. Mas á esquina aluí de d?r, para cima d'um portal, a solu?ar, escoado em pranto, delido.

Pesada foi ent?o ao meu cora??o a lenta melancolia dos dias d'estio... Tendo contado á titi que andava a escrever dois artigos, piamente destinados ao Almanach da Immaculada Concei??o para 1878, encerrava-me no quarto, toda a manh?, emquanto faiscavam ao sol as pedras da minha varanda. Ahi, arrastando as chinelas sobre o soalho regado, remoía, entre suspiros, recorda??es da Adelia; ou diante do espelho contemplava o lugar macio da orelha em que ella costumava dar-me o beijo... Depois sentia um ruido de vidra?a-e o seu perfido, o seu affrontoso brado ?á fava!? Ent?o, perdido, esguedelhado, machucava o travesseiro com os murros que n?o podia vibrar ao peito magro do snr. Adelino.

á tardinha, quando refrescava, ia espalhar para a Baixa. Mas cada janella aberta ás aragens da tarde, cada cortina de cassa engommada me lembrava a intimidade da alcovinha da Adelia; n'um simples par de meias, esticado na vitrina de uma loja, eu revia com saudade a perfei??o da sua perna; tudo o que era luminoso me suggeria o seu olhar; e até o sorvete de morango, no Martinho, me fazia repassar nos labios o adocicado e gostoso sabor dos seus beijos.

á noite, depois do chá, refugiava-me no oratorio, como n'uma fortaleza de santidade, embebia os meus olhos no corpo de ouro de Jesus, pregado na sua linda cruz de pau preto. Mas ent?o o brilho fulvo do metal precioso ia, pouco a pouco, embaciando, tomava uma alva c?r de carne, quente e tenra; a magreza de Messias triste, mostrando os ossos, arredondava-se em fórmas divinamente cheias e bellas; por entre a cor?a d'espinhos, desenrolavam-se lascivos anneis de cabellos crespos e negros; no peito, sobre as duas chagas, levantavam-se, rijos, direitos, dois esplendidos seios de mulher, com um bot?osinho de rosa na ponta;-e era ella, a minha Adelia, que assim estava no alto da cruz, núa, soberba, risonha, victoriosa, profanando o altar, com os bra?os abertos para mim!

Eu n?o via n'isto uma tenta??o do Demonio-antes me parecia uma gra?a do Senhor. Comecei mesmo a misturar aos textos das minhas rezas as queixas do meu amor. O céo é talvez grato: e esses innumeraveis santos, a quem eu prodigalisára Novenas e Coroinhas, desejariam talvez recompensar a minha amabilidade restituindo-me as caricias que me roubára o homem cruel da capa á hespanhola. Puz mais fl?res sobre a commoda diante de Nossa Senhora do Patrocinio; contei-lhe as angustias do meu cora??o. Por traz do limpido vidro do seu caixilho, com os olhos baixos e magoados, ella foi a confidente do tormento da minha carne; e todas as noites, em ceroulas, antes de me deitar, eu lhe segredava, com ardor:

-ó minha querida Senhora do Patrocinio, faze que a Adelinha goste outra vez de mim!

Depois utilisei o valimento da titi com os santos seus amigos-o amorosissimo e perdoador S. José, S. Luiz Gonzaga, t?o benevolo para a juventude. Pedia-lhe que fizesse uma Peti??o por certa necessidade minha, secreta e toda pura. Ella accedia, com alacridade; e eu, espreitando pelo reposteiro do oratorio, regalava-me de vêr a rigida senhora, de joelhos, de contas na m?o, em supplicas aos Patriarchas castissimos para que a Adelia me désse outra vez a beijoquinha na orelha.

Uma noite, cedo, foi experimentar se o céo escutára t?o valiosas preces. Cheguei á porta da Adelia; e bati, tremendo todo, uma argoladinha humilde. O snr. Adelino assomou á janella, em mangas de camisa.

-Sou eu, snr. Adelino, murmurei abjectamente e tirando o chapéo. Queria fallar á Adeliasinha.

Elle rosnou para dentro, para a alcova, o meu nome. Creio mesmo que disse o carola. E lá do fundo, d'entre os cortinados, onde eu a presentia toda desalinhada e formosa, a minha Adelia gritou com furor:

-Atira-lhe para cima dos lombos o balde da agua suja!

Fugi.

* * * * *

No fim de setembro, o Rinch?o chegou de Paris: e um domingo, á noitinha, á volta da Novena de S. Caetano, entrando no Martinho, encontrei-o, rodeado de rapazes, contando ruidosamente os seus feitos d'amor e de gentil audacia em Paris. Tristonho, puxei um banco e fiquei a ouvir o Rinch?o. Com uma ferradura de rubis na gravata, o monoculo pendente d'uma fita larga, uma rosa amarella no peito, o Rinch?o impressionava, quando por entre o fumo do charuto esbo?ava tra?os do seu prestigio: ?Uma noite no Caffé de la Paix, estando eu a cear com a Cora, com a Valtesse, e com um rapaz muito chic, um principe...? O que o Rinch?o tinha visto! o que o Rinch?o tinha gozado! Uma condessa italiana, delirante, parenta do Papa, e chamada Popotte, amára-o, levára-o aos Campos-Elyseos na sua victoria-cujo velho braz?o eram dois chavelhos encruzados. Jantára em restaurantes onde a luz vinha de serpentinas d'ouro, e os criados, macilentos e graves, lhe chamavam respeitosamente Mr. le Comte. E o Acazar, com fest?es de gaz entre as arvores, e a Paulina cantando, de bra?os nús, o Chouri?o de Marselha-revelára-lhe a verdade, a grandeza da civilisa??o.

-Viste Victor Hugo? perguntou um rapaz de lunetas pretas, que roía as unhas.

-N?o, nunca andava cá na roda chic!

Toda essa semana, ent?o, a idéa de vêr Paris brilhou incessantemente no meu espirito, tentadora e cheia de suaves promessas... E era menos o appetite d'esses gozos do Orgulho e da Carne com que se abarrotára o Rinch?o, que a anciedade de deixar Lisboa, onde igrejas e lojas, claro rio e claro céo, só me lembravam a Adelia, o homem amargo de capa á hespanhola, o beijo na orelha perdido para sempre... Ah! se a titi abrisse a sua bolsa de sêda verde, me deixasse mergulhar dentro as m?os, colher ouro, e partir para Paris!...

Mas, para a snr.^a D. Patrocinio, Paris era uma regi?o ascorosa, cheia de mentira, cheia de gula-onde um povo sem santos, com as m?os maculadas do sangue dos seus arcebispos, está perpetuamente, ou brilhe o sol, ou luza o gaz, commettendo uma relaxa??o. Como ousaria eu mostrar á titi o desejo immodesto de visitar esse lugar de sujidade e de treva moral?...

Logo no domingo porém, jantando no Campo de Sant'Anna os amigos dilectos, aconteceu fallar-se, ao cozido, d'um sabio condiscipulo do padre Casimiro que recentemente deixára a quieta??o da sua cella no Varatojo, para ir esposar, entre foguetes, a trabalhosa Sé de Lamego. O nosso modesto Casimiro n?o comprehendia esta cubi?a d'uma mitra, cravejada de pedras v?s: para elle a plenitude d'uma vida ecclesiastica era estar assim aos sessenta annos, s?o e sereno, sem saudades e sem temores, comendo o arrozinho do forno da snr.^a D. Patrocinio das Neves...

-Porque deixe-me dizer-lhe, minha respeitavel senhora, que este seu arroz está um primor!... E a ambi??o de ter sempre um arroz d'estes, e amigos que o apreciem, parece-me a mais legitima e a melhor para uma alma justa...

E assim se veio a discursar das acertadas ambi??es que, sem aggravo do Senhor, cada um podia nutrir no seu cora??o. A do tabelli?o Justino era uma quintasinha no Minho, com roseiras e com parreiras, onde elle pudesse acabar a velhice, em mangas de camisa, e quietinho.

-Olhe, Justino, disse a titi, uma coisa que lhe havia de fazer falta era a sua missa na Concei??o Velha... Quando a gente se acostuma a uma missinha, n?o ha outra que console... A mim, se me tirassem a de Sant'Anna, parece-me que come?ava a definhar...

Era o padre Pinheiro que a celebrava; a titi, enternecida, collocou-lhe no prato outra aza de gallinha;-e padre Pinheiro revelou tambem a ambi??o que o pungia. Era elevada e santa. Queria vêr o Papa restaurado n'esse throno forte e fecundo em que resplandecera Le?o X...

-Se ao menos houvesse mais caridade com elle! exclamou a titi. Mas o Santissimo Padre, o vigariosinho de Nosso Senhor, assim n'uma masmorra, em farrapos, sobre palha... é de Caipházes, é de judeus!

Bebeu um gole da sua agua morna, e recolheu-se ao retiro da sua alma-a rezar a Ave-Maria que sempre offertava pela saude do Pontifice e pelo termo do seu captiveiro.

O dr. Margaride consolou-a. N?o acreditava que o Pontifice dormisse sobre palhas. Viajantes esclarecidos afian?avam-lhe até que o Santo Padre, querendo, podia ter carruagem.

-N?o é tudo; está longe de ser tudo o que compete a quem usa a tiára; mas uma carruagem, minha senhora, é uma grandissima commodidade...

Ent?o o nosso Casimiro, risonho, desejou saber (já que todos patenteavam as suas ambi??es) qual era a do douto, do eminente dr. Margaride.

-Diga lá a sua, dr. Margaride, diga lá a sua! clamaram todos, com affecto.

Elle sorria, grave.

-Deixe-me v. exc.^a primeiro, D. Patrocinio, minha senhora, servir-me d'essa lingua guizada, que marcha para nós e que me parece preciosa.

Depois de fornecido, o veneravel magistrado confessou que appetecia ser Par do Reino. N?o por alarde de honras, nem pelo luxo da farda; mas para defender o principio sacro da authoridade...

-Só por isto, acrescentou com energia. Porque desejava tambem, antes de morrer, poder dar, se v. exc.^a, D. Patrocinio, me permitte a express?o, uma cacheirada mortal no atheismo e na anarchia. E dava-lh'a!

Todos declararam fervorosamente o dr. Margaride digno d'esses fastigios sociaes. Elle agradeceu, seriissimo. Depois volveu para mim a face magestosa e livida:

-E o nosso Theodorico? O nosso Theodorico ainda n?o nos disse qual era a sua ambi??o.

Córei: e Paris logo rebrilhou ao fundo do meu desejo, com as suas serpentinas de ouro, as suas condessas primas dos Papas, as espumas do seu champagne-fascinante, embriagante, e adormentando toda a d?r... Mas baixei os olhos; e affirmei que só aspirava a rezar as minhas cor?as, ao lado da titi, com proveito e com descanso...

O dr. Margaride porém pousára o talher, insistia. N?o lhe parecia um desapego de Deus, nem uma ingratid?o com a titi, que eu, intelligente, saudavel, bom cavalleiro e bacharel, nutrisse uma honesta cubi?a...

-Nutro! exclamei ent?o decidido como aquelle que arremessa um dardo.

Nutro, dr. Margaride. Gostava muito de vêr Paris.

-Cruzes! gritou a snr.^a D. Patrocinio, horrorisada. Ir a Paris!...

-Para vêr as igrejas, titi!

-N?o é necessario ir t?o longe para vêr bonitas igrejas, replicou ella, rispidamente. E lá em festas com org?o, e um Santissimo armado com luxo, e uma rica prociss?o na rua, e boas vozes, e respeito, e imagens de dar gosto, ninguem bate cá os nossos portuguezes!...

Calei-me, esmagado. E o esclarecido dr. Margaride applaudiu o patriotismo ecclesiastico da titi. Decerto, n?o era n'uma republica sem Deus, que se deviam procurar as magnificencias do culto...

-N?o, minha senhora, lá para saborear coisas grandiosas da nossa santa religi?o, se eu tivesse vagares, n?o era a Paris que ia... Sabe v. exc.^a onde eu ia, snr.^a D. Maria do Patrocinio?

-O nosso doutor, lembrou o padre Pinheiro, corria direito a Roma...

-Upa, padre Pinheiro! Upa, minha cara senhora!

Upa? Nem o bom Pinheiro, nem a titi comprehendiam o que houvesse de superior a Roma pontifical! O dr. Margaride ent?o ergueu solemnemente as sobrancelhas, densas e negras como ebano.

-Ia á Terra Santa, D. Patrocinio! Ia á Palestina, minha senhora! Ia vêr Jerusalem e o Jord?o! Queria eu tambem estar um momento, de pé, sobre o Golgotha, como Chateaubriand, com o meu chapéo na m?o, a meditar, a embeber-me, a dizer ?salvè!? E havia de trazer apontamentos, minha senhora, havia de publicar impress?es historicas. Ora ahi tem v. exc.^a onde eu ia... Ia a Si?o!

Servira-se o lombo assado; e houve, por sobre os pratos, um recolhimento reverente a esta evoca??o da terra sagrada onde padeceu o Senhor. Eu parecia-me vêr lá muito longe, na Arabia, ao fim de arquejantes dias de jornada sobre o dorso d'um camêlo, um mont?o de ruinas em torno d'uma cruz; um rio sinistro corre ao lado entre oliveiras; o céo arqueia-se mudo e triste como a abobada d'um tumulo. Assim devia ser Jerusalem.

-Linda viagem! murmurou o nosso Casimiro, pensativo.

-Sem contar, rosnou padre Pinheiro, baixo e como ciciando uma ora??o, que Nosso Senhor Jesus Christo vê com grande apre?o, e muito agradece, essas visitas ao seu Santo Sepulchro.

-Até quem lá vai, disse o Justino, tem perd?o de peccados. N?o é verdade, Pinheiro? Eu assim li no Panorama... Vem-se de lá limpinho de tudo!

Padre Pinheiro (tendo recusado, com mágoa, a couve-fl?r, que considerava indigesta) deu esclarecimentos. Quem ia á Terra Santa, n'uma devota peregrina??o, recebia sobre o marmore do Santo Sepulchro, das m?os do Patriarcha de Jerusalem, e pagando os rituaes emolumentos, as suas Indulgencias Plenarias...

-N?o só para si, segundo tenho ouvido dizer, acrescentou o instruido ecclesiastico, mas para uma pessoa querida de familia, piedosa, e comprovadamente impedida de fazer a jornada... Pagando, já se vê, emolumentos dobrados.

-Por exemplo! exclamou o dr. Margaride inspirado, batendo-me com for?a nas costas. Assim para uma boa titi, uma titi adorada, uma titi que tem sido um anjo, toda virtude, toda generosidade!...

-Pagando, já se vê, insistiu padre Pinheiro, os emolumentos dobrados!

A titi n?o dizia nada; os seus oculos, girando do Sacerdote para o Magistrado, pareciam estranhamente dilatados, e brilhando mais com o clar?o interior d'uma idéa: um pouco de sangue subira á sua face esverdinhada. A Vicencia offereceu o arroz d?ce. Nós rezamos as gra?as.

Mais tarde no meu quarto, despindo-me, senti-me triste, infinitamente. Nunca a titi me deixaria visitar a terra immunda de Fran?a: e aqui ficaria enclausurado n'esta Lisboa onde tudo me era tortura, e as mais rumorosas ruas me aggravavam o ermo do meu cora??o, e até a pureza do fino céo de estio me recordava a torva perfidia d'essa que f?ra para mim estrella e Rainha da Gra?a... Depois, n'esse dia, ao jantar, a titi parecera-me mais rija, solida ainda, duradoura, e por longos annos dona da bolsa de sêda verde, dos predios e dos contos do commendador G. Godinho... Ai de mim! Quanto tempo mais teria de rezar com a odiosa velha o fastiento ter?o, de beijar o pé do Senhor dos Passos, sujo de tanta bocca fidalga, de palmilhar novenas, e de magoar os joelhos diante do corpo d'um Deus, magro e cheio de feridas? Oh vida entre todas amargurosa! E já n?o tinha, para me consolar do enfadonho servi?o de Jesus, os macios bra?os da Adelia...

* * * * *

De manh?, apparelhada a egoa, e já d'esporas, fui saber se minha titi tinha algum pio recado para S. Roque, por ser esse seu milagroso dia. Na saleta votada ás glorias de S. José, a titi, ao canto do sofá, com o chale de Tonkin cahido dos hombros, examinava o seu grande caderno de contas, aberto sobre os joelhos; e, defronte, calado, com as m?os cruzadas atraz das costas, o bom Casimiro sorria pensativamente ás fl?res do tapete.

-Ora venha cá, venha cá! disse elle, mal eu assomei curvando o espinha?o. Ou?a lá a novidade! Que você é uma joia, respeitador de velhos, e tudo merece de Deus e da senhora sua tia. Chegue-se cá, venha de lá esse abra?o!

Sorri, inquieto. A titi enrolava o seu caderno.

-Theodorico! come?ou ella, cruzando os bra?os, impertigada. Theodorico! tenho estado aqui a consultar com o snr. padre Casimiro. E estou decidida a que alguem que me perten?a, e que seja do meu sangue, vá fazer por minha inten??o uma peregrina??o á Terra Santa...

-Hein, feliz?o! murmurou Casimiro, resplandecendo.

-Assim, proseguiu a titi, está entendido e ficas sabendo que vaes a Jerusalem e a todos os divinos lugares. Escusas de me agradecer, é para meu gosto, e para honrar o tumulo de Jesus Christo, já que eu lá n?o posso ir... Como, louvado seja Nosso Senhor, n?o me faltam os meios, has de fazer a viagem com todas as commodidades; e para n?o estar com mais duvidas, e pela pressa d'agradar a Nosso Senhor, ainda has de partir n'este mez... Bem, agora vai, que eu preciso conversar com o snr. padre Casimiro. Obrigado, n?o quero nada para o snr. S. Roque: já me entendi com elle.

Balbuciei: ?Muito agradecido, titi; adeusinho, padre Casimiro.? E segui pelo corredor, atordoado.

No meu quarto corri ao espelho a contemplar, pasmado, este rosto e estas barbas, onde em breve pousaria o pó do Jerusalem... Depois, cahi sobre o leito.

-Olha que tremenda espiga!

Ir a Jerusalem! E onde era Jerusalem? Recorri ao bahú que continha os meus compendios e a minha roupa velha; tirei o Atlas, e com elle aberto sobre a commoda, diante da Senhora do Patrocinio, comecei a procurar Jerusalem lá para o lado onde vivem os Infieis, ondulam as escuras caravanas, e uma pouca d'agua n'um po?o é como um dom precioso do Senhor.

O meu dedo errante sentia já o cansa?o d'uma longa jornada: e parei á beira tortuosa d'um rio que devia ser o devoto Jord?o. Era o Danubio. E de repente o nome de Jerusalem surgiu, negro, n'uma vasta solid?o branca, sem nomes, sem linhas, toda de arêas, nua, junto ao mar. Alli estava Jerusalem. Meu Deus! Que remoto, que ermo, que triste!

Mas ent?o comecei a considerar que, para chegar a esse sólo de penitencia, tinha d'atravessar regi?es amaveis, femininas e cheias de festa. Era primeiro essa bella Andaluzia, terra de Maria Santissima, perfumada de fl?r de laranjeira, onde as mulheres só com metter dois cravos no cabello, e tra?ando um chale escarlate, amansam o cora??o mais rebelde, bendita sêa su gracia! Era adiante Napoles-e as suas ruas escuras, quentes, com retabulos da Virgem, e cheirando a mulher, como os corredores d'um lupanar. Era depois mais longe ainda a Grecia: desde a aula de Rhetorica ella apparecera-me sempre como um bosque sacro de loureiros onde alvejam front?es de templos, e, nos lugares de sombra em que arrulham as pombas, Venus de repente surge, c?r de luz e c?r de rosa, offerecendo a todo o labio, ou bestial ou divino, o mimo dos seus seios immortaes. Venus já n?o vivia na Grecia; mas as mulheres tinham conservado lá o esplendor da sua fórma e o encanto do seu impudor... Jesus! o que eu podia gozar! Um clar?o sulcou-me a alma. E gritei, com um murro sobre o Atlas, que fez estremecer a castissima Senhora do Patrocinio e todas as estrellas da sua cor?a:

-Caramba, vou fartar o bandulho!

Sim, fartal-o! E mesmo, receando que a titi, por avareza do seu ouro ou desconfian?a da minha piedade, renunciasse á idéa d'esta peregrina??o t?o promettedora de gozos-resolvi ligal-a supernaturalmente por uma ordem divina. Fui ao oratorio; desmanchei o cabello, como se por entre elle tivesse passado um sopro celeste; e corri ao quarto da titi, esgazeado, com os bra?os a tremer no ar.

-ó titi! pois n?o quer saber? Estava agora no oratorio, a rezar de satisfa??o, e vai de repente pareceu-me ouvir a voz de Nosso Senhor, de cima da cruz, a dizer-me baixinho, sem se mexer: ?Fazes bem, Theodorico, fazes bem em ir visitar o meu Santo Sepulchro... E estou muito contente com tua tia... Tua tia é das minhas!...?

Ella juntou as m?os, n'um fogoso transporte d'amor:

-Louvado seja o seu santissimo nome!... Pois disse isso? Ai, era bem

capaz, que Nosso Senhor sabe que é para o honrar que eu lá te mando...

Louvado seja outra vez o seu santissimo nome! Louvado seja em Terra e

Céo! Anda, filho, vai, reza-lhe... N?o te fartes, n?o te fartes!

Eu ia, murmurando uma Ave-Maria. Ella correu ainda á porta, n'uma effus?o de sympathia:

-E olha, Theodorico, vê lá a respeito de roupa branca... Talvez te sejam necessarias mais ceroulas... Encommenda, filho, encommenda, que gra?as a Nossa Senhora do Rosario tenho posses, e quero que vás com decencia e te apresentes bem lá na sepulturasinha de Deus!...

Encommendei: e, tendo comprado um Guia do Oriente e um capacete de corti?a, informei-me, sobre o modo mais deleitoso de chegar a Jerusalem, com Benjamim Sarrosa & C.^a, judeu sagaz, que ia todos os annos, de turbante, comprar bois a Marrocos. Benjamim marcou-me, miudamente, n'um papel, o meu grandioso itinerario. Embarcaria no Malaga, vapor da casa Jadley que, por Gibraltar, e depois por Malta, me levaria, n'um mar sempre azul, á velha terra do Egypto. Ahi um repouso sensual na festiva Alexandria. Depois no paquete do Levante, que sobe a costa religiosa da Syria, aportaria a Jaffa, a de verdejantes pomares; e de lá, seguindo uma estrada macadamisada, ao chouto d'uma egoa d?ce, veria, ao fim d'um dia e ao fim d'uma noite, surgirem, negras entre collinas tristes, as muralhas de Jerusalem!

-Diabo, Benjamim... Parece-me muito mar, muito paquete. Ent?o nem um bocadinho de Hespanha? ó menino, olhe que eu quero refastelar-me.

-Refastela-se em Alexandria. Tem lá tudo. Tem o bilhar, tem a tipoia, tem a batota, tem a mulherinha... Tudo do bom. é lá que você se refastela!

No emtanto, já no Montanha e na tabacaria do Brito se fallava da minha santa empresa. Uma manh?, li, escarlate d'orgulho, no Jornal das Novidades estas linhas honorificas: ?Parte brevemente a visitar Jerusalem, e todos os sacros lugares em que padeceu por nós o Redemptor, o nosso amigo Theodorico Raposo, sobrinho da exc.^{ma} D. Patrocinio das Neves, opulenla proprietaria, e modelo de virtudes christ?s. Boa viagem!? A titi, desvanecida, guardou o jornal no oratorio, debaixo da peanha de S. José: e eu jubilei, por imaginar o despeito da Adelia (leitora fiel do Jornal) ao vêr-me assim abalar desprendido d'ella, atestado d'ouro, para essas terras musulmanas-onde a cada passo se topa um serralho, mudo e cheirando a rosa entre sycomoros...

A vespera da partida, na sala dos damascos, teve eleva??o e solemnidade.

O Justino contemplava-me-como se contempla uma figura historica.

-O nosso Theodorico... Que viagem!... O que se vai fallar n'isto!

E padre Pinheiro murmurava com un??o:

-Foi uma inspira??o do Senhor! E que bem que lhe ha de fazer á saude!

Depois mostrei o meu capacete de corti?a. Todos o admiraram. O nosso Casimiro, todavia, depois de co?ar pensativamente o queixo, observou que me daria talvez mais seriedade um chapéo alto...

A titi acudiu, afflicta:

-é o que eu lhe disse! Acho de pouca ceremonia, para a cidade em que morreu Nosso Senhor...

-ó titi, mas já lhe expliquei! Isto é só para o deserto!... Em Jerusalem, está claro, e em todos aquelles santos lugares, ando de chapéo alto...

-Sempre é mais de cavalheiro, affirmou o dr. Margaride.

Padre Pinheiro quiz saber, solicitamente, se eu ia prevenido com remedios para o caso d'um contratempo intestinal n'esses descampados biblicos...

-Levo tudo. O Benjamim deu-me a lista... Até linha?a, até arnica!...

O pachorrento relogio do corredor come?ou a gemer as dez; eu devia madrugar; e o dr. Margaride, commovido, agasalhava já o pesco?o no seu len?o de sêda. Ent?o, antes dos abra?os, perguntei aos meus leaes amigos que ?lembran?asinha? desejavam d'essas terras remotas onde vivera o Senhor. Padre Pinheiro queria um frasquinho d'agua do Jord?o. Justino (que já me pedira no v?o da janella um pacote de tabaco turco) diante da titi só appetecia um raminho de oliveira, do monte Olivete. O dr. Margaride contentava-se com uma boa photographia do sepulchro de Jesus Christo, para encaxilhar...

Com a carteira aberta, depois de alistar estas piedosas imcumbencias-voltei-me para a titi, risonho, carinhoso, humilde...

-Cá por mim, disse ella do meio do sofá como d'um altar, tesa nos seus setins de domingo, o que desejo é que fa?as essa viagem com toda a devo??o, sem deixar pedra por beijar, nem perder novena, nem ficar lugarzinho em que n?o rezes ou o ter?o ou a cor?a... Além d'isso, tambem estimo que tenhas saude.

Eu ia dep?r na sua m?o, brilhante de anneis, um beijo gratissimo. Ella deteve-me-mais aprumada e secca:

-Até aqui tens sido apropositado, n?o tens faltado aos preceitos, nem te tens dado a relaxa??es... Por isso te vaes regalar de vêr as oliveiras onde Nosso Senhor suou sangue, e de beber no Jord?osinho... Mas se eu soubesse que n'esta passeata tinhas tido maus pensamentos, e praticado uma relaxa??o, ou andado atraz de saias, fica certo que, apesar de ser a unica pessoa do meu sangue, e teres visitado Jerusalem, e gozar indulgencias, havias de ir para a rua, sem uma c?dea, como um c?o!

Curvei a cabe?a, apavorado. E a titi, depois de ro?ar o len?o de rendas pelos bei?os sumidos, proseguiu com mais authoridade, e uma emo??o crescente que lhe punha, sob o corpete raso, como o fugitivo arfar d'um peito humano:

-E agora quero dizer-te para teu governo uma só coisa!...

Todos de pé, e reverentes, logo percebemos que a titi se preparava a proferir uma palavra suprema. N'essa hora de separa??o, rodeada dos seus sacerdotes, rodeada dos seus magistrados, D. Patrocinio das Neves ia decerto revelar qual f?ra o seu intimo motivo, em me mandar, como sobrinho e como romeiro, á cidade de Jerusalem. Eu ia saber emfim, e t?o indubitavelmente como se ella m'o escrevesse n'um pergaminho, qual deveria ser o mais precioso dos meus cuidados, velando ou dormindo, nas terras do Evangelho!

-Aqui está! declarou a titi. Se entendes que mere?o alguma coisa pelo que tenho feito por ti desde que morreu tua m?i, já educando-te, já vestindo-te, já dando-te egoa para passeares, já cuidando da tua alma, ent?o traze-me d'esses santos lugares uma santa reliquia, uma reliquia milagrosa que eu guarde, com que me fique sempre apegando nas minhas afflic??es e que cure as minhas doen?as.

E pela vez primeira, depois de cincoenta annos de aridez, uma lagrima breve escorregou no car?o da titi, por sob os seus oculos sombrios.

O dr. Margaride rompeu para mim, arrebatadamente:

-Theodorico, que amor que lhe tem a titi! Rebusque essas ruinas, esquadrinhe esses sepulcros! Traga uma reliquia á titi!

Eu bradei, exaltado:

-Titi, palavra de Rapos?o que lhe hei de trazer uma tremenda reliquia!

Pela severa sala de damascos transbordou, ruidosa e tocante, a commo??o dos nossos cora??es. Eu achei me com os bei?os do Justino, ainda molles da torrada, collados á minha barba...

Cedo, na manh? de domingo, 6 de setembro e dia de Santa Libania, fui bater, devagar, ao quarto da titi, ainda adormecida no seu leito castissimo. Senti, por sobre o tapete, aproximar-se o som molle dos seus chinelos. Entreabriu pudicamente a porta; e, decerto em camisa, estendeu-me, através da fenda, a sua m?o escarnada, livida, cheirando a rapé. Appeteceu-me mordel-a; depuz n'ella um beijo baboso; a titi murmurou:

-Adeus, menino... Dá muitas saudades ao Senhor!

Desci a escadaria, já de capacete, sobra?ando o meu Guia do Oriente.

Atraz a Vicencia solu?ava.

A minha mala nova de couro, o meu repleto sacco de lona enchiam o coupé do Pingalho. Ainda as andorinhas retardadas cantavam no beiral dos telhados; na capella de Sant'Anna tocava para a missa. E um raio de sol, vindo do Oriente, vindo lá da Palestina ao meu encontro, banhou-me a face, acolhedor e risonho, como uma caricia do Senhor.

Fechei a tipoia, estirei-me, gritei: ?Larga, Pingalho!?

E, romeiro abastado, soprando á brisa o fumo do meu cigarro-assim deixei o port?o de minha tia, em caminho para Jerusalem!

Chapter 2 No.2

Foi n'um domingo e dia de S. Jeronymo que meus pés latinos pisaram emfim, no caes de Alexandria, a terra do Oriente, sensual e religiosa. Agradeci ao Senhor da Boa Viagem. E o meu companheiro, o illustre Topsius, Doutor allem?o pela Universidade de Bonn, socio do Instituto imperial de Excava??es historicas, murmurou, grave como n'uma invoca??o, desdobrando o seu vastissimo guardasol verde:

-Egypto! Egypto! Eu te saúdo, negro Egypto! E que me seja em ti propicio o teu Deus Phtah, Deus das Letras, Deus da Historia, inspirador da obra de Arte e da obra de Verdade!...

Através d'este zumbido scientifico eu sentia-me envolvido n'um bafo morno como o d'uma estufa, amollecedormente tocado d'aromas de sandalo e rosa. No caes faiscante, entre fardos de l?, estirava-se, banal e sujo, o barrac?o da Alfandega. Mas além as pombas brancas voavam em torno aos minaretes brancos; o ceu deslumbrava. Cercado de severas palmeiras, um languido palacio dormia á beira d'agua; e ao longe perdiam-se os areaes da antiga Lybia, esbatidos n'uma poeirada quente, livre, e da c?r d'um le?o.

Amei logo esta terra de indolencia, de sonho e de luz. E saltando para a caleche forrada de chita, que nos ia levar ao Hotel das Pyramides, invoquei as Divindades, como o illustrado Doutor de Bonn:

-Egypto, Egypto! Eu te saúdo, negro Egypto! E que me seja propicio...

-N?o! que vos seja propicia, D. Raposo, Isis, a vacca amorosa! acudiu o eruditissimo homem, risonho, e abra?ado á minha chapeleira.

N?o comprehendi, mas venerei. Eu conhecêra Topsius em Malta, uma fresca manh?, estando a comprar violetas a uma ramalheteira que tinha já nos olhos grandes um langor musulmano: elle andava medindo consideradamente com o seu guardasol as paredes marciaes e monasticas do palacio do Gr?o-Mestre.

Persuadido que era um dever espiritual e doutoral, n'estas terras do Levante, cheias de historia, medir os monumentos da antiguidade, tirei o meu len?o e fui-o gravemente passeando, esticado como um covado, sobre as austeras cantarias. Topsius dardejou-me logo, por cima dos oculos d'ouro, um olhar desconfiado e ciumento. Mas tranquillisado, de certo, pela minha face jucunda e material, pelas minhas luvas almiscaradas, pelo meu futil raminho de violetas-ergueu cortezmente de sobre o longo cabello, corredio e c?r de milho, o seu bonésinho de sêda preta. Eu saudei com o meu capacete de corti?a; e communicamos. Disse-lhe o meu nome, a minha patria, os santos motivos que me levavam a Jerusalem. Elle contou-me que nascêra na gloriosa Allemanha; e ia tambem á Judêa, depois á Galilêa, n'uma peregrina??o scientifica, colhêr notas para a sua formidavel obra, a Historia dos Herodes. Mas demorava-se em Alexandria a amontoar os pesados materiaes de outro livro monumental, a Historia dos Lagidas... Porque estas duas turbulentas familias, os Herodes e os Lagidas, eram propriedade historica do doutissimo Topsius.

-Ent?o, ambos com o mesmo roteiro, podiamos acamaradar, Doutor Topsius!

Elle espigado, magrissimo e pernudo, com uma rabona curta de lustrina enchuma?ada de manuscriptos, cortejou gostosamente:

-Pois acamarademos, D. Raposo! Será uma deleitosa economia!

Encovado na gola, de guedelha cahida, o nariz agudo e pensativo, a cal?a esguia,-o meu erudito amigo parecia-me uma cegonha, risivel e cheia de letras, com oculos d'ouro na ponta do bico. Mas já a minha animalidade reverenciava a sua intellectualidade: e f?mos beber cerveja.

A sabedoria n'este mo?o era dom hereditario. Seu av? materno, o naturalista Shlock, escreveu um famoso tratado em oito volumes sobre a Express?o physionomica dos Lagartos, que assombrou a Allemanha. E seu tio, o decrepito Topsius, o memoravel egyptologo, aos setenta e sete annos dictou da poltrona, onde o prendia a gota, esse livro genial e facil-a Synthese monotheista da Theogonia egypcia, considerada nas rela??es do Deus Phtah e do Deus Imhotep com as Triadas dos Nómos.

O pai de Topsius, desgra?adamente, através d'esta alta sciencia domestica, permanecia figle n'um a charanga, em Munich: mas o meu camarada, reatando a tradi??o, logo aos vinte e dois annos tinha esclarecido, radiantemente, em dezenove artigos publicados no Boletim hebdomadario de Excava??es historicas, a quest?o, vital para a Civilisa??o, d'uma parede de tijolo erguida pelo rei Pi-Sibkmé, da vigesima primeira dynastia, em torno do templo de Ramèses II, na lendaria cidade de Tanis. Em toda a Allemanha scientifica, hoje, a opini?o de Topsius ácerca d'esta parede brilha com a irrefutabilidade do sol.

Só conservo de Topsius recorda??es suaves ou elevadas. Já sobre as aguas bravias do mar de Tyro; já nas ruas fuscas de Jerusalem; já dormindo lado a lado, sob a tenda, junto aos destro?os de Jerichó; já pelas estradas verdes de Galilêa-encontrei-o sempre instructivo, servi?al, paciente e discreto. Raramente comprehendia as suas senten?as, sonoras e bem cunhadas, tendo a preciosidade de medalhas d'ouro; mas, como diante da porta impenetravel d'um santuario, eu reverenciava, por saber que lá dentro, na sombra, refulgia a essencia pura da Idéa. Por vezes tambem o Doutor Topsius rosnava uma praga immunda; e ent?o uma grata communh?o se estabelecia entre elle e o meu singelo intellecto de bacharel em leis. Ficou-me a dever seis moedas;-mas esta diminuta migalha de pecunia desapparece na copiosa onda de saber historico com que fecundou o meu espirito. Uma coisa apenas, além do seu pigarro d'erudito, me desagradava n'elle-o habito de se servir da minha escova de dentes.

Era tambem intoleravelmente vaidoso da sua patria. Sem cessar, erguendo o bico, sublimava a Allemanha, m?i espiritual dos povos; depois amea?ava-me com a irresistibilidade das suas armas. A omnisciencia da Allemanha! A omnipotencia da Allemanha! Ella imperava, vasto acampamento entrincheirado d'in-folios, onde ronda e falla d'alto a Metaphysica armada! Eu, brioso, n?o gostava d'estas jactancias. Assim, quando no Hotel das Pyramides nos apresentaram um livro para n'elle registarmos nossos nomes e nossas terras, o meu douto amigo tra?ou o seu ?Topsius?, ajuntando por baixo, altivamente, em letras tesas e disciplinadas como galuchos:-?Da Imperial Allemanha.? Arrebatei a penna; e recordando o barbudo Jo?o de Castro, Ormuz em chammas, Adamastor, a capella de S. Roque, o Tejo e outras glorias, escrevi largamente em curvas mais enfunadas que velas de gale?es:-?Raposo, Portuguez, d'áquem e d'álém-mar.? E logo, do canto, um mo?o magro e murcho, murmurou, suspirando e a desfallecer:

-Em o cavalheiro necessitando alguma coisa, chame pelo Alpedrinha.

Um patricio! Elle contou-me a sua sombria historia, desafivelando a minha maleta. Era de Trancoso e desgra?ado. Tivera estudos, compuzera um negrologio, sabia ainda mesmo de cór os versos mais doloridos ?do nosso Soares de Passos.? Mas apenas sua mam?sinha morrêra, tendo herdado terras, correra á fatal Lisboa, a gozar; conheceu logo na travessa da Concei??o uma hespanhola deleitosissima, do adocicado nome de Dulce; e largou com ella para Madrid, n'um idyllio. Ahi o jogo empobreceu-o, a Dulce trahiu-o, um chulo esfaqueou-o. Curado e macilento passou a Marselha; e durante annos arrastou como um frangalho social, através de miserias inenarraveis. Foi sacrist?o em Roma. Foi barbeiro em Athenas. Na Morêa, habitando uma cho?a junto a um pantano, empregára-se na pavorosa pesca das sanguesugas; e de turbante, com ?dres negros ao hombro, apregoou agua pelas viellas de Smyrna. O fecundo Egypto attrahira-o sempre, irresistivelmente... E alli estava no Hotel das Pyramides, mo?o de bagagens e triste.

-E se o cavalheiro trouxesse por ahi algum jornal da nossa Lisboa, eu gostava de saber como vai a Politica.

Concedi-lhe generosamente todos os Jornaes de Noticias que embrulhavam os meus botins.

O dono do hotel era um grego de Lacedemonia, de bigodes ferozes, e que hablaba un poquitito el castellano. Respeitosamente elle proprio, têso na sua sobrecasaca preta ornada d'uma condecora??o, nos conduziu á sala do almo?o-la más preciosa, sin duda, de todo el Oriente, caballeros!

Sobre a mesa murchava um ramo grosso de fl?res escarlates: no frasco do azeite fluctuavam familiarmente cadaveres de moscas; as chinelas do criado topavam a cada instante um velho Jornal dos Debates, manchado de vinho, rojando alli desde a vespera, pisado por outras chinelas indolentes: e no tecto, a fumara?a fetida dos candieiros de lat?o juntára nuvens pretas ás nuvens c?r de rosa onde esvoa?avam anjos e andorinhas. Por baixo da varanda uma rebeca e uma harpa tocavam a Mandolinata. E emquanto Topsius se alagava de cerveja, eu sentia estranhamente crescer o meu amor por esta terra de pregui?a e de luz.

Depois do café, o meu sapientissimo amigo, com o lapis dos apontamentos na algibeira da rabona, abalou a rebuscar antigualhas e pedras do tempo dos Ptolomeus. Eu, accendendo um charuto, reclamei Alpedrinha; e confiei-lhe que desejava, sem tardan?a, ir rezar e ir amar. Rezar era por inten??o da tia Patrocinio, que me recommendára uma jaculatoria a S. José, apenas pisasse esse sólo do Egypto, tornado, desde a fuga da Santa Familia em cima do seu burrinho, ch?o devoto como o d'uma Sé. Amar era por necessidade do meu cora??o, ancioso e ardido. Alpedrinha, em silencio, ergueu as persianas, e mostrou-me uma clara pra?a, ornamentada ao centro por um heroe de bronze, cavalgando um corcel de bronze: uma aragem quente levantava poeiradas lentas por sobre dois tanques seccos; e em redor perfilavam-se no azul altos predios, hasteando cada um a bandeira da sua patria como cidadellas rivaes sobre um sólo vencido. Depois o triste Alpedrinha indicou-me, a uma esquina, onde uma velha vendia canas d'assucar, a tranquilla rua das Duas Irm?s. Ahi (murmurou elle) eu veria, pendurada sobre a porta d'uma lojinha discreta, uma pesada m?o de pau, tosca e r?xa-e por cima, em taboleta negra, estes dizeres convidativos a ouro: ?Miss Mary, Luvas e Flores de Cera.? Era esse o refugio que elle aconselhava ao meu cora??o. Ao fundo da rua, junto d'uma fonte chorando entre arvores, havia uma capella nova onde a minha alma acharia consola??o e frescura.

-E diga o cavalheiro a miss Mary que vai de mandado do Hotel das

Pyramides.

Puz uma rosa ao peito-e sahi, ovante. Logo da entrada das Duas Irm?s avistei a ermidinha virginal, dormindo castamente sob os platanos, ao rumor meigo da agua. Mas o amantissimo patriarcha S. José estava certamente, a essa hora, occupado em receber jaculatorias mais instantes, e evoladas de labios mais nobres: n?o quiz importunar o bondosissimo santo;-e parei diante da m?o de pau, pintada de r?xo, que parecia estar alli esperando, alongada e aberta, para empolgar o meu cora??o.

Entrei, commovido. Por traz do balc?o envernizado, junto a um vaso de rosas e magnolias, ella estava lendo o seu Times, com um gato branco no collo. O que me prendeu logo foram os seus olhos azues-claros, d'um azul que só ha nas porcelanas, simples, celestes, como eu nunca vira na morena Lisboa. Mas encanto maior ainda tinham os seus cabellos, crespos, frisadinhos como uma carapinha d'ouro, t?o d?ces e finos que appetecia ficar eternamente e devotamente a mexer-lhes com os dedos tremulos; e era irresistivel o profano nimbo luminoso que elles punham em torno da sua face gordinha, d'uma brancura de leite onde se desfez carmezim, toda tenra e succulenta. Sorrindo, e baixando com sentimento as pestanas escuras, perguntou-me se eu queria pellica ou Suecia.

Eu murmurei, ro?ando-me s?fregamente pelo balc?o:

-Trago-lhe recadinhos do Alpedrinha.

Ella escolheu entre o ramo um timido bot?o de rosa, e deu-m'o na ponta dos dedos. Eu trinquei-o, com furor. E a voracidade d'esta caricia pareceu agradar-lhe, porque um sangue mais quente veio afoguear-lhe a face-e chamou-me baixo ?mausinho!? Esqueci S. José e a sua jaculatoria-e as nossas m?os, um momento unidas para ella me cal?ar a luva clara, n?o se desenla?aram mais, n'essas semanas que passei, na cidade dos Lagidas, em festivas delicias musulmanas!

Ella era d'York, esse heroico condado da velha Inglaterra, onde as mulheres crescem fortes e bem desabrochadas, como as rosas dos seus jardins reaes. Por causa da sua meiguice e do seu riso d'ouro quando lhe fazia cocegas, eu puzera-lhe o nome galante e cacarejante de Maricoquinhas. Topsius, que a apreciava, chamava-lhe ?a nossa symbolica Cleopatra.? Ella amava a minha barba negra e potente: e, só para n?o me afastar do calor das suas saias, eu renunciei a vêr o Cairo, o Nilo, e a eterna Esphinge, deitada á porta do deserto, sorrindo da Humanidade v?...

Vestido de branco como um lirio, eu gozava manh?s ineffaveis, encostado ao balc?o da Mary, amaciando respeitosamente a espinha do gato. Ella era silenciosa: mas o seu simples sorrir com os bra?os cruzados, ou o seu modo gentil de dobrar o Times, saturava o meu cora??o de luminosa alegria. Nem precisava chamar-me ?seu portuguezinho valente, seu bibichinho.? Bastava que o seu peito arfasse:-só para vêr aquella d?ce onda languida, e saber que a levantava assim a saudade dos meus beijos, eu teria vindo de t?o longe a Alexandria, iria mais longe, a pé, sem repouso, até onde as aguas do Nilo s?o brancas!

De tarde, na caleche de chita com o nosso doutissimo Topsius, davamos lentos, amorosos passeios á beira do canal Mamoudieh. Sob as frondosas arvores, rente aos muros de jardins de serralho, eu sentia o aroma perturbador de magnolias, e outros calidos perfumes que n?o conhecia. Por vezes uma leve fl?r r?xa ou branca cahia-me sobre o rega?o: com um suspiro eu ro?ava a barba pelo rosto macio da minha Maricoquinhas; ella, sensivel, estremecia. Na agua jaziam as barcas pesadas que sobem o Nilo, sagrado e bemfazejo, ancorando junto ás ruinas dos templos, costeando as ilhas verdes onde dormem os crocodilos. Pouco a pouco a tarde cahia. Vagarosamente rolavamos na sombra olorosa. Topsius murmurava versos de Goethe. E as palmeiras da margem fronteira recortavam-se no poente amarello-como feitas em relevo de bronze sobre uma lamina d'ouro.

Maricocas jantava sempre comnosco no Hotel das Pyramides; e diante d'ella Topsius desabrochava todo em fl?res d'erudi??o amavel. Contava-nos as tardes de festa da velha Alexandria dos Ptolomeus, no canal que levava a Canopia: ambas as margens resplandeciam de palacios e de jardins; as barcas, com toldos de sêda, vogavam ao som dos alaúdes; os sacerdotes d'Osiris, cobertos de pelles de leopardo, dan?avam sob os laranjaes; e nos terra?os abrindo os véos, as damas d'Alexandria bebiam á Venus Assyria, pelo calice da fl?r do lotus. Uma voluptuosidade esparsa amollecia as almas. Os philosophos mesmo eram frascarios.

-E, dizia Topsius requebrando o olho, em toda a Alexandria só havia uma dama honesta que commentava Homero e era tia de Seneca. Só uma!

Maricoquinhas suspirava. Que encanto, viver n'essa Alexandria, e navegar para Canopia, n'uma barca toldada de sêda!

-Sem mim? gritava eu, ciumento.

Ella jurava que sem o seu portuguezinho valente n?o queria habitar nem o céo!

Eu, regalado, pagava o champagne.

E os dias assim foram passando, leves, flaccidos, gostosos, repicados de beijos-até que chegou a vespera sombria de partirmos para Jerusalem.

-O cavalheiro, dizia-me n'essa manh? Alpedrinha engraxando os meus botins, o que devia era ficar aqui na Alexandriasinha, a refocilar...

Ah! se pudesse! Mas irrecusaveis eram os mandados da titi! E, por amor do seu ouro, lá tinha d'ir á negra Jerusalem, ajoelhar diante de oliveiras seccas, desfiar rosarios piedosos ao pé de frios sepulchros...

-Tu já estiveste em Jerusalem, Alpedrinha? perguntei, enfiando desconsoladamente as ceroulas.

-N?o senhor, mas sei... Peor que Braga!

-Irra!

A nossa cêa com Maricocas, á noite, no meu quarto, foi cortada de silencios, de suspiros: as velas tinham a melancolia de tochas: o vinho anuviava-nos como aquelle que se bebe nos funeraes. Topsius offertava consola??es generosas.

-Bella dama, bella dama, o nosso Raposo ha de voltar... Estou mesmo certo que trará da ardente terra da Syria, da terra da Venus e da Esposa dos Cantares, uma chamma no seu cora??o mais fogosa e mais mo?a...

Eu mordia o bei?o, suffocado:

-Pois está visto! Ainda havemos d'andar de caleche pelo Mamoudieh...

Isto é só ir rezar uns padre-nossos ao Calvario... Até me faz bem...

Volto como um touro.

Depois do café fomos encostar-nos á varanda a olhar, calados, aquella sumptuosa noite do Egypto. As estrellas eram como uma grossa poeirada de luz que o bom Deus levantava lá em cima, passeando sósinho pelas estradas do céo. O silencio tinha uma solemnidade de sacrario. Nos escuros terra?os, em baixo, uma fórma branca movendo-se por vezes, de leve, mostrava que outras creaturas estavam alli, como nós, deixando a alma embeber-se mudamente no esplendor sideral: e n'esta diffusa religiosidade, igual á d'uma multid?o pasmando para os lumes d'um altar-mór, eu sentia subir aos labios irresistivelmente a do?ura d'uma Ave-Maria...

Ao longe o mar dormia. E, á quente irradia??o dos astros, eu podia distinguir, n'um pontal de arêa, mergulhando quasi n'agua, uma casa deserta, pequenina, toda branca e poetica entre duas palmeiras... Ent?o comecei a pensar que, mal a titi morresse e fosse meu o seu ouro, eu poderia comprar esse d?ce retiro, forral-o de lindas sêdas, e viver ao lado da minha luveira, vestido de turco, fresco, sereno, livre de todas as inquieta??es da civilisa??o. Desaggravos ao Sagrado Cora??o de Jesus ser-me-hiam t?o indifferentes como as guerras que entre si travassem os Reis. Do céo só me importaria a luz anilada que banhasse a minha vidra?a; da terra só me importariam as fl?res abertas no meu jardim para aromatisar a minha alegria. E passaria os dias n'uma f?fa pregui?a oriental, fumando o puro Latakié, tocando viola franceza, e recebendo perpetuamente essa impress?o de felicidade perfeita que a Mary me dava só com deixar arfar o seio e chamar-me ?seu portuguezinho valente.?

Apertei-a contra mim n'um desejo de a sorver. Junto á sua orelha, d'uma brancura de concha branca, balbuciei nomes ineffaveis: disse-lhe rechonchudinha, disse-lhe riquiquitinha. Ella estremeceu, ergueu os olhos magoados para a poeirada d'ouro.

-Que d'estrellas! Deus queira que ámanh? o mar esteja manso!

Ent?o, á idéa d'essas longas ondas que me iam levar á rispida terra do Evangelho, t?o longe da minha Mary, um pezar infinito afogou-me o peito-e irrepressivelmente se me escapou dos labios, em gemidos entoados, queixosos e requebrados... Cantei. Por sobre os terra?os adormecidos da musulmana Alexandria soltei a voz dolorida, voltado para as estrellas; e ro?ando os dedos pelo peito do jaquet?o onde deviam estar os bord?es da viola, fazendo os meus ais bem chorosos-suspirei o fado mais sentido da saudade portugueza:

Co'a minh'alma aqui te ficas,

Eu parto só com os meus ais,

E tudo me diz, Maricas,

Que n?o te verei nunca mais.

Parei, abafado de paix?o. O erudito Topsius quiz saber se estes d?ces versos eram de Luiz de Cam?es. Eu, choramigando, disse-lhe que estes-ouvira-os no Dáfundo ao Calcinhas.

Topsius recolheu a tomar uma nota do grande poeta Calcinhas. Eu fechei a vidra?a: e depois d'ir ao corredor fazer ás escondidas um rapido signal da cruz, vim desapertar s?fregamente, e pela vez derradeira, os atacadores do collete da minha saborosa bem-amada.

Breve, avaramente breve, foi essa noite estrellada do Egypto!

Cedo, amargamente cedo, veio o grego de Lacedemonia avisar-me que já fumegava na bahia, aspera e cheia de vento, el paquete, ferozmente chamado o Caim?o, que me devia levar para as tristezas d'Israel.

El se?or D. Topsius, madrugador, já estava em baixo a almo?ar pachorrentamente os seus ovos com presunto, a sua vasta caneca de cerveja. Eu tomei apenas um gole de café, no quarto, a um canto da commoda, em mangas de camisa, com os olhos vermelhos sob a nevoa das lagrimas. A minha solida mala de couro atravancava o corredor, fechada e afivelada; mas Alpedrinha estava ainda accommodando, á pressa, a roupa suja dentro do sacco de lona. E Maricoquinhas, sentada desoladamente á borda do leito, com o seu gentil chapéo enfeitado de papoulas e as olheirinhas pisadas-contemplava aquelle enfardelar de flanellas, como se fossem bocados do seu cora??o atirados para o fundo do sacco, para partirem e n?o voltarem mais!

-Levas tanta roupa suja, Theodorico!

Balbuciei, dilacerado:

-Manda-se lavar em Jerusalem com a ajuda de Nosso Senhor!

Deitei os meus bentinhos ao pesco?o. N'esse instante Topsius assomava á porta, cachimbando, com a barraca do seu guardasol fechada sob o bra?o, de galochas anchas para a humidade do tombadilho-e um volume da Biblia enchuma?ando-lhe a rabona d'alpaca. Ao vêr-me sem collete, reprehendeu a minha amorosa pregui?a.

-Mas comprehendo, bella dama, comprehendo! acudiu elle, ás cortezias a Mary, esgrouviado e onduloso, d'oculos na ponta do bico. é doloroso deixar os bra?os de Cleopatra... Já Antonio por elles perdeu Roma e o mundo... Eu mesmo, todo absorvido na minha miss?o, com recantos crepusculares da Historia a alumiar, levo gratas memorias d'estes dias de Alexandria... Deliciosissimos os nossos passeios pelo Mamoudieh!... Permitta-me que apanhe a sua luva, bella dama!... E se voltar jámais a esta terra dos Ptolomeus, n?o me esquecerá a rua das Duas irm?s... ?Miss Mary, luvas e fl?res de cêra.? Perfeitamente. Consentirá que lhe mande, quando completa, a minha Historia dos Lagidas... Ha detalhes muito picantes... Quando Cleopatra se apaixonou por Herodes, o rei da Judêa...

Mas Alpedrinha, da beira do leito, gritava, alvoro?ado:

-Cavalheiro! Ainda ha aqui roupa suja!

Rebuscando, entre os cobertores revoltos, descobrira uma longa camisa de rendas, com la?os de sêda clara. Sacudia-a; e espalhava-se um aroma saudoso de violeta e d'amor... Ai! era a camisa de dormir da Mary, quente ainda dos meus abra?os!

-Pertence á snr.^a D. Mary! é a tua camisinha, amor! gemi eu, cruzando os suspensorios.

A minha luveirinha ergueu-se, tremula, descórada-e teve um poetico rasgo de paix?o. Enrolou a sua camisinha, atirou-m'a para os bra?os, t?o ardentemente, como se entre as dobras viesse tambem o seu cora??o.

-Dou-t'a, Theodorico! Leva-a, Theodorico! Ainda está amarrotada da nossa ternura!... Leva-a para dormires com ella ao teu lado, como se fosse commigo... Espera, espera ainda, amor! Quero p?r-lhe uma palavra, uma dedicatoria!

Correu á mesa, onde jaziam restos do papel sisudo em que eu escrevia á titi a historia edificativa dos meus jejuns em Alexandria, das noites consumidas a embeber-me do Evangelho... E eu, com a camisinha perfumada nos bra?os, sentindo duas bagas de pranto rolarem-me pelas barbas, procurava angustiosamente em redor onde guardar aquella preciosa reliquia d'amor. As malas estavam fechadas. O sacco de lona estalava, repleto.

Topsius, impaciente, tirára das profundezas do seio o seu relogio de prata. O nosso Lacedemonio, á porta, rosnava:

-D. Theodorico, es tarde, es mui tarde...

Mas a minha bem-amada já sacudia o papel, coberto das letras que ella tra?ára, largas, impetuosas e francas como o seu amor: ?Ao meu Theodorico, meu portuguezinho possante, em lembran?a do muito que gozámos!?

-Oh, riquinha! E onde hei de eu metter isto? Eu n?o hei de levar a camisa nos bra?os, assim núa e ao léo!

Já Alpedrinha, de joelhos, desafivelava desesperadamente o sacco. Ent?o Maricoquinhas, com uma inspira??o delicada, agarrou uma folha de papel pardo, apanhou do ch?o um nastro vermelho; e as suas habilidosas m?os de luveira fizeram da camisinha um embrulho redondo, commodo e gracioso-que eu metti debaixo do bra?o, apertando-o com avara, inflammada paix?o.

Depois foi um murmurio arrebatado de solu?os, de beijos, de do?uras...

-Mary, anjo querido!

-Theodorico, amor!...

-Escreve-me para Jerusalem...

-Lembra-te da tua bichaninha bonita...

Rolei pela escada, tonto. E a caleche que tantas vezes me passeára, enla?ado com Mary, por sob os arvoredos aromaticos do Mamoudieh-lá partiu, ao trote da parelha branca, arrancando-me a uma felicidade onde o meu cora??o deitára raizes, agora despeda?adas e gottejando sangue no silencio do meu peito. O douto Topsius, abarracado sob o seu guardasol verde, recome?ára, impassivel, a murmurar coisas de velha erudi??o. Sabia eu por onde iamos rodando? Por sobre a nobre cal?ada dos Sete-Stados, que o primeiro dos Lagidas construira para communicar com a ilha de Pharos, louvada nos versos de Homero! Nem o escutava, debru?ado para traz, na caleche, agitando o len?o molhado da minha saudade. A d?ce Maricoquinhas, á porta do Hotel, ao lado d'Alpedrinha, linda sob o chapéo florido de papoulas, fazia esvoa?ar tambem o seu len?o amoroso e acariciador: e um momento estas duas cambraias brancas sacudiram uma para a outra, no ar quente, o ardor dos nossos cora??es. Depois eu cahi sobre a almofada de chita como cae um corpo morto...

Apenas embarcado no Caim?o, corri a esconder no beliche a minha d?r. Topsius ainda me agarrou pela manga para me mostrar sitios das grandezas dos Ptolomeus, o porto do Eunotos, a enseada de marmore onde ancoravam as galeras de Cleopatra. Fugi; na escada esbarrei, quasi rolei sobre uma Irm? da Caridade, que subia timidamente com as suas contas na m?o. Rosnei um ?desculpe, minha santinha.? E tombando emfim no catre, deixei escapar o pranto á larga, por cima do embrulho de papel pardo: elle era tudo que me restava d'essa paix?o de incomparavel esplendor, passada na terra do Egypto.

Dois dias e duas noites o Caim?o arquejou e rolou nos vagalh?es do mar de Tyro. Enrodilhado n'um cobertor, sem largar do peito o embrulhinho da Mary, eu recusava com odio as bolachas que de vez em quando me trazia o humanissimo Topsius; e desattento ás coisas eruditas que elle imperturbavelmente me contava d'estas aguas chamadas pelos egypcios o Grande Verde, rebuscava debalde na memoria bocados soltos de uma ora??o que ouvira á titi para amansar as vagas iradas.

Mas uma tarde, ao escurecer, tendo cerrado os olhos, pareceu-me sentir sob as chinelas um ch?o firme, ch?o de rocha, onde cheirava a rosmaninho: e achei-me incomprehensivelmente a subir uma collina agreste de companhia com a Adelia, e com a minha loura Mary-que sahira de dentro do embrulho, fresca, nitida, sem ter sequer amarrotado as papoulas do seu chapéo! Depois, por traz d'um penedo, surgiu-nos um homem nú, colossal, tisnado, de cornos; os seus olhos reluziam, vermelhos como vidros redondos de lanternas; e com o rabo infindavel ia fazendo no ch?o o rumor de uma cobra irritada que roja por folhas seccas. Sem nos cortejar, impudentemente, poz-se a marchar ao nosso lado. Eu percebi bem que era o Diabo; mas n?o senti escrupulo, nem terror. A insaciavel Adelia atirava olhadellas obliquas á potencia dos seus musculos. Eu dizia-lhe, indignado: ?Porca, até te serve o Diabo??

Assim marchando, chegámos ao alto do monte-onde uma palmeira se desgrenhava sobre um abysmo cheio de mudez e de treva. Defronte de nós, muito longe, o céo desdobrava-se como um vasto estofo amarello: e sobre esse fundo vivo, c?r de gema d'ovo, destacava um negrissimo outeiro, tendo cravadas no alto tres cruzinhas em linha, finas e d'um só tra?o. O Diabo, depois de escarrar, murmurou, travando-me da manga: ?A do meio é a de Jesus, filho de José, a quem tambem chamam o Christo; e chegamos a tempo para saborear a Ascens?o.? Com effeito! A cruz do meio, a do Christo, desairragada do outeiro, como um arbusto que o vento arranca, come?ou a elevar-se, lentamente, engrossando, atravancando o céo. E logo de todo o espa?o voaram bandos de anjos, a sustel-a, apressados como as pombas quando acodem ao gr?o; uns puxavam-na de cima, tendo-lhe amarrado ao meio longas cordas de sêda; outros, de baixo, empurravam-na-e nós viamos o esfor?o entumecido dos seus bra?os azulados. Por vezes do madeiro desprendia-se, como uma cereja muito madura, uma grossa gotta de sangue: um seraphim recolhia-a nas m?os e ia collocal-a sobre a parte mais alta do céo, onde ella ficava suspensa e brilhando com o resplendor d'uma estrella. Um anci?o enorme de tunica branca, a que mal distinguiamos as fei??es, entre a abundancia da coma revolta e os flocos de barbas nevadas, commandava, estirado entre nuvens, estas manobras da Ascens?o, n'uma lingua semelhante ao latim e forte como o rolar de cem carros de guerra. Subitamente tudo desappareceu. E o Diabo, olhando para mim, pensativo: ?Consummatum est, amigo! Mais outro Deus! Mais outra Religi?o! E esta vai espalhar em terra e céo um inenarravel tedio.?

E logo, levando-me pela collina abaixo, o Diabo rompeu a contar-me animadamente os Cultos, as Festas, as Religi?es que floreciam na sua mocidade. Toda esta costa do Grande Verde, ent?o, desde Byblos até Carthago, desde Eleusis até Memphis, estava atulhada de deuses. Uns deslumbravam pela perfei??o da sua belleza, outros pela complica??o da sua ferocidade. Mas todos se misturavam á vida humana, divinisando-a: viajavam em carros triumphaes, respiravam as fl?res, bebiam os vinhos, defloravam as virgens adormecidas. Por isso eram amados com um amor que n?o mais voltará: e os povos, emigrando, podiam abandonar os seus gados ou esquecer os rios onde tinham bebido-mas levavam carinhosamente os seus deuses ao collo. ?O amigo, perguntou elle, nunca esteve em Babylonia?? Ahi todas as mulheres, matronas ou donzellas, se vinham um dia prostituir nos bosques sagrados, em honra da deusa Mylitta. As mais ricas chegavam em carros marchetados de prata, puxados a búfalos, e escoltadas d'escravas; as mais pobres traziam uma corda ao pesco?o. Umas, estendendo um tapete na herva, agachavam-se como rezes pacientes; outras, erguidas, núas, brancas, com a cabe?a escondida n'um véo preto, eram como esplendidos marmores entre os troncos dos alamos. E todas assim esperavam que qualquer, atirando-lhe uma moeda de prata, lhes dissesse: ?Em nome de Venus!? Seguiam-no ent?o, fosse um principe vindo de Suza com tiara de perolas, ou o mercador que desce o Euphrates no seu barco de couro: e toda a noite rugia na escurid?o das ramagens o delirio da Luxuria ritual. Depois o Diabo disse-me as fogueiras humanas de Molok, os Mysterios da Boa-Deusa em que os lirios se regavam com sangue, e os ardentes funeraes d'Adonis...

E parando, risonhamente: ?o amigo nunca esteve no Egypto?? Eu disse-lhe que estivera e conhecera lá Maricocas. E o Diabo, cortez: ?N?o era Maricocas, era Isis!? Quando a inunda??o chegava até Memphis, as aguas cobriam-se de barcas sagradas, Uma alegria heroica, subindo para o sol, fazia os homens iguaes aos deuses. Osiris, com os seus cornos de boi, montava Isis; e, entre o estridor das harpas de bronze, ouvia-se por todo o Nilo o rugido amoroso da Vacca divina.

Depois o Diabo contava-me como brilhavam, d?ces e bellas, na Grecia as religi?es da Natureza. Ahi tudo era branco, polido, puro, luminoso e sereno: uma harmonia sahia das fórmas dos marmores, da constitui??o das cidades, da eloquencia das academias e das destrezas dos athletas: por entre as ilhas da Ionia, fluctuando na molleza do mar mudo como cestas de fl?res, as Nereidas dependuravam-se da borda dos navios, para ouvir as historias dos viajantes; as Musas, de pé, cantavam pelos valles: e a belleza de Venus era como uma condensa??o da belleza da Hellenia.

Mas apparecera este carpinteiro de Galilêa-e logo tudo acabára! A face humana tornava-se para sempre pallida, cheia de mortifica??o: uma cruz escura, esmagando a terra, seccava o esplendor das rosas, tirava o sabor aos beijos:-e era grata ao deus novo a fealdade das fórmas.

Julgando Lucifer entristecido, eu procurava consolal-o: ?Deixe estar, ainda ha de haver no mundo muito orgulho, muita prostitui??o, muito sangue, muito furor! N?o lamente as fogueiras de Molok. Ha de ter fogueiras de judeus.? E elle, espantado: ?Eu? Uns ou outros, que me importa, Raposo? Elles passam, eu fico!?

Assim, despercebido, a conversar com Satanaz, achei-me no campo de Sant'Anna. E tendo parado, emquanto elle desenvencilhava os cornos dos ramos d'uma das arvores-ouvi de repente ao meu lado um berro: ?Olha o Theodorico com o Porco-sujo!? Voltei-me. Era a titi! A titi, livida, terrivel, erguendo, para me espancar, o seu livro de missa! Coberto de suor-acordei.

Topsius gritava, á porta do beliche, alegremente:

-Levante-se, Raposo! Estamos á vista da Palestina!

O Caim?o parára; e no silencio eu sentia a agua ro?ando-lhe o costado, de leve, n'um murmurio de mansa caricia. Porque sonhára eu assim, ao avisinhar-me de Jerusalem, com os Deuses falsos, Jesus seu vencedor, e o Demonio a todos rebelde? Que suprema revela??o me preparava o Senhor?...

* * * * *

Desenrodilhei-me da manta; atordoado, sujo, sem largar o precioso embrulho da Mary, subi ao tombadilho, encolhido no meu jaquet?o. Um ar fino e forte banhou-me deliciosamente, trazendo um aroma de serra e de fl?r de laranjeira. O mar emmudecera, todo azul, na frescura da manh?. E ante meus olhos peccadores estendia-se a terra da Palestina, arenosa e baixa-com uma cidade escura, rodeada de pomares, toucada no alto de flechas de sol irradiando como os raios d'um resplendor de santo.

-Jaffa! gritou-me Topsius, sacudindo o seu cachimbo de lou?a. Ahi tem o

D. Raposo a mais antiga cidade da Asia, a velhissima Jeppo, anterior ao

Diluvio! Tire o barrete, saúde essa anci? dos tempos, cheia de lenda e

d'historia... Foi aqui que o borrachissimo Noé construiu a sua Arca!

Cortejei, assombrado.

-Caramba! Ainda agora a gente chega, já lhe come?am a apparecer coisas de religi?o!

E conservei-me descoberto-porque o Caim?o, ao ancorar diante da Terra Santa, tomára o recolhimento d'uma capella, cheia de piedosas occupa??es e d'un??o. Um lazarista, de longa sotaina, passeava, com os olhos baixos, meditando o seu Breviario. Sumidas dentro dos capuzes negros de lustrina, duas Religiosas corriam os dedos pallidos pelas contas dos seus rosarios. Ao longo da amurada humida, peregrinos da Abyssinia, hirsutos padres gregos de Alexandria, pasmavam para o casario de Jaffa, aureolado de sol, como para a illumina??o d'um sacrario. E a sineta á p?pa tilintava, na brisa salgada, com uma do?ura devota de toque de missa...

Mas, vendo uma barca?a escura remar para o Caim?o,-baixei depressa ao beliche a p?r o meu capacete de corti?a, cal?ar luvas pretas, para pisar decorosamente a terra do meu Salvador. Ao voltar, bem escovado, bem perfumado, achei a lancha atulhada. E descia, com alvoro?o, atraz d'um franciscano barbudo-quando o amado embrulhinho da Mary escapou dos meus bra?os carinhosos, rolou em saltos pela escada como uma pella, raspou a borda do bote... Ia sumir-se nas aguas amargas! Dei um berro! Uma das Religiosas apanhou-o, ligeira e cheia de misericordia.

-Agradecido, minha senhora! gritei, enfiado. é um pacotesinho de roupa!

Seja pelo sagrado amor de Maria!

Ella refugiou-se modestamente na sombra do seu capuz; e como eu me accommodára, mais longe, entre Topsius e o franciscano barbudo que cheirava a alho-a santa creatura guardou o embrulho sobre o seu puro rega?o, deitou-lhe mesmo por cima as contas do seu rosario.

O arraes, empunhando o leme, bradou: ?Allah é grande, larga!? Os arabes remaram cantando. O sol surgiu por traz de Jaffa. E eu, encostado ao meu guardachuva, contemplava a pudica religiosa que assim levava, ao collo, para a terra de castidade, a camisinha da Mary.

Era nova: e entre o bioco triste de lustrina preta parecia de marfim o seu rosto oval, onde as pestanas longas punham a sombra d'uma dolente melancolia. Os bei?os tinham perdido toda a c?r e todo o calor, para sempre inuteis, destinados sómente a beijar os pés arroxeados do cadaver d'um Deus. Comparada com Mary, rosa d'York aberta e sensual, perfumando Alexandria-esta pendia como um lirio ainda fechado e já murcho na humidade d'uma capella. Ia certamente para algum hospicio da Terra Santa. A vida para ella devia ser uma success?o de chagas a cobrir de fios e de len?oes a estender por cima de faces mortas. E era decerto o medo do Senhor que a tornava assim t?o pallida.

-Bem tola! murmurei eu.

Pobre e esteril creatura! Percebeu ella por acaso o que continha aquelle embrulho pardo? Sentiu ella subir de lá, e espalhar-se no escuro do seu capuz, um perfume estranho e enlanguecedor de baunilha e de pelle amorosa? A quentura do leito revolto, que ficára nas rendas da camisa, atravessou por acaso o papel e veio aquecer-lhe brandamente os joelhos? Quem sabe! Durante um momento pareceu-me que uma gota de sangue novo lhe roseou a face desmaiada, e que debaixo do habito, onde brilhava uma cruz, o seu seio arfou, perturbado: mesmo julguei vêr lampejar, por entre as suas pestanas, um raio fugitivo e assustado procurando as minhas barbas cerradas e pretas... Mas foi só um relance. Outra vez, sob o capuz, o rosto recahiu na sua frialdade de marmore santo; e sobre o seio submettido a cruz pesou, ciumenta e de ferro. Ao seu lado, a outra religiosa, rochonchuda e de lunetas, sorria para o verde mar, sorria para o sabio Topsius-com um sorriso claro que sahia da paz do seu cora??o e lhe punha uma covinha no queixo.

Apenas saltámos na arêa da Palestina, corri a agradecer, de capacete na m?o, garboso e palaciano.

-Minha irm?, estou muito penhorado... Grande desgosto se se perdesse o pacotesinho!... é de minha tia, uma encommenda para Jerusalem... Lá lhe contarei... A titi é muito respeitadora de coisas santas, pella-se pela caridade...

Muda, no refolho do seu capuz, ella estendeu-me o embrulhinho com a ponta dos dedos, debeis e mais transparentes que os d'uma Senhora da Agonia. E os dois habitos negros sumiram-se, entre muros faiscantes de cal nova, n'uma viella em escadas onde apodrecia o cadaver d'um c?o sob o v?o dos moscardos. Eu murmurei ainda: ?Bem tola!?

Quando me voltei, Topsius, á sombra do seu guardasol, conversava com o homem prestante-que foi nosso Guia através das terras da Escriptura. Era mo?o, moreno, espigado, com longos bigodes esvoa?ando ao vento; usava jaqueta de velludilho e botas brancas de montar; as coronhas prateadas de duas pistolas, emergindo d'uma facha de l? negra, armavam-lhe heroicamente o peito forte: e trazia amarrado na cabe?a, com as pontas e as franjas atiradas para traz, um len?o rutilante de sêda amarella. O seu nome era Paulo Potte, a sua patria o Montenegro: e toda a costa da Syria o conhecia pelo alegre Potte. Jesus, que alegre matalote! A alegria faiscava-lhe na pupilla azul-clara; a alegria cantava-lhe nos dentes incomparaveis; a alegria estremecia-lhe nas m?os buli?osas; a alegria resoava-lhe no bater dos tac?es. Desde Ascalon até aos bazares de Damasco, desde o Carmelo até aos pomares d'Engadi-elle era o alegre Potte. Estendeu-me rasgadamente a bolsa de tabaco perfumado. Topsius maravilhou-se do seu saber biblico. Eu, com palmadas pelo ventre, gritei-lhe logo-meu gajo! E, depois de valentes apertos de m?o, fomos para o Hotel de Josaphat firmar o nosso contracto, bebendo vasta cerveja.

O alegrissimo Potte depressa organisou a nossa caravana para a cidade do Senhor. Um macho levava as bagagens; o arrieiro arabe, embrulhado n'um farrapo azul, era t?o airoso e lindo que eu, irresistivelmente e sem cessar, procurava o negro afago do seu olhar de velludo; e, por luxo oriental, como escolta, seguia-nos um beduino, velho, catarrhoso, com o albornós de l? de camêlo listrado de cinzento, e uma forte lan?a ferrugenta toda enfeitada de borlas.

Guardei n'um alforge, desveladamente, o embrulhinho mimoso da camisinha da Mary: depois, já na sella, alongados os lóros do pernudo Topsius, o festivo Potte, floreando o chicote, lan?ou o antigo grito das Cruzadas e de Ricardo-Cora??o-de-Le?o-Avante, a Jerusalem, Deus o quer! E a trote, com os charutos em brasa, sahimos de Jaffa pela porta do Mercado-á hora em que suavemente tocava a vesperas no Hospicio dos Padres Latinos.

Na luminosa meiguice da tarde, a estrada alongava-se através de jardins, hortas, pomares, laranjaes, palmeiraes, terra de Promiss?o, resplandecente e amavel. Por entre as sebes de myrtos perdia-se o fugidio cantar das aguas. O ar todo, d'uma do?ura ineffavel, como para n'elle respirar melhor o povo eleito de Deus, era um derramado perfume de jasmins e limoeiros. O grave e pacifico chiar das noras ia adormecendo, ao fim do dia de rega, entre as romanzeiras em fl?r. Alta e serena no azul, voava uma grande aguia.

Consolados, parámos n'uma fonte de marmore vermelho e negro, abrigada á sombra de sycomoros onde arrulhavam r?las: ao lado erguia-se uma tenda, com um tapete na relva coberto d'uvas e de malgas de leite; e o velho de barbas brancas que a occupava saudou-nos em nome de Allah, com a nobreza de um patriarcha. A cerveja tinha-me feito sêde: foi uma rapariga bella como a antiga Rachel, que me deu a beber do seu cantaro de fórma biblica, sorrindo, com o seio descoberto, duas longas argolas d'ouro batendo-lhe a face morena-e um cordeirinho branco e familiar preso da ponta da tunica.

A tarde descia, muda e dourada, quando penetrámos na planicie de Saron, que a Biblia outr'ora encheu de rosas. No silencio tilintavam os chocalhos d'um rebanho de cabras negras, que um arabe ia pastoreando, nú como um S. Jo?o. Lá ao fundo, os montes sinistros da Judêa, tocados pelo sol obliquo que se afundava sobre o mar de Tyro, pareciam ainda formosos, azues e cheios de do?ura de longe, como as illus?es do peccado. Depois tudo escureceu. Duas estrellas de um resplendor infinito appareceram:-e come?aram a caminhar adiante de nós para os lados de Jerusalem.

* * * * *

O nosso quarto, no Hotel do Mediterraneo, em Jerusalem, com a sua abobada caiada de branco, o ch?o de tijolo, semelhava uma rigida cella de rude mosteiro. Mas, fronteiro á janella, um tabique delgado, revestido de papel de ramagens azues, dividia-o d'outro quarto, onde nós sentiamos uma voz fresca cantarolar a Ballada do rei de Thule: e ahi, exhalando conforto e civilisa??o, brilhava um guarda-roupa de mogno, que eu abri, como se abre um relicario, para encerrar o meu embrulhinho bemdito.

Os dois leitosinhos de ferro desappareciam sob as pregas virginaes dos cortinados de cambraia branca; e ao meio havia uma mesa de pinho, onde Topsius estudava o mappa da Palestina, emquanto eu, de chinelos, passeava, limando as unhas. Era a devota sexta-feira em que a christandade commemora, enternecida, os SS. Martyres d'Evora. Nós tinhamos chegado n'essa tarde, sob uma chuva triste e miuda, á cidade do Senhor: e de vez em quando Topsius, erguendo os oculos de cima das estradas de Galilêa, contemplava-me de bra?os cruzados e murmurava com amizade:

-Ora está o amigo Raposo em Jerusalem!

Eu, parando ao espelho, dava um olhar ás barbas crescidas, á face crestada, e murmurava tambem, agradado:

-é verdade, cá está o bello Raposo em Jerusalem!

E voltava, insaciado, a admirar através dos vidros ba?os a divina Si?o. Sob a chuva melancolica erguiam-se defronte as paredes brancas d'um convento silencioso, com as persianas verdes corridas, e duas enormes goteiras de zinco a cada esquina, uma escoando-se ruidosamente sobre uma viella deserta-a outra cahindo no ch?o molle d'uma horta plantada de couves, onde orneava um jumento. D'esse lado, era uma vastid?o infindavel de telhados em terra?o, lugubres e c?r de lodo, com uma cupulasinha de tijolo em fórma de forno, e longas varas para seccar farrapos; e quasi todos decrepitos, desmantelados, miserrimos, pareciam desfazer-se na agua lenta que os alagava. Do outro elevava-se uma encosta atulhada de casebres sordidos, com verduras de quintal, esfumadas, arripiadas na nevoa humida: por entre elles, torcia-se uma viella esgalgada, em escadinhas, onde constantemente se cruzavam frades de alpercatas sob os seus guardachuvas, sombrios judeus de melenas cahidas, ou algum vagoroso beduino arrega?ando o seu albornós... Por cima pesava o céo pardacento. E assim da minha janella me apparecia a velha Si?o, a bem-edificada, brilhante de claridade, alegria da terra, e formosa entre as cidades.

-Isto é um horror, Topsius! Bem dizia o Alpedrinha! Isto é peor que

Braga, Topsius! E nem um passeio, nem um bilhar, nem um theatro! nada!

Olha que cidade para viver Nosso Senhor!

-Sim! No tempo d'elle era mais divertida, resmungou o meu sapiente amigo.

E logo me prop?z que no domingo partissemos para as margens do Jord?o-onde o reclamavam os seus estudos sobre os Herodes. Ahi eu poderia ter deleites campestres-banhando-me nas aguas santas, atirando ás perdizes, entre as palmeiras de Jerichó. Accedi com gosto. E descemos a comer, chamados por uma sineta de convento, funeraria e badalando na sombra do corredor.

O refeitorio era tambem abobadado, com uma esteira d'esparto sobre o ch?o de ladrilho: e estavamos sós, o erudito investigador dos Herodes e eu, na mesa tristonha, adornada com fl?res de papel em vasinhos rachados. Remexendo o macarr?o de uma sopa dissaborida, murmurei, succumbido: ?Jesus, Topsius, que grande massada!? Mas uma porta de vidra?a ao fundo abriu-se de leve; e logo exclamei, arrebatado: ?Caramba, Topsius, que grande mulher!?

Grande, em verdade! Solida e saudavel como eu; branca, da alvura do linho muito lavado, e picada de sardas; coroada por uma massa ardente de cabello ondeado e castanho; presa n'um vestido de sarja azul que os seios rijos quasi faziam estalar-ella entrou, derramando um fresco cheiro de sab?o Windsor e d'agua de Colonia, e logo alumiou todo o refeitorio com o esplendor da sua carne e da sua mocidade... O fecundo Topsius comparou-a á fortissima deusa Cybele.

Cybele sentou-se no topo da mesa, serena e soberba. Ao lado, fazendo ranger a cadeira com o peso dos seus amplos membros, accommodou-se um Hercules tranquillo, calvo, de espessas barbas grisalhas-que, no mero gesto de desdobrar o guardanapo, revelou a omnipotencia do dinheiro e o envelhecido habito de mandar. Por um yes que ella murmurou comprehendi que era da terra de Maricocas. E lembrava-me a ingleza do senhor bar?o.

Ella collocára junto ao prato um livro aberto que me pareceu ser de versos: o barba?as, mastigando com o vagar magestoso d'um le?o, folheava tambem, em silencio o seu Guia do Oriente. E eu esquecia o meu carneiro guisado, para contemplar devoradoramente cada uma das suas perfei??es. De vez em quando ella erguia a franja cerrada das suas pestanas: eu esperava com ancia o dom d'esse claro e suave olhar; mas ella derramava-o pelos muros caiados, pelas fl?res de papel, e deixava-o recahir, desinteressado e frio, sobre as paginas do seu poema.

Depois do café beijou a m?o cabelluda do barba?as; e desappareceu pela porta envidra?ada, levando comsigo o aroma, a luz, e a alegria de Jerusalem. O Hercules accendeu morosamente o cachimbo; disse ao mo?o ?que lhe mandasse o Ibrahim, o guia?; levantou-se, pesado e membrudo. Junto á porta derrubou o guardachuva de Topsius, do venerabilissimo Topsius, gloria da Allemanha, membro do Instituto imperial de Excava??es historicas; e passou-sem o erguer, nem sequer baixar o olho altivo.

-Irra, bruto! rosnei, a borbulhar de furor.

O meu douto amigo, com a sua cobardia social d'allem?o disciplinado, apanhou o seu guardachuva e escovou-lhe o paninho, murmurando, já tremulo, que talvez ?o barba?as fosse um duque...?

-Qual duque! Para mim n?o ha duques! Eu sou Raposo, dos Raposos do

Alemtejo... Rachava-o!

Mas a tarde descia-e deviamos fazer a nossa visita reverente ao sepulchro do nosso Deus. Corri ao quarto, a ornar-me com o meu chapéo alto, como promettera á titi; e penetrava no corredor quando vi Cybele abrir a porta, junto da nossa porta, e sahir envolta n'uma capa cinzenta, com uma gorra onde alvejavam duas pennas de gaivota. O cora??o bateu-me no delirio de uma grande esperan?a. Assim, era ella que cantarolava a Ballada do rei de Thule! Assim, os nossos leitos estavam apenas separados pelo fino, fragil tabique coberto de ramarias azues! Nem procurei as luvas pretas: desci n'um alvoro?o, certo de que a ia encontrar no sepulchro de Jesus: e planeava já verrumar no tabique um buraco, por onde o meu olho namorado pudesse ir saciar-se nas bellezas do seu desalinho.

Ainda chovia, lugubremente. Apenas come?ámos a atolar-nos no enxurro da Via-Dolorosa, entalada entre muros c?r de lodo-chamei Potte para debaixo do meu guardachuva, perguntei-lhe se vira no hotel a minha forte e sardenta Cybele. O jucundo Potte já a admirára. E pelo Ibrahim, seu compadre dilecto, sabia que o barba?as era um escossez, negociante de cortumes...

-Ahi está, Topsius! gritei eu. Negociante de cortumes... Qual duque! é uma besta! Eu rachava-o! Em coisas de dignidade sou uma fera. Rachava-o!

A filha, a das bastas tran?as, dizia Potte, tinha um nome radiante de pedra preciosa: chamava-se Ruby, rubim. Amava os cavallos, era arrojada; na Alta Galilêa, d'onde vinham, matára uma aguia negra...

-Ora aqui têm os cavalheiros a casa de Pilatos...

-Deixa lá a casa de Pilatos, homem! Importa-me bem com Pilatos! E ent?o que diz mais o Ibrahim? Desembucha, Potte!

Alli a Via-Dolorosa estreitava-se, abobadada, como um corredor de Catacumba. Dois mendigos chaguentos roíam cascas de mel?es, assapados na lama e grunhindo. Um c?o uivava. E o risonho Potte contava-me que o Ibrahim vira muitas vezes Miss Ruby enlevada na belleza dos homens da Syria: de noite, á porta da tenda, emquanto o papá cervejava, ella dizia versos baixinho, olhando para a palpita??o das estrellas. Eu pensava: ?Caramba! tenho mulher!?

-Ora aqui est?o os cavalheiros diante do Santo Sepulchro...

Fechei o meu guardachuva. Ao fundo de um adro, de lages descolladas, erguia-se a fachada d'uma igreja, caduca, triste, abatida, com duas portas em arco: uma tapada já a pedregulho e cal, como superflua; a outra timidamente, medrosamente entreaberta. E aos flancos debeis d'este templo soturno manchado de tons de ruina, collavam-se duas construc??es desmanteladas, do rito latino e do rito grego-como filhas apavoradas que a Morte alcan?ou, e que se refugiam ao seio da m?i, meia morta tambem e já fria.

Calcei ent?o as minhas luvas pretas. E immediatamente, um bando voraz d'homens sordidos envolveu-nos com alarido, offerecendo reliquias, rosarios, cruzes, escapularios, bocadinhos de taboas aplainadas por S. José, medalhas, bentinhos, frasquinhos de agua do Jord?o, cirios, agnus-dei, lithographias da Paix?o, fl?res de papel feitas em Nazareth, pedras benzidas, caro?os d'azeitona do Monte Olivete, e tunicas ?como usava a Virgem Maria!? E á porta do Sepulchro de Christo, onde a titi me recommendára que entrasse de rastos, gemendo e rezando a cor?a-tive de esmurrar um malandr?o de barbas de ermita, que se dependurára da minha rabona, faminto, rabido, ganindo que lhe comprassemos boquilhas feitas de um peda?o da arca de Noé!

-Irra, caramba, larga-me, animal!

E foi assim, praguejando, que me precipitei, com o guardachuva a pingar, dentro do santuario sublime onde a Christandade guarda o tumulo do seu Christo. Mas logo estaquei, surprehendido, sentindo um delicioso e grato aroma de tabaco da Syria. N'um amplo estrado, afofado em divan, com tapetes da Caramania e velhas almofadas de sêda, reclinavam-se tres turcos, barbudos e graves, fumando longos cachimbos de cerejeira. Tinham dependurado na parede as suas armas. O ch?o estava negro dos seus escarros. E, diante, um servo em farrapos esperava, com uma ta?a fumegante de café, na palma de cada m?o.

Pensei que o Catholicismo, previdente, estabelecera á porta do lugar divino uma Loja de bebidas e aguas-ardentes, para conforto dos seus romeiros. Disse baixo a Potte:

-Grande idéa! Parece-me que tambem vou tomar um cafésinho!

Mas logo o festivo Potte me explicou que esses homens sérios, de cachimbo, eram soldados musulmanos policiando os altares christ?os, para impedir que em torno ao mausoleu de Jesus se dilacerem por supersti??o, por fanatismo, por inveja de alfaias, os Sacerdocios rivaes que alli celebram os seus Ritos rivaes-Catholicos como o padre Pinheiro, Gregos orthodoxos para quem a cruz tem quatro bra?os, Abissynios e Armenios, Coptas que descendem dos que outr'ora em Memphis adoravam o boi Apis, Nestorianos que veem da Chaldêa, Georgianos que veem do mar Caspio, Maronitas que veem do Libano,-todos christ?os, todos intolerantes, todos ferozes!... Ent?o saudei com gratid?o esses soldados de Mahomet que, para manter o recolhimento piedoso em torno do Christo Morto, serenos e armados velam á porta, fumando.

Logo á entrada parámos diante d'uma lapide quadrada, incrustada nas lages escuras, t?o polida e reluzindo com um t?o d?ce brilho de nacar que parecia a agua quieta d'um tanque onde se reflectiam as luzes das lampadas. Potte puxou-me a manga, lembrou-me que era costume beijar aquelle peda?o de rocha, santa entre todas, que outr'ora, no jardim de José d'Arimathêa...

-Bem sei, bem sei... Beijo, Topsius?

-Vá beijando sempre, disse-me o prudente historiographo dos Herodes.

N?o se lhe péga nada; e agrada á senhora sua tia.

N?o beijei. Em fila e calados, penetrámos n'uma vasta cupula, t?o esfumada no crepusculo que o circulo de frestas redondas na cimalha brilhava apenas, pallidamente, como um aro de perolas em torno de uma tiara: as columnas que a sustentavam, finas e juntas como as lan?as d'uma grade, riscavam a sombra em redor-cada uma picada pela mancha vermelha e mortal d'uma lampada de bronze. Ao centro do lagedo sonoro elevava-se, espelhado e branco, um Mausoleu de marmore-com lavores e com flor?es: um velho, pano de damasco cobria-o como um toldo, recamado de bordados d'ouro esvaído: e duas alas de tocheiros faziam-lhe uma avenida de lumes funerarios até á porta, estreita como uma fenda, tapada por um trapo c?r de sangue. Um padre armenio que desapparecia sob o seu amplo manto negro, sob o capuz descido, incensava-o, dormente e mudamente.

Potte puxou-me outra vez pela manga:

-O tumulo!

Oh minha alma piedosa! Oh titi! Ahi estava pois, ao alcance dos meus labios, o tumulo do meu Senhor!-E immediatamente rompi como um rafeiro, por entre a turba ruidosa de frades e peregrinos, a buscar um rosto gordinho e sardento e uma gorra com pennas de gaivota! Longamente, errei estonteado... Ora esbarrava n'um franciscano cingido na sua corda d'esparto; ora me arredava diante d'um padre copta, deslisando como uma sombra tenue, precedido por serventes que tangiam as pandeiretas sagradas do tempo d'Osiris. Aqui topava n'um mont?o de roupagens brancas, cahido nas lages como um fardo, d'onde se escapavam gemidos de contri??o; adiante trope?ava n'um negro, todo nú, estirado ao pé d'uma columna, dormindo placidamente. Por vezes o clamor sacro d'um org?o resoava, rolava pelos marmores da nave, morria com um susurro de vaga espraiada: e logo mais longe um canto armenio, tremulo e ancioso, batia os muros austeros como a palpita??o das azas d'uma ave presa que quer fugir para a luz. Junto d'um altar apartei dois gordos sacrist?es, um grego, outro latino, que se tratavam furiosamente de birbantes, esbrazeados, cheirando a cebola: e fui d'encontro a um bando de romeiros russos de grenhas hirsutas, vindos decerto do Caspio, com os pés doloridos embrulhados em trapos, que n?o ousavam mover-se, enleados de terror divino, torcendo o barrete de feltro entre as m?os, d'onde lhes pendiam grossos rosarios de vidro. Crian?as, em farrapos, brincavam na escurid?o das arcarias; outras pediam esmola. O aroma do incenso suffocava; e padres de cultos rivaes puxavam-me pela rabona para me mostrarem reliquias rivaes, heroicas ou divinas-uns as esporas de Godofredo, outros um peda?o da Cana Verde.

Atordoado, enfileirei-me n'uma prociss?o penitente-onde eu julgára entrevêr, brancas, altivas, entre véos pretos d'arrependimento, as duas pennas de gaivota. Uma carmelita, á frente, resmungava a ladainha, detendo-nos a cada passo, arrebanhados n'um assombro devoto, á porta de capellas cavernosas, dedicadas á Paix?o-a do Improperio onde o Senhor foi flagellado, a da Tunica onde o Senhor foi despido. Depois subimos, de tochas na m?o, uma escadaria tenebrosa, escavada na rocha...-E subitamente todo o tropel devoto se atirou de rojo, ululando, carpindo, gemendo, flagellando os peitos, clamando pelo Senhor, lugubre e delirante. Estavamos sobre a Pedra do Calvario.

Em torno a capella que a abriga resplandecia com um luxo sensual e pag?o. No tecto azul-ferrete brilhavam soes de prata, signos do Zodiaco, estrellas, azas d'anjos, fl?res de purpura: e, d'entre este fausto sideral, pendiam de correntes de perolas os velhos symbolos da Fecundidade, os ovos de avestruz, ovos sacros d'Astarté e de Baccho d'ouro. Sobre o altar elevava-se uma cruz vermelha com um Christo tosco pintado a ouro-que parecia vibrar, viver através do fulgor diffuso dos mólhos de lumes, da faisca??o das alfaias, do fumo dos aromaticos ardendo em ta?as de bronze. Globos espelhados, pousando sobre peanhas d'ebano, reflectiam as joias dos retabulos, a refulgencia das paredes revestidas de jaspe, de nacar e de agatha. E no ch?o, em meio d'este clar?o precioso de pedraria e luz, emergindo d'entre as lages de marmore branco-destacava um bocado de rocha bruta e brava com uma fenda alargada e polida por longos seculos de beijos e de afagos beatos. Um archidiacono grego, de barbas esqualidas, gritou: ?N'esta rocha foi cravada a cruz! A cruz! A cruz! Miserere! Kirie Eleison! Christo! Christo!? As rezas precipitaram-se, mais ardentes, entre solu?os. Um cantico dolente balan?ava-se, ao ranger dos incensadores. Kirie Eleison! Kirie Eleison! E os diaconos perpassavam rapidamente, s?fregamente, com vastos saccos de velludo, onde tilintavam, se afundavam, se sumiam as offrendas dos simples.

Fugi, aturdido e confuso. O sabio historiador dos Herodes passeava no adro, sob o seu guardachuva, respirando o ar humido. De novo nos accommetteu o bando esfaimado dos vendilh?es de reliquias. Repelli-os rudemente: e sahi do Santo Lugar como entrára-em peccado e praguejando.

No hotel, Topsius recolheu logo ao quarto a registrar as suas impress?es do Sepulchro de Jesus; eu fiquei no pateo cervejando e cachimbando com o aprazivel Potte. Quando subi, tarde, o meu esclarecido amigo já resonava, com a vela accesa-e com um livro aberto sobre o leito, um livro meu, trazido de Lisboa para me recrear no paiz do Evangelho, o Homem dos tres cal??es. Descal?ando os botins, sujos da lama veneravel da Via-Dolorosa-eu pensava na minha Cybele. Em que sacratissimas ruinas, sob que arvores divinisadas por terem dado sombra ao Senhor, passára ella essa tarde nevoenta de Jerusalem? F?ra ao valle do Cedron? F?ra ao branco tumulo de Rachel?...

Suspirei, amoroso e moído: e abria os len?oes bocejando-quando distinctamente, através do tabique fino, senti um ruido d'agua despejada n'uma banheira. Escutei, alvoro?ado: e logo n'esse silencio negro e magoado que sempre envolve Jerusalem, me chegou, perceptivel, o som leve d'uma esponja arremessada na agua. Corri, collei a face contra o papel de ramagens azues. Passos brandos e nús pisavam a esteira que recobria o ladrilho de tijolo; e a agua rumorejou, como agitada por um d?ce bra?o despido que lhe experimentava o calor. Ent?o, abrazado, fui ouvindo todos os rumores intimos de um longo, lento, languido banho: o espremer da esponja; o f?fo esfregar da m?o cheia de espuma de sab?o; o suspiro lasso e consolado do corpo que se estira sob a caricia da agua tepida, tocada d'uma gotta de perfume... A testa, tumida de sangue, latejava-me: e percorria desesperadamente o tabique, procurando um buraco, uma fenda. Tentei verrumal-o com a tesoura; as pontas finas quebraram-se na espessura da cali?a... Outra vez a agua cantou, escoando da esponja:-e eu, tremendo todo, julgava vêr as gottas vagarosas a escorrer entre o rego d'esses seios duros e brancos que faziam estalar o vestido de sarja...

N?o resisti: descal?o, em ceroulas, sahi ao corredor adormecido; e cravei á fechadura, da sua porta um olho t?o esbugalhado, t?o ardente-que quasi receava feril-a com a devorante chamma do seu raio sanguineo... Enxerguei n'um circulo de claridade uma toalha cahida na esteira, um roup?o vermelho, uma nesga do alvo cortinado do seu leito. E assim agachado, com bagas de suor no pesco?o, esperava que ella atravessasse, núa e esplendida, n'esse disco escasso de luz-quando senti de repente, por traz, uma porta ranger, um clar?o banhar a parede. Era o barba?as, em mangas de camisa, com o seu casti?al na m?o! E eu, miserrimo Raposo, n?o podia escapar. D'um lado estava elle, enorme. Do outro o topo do corredor, maci?o.

Vagarosamente, calado, com methodo, o Hercules pousou a vela no ch?o, ergueu a sua rude bota de duas solas, e desmantelou-me as ilhargas... Eu rugi: ?bruto!? Elle ciciou: ?silencio!? E outra vez, tendo-me alli acercado contra o muro, a sua bota bestial e de bronze me malhou tremendamente quadris, nadegas, canellas, a minha carne toda, bem cuidada e preciosa! Depois, tranquillamente, apanhou o seu casti?al. Ent?o eu, livido, em ceroulas, disse-lhe com immensa dignidade:

-Sabe o que lhe vale, seu bife? é estarmos aqui ao pé do tumulo do Senhor, e eu n?o querer dar escandalos por causa de minha tia... Mas se estivessemos em Lisboa, fóra de portas, n'um sitio que eu cá sei, comia-lhe os figados! Nem você sabe de que se livrou. Vá com esta, comia-lhe os figados!

E muito digno, coxeando, voltei ao quarto a fazer pacientes fric??es d'arnica. Assim eu passei a minha primeira noite em Si?o.

Ao outro dia cedo o profundo Topsius foi peregrinar ao monte das Oliveiras, á fonte clara de Siloé. Eu, dorido, n?o podendo montar a cavallo, fiquei no sofá de riscadinho com o Homem dos tres cal??es. E até para evitar o affrontoso barba?as n?o desci ao refeitorio, pretextando tristeza e langor. Mas ao mergulhar o sol no mar de Tyro-estava restabelecido e vivaz: Potte preparára para essa noite uma festividade sensual em casa da Fatmé, matrona bem acolhedoura, que tinha no Bairro dos Armenios um d?ce pombal de pombas: e nós iamos lá contemplar a gloriosa bailadeira da Palestina, a Fl?r de Jerichó, a saracotear essa dansa da Abelha, que esbrazêa os mais frios e deprava os mais puros...

A recatada portinha da Fatmé, ornada d'um pé de vinha secca, abria-se ao canto d'um muro negro junto á Torre de David. Fatmé esperava-nos, magestosa e obesa, envolta em véos brancos, com fios de coraes entre as tran?as, os bra?os nús-tendo cada um a cicatriz escura de um bub?o de peste. Tomou-me submissamente a m?o, levou-a á testa oleosa, levou-a aos labios empastados d'escarlate, e conduziu-me em ceremonia defronte d'uma cortina preta, franjada d'ouro como o pano d'um esquife. E eu estremeci, ao penetrar emfim nos segredos deslumbradores d'um serralho mudo e cheirando a rosa.

Era uma sala caiada de fresco, com sanefas de algod?o vermelho encimando a gelosia; e ao longo das paredes corria um divan amassado, revestido de sêda amarella, com remendos de sêda mais clara. N'um bocado de tapete da Persia pousava um brazeiro de lat?o, apagado, sob o mont?o de cinzas; ahi ficára esquecido um pantufo de velludo, estrellado de lentejoulas. Do tecto de madeira alvadia, onde se alastrava uma nodoa de humidade, pendia de duas correntes enfeitadas de borlas um candieiro de petroline. Um bandolim dormia a um canto, entre almofadas. No ar morno errava um cheiro adocicado e molle a mofo e a benjoim. Pelos ladrilhos, por baixo dos poaiaes da gelosia, corriam carochas.

Sentei-me sisudamente ao lado do historiador dos Herodes. Uma negra de Dongola, encamisada de escarlate, com braceletes de prata a tilintar nos bra?os, veio offerecer-nos um café aromatico: e quasi immediatamente Topsius appareceu, descor?oado, dizendo que n?o podiamos saborear a famosa dansa da Abelha! A Rosa de Jerichó f?ra bailar diante de um principe de Allemanha, chegado n'essa manh? a Si?o, a adorar o tumulo do Senhor. E Fatmé apertava com humildade o cora??o, invocava Allah, dizia-se nossa escrava! Mas era uma fatalidade! A Rosa de Jerichó f?ra para o principe louro que viera, com cavallos e com plumas, do paiz dos Germanos!...

Eu, despeitado, observei que n?o era um principe: mas minha tia tinha luzidas riquezas: os Raposos primavam pelo sangue no fidalgo Alemtejo. Se Fl?r de Jerichó estava ajustada para regosijar meus olhos catholicos, era uma desconsidera??o tel-a cedido ao romeiro coura?ado que viera da hereje Allemanha...

O erudito Topsius resmungou, al?ando o bico com petulancia, que a

Allemanha era a m?i espiritual dos povos...

-O brilho que sae do capacete allem?o, D. Raposo, é a luz que guia a humanidade!

-Sebo para o capacete! A mim ninguem me guia! Eu sou Raposo, dos

Raposos do Alemtejo!... Ninguem me guia sen?o Nosso Senhor Jesus

Christo... E em Portugal ha grandes homens! Ha Affonso Henriques, ha o

Herculano... Sebo!

Ergui-me, medonho. O sapientissimo Topsius tremia, encolhido. Potte acudiu:

-Paz, christ?os e amigos, paz!

Topsius e eu reencruzámo-nos logo no divan-tendo apertado as m?os, galhardamente e com honra.

Fatmé, no emtanto, jurava que Allah era grande e que ella era a nossa escrava. E, se nós a quizessemos mimosear com sete piastras d'ouro, ella em compensa??o da Rosa de Jerichó offerecia-nos uma joia inapreciavel, uma Circassiana, mais branca que a lua cheia, mais airosa que os lirios que nascem em Galgalá.

-Venha a Circassiana! gritei, excitado. Caramba, eu vim aos Santos

Lugares para me refocilar... Venha a Circassiana! Larga as piastras,

Potte! Irra! Quero regalar a carne!

Fatmé sahiu, recuando: o festivo Potte reclinou-se entre nós, abrindo a sua bolsa perfumada de tabaco de Alepo. Ent?o, uma portinha branca, sumida no muro caiado, rangeu a um canto, de leve: e uma figura entrou, velada, vaga, vaporosa. Amplos cal??es turcos de sêda carmesim tufavam com languidez, desde a sua cinta ondeante até aos tornozêlos, onde franziam, fixos por uma liga d'ouro; os seus pésinhos mal pousavam, alvos e alados, nos chinelos de marroquim amarello; e através do véo de gaze que lhe enrodilhava a cabe?a, o peito e os bra?os-brilhavam recamos d'ouro, scentelhas de joias, e as duas estrellas negras dos seus olhos. Espreguicei-me, tumido de desejo.

Por traz d'ella Fatmé, com a ponta dos dedos, ergueu-lhe o véo devagar, devagar-e d'entre a nuvem de gaze surgiu um car?o c?r de gesso, escaveirado e narigudo, com um olho vesgo, e dentes podres que negrejavam no langor nescio do sorriso... Potte pulou do divan, injuriando Fatmé: ella gritava por Allah, batendo nos seios, que soavam mollemente como odres mal cheios.

E desappareceram, assanhados, levados n'uma rajada de ira. A Circassiana, requebrando-se, com o seu sorriso putrido, veio estender-nos a m?o suja, a pedir ?presentinhos? n'um tom rouco d'aguardente. Repelli-a com nojo. Ella co?ou um bra?o, depois a ilharga; apanhou tranquillamente o seu véo, e sahiu arrastando as chinelas.

-Oh Topsius! rosnei eu. Isto parece-me uma grande infamia!

O sabio fez considera??es sobre a voluptuosidade. Ella é sempre enganadora. Debaixo do sorriso luminoso está o dente cariado. Dos beijos humanos só resta o amargor. Quando o corpo se extasia, a alma entristece...

-Qual alma! n?o ha alma! O que ha é um eminentissimo desaforo! Na rua do Arco do Bandeira, esta Fatmé tinha já dois murros na bochecha... Irra!

Sentia-me feroz, com desejos de escavacar o bandolim... Mas Potte reappareceu, cofiando os bigod?es, dizendo que por mais nove piastras d'ouro Fatmé consentia em mostrar a sua secreta maravilha, uma virgem das margens do Nilo, da alta Nubia, bella como a noite mais bella do Oriente. E elle vira-a, afian?ava-a, valia o tributo d'uma fertil provincia.

Fragil e liberal, cedi. Uma a uma, as nove piastras d'ouro tiniram na m?o gordufa de Fatmé.

De novo a porta caiada rangeu, ficou, cerrada-e, sobre o tom alvaiado, destacou, na sua nudez c?r de bronze, uma esplendida femea, feita como uma Venus. Durante um momento parou, muda, assustada pela luz o pelos homens, ro?ando os joelhos lentamente. Uma tanga branca cobria-lhe os flancos possantes e ageis: os cabellos hirsutos, lustrosos d'oleo, com sequins d'ouro entrele?ados, cahiam-lhe sobre o dorso, como uma juba selvagem; um fio solto de contas de vidro azul enroscava-se-lhe em torno do pesco?o e vinha escorregar por entre o rego dos seios rijos, perfeitos e de ebano. De repente soltou convulsamente, repicando a lingua, uma ulula??o desolada: Lu! lu! lu! lu! lu! Atirou-se de bru?os para o divan: e estirada, na attitude d'uma Esphinge, ficou dardejando sobre nós, séria e immovel, os seus grandes olhos tenebrosos.

-Hein? dizia Potte, acotovelando-me. Veja-lhe o corpo... Olhe, os bra?os! Olhe a espinha como arqueia! é uma panthera!

E Fatmé, de olhos em alvo, chilreava beijos na ponta dos dedos-exprimindo os deleites transcendentes que devia dar o amor d'aquella Nubia... Certo, pela persistencia do seu olhar, que as minhas barbas fortes a tinham captivado, desenrosquei-me do divan, fui-me acercando, devagar, como para uma preza certa. Os seus olhos alargavam-se, inquietos e faiscantes. Gentilmente, chamando-lhe ?minha lindinha?, acariciei-lhe o hombro frio: e logo ao contacto da minha pelle branca a Nubia recuou, arripiada, com um grito abafado de gazella ferida. N?o gostei. Mas quiz ser amavel. Disse-lhe paternalmente:

-Ah! se tu conhecesses a minha patria!... E olha que sou capaz de te levar! Em Lisboa é que é! Vai-se ao Dáfundo, cêa-se no Silva... Isto aqui é uma choldra! E as raparigas como tu s?o bem tratadas, dá-se-lhes considera??o, os jornaes fallam d'ellas, casam com proprietarios...

Murmurava-lhe ainda outras coisas profundas e d?ces. Ella n?o comprehendia o meu fallar: e nos seus olhos esgazeados fluctuava a longa saudade da sua aldêa da Nubia, dos rebanhos de bufalos que dormem á sombra das tamareiras, do grande rio que corre eterno e sereno entre as ruinas das Religi?es e os tumulos das Dynastias...

Imaginando ent?o despertar o seu cora??o com a chamma do meu, puxei-a para mim lascivamente. Ella fugiu; encolheu-se toda a um canto, a tremer; e deixando cahir a cabe?a entre as m?os come?ou a chorar, longamente.

-Olha que massada! gritei, emba?ado.

E agarrei o capacete, abalei, esga?ando quasi no meu furor o pano preto franjado d'ouro. Parámos n'uma cella ladrilhada onde cheirava mal. E ahi bruscamente foi entre Potte e a nedia matrona uma bulha ferina sobre a paga d'aquella radiante festa do Oriente: ella reclamava mais sete piastras d'ouro: Potte, de bigode erri?ado, cuspia-lhe injurias em arabe, rudes e chocando-se como calhaus que se despenham n'um valle. E sahimos d'aquelle lugar de deleite perseguidos pelos gritos de Fatmé, que se babava de furor, agitava os bra?os marcados da peste e nos amaldi?oava, e a nossos paes, e aos ossos de nossos avós, e a terra que nos gerára, e o p?o que comiamos, e as sombras que nos cobrissem! Depois na rua negra dois c?es seguiram-nos muito tempo, ladrando lugubremente.

Entrei no Hotel do Mediterraneo, afogado em saudades da minha terra risonha: os gozos de que me via privado n'esta lobrega, inimiga Si?o, faziam-me anciar mais inflammadamente pelos que me daria a facil, amoravel Lisboa, quando, morta a titi, eu herdasse a bolsa sonora de sêda verde!... Lá n?o encontraria, nos corredores adormecidos, uma bota severa e bestial! Lá nenhum corpo barbaro fugiria, com lagrimas, á caricia dos meus dedos. Dourado pelo ouro da titi, o meu amor n?o seria jámais ultrajado, nem a minha concupiscencia jámais repellida. Ah! meu Deus! Assim eu lograsse pela minha santidade captivar a titi!...-E logo, abancando, escrevi á hedionda senhora esta carta ternissima:

?Querida titi do meu cora??o! Cada vez me sinto com mais virtude. E attribuo-a ao agrado com que o Senhor está vendo esta minha visita ao seu santo tumulo. De dia e de noite passo o tempo a meditar a sua divina Paix?o e a pensar na titi. Agora mesmo venho da Via-Dolorosa. Ai, que enternecedora que estava! é uma rua t?o benta, t?o benta, que até tenho escrupulo de a pisar com os botins; e n'outro dia n?o me contive, agachei-me, beijei-lhe as ricas pedrinhas! Esta noite passei-a quasi toda a rezar á Senhora do Patrocinio que todo o mundo aqui em Jerusalem respeita muitissimo. Tem um altar muito lindo; ainda que a este respeito bem raz?o tinha a minha boa tia (como tem raz?o em tudo) quando dizia que lá para festas e prociss?es n?o ha como os nossos portuguezes. Pois esta noite, assim que ajoelhei deante da capella da Senhora, depois de seis Salve-Rainhas, voltei-me para a bella imagem e disse-lhe:-Ai, quem me dera saber como está minha tia Patrocinio!-E quer a titi acreditar? Pois olhe, a Senhora com a sua divina bocca disse-me, palavras textuaes, que até, para n?o me esquecerem, as escrevi no punho da camisa:-A minha querida afilhada vai bem, Raposo, e espera fazer-te feliz!-E isto n?o é milagre extraordinario, porque me contam aqui todas as familias respeitaveis com quem vou tomar chá que a Senhora e seu divino Filho dirigem sempre algumas palavras bonitas a quem os vem visitar. Saberá que já lhe obtive certas reliquias, uma palhinha do presepio, e uma taboinha aplainada por S. José. O meu companheiro allem?o, que, como mencionei á titi na minha carta de Alexandria, é de muita religi?o e muito sabio, consultou os livros que traz e affirmou-me que a taboinha era das mesmas que, segundo está provado, S. José costumava aplainar nas horas vagas. Emquanto á grande reliquia, aquella que lhe quero levar para a curar de todos os seus males e dar a salva??o á sua alma e pagar-lhe assim tudo o que lhe devo, essa espero em breve obtel-a. Mas por ora n?o posso dizer nada... Recados aos nossos amigos em quem penso muito e por quem tenho rezado constantemente; sobretudo ao nosso virtuoso Casimiro. E a titi deite a sua ben??o ao seu sobrinho fiel e que muito a venera e está chupadinho de saudades e deseja a sua saude-Theodorico.-P.S. Ai, titi, que asco que me fez hoje a casa de Pilatos! Até lhe escarrei! E cá disse á Santa Veronica que a titi tinha muita devo??o com ella. Pareceu-me que a senhora santa ficou muito regalada... é o que eu digo aqui a todos estes ecclesiasticos e aos patriarchas:-é necessario conhecer-se a titi para se saber o que é virtude!?

Antes de me despir, fui escutar, collada a orelha ao tabique de ramagens. A ingleza dormia serena, insensivel: eu resmunguei brandindo para lá o punho fechado:

-Besta!

Depois abri o guarda-roupa, tirei o dilecto embrulho da camisinha da

Mary, depuz n'elle o meu beijo repenicado e grato.

Cedo, ao alvorar do outro dia, partimos para o devoto Jord?o.

* * * * *

Fastidiosa, modorrenta, foi a nossa marcha entre as collinas de Judá! Ellas succedem-se, lividas, redondas como craneos, resequidas, escalvadas por um vento de maldi??o: só a espa?os n'alguma encosta rasteja um tojo escasso, que na vibra??o inexoravel da luz parece de longe um bolor de velhice e de abandono. O ch?o faisca, c?r de cal. O silencio radiante entristece como o que cae da aboboda de um jazigo. No fulgor duro do céo rondava em torno a nós, lento e negro, um abutre... Ao declinar do sol erguemos as nossas tendas nas ruinas de Jericó.

Saboroso foi ent?o descan?ar sobre macios tapetes, bebendo devagar limonada, na do?ura da tarde. A frescura de um riacho alegre, que chalrava junto ao nosso acampamento por entre arbustos silvestres, misturava-se ao aroma da fl?r que elles davam, amarella como a da giesta; adiante verdejava um prado de hervas altas, avivado pela brancura de vaidosos, languidos lirios; junto d'agua passeavam aos pares pensativas cegonhas. Do lado de Judá erguia-se o monte da Quarentena, torvo, fusco na sua tristeza de eterna penitencia; e para as bandas de Moab os meus olhos perdiam-se na velha, sagrada terra de Canaan, areal cinzento e desolado que se estende, como a alva mortalha d'uma ra?a esquecida, até ás solid?es do Mar Morto.

Fomos, ao alvorecer, com os alforges fornidos, fazer essa votiva romaria. Era ent?o em dezembro; esse inverno da Syria ia transparentemente d?ce; e trotando pela areia fina ao meu lado, o erudito Topsius contava-me como esta planicie de Canaan f?ra outr'ora toda coberta de rumorosas cidades, de brancos caminhos entre vinhedos, e d'aguas de rega refrescando os muros das eiras; as mulheres, toucadas d'anemonas, pisavam a uva cantando; o perfume dos jardins era mais grato ao céo que o incenso: e as caravanas que entravam no valle pelo lado de Segor achavam aqui a abundancia do rico Egypto-e diziam que era este em verdade o vergel do Senhor.

-Depois, acrescentava Topsius sorrindo com infinito sarcasmo, um dia o

Altissimo aborreceu-se e arrazou tudo!

-Mas porquê? porquê?

-Birra; mau humor; ferocidade...

Os cavallos relincharam sentindo a visinhan?a das aguas malditas:-e bem depressa ellas appareceram, estendidas até ás montanhas de Moab, immoveis, mudas, faiscando solitarias sob o céo solitario. Oh tristeza incomparavel! E comprehende-se que pesa ainda sobre ellas a colera do Senhor, quando se considera que alli jazem, ha tantos seculos-sem uma recreavel villa como Cascaes; sem claras barracas de lona alinhadas á sua beira; sem regatas, sem pescas; sem que senhoras, meigas e de galochas, lhe recolham poeticamente as conchinas na areia; sem que as alegrem, á hora das estrellas, as rebecas de uma Assembléa toda festiva e com gaz-alli mortas, enterradas entre duras serras como entre as cantarias de um tumulo.

-Além era a cidadella de Makeros, disse gravemente o erudito Topsius, al?ado sobre os estribos, alongando o guardasol para a costa azulada do mar. Alli viveu um dos meus Herodes, Antipas, o tetrarcha da Galilêa, filho de Herodes o Grande: alli, D. Raposo, foi degolado o Baptista.

E seguindo a passo para o Jord?o (emquanto o alegre Potte nos fazia cigarros do bom tabaco de Aleppo) Topsius contou-me essa lamentavel historia. Makeros, a mais altiva fortaleza da Asia, erguia-se sobre pavorosos rochedos de basalto. As suas muralhas tinham cento e cincoenta covados d'altura; as aguias mal podiam chegar até onde subiam as suas torres. Por fóra era toda negra e soturna: mas dentro resplandecia de marfins, de jaspes, d'alabastros; e nos profundos tectos de cedro os largos broqueis d'ouro suspensos faziam como as constella??es d'um céo de ver?o. No centro da montanha, n'um subterraneo, viviam as duzentas egoas de Herodes, as mais bellas da terta, brancas como o leite, com clinas negras como o ebano, alimentadas a bolos de mel, e t?o ligeiras que podiam, correr, sem lhes macular a pureza, por sobre um prado de acu?enas. Depois, mais fundo ainda, n'um carcere, jazia Iokanan-que a Igreja chama o Baptista.

-Mas ent?o, esclarecido amigo, como foi essa desgra?a?

-Pois foi assim, D. Raposo... O meu Herodes conhecera em Roma Herodiade, sua sobrinha, esposa de seu irm?o Filippe, que vivia na Italia, indolente e esquecido da Judêa, gozando o luxo latino. Era esplendidamente, sombriamente bella. Herodiade!... Antipas Herodes arrebata-a n'uma galera para a Syria; repudia sua mulher, uma moabita nobre, filha do rei Aretas, que governava o deserto e as caravanas; e fecha-se incestuosamente com Herodiade n'essa cidadella de Makeros. Colera em toda a devota Judêa contra este ultraje á lei do Senhor! E ent?o Antipas Herodes, arteiro, manda buscar o Baptista que prégava no v?o do Jord?o...

-Mas para quê, Topsius?

-Pois para isto, D. Raposo... A vêr se o rude propheta, acariciado, amimado, amollecido pelo louvor e pelo bom vinho de Sichem, approvava estes negros amores, e pela persuas?o da sua voz, dominante em Judêa e Galilêa, os tornava aos olhos dos fieis brancos como a neve do Carmello. Mas, desgra?adamente, D. Raposo, o Baptista n?o tinha originalidade. Santo respeitavel, sim; mas nenhuma originalidade... O Baptista imitava em tudo servilmente o grande propheta Elias; vivia n'um buraco como Elias; cobria-se de pelles de feras como Elias; nutria-se do gafanhotos como Elias; repetia as impreca??es classicas de Elias:-e como Elias clamára contra o incesto d'Achab, logo o Baptista trovejou contra o incesto de Herodiade. Por imita??o, D. Raposo!

-E emmudeceram-no com a masmorra!

-Qual! Rugiu peor, mais terrivelmente! E Herodiade escondia a cabe?a no manto para n?o ouvir esse clamor de maldi??o, sahido do fundo da montanha.

Eu balbuciei, com uma lagrima a amollentar-me a palpebra:

-E Herodes mandou ent?o degolar o nosso bom S. Jo?o!

-N?o! Antipas Herodes era um frouxo, um tibio... Muito lubrico, D. Raposo, infinitamente lubrico, D. Raposo! Mas que indecis?o!... Além d'isso, como todos os galileus, tinha uma secreta fraqueza, uma irremediavel sympathia por prophetas. E depois arreceava a vingan?a de Elias, o patrono, o amigo d'Iokanan... Porque Elias n?o morreu, D. Raposo. Habita o céo, vivo, em carne, ainda coberto de farrapos, implacavel, vociferador e medonho...

-Safa! murmurei, arripiado.

-Pois ahi está... Iokanan ia vivendo, ia rugindo. Mas sinuoso e subtil é o odio da mulher, D. Raposo. Chega, no mez de Schebat, o dia dos annos de Herodes. Ha um vasto festim em Makeros, a que assistia Vitellius, ent?o viajando na Syria. D. Raposo lembra-se do crasso Vitellius que depois foi senhor do mundo... Pois á hora em que pelo ceremonial das Provincias Tributarias se bebia á saude de Cesar e de Roma, entra subitamente na sala, ao som dos tamborinos e dan?ando á maneira de Babylonia, uma virgem maravilhosa. Era Salomé, a filha de Herodiade e de seu marido Filippe, que ella educára secretamente em Cesarea, n'um bosque, junto do Templo d'Hercules. Salomé dan?ou, núa e deslumbrante. Antipas Herodes, inflammado, estonteado de desejo, promette dar tudo o que ella pedisse pelo beijo dos seus labios... Ella toma um prato d'ouro, e tendo olhado a m?i, pede a cabe?a do Baptista. Antipas, aterrado, offerece-lhe a cidade de Tiberiade, thesouros, as cem aldeias de Genesareth... Ella sorriu, olhou a m?i: e outra vez, incerta e gaguejando pediu a cabe?a de Iokanan... Ent?o todos os convivas, Saducceus, Escribas, homens ricos da Decapola, mesmo Vitellius e os romanos, gritaram alegremente: ?Tu prometteste, tetrarca, tu juraste, tetrarca!? Momentos depois, D. Raposo, um negro da Idumea entrou, trazendo n'uma das m?os um alfange, na outra presa pelos cabellos a cabe?a do propheta. E assim acabou S. Jo?o, por quem se canta e se queimam fogueiras n'uma d?ce noite de junho...

Escutando, embevecidos e a passo, estas coisas t?o antigas-avistámos ao longe, na areia fulva, uma sebe de verdura triste e da c?r do bronze. Potte gritou: ?o Jord?o! o Jord?o!? E arrebatadamente galopámos para o rio da Escriptura.

O festivo Potte conhecia, á beira da corrente baptismal, um sitio deleitosissimo para uma sesta christ?: e ahi passamos as horas quentes, recostados n'um tapete, languidos, e bebendo cerveja, depois de bem esfriada nas aguas do rio santo. Elle faz alli um claro, suave remanso, a repousar da lenta, abrazada jornada que traz, através do deserto, desde o lago de Galilêa: e antes de mergulhar para sempre no amargor do Mar Morto-alli pregui?a, espraiado sobre a areia fina; canta baixo e cheio de transparencia, rolando os seixos lustrosos do seu leito; e dorme nos sitios mais frescos, immovel e verde, á sombra dos tamarindos... Por sobre nós rumorejavam as folhas dos altos choupos da Persia: entre as hervas balan?avam-se fl?res desconhecidas, das que toucavam outr'ora as tran?as das virgens de Canaan em manh?s de vindima; e na escurid?o fofa das ramagens, onde já as n?o vinha assustar a voz terrivel de Jehovah, gorgeavam pacificamente as toutinegras. Defronte elevavam-se azues e sem mancha, como feitas d'um só bloco de pedra preciosa, as montanhas de Moab. O céo branco, mudo, recolhido, parecia descan?ar deliciosamente do duro tumulto que o agitou quando alli vivia, entre preces e mortandades, o sombrio Povo de Deus: e onde constantemente batiam as azas dos Seraphins, e fluctuavam as roupagens dos prophetas arrebatados pelo Altissimo, era calmante vêr agora passar apenas uma revoada de pombos bravos, voando para os pomares d'Engaddi.

Obedecendo á recommenda??o da titi, despi-me, e banhei-me nas aguas do Baptista. Ao principio, enleado de emo??o beata, pisei a areia reverentemente como se fosse o tapete d'um altar-mór: e de bra?os cruzados, nú, com a corrente lenta a bater-me os joelhos, pensei em S. Jo?osinho, susurrei um padre-nosso. Depois ri, aproveitei aquella bucolica banheira entre arvores; Potte atirou-me a minha esponja; e ensaboei-me nas aguas sagradas, trauteando o fado da Adelia.

Ao refrescar, quando montavamos a cavallo, uma tribu de beduinos, descendo das collinas de Galgalá, trouxe os seus rebanhos de camêlos a beber ao Jord?o; as crias brancas e felpudas corriam, balando; os pastores, de lan?a alta, soltando gritos de batalha, galopavam, n'um amplo esvoa?ar d'albornozes; e era como se resurgisse em todo o valle, no esplendor da tarde, uma pastoral da idade biblica, quando Agar era mo?a! Teso na sella, com as redeas bem colhidas, eu senti um curto arrepio de heroismo; ambicionava uma espada, uma Lei, um Deus por quem combater... Lentamente alargara-se pela planicie sacra um silencio enlevado. E o mais alto cerro de Moab cobriu-se de um fulgor raro, c?r de rosa e c?r d'ouro, como se n'elle de novo, fugitivamente, ao passar, se reflectisse a face do Senhor! Topsius al?ou a m?o sapiente:

-Aquelle cimo illuminado, D. Raposo, é o Moriah, onde morreu Moysés!

Estremeci. E penetrado pelas emana??es divinas d'essas aguas, d'esses montes, sentia-me forte-e igual aos homens fortes do Exodo. Pareceu-me ser um d'elles, familiar de Jehovah, e tendo chegado do negro Egypto com as minhas sandalias na m?o... Esse alliviado suspiro que trazia a briza vinha das tribus d'Israel, emergindo emfim do deserto! Pelas encostas além, seguida d'uma escolta d'anjos, a Arca dourada descia balan?ada sobre os hombros dos levitas vestidos de linho e cantando. Outra vez nas seccas areias reverdecia a terra da Promiss?o. Jericó branquejava entre as seáras: e através dos palmares cerrados já resoavam em marcha os clarins de Josué!

N?o me contive, arranquei o capacete, soltei por sobre Canaan este urro piedoso:

-Viva Nosso Senhor Jesus Christo! Viva toda a C?rte do Céo!

* * * * *

Cedo, ao outro dia, domingo, o incansavel Topsius partiu, bem enlapisado e bem enguardasolado, a estudar as ruinas de Jericó, essa velha Cidade das Palmeiras que Herodes cobrira de thermas, de templos, de jardins, d'estatuas, e onde passaram os seus tortuosos amores com Cleopatra... E eu, á porta da tenda, escarranchado n'um caixote, fiquei a tomar o meu café, olhando os pacificos aspectos do nosso acampamento. O cozinheiro depennava frangos; o beduino triste areava á beira d'agua o seu pacato alfange; o nosso lindo arrieiro esquecia a ra??o ás egoas para seguir no céo, d'um brilho de saphira, a branca passagem das cegonhas voando aos pares para a Samaria.

Depois puz o capacete, fui vadiar na do?ura da manh?, de m?os nos bolsos, cantarolando um fado meigo. E ia pensando na Adelia e no snr. Adelino... Enroscados na alcova, beijando-se furiosamente, estavam-me talvez chamando carola, emquanto eu passeava alli, nos retiros da Escriptura! áquella hora a titi, de mantelete preto, com o seu ripan?o, sahia para a missa de Sant'Anna: os creados do Montanha, esguedelhados, assobiando, escovavam o pano dos bilhares: e o dr. Margaride, á janella, na pra?a da Figueira, pondo os oculos, abria o Diario de Noticias. ó minha d?ce Lisboa!... Mas ainda mais perto, para além do deserto de Gaza, no verde Egypto, a minha Maricoquinhas n'esse instante estava enchendo o vaso do balc?o com magnolias e rosas; o seu gato dormia no velludo da cadeira; ella suspirava pelo ?seu portuguezinho valente...? Suspirei tambem: mais triste nos labios se me fez o fado triste.

E de repente, olhando, achei-me, como perdido, n'um sitio de grande solid?o e de grande melancolia. Era longe do regato e dos aromaticos arbustos de fl?r amarella; já n?o via as nossas tendas brancas; e diante de mim arredondava-se um ermo árido, livido, de areia, fechado todo por penedos lisos, direitos como os muros d'um po?o-t?o lugubres que a luz loura da quente manh? do Oriente desmaiava alli, mortalmente, desbotada e magoada. Eu lembrava-me de gravuras, assim desoladas, onde um eremita de longas barbas medita um in-folio junto de uma caveira. Mas nenhum solitario aniquilava alli a carne em heroica penitencia. Sómente, ao meio do fero recinto, isolada, orgulhosa, com um ar de raridade e de reliquia, como se as penedias se tivessem amontoado para lhe arranjarem um resguardo de Sacrario-erguia-se uma arvore t?o repellente, que logo me fez morrer nos labios o resto do fado triste...

Era um tronco grosso, curto, atochado e sem nós de raizes, semelhante a uma enorme moca bruscamente cravada na areia: a casca corredia tinha o lustre oleoso de uma pelle negra: e da sua cabe?a entumecida, de um tom de ti??o apagado-rompiam, como longas pernas d'aranha, oito galhos que contei, pretos, molles, lanugentos, viscosos, e armados de espinhos... Depois de olhar em silencio para aquelle monstro, tirei devagar o meu capacete e murmurei:

-Para que viva!

é que me encontrava certamente diante d'uma arvore illustre! F?ra um galho igual (o nono talvez) que, arranjado outr'ora em fórma de cor?a por um centuri?o romano da guarni??o de Jerusalem, ornára sarcastimente, no dia do suplicio, a cabe?a de um carpinteiro de Galilêa, condemnado... Sim, condemnado por andar, entre quietas aldeias e nos santos pateos do Templo, dizendo-se filho de David e dizendo-se filho de Deus, a prégar contra a velha Religi?o, contra as velhas Institui??es, contra a velha Ordem, contra as velhas Fórmas! E eis que esse galho por ter tocado os cabellos incultos do rebelde torna-se divino, sobe aos altares, e do alto enfeitado dos andores faz prostrar no lagedo, á sua passagem, as multid?es enternecidas...

No collegio dos Isidoros, ás ter?as e sabbados, o sebento padre Soares dizia esfuracando os dentes-?que havia, meninos, lá n'um sitio da Judêa...? Era alli! ?...uma arvore que segundo dizem os authores é mesmo d'arripiar...? Era aquella! Eu tinha ante meus frivolos olhos de Bacharel a sacratissima Arvore d'Espinhos!

E logo uma idéa sulcou-me o espirito com um brilho de visita??o celeste... Levar á titi um d'esses galhos, o mais pennugento, o mais espinhoso, como sendo a reliquia fecunda em milagres a que ella poderia consagrar seus ardores de devota e confiadamente pedir as mercês celestiaes! ?Se entendes que mere?o alguma coisa pelo que tenho feito por ti, traze-me ent?o d'esses santos lugares uma santa reliquia...? Assim dissera a snr.^a D. Patrocinio das Neves na vespera da minha jornada piedosa, enthronada nos seus damascos vermelhos, diante da Magistratura e da Igreja, deixando escapar uma baga de pranto sob seus oculos austeros. Que lhe podia eu offerecer mais sagrado, mais enternecedor, mais efficaz, que um ramo da Arvore d'Espinhos, colhido no valle do Jord?o, n'uma clara, rosada manh? de missa?

Mas de repente assaltou-me uma aspera inquieta??o... E se realmente uma virtude transcendente circulasse nas fibras d'aquelle tronco? E se a titi come?asse a melhorar do figado, a reverdecer, mal eu installasse no seu oratorio, entre lumes e fl?res, um d'esses galhos erri?ados de espinhos? ó miserrimo logro! Era eu pois que lhe levava nesciamente o principio milagroso da Saude, e a tornava rija, indestructivel, ininterravel, com os contos de G. Godinho firmes na m?o avara! Eu! Eu que só come?aria a viver-quando ella come?asse a morrer!

Rondando ent?o em torno á Arvore d'Espinhos, interroguei-a, sombrio e rouco: ?Anda, monstro, dize! és tu uma reliquia divina com poderes sobrenaturaes? ou és apenas um arbusto grutesco com um nome latino nas classifica??es de Linneu? Falla! Tens tu, como aquelle cuja cabe?a coroaste por escarneo, o dom de sarar? Vê lá... Se te levo commigo para um lindo Oratorio portuguez, livrando-te do tormento da solid?o e das melancolias da obscuridade, e dando-te lá os regalos de um altar, o incenso vivo das rosas, a chamma louvadora das velas, o respeito das m?os postas, todas as caricias da ora??o-n?o é para que tu, prolongando indulgentemente uma existencia estorvadora, me prives da rapida heran?a e dos gozos a que a minha carne mo?a tem direito! Vê lá! Se, por teres atravessado o Evangelho, te embebeste de idéas pueris de Caridade e Misericordia, e vaes com ten??o de curar a titi-ent?o fica-te ahi, entre essas penedias, fustigado pelo pó do deserto, recebendo o excremento das aves de rapina, enfastiado no silencio eterno!... Mas se promettes permanecer surdo ás preces da titi, comportar-te como um pobre galho secco e sem influencia, e n?o interromperes a appetecida decomposi??o dos seus tecidos-ent?o vaes ter em Lisboa o macio agasalho d'uma capella afofada de damascos, o calor dos beijos devotos, todas as satisfa??es de um idolo, e eu hei de cercar-te de tanta adora??o que n?o has de invejar o Deus que os teus espinhos feriram... Falla, monstro!?

O monstro n?o fallou. Mas logo senti perpassar-me na alma, aquietadoramente, com uma consolante fresquid?o de brisa d'estio, o presentimento de que breve a titi ia morrer e apodrecer na sua cova. A Arvore d'Espinhos mandava, pela communica??o esparsa da Natureza, da sua seiva ao meu sangue, aquelle palpite suave da morte da snr.^a D. Patrocinio-como uma promessa sufficiente de que, transportado para o oratorio, nenhum dos seus galhos impediria que o figado d'essa hedionda senhora inchasse e se desfizesse... E isto foi, entre nós, n'esse ermo, como um pacto taciturno, profundo e mortal.

Mas era esta realmente a Arvore d'Espinhos? A rapidez da sua condescendencia fazia-me suspeitar a excellencia da sua divindade. Resolvi consultar o solido, sapientissimo Topsius.

Corri á fonte de Elyseo, onde elle rebuscava pedras, lascas, lixos, restos da orgulhosa Cidade das Palmeiras. Avistei logo o luminoso historiographo acocorado junto a uma po?a d'agua, com os oculos s?fregos, esgarafunhando um peda?o de pilastra negra, meia enterrada no lodo. Ao lado um burro, esquecido da herva tenra, contemplava philosophicamente e com melancolia o afan, a paix?o d'aquelle sabio, de rastos no ch?o, á procura das Thermas de Herodes.

Contei a Topsius o meu achado, a minha incerteza... Elle ergueu-se logo, servi?al, zeloso, presto ás lides do Saber.

-Um arbusto d'espinhos? murmurava, estancando o suor. Ha de ser o Nabka... Banalissimo em toda a Syria! Hasselquist, o botanico, pretende que d'ahi se fez a Cor?a d'Espinhos... Tem umas folhinhas verdes, muito tocantes, em fórma de cora??o, como as da hera... Ah, n?o tem? Perfeitamente, ent?o é o Lycium Spinosum. Foi o que serviu, segundo a tradi??o latina, para a Cor?a d'Injuria... Que quanto a mim a tradi??o é futil; e Hasselquist ignaro, infinitamente ignaro... Mas eu vou já aclarar isso, D. Raposo. Aclarar irrefutavelmente e para sempre!

Abalámos. No ermo, ante a arvore medonha, Topsius, al?ando cathedraticamente o bico, recolheu um momento aos depositos interiores do seu saber-e depois declarou que eu n?o podia levar a minha tia devotissima nada mais precioso. E a sua demonstra??o foi faiscante. Todos os instrumentos da Crucifica??o (disse elle, floreando o guardasol), os Pregos, a Esponja, a Cana Verde, um momento divinisados como materiaes da Divina Tragedia, reentraram pouco a pouco, pelas urgencias da civilisa??o, nos usos grosseiros da vida... Assim, o Prego n?o ficou per eternum na ociosidade dos altares, memorando as Chagas Sacratissimas: a humanidade, catholica e commerciante, foi gradualmente levada a utilisar o prego como uma valiosa ferragem: e tendo trespassado as m?os do Messias, elle hoje segura, laborioso e modesto, as tampas de caix?es impurissimos... Os mais reverentes irm?os do Senhor dos Passos empregam a Cana para pescar; ella entra na folgante composi??o do foguete; e o Estado mesmo (t?o escrupuloso em materia religiosa) assim a usa em noites alegres de nova Constitui??o ou em festivos delirios pelas bodas de Principes... A Esponja, outr'ora embebida no vinagre de sarcasmo e offerecida n'uma lan?a, é hoje aproveitada n'esses irreligiosos ceremoniaes da limpeza-que a Igreja sempre reprovou com odio... Até a Cruz, a Fórma suprema, tem perdido entre os homens a sua divina significa??o. A christandade, depois de a ter usado como lábaro, usa-a como enfeite. A cruz é broche, a cruz é breloque; pende nos collares, tilinta nas pulseiras; é gravada em sinetes de lacre, é incrustada em bot?es de punho;-e a Cruz realmente n'este soberbo seculo pertence mais á Ourivesaria do que pertence á Religi?o...

-Mas a Cor?a d'Espinhos, D. Raposo, essa n?o tornou a servir para mais nada!

Sim, para mais nada! A Igreja recebeu-a das m?os de um proconsul romano-e ella ficou isoladamente e para toda a eternidade na Igreja, commemorando o Grande Ultraje. Em todo este vario Universo ella só encontra um lugar congenere na penumbra das capellas; o seu unico prestimo é persuadir á contri??o. Nenhum joalheiro jámais a imitou em ouro, cravejada de rubis, para ornar um penteado loiro; ella é só Instrumento de Martyrio; e com salpicos de sangue, sobre os caracoes frisados das imagens, inspira infinitamente as lagrimas... O mais astuto Industrial, depois de a retorcer pensativamente nas m?os, restituil-a-hia aos altares como coisa inutil na Vida, no Commercio, na Civilisa??o; ella é só attributo da Paix?o, recurso de tristes, enternecedora de fracos. Só ella, entre os accessorios da Escriptura, provoca sinceramente a ora??o. Quem, por mais adorabundo, se prostraria, a borbulhar de Padre-Nossos, diante d'uma esponja cahida n'uma tina, ou d'uma cana á beira d'um regato?... Mas para a Cor?a d'Espinhos erguem-se sempre as m?os crentes; e a sensa??o da sua deshumanidade passa ainda na melancolia dos Misereres!

Que maior maravilha podia eu levar á titi?...

-Sim, Topsius, meu catita... Os teus dizeres s?o d'oiro puro... Mas a outra, a verdadeira, a que serviu, teria sido tirada d'aqui, d'este tronco? Hein, amiguinho?

O erudito Topsius desdobrou lentamente o seu len?o de quadrados: e declarou (contra a futil tradi??o latina e contra o ignarissimo Hasselquist) que a Cor?a d'Espinhos f?ra arranjada d'uma silva, fina e flexivel, que abunda nos valles de Jerusalem, com que se accende o lume, com que se erri?am as sebes, e que dá uma fl?rzinha r?xa, triste e sem cheiro...

Eu murmurei, succumbido:

-Que pena! A titi fazia tanto gosto que fosse d'aqui, Topsius! A titi é t?o rica!...

Ent?o este sagaz philosopho comprehendeu que ha Raz?es de Familia como ha Raz?es d'Estado-e foi sublime. Estendeu a m?o por cima da arvore, cobrindo-a assim largamente com a garantia da sua sciencia-e disse estas palavras memoraveis:

-D. Raposo, nós temos sido bons amigos... Póde pois afian?ar á senhora sua tia da parte d'um homem que a Allemanha escuta em quest?es de critica archeologica, que o galho que lhe levar d'aqui, arranjado em cor?a, foi...

-Foi?-berrei ancioso.

-Foi o mesmo que ensanguentou a fronte do rabbi Jeschoua Natzarieh, a quem os latinos chamam Jesus do Nazareth, e outros tambem chamam o Christo!...

Fallára o alto saber germanico! Puxei o meu navalh?o sevilhano, decepei um dos galhos. E emquanto Topsius voltava a procurar pelas hervas humidas a cidadella de Cypron e outras pedras de Herodes-eu recolhi ás tendas, em triumpho, com a minha preciosidade. O prazenteiro Potte, sentado n'um sellim, estava moendo café.

-Soberbo galho! gritou elle. Quer-se arranjadinho em cor?a... Fica d'uma devo??o!

E logo, com a sua rara destreza de m?os, o jocundo homem entrela?ou o galho rude em forma de cor?a santa. E t?o parecida! t?o tocante!...

-Só lhe faltam as pinguinhas de sangue! murmurava eu, enternecido.

Jesus! o que a titi se vai babar!

Mas como levariamos para Jerusalem, através dos cerros de Judá, aquelles incommodos espinhos-que, apenas armados na sua fórma Passional, pareciam já avidos de rasgar carne innocente? Para o alegre Potte n?o havia difficuldades; tirou do fundo do seu provido alforge uma fofa nuvem de algod?o em rama; envolveu n'ella delicadamente a Cor?a d'Aggravo, como uma joia fragil; depois com uma folha de papel pardo e um nastro escarlate-fez um embrulho redondo, sólido, ligeiro e nitido... E eu, sorrindo, enrolando o cigarro, pensava n'esse outro embrulho de rendas e la?os de sêda, cheirando a violeta e a amor, que ficára em Jerusalem, esperando por mim e pelo favor dos meus beijos.

-Potte, Potte! gritei, radiante. Nem tu sabes que grossa moeda me vai render esse galhinho, dentro d'esse pacotinho!

Apenas Topsius voltou da sacra fonte d'Elyseo-eu offereci, para celebrar o encontro providencial da Grande Reliquia, uma das garrafas de Champagne, que Potte trazia nos alforges, encarapu?adas d'ouro. Topsius bebeu ?á Sciencia!? Eu bebi ?á Religi?o!? E largamente a espuma de Moet et Chandon regou a terra de Canaan.

á noite, para maior festividade, accendemos uma fogueira: e as mulheres arabes de Jericó vieram dan?ar diante das nossas tendas. Recolhemos tarde, quando por sobre Moab, para os lados de Makéros, a lua apparecia, fina e recurva, como esse alfange d'ouro que decepou a cabe?a ardente d'Iokanan.

O embrulho da Cor?a d'Espinhos estava á beira do meu catre. O lume apagára-se, o nosso acampamento dormia no infinito silencio do Valle da Escriptura... Tranquillo, regalado, adormeci tambem.

Chapter 3 No.3

Havia certamente duas horas que assim dormia, denso e estirado no catre, quando me pareceu que uma claridade trémula, como a d'uma tocha fumegante, penetrava na tenda-e através d'ella uma voz me chamava, lamentosa e dolente:

-Theodorico, Theodorico, ergue-te, e parte para Jerusalem!

Arrojei a manta, assustado:-e vi o doutissimo Topsius, que, á luz mortal de uma vela, bruxoleando sobre a mesa onde jaziam as garrafas de Champagne, afivelava no pé rapidamente uma velha espora de ferro. Era elle que me despertava, a?odado, fervoroso:

-A pé, Theodorico, a pé! As egoas est?o selladas! Amanh? é Paschoa! Ao alvorecer devemos chegar ás portas de Jerusalem!

Arredando os cabellos, considerei com pasmo o sisudo, ponderado Doutor:

-Oh Topsius! Pois nós partimos assim, bruscamente, sem os nossos alforges, e deixando as tendas adormecidas, como quem foge espavorido?

O erudito homem al?ou os seus oculos d'ouro que resplandeciam com uma desusada, irresistivel intellectualidade. Uma capa branca, que eu nunca lhe vira, envolvia-lhe a douta magreza em prégas graves e puras de toga latina: e lento, esguio, abrindo os bra?os, disse, com labios que pareciam classicos e de marmore:

-D. Raposo! Esta aurora que vae nascer, e em pouco tocar os cimos do Hebron, é a de 15 do mez de Nizam; e n?o houve em toda a historia d'Israel, desde que as tribus voltaram de Babylonia, nem haverá, até que Tito venha p?r o ultimo cêrco ao Templo, um dia mais interessante! Eu preciso estar em Jerusalem para vêr, viva e rumorejando, esta pagina do Evangelho! Vamos pois fazer a santa Paschoa a casa de Gamaliel, que é um amigo d'Hillel, e um amigo meu, um conhecedor das letras gregas, patriota forte e membro do Sanhedrin. Foi elle que disse: ?para te livrares do tormento da duvida, imp?e-te uma auctoridade.? Portanto, a pé, D. Raposo!

Assim murmurou o meu amigo, erecto e lento. E eu, submissamente, como perante um mandamento celeste, comecei a enfiar em silencio as minhas grossas botas de montar. Depois, apenas me agasalhei no albornoz, elle empurrou-me com impaciencia para fóra da tenda-sem mesmo me deixar recolher o relogio e a faca sevilhana, que todas as noites, cauteloso, eu guardava debaixo do travesseiro. A luz da vela esmorecia, fumarenta e vermelha...

Devia ser meia noite. Dois c?es ladravam ao longe, surdamente, como entre frondosos muros de quintas. O ar macio e ermo cheirava a rosas de vergel e á fl?r da laranjeira. O ceu d'Israel faiscava com desacostumado esplendor: e em cima do monte Nebo, um bello astro mais branco, d'uma refulgencia divina, olhava para mim, palpitando anciosamente, como se procurasse, captivo na sua mudez, dizer um segredo á minha alma!

As egoas esperavam, immoveis sob as longas clinas. Montei. E ent?o, emquanto Topsius arranjava laboriosamente os loros, avistei para os lados da fonte d'Elyseo-uma fórma maravilhosa que me arripiou de terror transcendente.

Era, ao clar?o diamantino das estrellas da Syria, como a branca muralha d'uma cidade nova! Front?es de templos alvejavam pallidamente entre a espessura de bosques sagrados; para as collinas distantes fugiam esbatidos os arcos ligeiros d'um aqueducto. Uma chamma fumegava no alto d'uma torre; mais baixo, movendo-se, faiscavam pontas de lan?as; um som longo de bozina morria na sombra... E abrigada junto aos basti?es uma aldêa dormia entre palmeiras.

Topsius, na sella, prompto a marchar, embrulhára a m?o nas clinas da egoa.

-Aquillo, branco, além? murmurei, suffocado.

Elle disse simplesmente:

-Jericó.

Rompeu, galopando. N?o sei quanto tempo segui, emmudecido, o nobre historiador dos Herodos: era por uma estrada direita, feita de lages negras de basalto. Ah! que differente do aspero caminho por onde tinhamos descido a Canaan, faiscante e c?r de cal, através de collinas onde o tojo escasso semelhava, na irradia??o da luz, um bolor de velhice e de abandono! E tudo em redor me parecia differente tambem, a fórma das rochas, o cheiro da terra quente, até a palpita??o das estrellas... Que mudan?a se fizera em mim, que mudan?a se fizera no Universo? Por vezes uma faisca dura saltava das ferraduras das egoas. E sem descontinuar Topsius galopava, agarrado ás clinas, com as duas bandas da capa branca batendo como os dois panos de uma bandeira...

Mas subitamente parou. Era junto d'uma casa quadrada, entre arvores, toda apagada e muda, tendo no t?po uma haste sobre que pousava estranhamente, como recortada n'uma lamina de ferro, a figura d'uma cegonha. á entrada esmorecia uma fogueira: remexi as achas: e á curta chamma que resaltou comprehendi que era uma antiga estalagem á beira d'uma antiga estrada. Por baixo da cegonha, encimando a porta estreita e erri?ada de pregos, brilhava em negro, n'uma lapide branca, a taboleta latina-Ad Gruem Majorem: e ao lado, enchendo parte da fachada, desenrolava-se uma inscrip??o rudemente entalhada na pedra, que eu decifrei a custo, e em que Apollo promettia a saude ao hospede, e Septimanus, o hospedeiro, lhe garantia risonha acolhida, o banho reparador, vinho forte da Campania, frescos palhetes d'Engaddi, e ?todas as commodidades á maneira de Roma.?

Murmurei, desconfiado:

-á maneira de Roma!

Que estranhos caminhos ia eu ent?o trilhando? Que outros homens, dissemelhantes de mim, no fallar e no traje, bebiam alli, sob a protec??o d'outros deuses, o vinho em amphoras do tempo de Horacio?...

Mas de novo Topsius marchou, esguio e vago na noite. Agora findára a estrada de basalto sonoro: e subiamos a passo um brusco caminho, cavado entre rochas, onde grossos pedregulhos resoavam, rolavam sob as patas das egoas, como no leito d'uma torrente que um lento Agosto seccou. O erudito Doutor, sacudido na sella, praguejava roucamente contra o Sanhedrin, contra a hirta Lei judaica, opposta indobravelmente a toda a obra culta que quer fazer o Proconsul... Sempre o Phariseu via com rancor o aqueducto romano que lhe trazia a agua, a estrada romana que o levava ás cidades, a therma romana que lhe curava as pustulas...

-Maldito seja o Phariseu!

Somnolento, rememorando velhas impreca??es do Evangelho, eu rosnava, encolhido no meu albornoz:

-Phariseu, sepulchro caiado... Maldito seja!

Era a hora calada em que os lobos dos montes v?o beber. Cerrei os olhos; as estrellas desmaiavam.

Breves faz o Senhor as noites macias do mez de Nizam, quando se come em Jerusalem o anho branco de Paschoa: e bem cedo o céo se vestiu d'alvo do lado do paiz de Moab.

Despertei. Já os gados balavam nos cerros. O ar fresco cheirava a rosmaninho.

E ent?o avistei, errando por cima dos penedos sobranceiros ao caminho, um homem estranho, bravio, coberto com uma pelle de carneiro, que me recordou Elias e todas as cóleras da Escriptura; o peito, as pernas pareciam de granito vermelho; por entre a grenha e a barba, rudes, emmaranhadas, fazendo-lhe como uma juba feroz, os olhos refulgiam-lhe desvairadamente... Descobriu-nos; e logo, sacudindo os bra?os como quem arremessa pedras, despediu sobre nós todas as maldi??es do Senhor! Chamou-nos ?pag?os?, chamou-nos ?c?es?: gritava ?malditas sejam as vossas m?es, sêccos sejam os peitos que vos crearam!? Crueis e cheios de presagios cahiam os seus brados do alto das rochas: e, retardado pelos passos lentos da egoa, Topsius encolhia-se na capa como sob uma saraiva inclemente. Até que me enfureci; voltei-me na anca da cavalgadura, chamei-lhe bebedo, atirei-lhe obscenidades; e via no emtanto, sob a chamma selvagem dos seus olhos, a bocca clamorosa e negra torcer-se-lhe, babar-se de furor devoto...

Mas, desembocando da ravina, encontrámos, larga e lageada, a estrada romana que vai a Sichem: e trotando por ella, sentiamos o allivio de penetrar emfim n'uma regi?o culta, piedosa, humana e legal. A agua abundava: sobre as collinas erguiam-se fortalezas novas: pedras sagradas delimitavam os campos. Nas eiras brancas, os bois enfeitados d'anemonas pisavam o trigo da colheita de Paschoa; e em vergeis onde a figueira já tinha enfolhado, o servo na sua torre caiada, cantando com uma vara na m?o, afugentava os pombos bravos. Por vezes avistavamos um homem, de pé, junto da sua vinha, ou á beira dos canaes de rega, direito, com a ponta do manto atirada por cima da cabe?a, e os olhos baixos, dizendo a santa ora??o do Schema. Um oleiro, que espica?ava o seu burro, carregado de cantaros de barro amarello, gritou-nos: ?Bemditas sejam as vossas m?es, boa vos seja a Paschoa!? E um leproso, que descan?ava á sombra, nos olivedos, perguntou-nos, gemendo e mostrando as chagas, qual era em Jerusalem o Rabbi que curava, e aonde se apanhava a raiz do baraz.

Já nos aproximavamos de Bethania. Para dar de beber ás egoas parámos n'uma linda fonte que um cedro assombreava. E o douto Topsius, arranjando um loro, admirava-se de n?o termos encontrado a caravana que vem de Galilêa celebrar a Paschoa a Jerusalem-quando soou, adiante, na estrada, um rumor lento d'armas em marcha... E eu vi, assombrado, apparecerem soldados romanos, d'esses que tantas vezes amaldi?oára em estampas da Paix?o!

Barbudos, tostados pelo sol da Syria, marchavam solidamente, em cadencia, com um passo bovino, fazendo resoar sobre as lages as sandalias ferradas: todos traziam ás costas os escudos envoltos em saccos de lona: e cada um erguia ao hombro uma alta forquilha, d'onde pendiam trouxas encordelada, pratos de bronze, ferramentas e cachos de tamaras. Algumas filas, descobertas, seguravam o capacete como um balde: outras, nas m?os cabelludas balan?avam um dardo curto. O Decuri?o gordo e loiro, seguido de uma gazella familiar, enfeitada com coraes, dormitava, ao passo miudo da egoa, embrulhado n'um manto escarlate. E atraz, ao lado das mulas carregadas de saccos de trigo e mólhos de lenha, os arrieiros cantavam ao som d'uma flauta de barro, tocada por um negro quasi nú que tinha no peito, em tra?os vermelhos, o numero da Legi?o.

Eu recuára para o escuro do cedro. Mas Topsius, logo, como um Germano servil, desmontára, ajoelhando quasi no pó, ante as Armas de Roma: e n?o se conteve, berrou, agitando os bra?os e a capa:

-Longa vida a Caio Tiberio, tres vezes Consul, Illyrico, Panonico,

Germanico, Imperador, Pacificador e Augusto!...

Alguns legionarios riram, crassamente. E passaram, cerrados, com um rumor do ferro-emquanto um pegureiro, ao longe, arrebanhando as cabras aos brados, fugia para o cimo dos cêrros.

De novo galopámos. A estrada de basalto findou; e penetrámos entre arvoredos, n'um aroma de pomares, através de abundancia e frescura.

Oh, que differentes se mostravam estes caminhos, estas collinas, que eu vira dias antes, em torno á Cidade Santa, deseccadas por um vento d'abstrac??o, e brancas, da c?r das ossadas... Agora tudo era verde, regado, murmuroso, e com sombras. A mesma luz perdêra o tom magoado, a c?r dorida, com que eu sempre a vira, cobrindo Jerusalem: as folhas dos ramos d'abril desabrochavam n'um azul, mo?o, tenro, cheio de esperan?a como ellas. E a cada instante se me iam os olhos longamente n'esses vergeis da Escriptura, que s?o feitos da oliveira, da figueira e da vinha, e onde crescem silvestres, e mais esplendidos que o rei Salom?o, os lirios vermelhos dos campos!

Enlevado e cantarolando, eu trotava ao comprido d'uma sebe toda entrela?ada de rosas. Mas Topsius deteve-me, mostrou-me no alto d'um outeiro, sobre um fundo sombrio de cyprestes e cedros, uma casa abrindo para o lado do oriente e da luz o seu portico branco. Pertencia, disse elle, a um romano, parente de Valerius Gratus, antigo Legado imperial da Syria: e tudo alli parecia penetrado de paz amavel e de gra?a latina. Um tapete vi?oso de relva bem lisa estendia-se em declive até a uma alea de alfazema, tendo ao meio, sobre o verde, desenhadas com linhas de fl?res escarlates, as iniciaes de Valerius Gratus: em redor, entre canteiros de rosas, de a?ucenas, orlados de myrto, resplandeciam nobres vasos de marmore carynthico, onde se enrolavam folhas de acantho: um servo, de capuz cinzento, talhava um teixo em fórma d'urna, ao lado d'um buxo alto já talhado sabiamente em feitio de lyra; aves domesticas picavam o ch?o, coberto d'arêa escarlate, n'uma rua de platanos onde os bra?os d'hera faziam de tronco a tronco fest?es como os que ornam um templo: a rama dos loureiros velava de sombras a nudez das estatuas. E sob um caramanch?o de vinha, ao rumor d'agua lenta cantando n'uma bacia de bronze, um velho de toga, sereno, risonho, ditoso, lia junto a uma imagem d'Esculapio um longo r?lo de papyro-emquanto uma rapariga, com uma flecha d'ouro nas tran?as, toda vestida de linho alvo, fazia uma grinalda com as fl?res que lhe enchiam o rega?o... Ao passo dos nossos cavallos ella ergueu os olhos claros. Topsius gritou-O, salvè, pulcherrima! Eu gritei-Viva la gracia! Os melros cantavam nas romanzeiras em fl?r.

Mas adiante o facundo Topsius deteve-me ainda, apontando-me outra vivenda de campo, escura e severa entre cyprestes: e disse-me baixo que era d'Osanias, um rico sadduceu de Jerusalem, da familia pontifical de Boethos, e membro do Sanhedrin. Nenhum ornato pag?o lhe profanava os muros. Quadrada, fechada, hirta, ella reproduzia a austeridade da Lei. Mas os largos celleiros, cobertos de colmo, os lagares, os vinhedos, diziam as riquezas feitas de duros tributos: no pateo dez escravos n?o bastavam a guardar os saccos de trigo, ?dres, carneiros marcados de vermelho, recolhidos em pagamento do dizimo n'esse dia de Paschoa. Junto á estrada, com uma piedade ostentosa, caiada de fresco, reluzia, ao sol, entre roseiras, a sepultura domestica.

Assim caminhando chegámos aos palmares onde se aninha Betphagé. E por um atalho virente que Topsius conhecia, come?ámos a subir o Monte das Oliveiras, até o Lagar da Moabita-que é uma paragem de caravanas n'essa infinita, vetusta Via Real que vem do Egypto, seguindo até Damasco a bem-regada.

E foi como um deslumbramento, ao encontrarmos sobre todo o Monte, por entre os olivedos da encosta até ao Cedron, por entre os pomares do valle até Siloeh, em meio dos tumulos novos dos Sacrificadores, e mesmo para os lados onde se empoeira a estrada de Hebron-o despertar rumoroso de todo um povo acampado! Tendas negras do deserto, feitas de pelles de carneiro e rodeadas de pedras: barracas de lona, da gente da Idumêa, alvejando ao sol entre as verduras; cabanas armadas com ramos, onde se abrigam os pastores d'Ascalon; toldos de tapetes que os peregrinos de Nephtali suspendem em varas de cedro;-era toda a Judêa, ás portas de Jerusalem, a celebrar a Paschoa Sagrada! E havia ainda, em volta ao casal onde velava um posto de Legionarios, os mercadores gregos da Decapola, tecel?es phenicios de Tiberiade, e a gente pag? que, através da Samaria, vem dos lados de Cesarêa e do mar.

Fomos marchando, lentos e cautelosos. á sombra das oliveiras os camêlos descarregados ruminavam placidamente; e as egoas da Perea, com as patas entravadas, pendiam a cabe?a sob a espessura das longas clinas. Junto ás tendas, cujos panos meio levantados nos deixavam entrevêr brilhos d'armas penduradas ou o esmalte d'um grande prato, raparigas, com os bra?os reluzindo de braceletes, pisavam entre duas pedras o gr?o do centeio; outras, mugiam as cabras; por toda a parte se accendiam fogos claros; e com os filhos pela m?o, o cantaro esguio ao hombro, uma fila de mulheres descia cantando para a fonte de Siloeh.

As patas dos nossos cavallos prendiam-se nas cordas retesadas das barracas dos Idumeus. Depois estacavamos diante de tapetes alastrados, onde um mercador de Cesarêa, com um manto á carthagineza, vistoso e bordado de fl?res, expunha pe?as de linho do Egypto, estendia sêdas de Cós, fazia reluzir armas marchetadas; ou com um frasco na palma de cada m?o, celebrava as perfei??es do nardo da Assyria e dos oleos d?ces da Parthia... Os homens em redor, arredando-se, demoravam em nós os seus olhos languidos e altivos; por vezes murmuravam uma injuria surda; ou por causa dos oculos do douto Topsius, um riso d'escarneo mostrava dentes agudos de fera, entre rudes barbas negras.

Sob as arvores, encostados aos muros, filas de mendidos ganiam, mostrando o caco com que rapavam as chagas. Diante d'uma cabana feita de ramos de loureiro, um velho obeso, rubro como um Sileno, apregoava o vinho fresco de Sichem, as favas novas de abril. Os homens fuscos do deserto apinhavam-se em torno dos gigos de fruta. Um pastor d'Ascalon, em andas, no meio d'um rebanho de cordeiros brancos, tocava bozina, chamando os devotos a comprar o anho puro da Paschoa. E por entre a multid?o onde constantemente se erguiam paus, em rixas bruscas, soldados romanos rondavam aos pares com um ramo d'oliveira no capacete, benignos e paternaes.

Assim chegámos junto de dois altos, frondosos cedros,-t?o cobertos de pombas brancas voando, que eram como duas grandes macieiras, na primavera, que um vento estivesse destoucando das fl?res. Subitamente, Topsius parára, abria os bra?os; eu tambem: e com o cora??o suspenso alli ficámos immoveis, deslumbrados, vendo lá em baixo, na luz, resplandecer Jerusalem.

O sol banhava-a, sumptuosamente! Uma severa, altiva muralha, guarnecida de torres novas, com portas onde as cantarias se entremeavam de lavores d'ouro, erguia-se sobre a ribanceira escarpada do Cedron, já sêcco pelos calores de Nizam, e ia correndo, cingindo Si?o, para o lado do Hinnon e até aos cerros de Gareb. E, dentro, em face aos cedros que nos assombreavam, o Templo, sobre os seus alicerces eternos, parecia dominar toda a Judêa, soberbo em esplendor, murado de granitos polidos, armado de basti?es de marmore, como a refulgente cidadella d'um Deus!...

Debru?ado sobre as clinas, o sapiente Topsius apontava-me o adro primordial, chamado ?o Pateo dos Gentilicos?, vasto bastante para receber todas as multid?es de Israel, todas as da terra pag?: o ch?o liso rebrilhava como a agua limpida d'uma piscina: e as columnas de marmore de Paros que o ladeavam, formando os Porticos de Salom?o, profundos e cheios de frescura, eram mais bastas que os troncos nos cerrados palmares de Jerichó. Em meio d'esta área, cheia de ar e de luz, elevava-se, em escadarias lustrosas como se fossem d'alabastro, com portas chapeadas de prata, arcarias, torre?es d'onde voavam pombas, um nobre terra?o, só accessivel aos fieis da Lei, ao Povo eleito de Deus, o orgulhoso ?Adro de Israel?. D'ahi erguia-se ainda, com outras claras escadarias, outro branco terra?o, o ?Atrio dos Sacerdotes?: no brilho diffuso que o enchia negrejava um enorme altar de pedras brutas, enristando a cada angulo um sombrio corno de bronze: aos lados dois longos fumos direitos, subiam devagar, mergulhavam no azul com a serenidade d'uma prece perennal. E ao fundo, mais alto, offuscante, com os seus recamos d'ouro sobre a alvura dos marmores, niveo e fulvo, como feito de ouro puro e neve pura, refulgia maravilhosamente, lan?ando o seu clar?o aos montes em redor, o Hieron, o Santuario dos Santuarios, a morada de Jehovah: sobre a porta pendia o Véo Mystico, tecido em Babylonia, c?r do Fogo e c?r dos Mares: pelas paredes trepava a folhagem d'uma vinha d'esmeralda com cachos d'outras pedrarias: da cupula irradiavam longas lan?as de ouro que o aureolavam de raios como um sol: e assim, resplandecente, triumphante, augusto, precioso, elle elevava-se para aquelle céo de festa Paschal, offertando-se todo, como o dom mais bello, o dom mais raro da Terra!

Mas ao lado do Templo, mais alto que elle, dominando-o com a severidade d'um amo orgulhoso, Topsius mostrou-me a Torre Antonia, negra, macissa, impenetravel, cidadella de for?as romanas... Na plataforma, entre as ameias, movia-se gente armada: sobre um basti?o, uma figura forte, envolta n'um manto vermelho de Centuri?o, estendia o bra?o; e toques lentos de bozina pareciam fallar, dar ordens, para outras torres que ao longe se azulavam no ar limpido, algemando a Cidade Santa. Cesar pareceu-me mais forte que Jehovah!

E mostrou-me ainda, para além da Antonia, o velho burgo de David. Era um tropel de casas cerradas, caiadas de fresco sobre o azul, descendo como um rebanho de cabras brancas para um valle ainda em sombra, onde uma pra?a monumental se abria entre arcarias: depois trepava, fendido em ruas tortuosas, a espalhar-se sobre a collina fronteira d'Acra, rica, com palacios, e cisternas redondas que luziam á luz semelhantes a broqueis d'a?o. Mais longe ainda, para além de velhos muros derrocados era o bairro novo de Bezetha, em construc??o; o Circo de Herodes arredondava ahi as suas arcarias; e os jardins d'Antipas estiravam-se por um ultimo outeiro, até junto ao tumulo de Helena, assoalhados, frescos, regados pelas aguas d?ces de Enrogel.

-Ah Topsius, que cidade! murmurei maravilhado.

-Rabbi Eliezer diz que n?o viu jámais cidade bella quem n?o viu

Jerusalem!

Mas ao nosso lado passava gente alegre, correndo, para os lados da verde estrada que sobe de Bethania: e um velho que puxava á pressa a arreata do seu burro, carregado de mólhos de palmas, gritou-nos que se avistára e vinha chegando a caravana da Galilêa! Ent?o, curiosos, trotámos até um comoro, junto a uma sebe de cactos, onde já se apinhavam mulheres com os filhos ao collo, sacudindo véos claros, soltando palavras de ben??o e de boa acolhida:-e logo vimos, n'uma poeirada lenta que o sol dourava, a densa fila dos peregrinos que s?o os derradeiros a chegar a Jerusalem, vindos de longe, da alta Galilêa, desde Gescala e dos montes. Um rumor de canticos enchia a estrada festiva: em torno a um estandarte verde agitavam-se palmas e ramos floridos de amendoeira; e os grandes fardos, carregando o dorso dos camêlos, balanceavam em cadencia por entre os turbantes brancos cerrados e movendo-se em marcha.

Seis cavalleiros da guarda Babylonica d'Antipas Herodes, tetrarca de Galilêa, escoltavam a caravana desde Tiberiade: traziam mitras de felpo, as longas barbas separadas em tran?as, as pernas ligadas em tiras de couro amarello: e caracolavam á frente, fazendo estalar n'uma das m?os a?oites de corda, com a outra atirando ao ar e aparando alfanges que faiscavam. Logo atraz era uma collegiada de Levitas, em c?ro, a passos largos, apoiados a bord?es enfeitados de fl?res, com os r?los da Lei apertados sobre o peito, psalmodiando rijo os louvores de Si?o. E em torno mo?os robustos, com as faces infladas e rubras, sopravam para o céo furiosamente em trompas recurvas de bronze.

Mas, d'entre a gente apertada á beira da estrada, rompeu uma acclama??o. Era um velho, sem turbante, de cabellos soltos, recuando e dan?ando freneticamente: das m?os cabelludas que elle agitava no ar sahia um repique de castanholas: ora arremessava uma perna, ora outra: e toda a sua face barbuda de Rei David ardia com um fulg?r inspirado. Atraz d'elle, raparigas, pulando compassadamente sobre a ponta ligeira das sandalias, feriam com dolencia harpas leves; outras, rodando sobre si, batiam d'alto os tamborinos-e as suas manilhas de prata brilhavam no pó que os seus pés levantavam, sob a roda das tunicas enfunadas... Ent?o, arrebatada, a turba entoou o velho canto das jornadas rituaes e os psalmos de Peregrina??o.

-Meus passos v?o todos para ti, ó Jerusalem! Tu és perfeita! Quem te ama conhece a abundancia!

E eu bradava tambem, transportado:

-Tu és o palacio do Senhor, ó Jerusalem, e o repouso do meu cora??o!

Lenta e rumorosa a caravana passava. As mulheres dos levitas, em burros, veladas e rebu?adas, semelhavam grandes saccos molles: as mais pobres, a pé, traziam nas pontas dobradas do manto frutas e o gr?o da aveia. Os previdentes, já com a sua offrenda ao Senhor, arrastavam preso do cinto um cordeiro branco; os mais fortes seguravam ás costas, presos pelos bra?os, os doentes-cujos olhos dilatados, nas faces maceradas, procuravam anciosamente as muralhas da Cidade Santa, onde todo o mal se cura.

Entre os peregrinos e a alegre multid?o que os acolhia, as ben??os cruzavam-se, ruidosas e ardentes; alguns perguntavam pelos visinhos, pelas searas ou pelos avós que tinham ficado na aldêa á sombra da sua vinha: e ouvindo que lhe f?ra roubada a pedra do seu moinho, um velho, ao meu lado, com as barbas d'um Abrah?o, arremessou-se a terra a arrepellar-se e a esfarrapar a tunica. Mas já, fechando a marcha, passavam as mulas com guisos carregadas de lenha e de ?dres d'azeite: e atraz uma turba de fanaticos que nos arredores, em Betphagé e em Rephrain, se tinham juntado á caravana, appareceu, atirando para os lados caba?as de vinho já vazias, brandindo facas, pedindo a morte dos Samaritanos e amea?ando a gente pag?...

Ent?o seguindo Topsius trotei de novo através do monte para junto dos cedros cobertos do v?o alvo das pombas: e n'esse instante tambem os peregrinos, emergindo da estrada, avistavam emfim Jerusalem que resplandecia lá em baixo formosa, toda branca na luz... Ent?o foi um santo, tumultuoso, inflammado delirio! Prostrada, a turba batia as faces na terra dura: um clamor de ora??es subia ao céo puro por entre o estridor das tubas: as mulheres erguiam os filhos nos bra?os offertando-os arrebatadamente ao Senhor! Alguns permaneciam immoveis, como assombrados, ante os esplendores de Si?o: e quentes lagrimas de fé, de amor piedoso, rolavam sobre barbas incultas e feras. Os velhos mostravam com o dedo os terra?os do Templo, as ruas antigas, os sacros lugares da historia de Israel: ?alli é a porta d'Ephrain, acolá era a torre das Fornalhas; aquellas pedras brancas, além, s?o do tumulo de Rachel...? E os que escutavam em redor, apinhados, batiam as m?os, gritavam: ?Bemdita sejas, Si?o!? Outros, estonteados, com o cinto desapertado, corriam trope?ando nas cordas das tendas, nos gigos de fruta, a trocar a moeda romana, a comprar o anho da offerta. Por vezes, d'entre as arvores, um canto subia, claro, fino, candido, e que ficava tremendo no ar: a terra um momento parecia escutar, como o céo: serenamente, Si?o rebrilhava, do Templo os dois fumos lentos ascendiam, com uma continuidade de prece eterna... Depois o canto morria: de novo as ben??os rompiam, clamorosas: a alma inteira de Judá abysmava-se no resplendor do santuario: e bra?os magros erguiam-se phreneticamente para estreitar Jehovah.

De repente Topsius colheu-me as redeas da egoa: e quasi ao meu lado um homem com uma tunica c?r d'a?afr?o, surgindo esgazeado de traz de uma oliveira e brandindo uma espada, saltou para cima d'uma pedra e gritou desesperadamente:

-Homens de Galilêa, acudi, e vós, homens de Nephtali!...

Peregrinos correram, erguendo os bast?es: e as mulheres sahiam das tendas, pallidas, apertando os filhos ao collo. O homem fazia tremer a espada no ar, todo elle tremia tambem: e outra vez bradou, desoladamente:

-Homens de Galilêa, Rabbi Jeschoua foi preso! Rabbi Jeschoua foi levado a casa de Hannan, homens de Nephtali!

-D. Raposo, disse Topsius ent?o, com os olhos faiscantes, o Homem foi preso, e compareceu já diante do Sanhedrin!... Depressa, depressa, amigo, a Jerusalem, a casa de Gamaliel!

* * * * *

E á hora em que no Templo se fazia a offerta do Perfume, quando o sol já ia alto sobre o Hebron, Topsius e eu penetrámos, pela porta do Pescado, a passo, n'uma rua da antiga Jerusalem. Era ingreme, tortuosa, poeirenta, com casas baixas e pobres de tijolo; sobre as portas, fechadas por uma corrêa, sobre as janellas esguias como fendas gradeadas, havia verduras e palmas entretecidas, fazendo ornatos de Paschoa. Nos terra?os, rodeados de balaustradas, mulheres diligentes sacudiam os tapetes, joeiravam o trigo; outras, chalrando, penduravam lampadas de barro em fest?es para as illumina??es rituaes.

Ao nosso lado ia marchando fatigado um harpista egypcio, com uma pluma escarlate presa na peruca frisada, um pano branco envolvendo-lhe a cinta fina, os bra?os pesados de braceletes, e a harpa ás costas, recurva como uma foice e lavrada em fl?res de lotus. Topsius perguntou-lhe se elle vinha d'Alexandria. E ainda se cantavam nas tabernas do Eunotos as cantigas da batalha d'Accio? O homem logo, mostrando n'um riso triste os dentes longos, pousou a harpa, ia ferir os bord?es... Picámos as egoas: e assustámos duas mulheres cobertas de véos amarellos, com casaes de pombas enroladas na ponta do manto, que se apressavam decerto para o Templo, airosas, ligeiras, fazendo retinir os guisos das suas sandalias.

Aqui e além um lume caseiro ardia no meio da rua, com trempes, ca?arolas, d'onde sahia um cheiro acre d'alho: crian?as de ventre enorme que rolavam núas pela poeira, roendo vorazmente cascas d'abobora crua, ficavam pasmadas para nós, com grandes olhos ramellosos onde fervilhavam moscas. Diante d'uma forja um bando hirsuto de pastores de Moab esperavam emquanto dentro, martellando n'um nimbo de chispas, os ferreiros lhes batiam ferros novos para as lan?as. Um negro, com um pente em fórma de sol toucando-lhe a carapinha, apregoava, n'um grito lugubre, bolos de centeio de feitios obscenos.

Calados, atravessámos uma pra?a, clara e lageada, que andava em obras. Ao fundo uma casa de banhos, moderna, uma Therma romana, estendia com ar de luxo e de ociosidade a longa arcada do seu portico de granito: no pateo interior, por entre os platanos que o refrescavam, cujos ramos suspendiam velarios de linho alvo, corriam escravos nús, reluzentes de suor, levando vasos d'essencias e bra?adas de fl?res; das aberturas gradeadas, ao rez das lages, sahia um bafo molle d'estufa que cheirava a rosa. E sob uma das columnas vestibulares, onde uma lapide d'onyx indicava a entrada das mulheres, estava de pé, immovel, offertando-se aos votos como um idolo, uma creatura maravilhosa: sobre a sua face redonda, d'uma brancura de lua cheia, com labios grossos, rubros de sangue, erguia-se a mitra amarella das prostitutas de Babylonia; dos hombros fortes, por cima da tumida rijeza dos seios direitos, cahia em pregas duras de brocado uma dalmatica negra radiantemente recamada de ramagens c?r de ouro. Na m?o tinha uma fl?r de cactus; e as suas palpebras pesadas, as pestanas densas, abriam-se e fechavam-se em rythmo, ao mover onduloso d'um leque que uma escrava preta, agachada a seus pés, balan?ava cantando. Quando os seus olhos se cerravam, tudo em redor parecia escurecer; e quando se levantava a negra cortina das suas pestanas, vinha d'essa larga pupilla um clar?o, uma influencia, como a do sol do meio dia no deserto que abraza e vagamente entristece. E assim se offertava, magnifica, com os seus grandes membros de marmore, a sua mitra fulva, lembrando os ritos de Astarté e d'Adonis, lasciva e pontifical...

Toquei no bra?o de Topsius, murmurei, pallido:

-Caramba! Vou aos banhos!

Sêcco, impertigado na sua capa branca, elle volveu asperamente:

-Espera-nos Gamaliel, filho de Simeon. E a sabedoria dos Rabbis lá disse que a mulher é o caminho da iniquidade!

E bruscamente penetrou n'uma lobrega viella, toda abobadada: as patas das egoas, ferindo as lages, acirraram contra nós uivos de c?es, maldi??es de mendigos, amontoados juntos no escuro. Depois saltámos por uma brecha da antiga muralha de Ezekiah, passámos uma velha cisterna sêcca onde os lagartos dormiam: e trotando pela poeira solta d'uma longa rua, entre muros caiados que reluziam e portas besuntadas de alcatr?o, parámos no alto diante d'uma entrada mais nobre, em arco, com uma grade baixa d'arame que a defendia dos escorpi?es. Era a casa de Gamaliel.

No meio d'um vasto pateo ladrilhado, escaldando ao sol, um limoeiro toldava a agua clara d'um tanque. Em volta, sobre pilastras de marmore verde, corria uma varanda, silenciosa e fresca, d'onde pendia aqui e além um tapete da Assyria com fl?res bordadas. Um puro azul brilhava no alto;-e ao canto, sob um alpendre, um negro atrellado por cordas como uma alimaria a uma barra de pau, cal?ado de ferraduras, vincado de cicatrizes, ia fazendo gemer e girar lentamente a grande mó de pedra do moinho domestico.

No escuro d'uma porta appareceu um homem obeso, sem barba, quasi t?o amarello como a tunica lassa que o envolvia todo: tinha na m?o uma vara de marfim e mal podia erguer as palpebras molles.

-Teu amo? gritou-lhe Topsius, desmontando.

-Entra, disse o homem n'uma voz fugidia e fina como um silvo de cobra.

Por uma escadaria rica de granito negro chegámos a um patamar-onde pousavam dois candelabros, espigados como os arbustos de que reproduziam, em bronze, o tronco sem folhas: e entre elles estava de pé, diante de nós, Gamaliel, filho de Simeon. Era muito alto, muito magro; e a barba solta, lustrosa, perfumada, enchia-lhe o peito, onde brilhava um sinete de coral pendurado d'uma fita escarlate. O seu turbante branco, entremeado de fios de perolas, descobria uma tira de pergaminho collada sobre a testa e cheia de textos sagrados: sob aquella alvura, os seus olhos encovados tinham um fulgor frio e duro. Uma longa tunica azul cobria-o até ás sandalias, orlada de compridas franjas que arrastavam: e cosidas ás mangas, enroladas nos pulsos, tinha ainda outras tiras de pergaminho onde negrejavam outras escripturas rituaes.

Topsius saudou-o á moda do Egypto, deixando cahir lentamente a m?o até á joelheira da sua cal?a de lustrina. Gamaliel alargou os bra?os e murmurou, como psalmodiando:

-Entrai, sêde bem vindos, comei e regosijai-vos...

E atraz de Gamaliel, pisando um ch?o sonoro de mosaico, penetrámos n'uma sala onde se achavam tres homens. Um, que se afastou da janella para nos acolher, era magnificamente bello, com longos cabellos castanhos, pendendo em anneis d?ces em torno d'um pesco?o forte, macio e branco como um marmore corinthio: na faxa negra que lhe apertava a tunica brilhava, com pedrarias, o punho d'ouro d'uma espada curta. O outro, calvo, gordo, com uma face balofa sem sobrancelhas, e t?o livida que parecia coberta de farinha, ficára encruzado, embrulhado no seu manto c?r de vinho, sobre um divan feito de correias-tendo uma almofada de purpura debaixo de cada bra?o; e o seu gesto d'acolhida foi mais distrahido e desdenhoso, do que a esmola que se atira ao estrangeiro. Mas Topsius quasi se prostrára, a beijar os seus sapatos redondos de couro amarello, atados por fios de ouro-porque aquelle era o venerando Osanias, da familia pontifical de Beothos, ainda do sangue real de Aristobolus! O outro homem n?o o saudámos, nem elle tambem nos viu; estava agachado a um canto, com a face sumida no capuz d'uma tunica de linho mais alvo que a neve fresca, como mergulhado n'uma ora??o: e só de vez em quando se movia, para limpar as m?os lentamente a uma toalha da fina brancura da tunica, que lhe pendia d'uma corda, apertada á cintura, grossa e cheia de nós, como as que cingem os monges.

No emtanto, descal?ando as luvas, eu examinava o tecto da sala, todo de cedro, com lavores retocados d'escarlate. O azul liso e lustroso das paredes era como a continua??o d'aquelle céo d'Oriente, quente e puro, que resplandecia através da janella, onde se destacava, pendido do muro, na plena luz, um ramo solitario de madresilva. Sobre uma tripe?a, incrustada de nacar, n'um incensador de bronze, fumegava uma resina aromatica.

Mas Gamaliel aproximára-se-e depois de ter olhado duramente as minhas botas de montar disse com lentid?o:

-A jornada do Jord?o é longa, deveis vir esfomeados...

Murmurei polidamente uma recusa... E elle, grave como se recitasse um texto:

-A hora do meio dia é a mais grata ao Senhor. Joseph disse a Benjamim: ?tu comerás commigo ao meio dia.? Mas a alegria do hospede é tambem doce ao Muito-Alto, ao Muito-Forte... Estaes fracos, ides comer, para que a vossa alma me aben??e.

Bateu as palmas-um servo, com os cabellos apertados n'um diadema de metal, entrou trazendo um jarro cheio d'agua tepida que cheirava a rosa, onde eu purifiquei as m?os; outro offereceu bolos de mel sobre vi?osas folhas de parra; outro verteu em ta?as de lou?a brilhante um vinho forte e negro d'Emaús. E para que o hospede n?o comesse só, Gamaliel partiu um gomo de rom?, e com as palpebras cerradas levou á beira dos labios uma malga, onde boiavam peda?os de gêlo entre fl?res de laranjeira.

-Pois agora, disse eu lambendo os dedos, tenho lastro até ao meio dia...

-Que a tua alma se regosije!

Accendi um cigarro, debrucei-me na janella. A casa de Gamaliel ficava n'um alto, decerto por traz do Templo, sobre a collina d'Ophel: alli o ar era t?o d?ce e macio, que só o sentir a sua caricia enchia de paz o cora??o. Por baixo corria a muralha nova erguida por Herodes o Grande; e para além floriam jardins e pomares dando sombra ao Valle da Fonte, e subindo até á collina, em que branquejava, calada e fresca, a aldeia de Siloé. Por uma fenda, entre o monte do Escandalo e a collina dos Tumulos, eu via resplandecer o mar Morto como uma chapa de prata: as montanhas de Moab ondulavam depois, suaves, d'um azul apenas mais denso que o do céo: e uma fórma branca, que parecia tremer na vibra??o da luz, devia ser a cidadella de Makeros sobre o seu rochedo, nos confins da Idumêa. No terra?o relvoso d'uma casa, ao pé das muralhas, uma figura immovel, abrigada sob um alto guarda-sol franjado de guisos, olhava como eu para esses longes da Arabia: e ao lado uma rapariga, ligeira e delgada, com os bra?os nús erguidos, chamava um bando de pombas que esvoa?avam em redor. A tunica aberta descobria-lhe o seiosinho cheio de seiva: e era t?o linda, morena e dourada pelo sol, que eu ia, no silencio do ar, atirar-lhe um beijo... Mas recolhi, ouvindo Gamaliel que dizia, como o homem do manto c?r d'a?afr?o no Monte das Oliveiras: ?Sim, esta noite, em Bethania, Rabbi Jeschoua foi preso...?

Depois ajuntou, lento, com os olhos semi-cerrados, erguendo por entre os dedos os longos fios da barba:

-Mas Poncius teve um escrupulo... N?o quiz julgar um homem de Galilêa que é subdito de Antipas Herodes... E como o Tetrarcha veio á Paschoa a Jerusalem, Poncius mandou o Rabbi á sua morada, a Bezetha...

Os doutos oculos de Topsius rebrilharam d'espanto.

-Coisa estranha! exclamou, abrindo os bra?os magros. Poncius escrupuloso, Poncius formalista! E desde quando respeita Poncius a judicatura do Tetrarcha? Quantos pobres galileus n?o fez elle matar sem licen?a do Tetrarcha, quando foi da revolta do aqueducto, quando espadas romanas, por ordem de Poncius, misturaram nos pateos do Templo o sangue dos homens de Nephtali ao sangue dos bois do Sacrificio!

Gamaliel murmurou sombriamente:

-O Romano é cruel, mas escravo da legalidade.

Ent?o Osanias, filho de Beothos, disse com um sorriso molle e sem dentes, agitando de leve, sobre a purpura das almofadas, as m?os resplandecentes de anneis:

-Ou talvez seja que a mulher de Poncius proteja o Rabbi.

Gamaliel, surdamente, amaldi?oou o impudor da Romana. E como os oculos de Topsius interrogavam o venerando Osanias elle admirou-se que o Doutor ignorasse coisas t?o conversadas no Templo, até pelos pastores que vem da Idumêa vender os cordeiros da Offrenda. Sempre que o Rabbi prégava no Portico de Salom?o, do lado da porta de Suza, Claudia vinha vêl-o do alto do terra?o da Torre Antonia, só, envolta n'um véo negro... Menahem, que guardava no mez de Tebeth a escadaria dos Gentis, vira a mulher de Poncius acenar com o véo ao Rabbi. E talvez Claudia, saciada de Capreia, de todos os cocheiros do Circo, de todos os histri?es de Suburra, e dos brinquedos d'Atalanta que fizeram perder a voz ao cantor Accius, quizesse provar, vindo á Syria, a que sabiam os beijos d'um propheta de Galilêa...

O homem vestido de linho alvo ergueu bruscamente a face, sacudindo o capuz de sobre os cabellos revoltos: o seu largo olhar azul fulgurou por toda a sala, n'um relampago, e apagou-se logo, sob a humildade grave das pestanas que se baixaram... Depois murmurou, lento e severo:

-Osanias, o Rabbi é casto!

O velho riu, pesadamente. Casto, o Rabbi! E ent?o essa galilêa de Magdala, que vivera no bairro de Bezetha, e nas festas do Prurim se misturava com as prostitutas gregas ás portas do theatro d'Herodes?... E Joanna, a mulher de Khosna, um dos cozinheiros d'Antipas? E outra d'Ephrain, Suzanna, que uma noite, a um gesto do Rabbi, a um aceno do seu desejo, deixára o tear, deixára os filhos, e com o peculio domestico, escondido na ponta do manto, o seguira até Cesarêa...?

-Oh Osanias! gritou, batendo palmas folgaz?s, o homem formoso que tinha uma espada com pedrarias. Oh filho de Beothos, como tu conheces, uma a uma, as incontinencias d'um Rabbi galileu, filho das hervas do ch?o e mais miseravel que ellas! Nem que se tratasse d'Elius Lamma, nosso Legado Imperial, que o Senhor cubra de males!

Os olhos d'Osanias, miudinhos como duas contas de vidro negro, reluziram d'agudeza e malicia.

-Oh Manassés! é para que vós outros, os patriotas, os puros herdeiros de Judas de Galaunitida, n?o nos accuseis sempre, a nós sadduceus, de saber só o que se passa no Atrio dos Sacerdotes e nos eirados da casa d'Hannan...

Uma tosse rouca reteve-o um espa?o, suffocando, sob a ponta do manto em que vivamente se embu?ára. Depois, mais quebrado, com laivos r?xos na face farinhenta:

-Que em verdade foi justamente na casa d'Hannan que ouvimos isto a Menahem, passeando todos debaixo da vinha... E mesmo nos contou elle que esse Rabbi de Galilêa chegava, no seu impudor, a tocar fêmeas pag?s, e outras mais impuras que o porco... Um levita viu-o, na estrada de Sichem, erguer-se afogueado, de traz da borda d'um po?o, com uma mulher da Samaria!

O homem coberto d'alvo linho ergueu-se d'um salto, todo direito e tremulo; e no grito que lhe escapou havia o horror de quem surprehende a profana??o d'um altar!

Mas Gamaliel, com uma sêcca authoridade, cravou n'elle os olhos duros:

-Oh Gad, aos trinta annos o Rabbi n?o é casado! Qual é o seu trabalho? Onde está o campo que lavra? Alguem jámais conheceu a sua vinha? Vagabundeia pelos caminhos, e vive do que lhe offertam essas mulheres dissolutas! E que outra coisa fazem esses mo?os sem barba de Sybaris e de Lesbos, que passeiam todo o dia na via Judiciaria, e que vós outros, Essenios, abominaes de tal sorte, que correis a lavar as vestes n'uma cisterna se um d'elles ro?a por vós?... Tu ouviste Osanias, filho de Beothos... Só Jehovah é grande! e em verdade te digo que quando Rabbi Jeschoua, desprezando a Lei, dá á mulher adultera um perd?o que tanto captiva os simples, cede á frouxid?o da sua moral e n?o á abundancia da sua misericordia!

Com a face abrazada, e atirando os bra?os ao ar, Gad bradou:

-Mas o Rabbi faz milagres!

E foi o formoso Manassés, com um sereno desdem, que respondeu ao

Essenio:

-Socega, Gad, outros têm feito milagres! Sim?o de Samaria fez milagres. Fêl-os Apollonius, e fêl-os Gabienus... E que s?o os prodigios do teu galileu comparados aos das filhas do Gr?o Sacerdote Anius, e aos do sabio Rabbi Chekiná?

E Osanias escarnecia a simplez de Gad:

-Em verdade, que aprendeis vós outros, Essenios, no vosso oasis d'Engaddi? Milagres! Milagres até os pag?os os fazem! Vai a Alexandria, ao porto do Eunotos, para a direita, onde est?o as fabricas de papyros, e vês lá Magos fazendo milagres por um drachma, que é o pre?o d'um dia de trabalho. Se o milagre prova a divindade, ent?o é divino o peixe Oannes, que tem barbatanas de nacar e préga nas margens do Euphrates, em noites de lua cheia!

Gad sorria com altivez e do?ura. A sua indigna??o expirára sob a immensid?o do seu desdem. Deu um passo vagaroso, depois outro,-e considerando, apiedadamente, aquelles homens enfatuados, endurecidos e cheios d'irris?o:

-Vós dizeis, vós dizeis, v?os á maneira de moscardos que zumbem! Vós dizeis, e vós n?o o ouvistes! Em Galilêa, que é bem fertil, bem verde, quando elle fallava era como se corresse uma fonte de leite em terra de fome e seccura: até a luz parecia um bem maior! As aguas, no lago de Tiberiade, amansavam para o escutar; e aos olhos das crian?as que o rodeavam subia a gravidade d'uma fé já madura... Elle fallava: e como pombas que desdobram as azas e v?am da porta d'um santuario, nós viamos desprender-se dos seus labios, irem voar por sobre as na??es do mundo toda a sorte de cousas nobres e santas, a Caridade, a Fraternidade, a Justi?a, a Misericordia, e as fórmas novas, bellas, divinamente bellas, do Amor!

A sua face resplandecia, enlevada para os céos, como seguindo o v?o d'essas novas divinas. Mas já do lado, Gamaliel, Doutor da Lei, o rebatia com uma dura auctoridade:

-Que ha d'original e d'individual em todas essas idéas, homem? Pensas que o Rabbi as tirou da abundancia do seu cora??o? Está cheia d'ellas a nossa doutrina!... Queres ouvir fallar de Amor, de Caridade, de Igualdade? Lê o livro de Jesus, filho de Sidrah... Tudo isso o prégou Hillel, tudo isso o disse Schemaia! Cousas t?o justas se encontram nos livros pag?os, que s?o, ao pé dos nossos, como o l?do ao pé da agua pura de Siloeh!... Vós mesmos os Essenios tendes preceitos melhores!... Os Rabbis de Babylonia, d'Alexandria, ensinaram sempre leis puras de Justi?a e de Igualdade! E ensinou-as o teu amigo Iokanan, a quem chamaes o Baptista, que lá acabou t?o miseravelmente n'um ergastulo de Makeros...

-Iokanan! exclamou Gad, estremecendo, como rudemente acordado da suavidade d'um sonho.

Os seus olhos brilhantes humedeceram. Tres vezes, curvado para o ch?o, com os bra?os abertos, repetiu o nome de Iokanan, como chamando alguem d'entre os mortos. Depois, com duas lagrimas rolando pela barba, murmurou muito baixo, n'uma confidencia que o enchia de terror e de fé:

-Fui eu que subi a Makeros a buscar a cabe?a do Baptista! E quando descia o caminho, com ella embrulhada no meu manto, ainda a outra, Herodiade, estirada por sobre a muralha como a femea lasciva do tigre, rugia e me gritava injurias!... Tres dias e tres noites segui pelas estradas de Galilêa, levando a cabe?a do justo pendurada pelos cabellos... ás vezes, detraz d'um rochedo, um anjo surgia todo coberto de negro, abria as azas e punha-se a caminhar ao meu lado...

De novo a cabe?a lhe pendeu, os seus duros joelhos resoaram nas lages: e ficou prostrado, orando anciosamente, com os bra?os estendidos em cruz.

Ent?o Gamaliel adiantou-se para o sabio Topsius; e, mais direito que uma columna do Templo, com os cotovêlos collados á cinta, as m?os magras espalmadas para fóra:

-Nós temos uma Lei, a nossa Lei é clara. Ella é a palavra do Senhor; e o Senhor disse: ?Eu sou Jehovah, o eterno, o primeiro e o ultimo, o que n?o transmitte a outros nem o seu nome, nem a sua gloria: antes de mim n?o houve Deus algum, n?o existe Deus algum ao meu lado, n?o haverá Deus algum depois de mim...? Esta é a voz do Senhor. E o Senhor disse ainda: ?Se pois entre vós apparecer um propheta, um visionario que fa?a milagres e queira introdizir outro Deus e chame os simples ao culto d'esse Deus,-esse propheta e visionario morrerá!? Esta é a Lei, esta é a voz do Senhor. Ora o Rabbi de Nazareth proclamou-se Deus em Galilêa, nas synagogas, nas ruas de Jerusalem, nos pateos santos do Templo... O Rabbi deve morrer.

Mas o formoso Manassés, cujo languido olhar entenebrecia como um céo onde vai trovejar, interpoz-se entre o Doutor da Lei e o historiador dos Herodes. E nobremente repelliu a letra cruel da Doutrina:

-N?o, n?o! Que importa que a lampada d'um sepulchro diga que é o sol? Que importa que um homem abra os bra?os e grite que é um Deus? As nossas leis s?o suaves: por t?o pouco n?o se vai buscar o carrasco ao seu covil a Gareb...

Eu, caridosso, ia louvar Manassés. Mas já elle bradava com violencia e fervor:

-Todavia esse Rabbi de Galilêa deve decerto morrer, porque é um mau cidad?o e um mau judeu! N?o o ouvimos nós aconselhar que se pague o tributo a Cesar? O Rabbi estende a m?o a Roma, o romano n?o é o seu inimigo. Ha tres annos que préga, e ninguem jámais lhe ouviu proclamar a necessidade santa de expulsar o Estrangeiro. Nós esperamos um Messias que traga uma espada e liberte Israel, e este, nescio e verboso, declara que traz só o p?o da verdade! Quando ha um pretor romano em Jerusalem, quando s?o lan?as romanas que velam ás portas do nosso Deus, a que vem esse visionario fallar do p?o do céo e do vinho da verdade? A unica verdade util é que n?o deve haver romanos em Jerusalem!...

Osanias, inquieto, olhou a janella cheia de luz, por onde as amea?as de Manassés se evolavam, vibrantes e livres. Gamaliel sorria friamente. E o discipulo ardente de Judas de Gamala clamava, arrebatado na sua paix?o:

-Oh! Em verdade vos digo, embalar as almas na esperan?a do reino do céo é fazer-lhes esquecer o dever forte para com o reino da terra, para esta terra d'Israel que está em ferros, e chora e n?o quer ser consolada! O Rabbi é traidor á patria! O Rabbi deve morrer!

Tremulo, agarrára a espada: e o seu olhar alargava-se, com uma fulgura??o de revolta, como chamando avidamente os combates e a gloria dos supplicios.

Ent?o Osanias ergueu-se apoiado a um bast?o que rematava n'uma pinha d'ouro. Um penoso cuidado parecia agora anuvear a sua velhice leviana. E come?ou a dizer, de manso e tristemente, como quem através do Enthusiasmo e da Doutrina aponta o mandado inilludivel da Necessidade:

-Decerto, decerto, pouco importa que um visionario se diga Messias e filho de Deus, ameace destruir a Lei e destruir o Templo. O Templo e a Lei podem bem sorrir e perdoar, certos da sua eternidade... Mas, oh Manassés, as nossas leis s?o suaves; e n?o creio que se deva ir acordar o carrasco a Gareb, porque um Rabbi de Galilêa, que se lembra dos filhos de Judas de Gamala pregados na cruz, aconselha prudencia e malicia nas rela??es com o romano! ó Manassés, robustas s?o as tuas m?os: mas pódes tu com ellas desviar a corrente do Jord?o da terra de Canaan para a terra da Trakaunitida? N?o. Nem pódes tambem impedir que as legi?es de Cesar, que cobriram as cidades da Grecia, venham cobrir o paiz de Judá! Sabio e forte era Judas Macchabeo, e fez amizade com Roma... Porque Roma é sobre a terra como um grande vento da natureza; quando elle vem, o insensato offerece-lhe o peito e é derrubado; mas o homem prudente recolhe á sua morada e está quieto. Indomavel era a Galacia; Filippe e Perseu tinham exercitos na planicie; Antiochus o Grande commandava cento e vinte elephantes e carros de guerra innumeraveis... Roma passou; d'elles que resta? Escravos, pagando tributos...

Curvára-se, pesadamente, como um boi sob o jugo. Depois, fixando sobre nós os olhos miudos que dardejavam um brilho inexoravel e frio, proseguiu, sempre de manso e subtil:

-Mas em verdade vos digo, que esse Rabbi de Galilêa deve morrer! Porque é o dever do homem que tem bens na terra e searas apagar depressa com a sandalia, sobre as lages da eira, a fagulha que amea?a inflammar-lhe a mêda... Com o romano em Jerusalem, todo aquelle que venha e se proclame Messias, como o de Galilêa, é nocivo e perigoso para Israel. O romano n?o comprehende o Reino do céo que elle promette: mas vê que essas prédicas, essas exalta??es divinas agitam sombriamente o povo dentro dos porticos do Templo... E ent?o diz: ?na verdade este Templo, com o seu ouro, as suas multid?es, e tanto zelo, é um perigo para a auctoridade de Cesar na Judêa...? E logo, lentamente, annulla a for?a do Templo diminuindo a riqueza, os privilegios do seu sacerdocio. Já para nossa humilha??o, as vestes pontificaes s?o guardadas no erario da Torre Antonia: ámanh? será o Candelabro d'ouro! Já o Pretor usou, para nos empobrecer, o dinheiro do Corban! ámanh? os dizimos da colheita, o dos gados, o dinheiro da offrenda, o óbolo das trombetas, os tributos rituaes, todos os haveres do sacerdocio, até as viandas dos sacrificios, nada será nosso, tudo será do romano! E só nos ficará o bord?o para irmos mendigar nas estradas de Samaria, á espera dos mercadores ricos da Decapola... Em verdade vos digo, se quizermos conservar as honras e os thesouros, que s?o nossos pela antiga Lei, e que fazem o esplendor d'Israel, devemos mostrar ao romano, que nos vigia, um Templo quieto, policiado, submisso, contente, sem fervores e sem Messias!... O Rabbi deve morrer!

Assim diante de mim fallou Osanias, filho de Beothos, e membro do

Sanhedrin.

Ent?o o magro historiador dos Herodes, cruzando com reverencia as m?os sobre o peito, saudou tres vezes aquelles homens facundos. Gad, immovel, orava. No azul da janella uma abelha c?r d'ouro zumbia em torno da fl?r de madresilva. E Topsius dizia com pompa:

-Homens que me haveis acolhido, a verdade abunda nos vossos espiritos como a uva abunda nas videiras! Vós sois tres torres que guardaes Israel entre as na??es: uma defende a unidade da Religi?o, outra mantem o enthusiasmo da Patria: e a terceira, que és tu, venerando filho de Beothos, cauto e ondeante como a serpente que amava Salom?o, protege uma cousa mais preciosa que é a Ordem!... Vós sois tres torres: e contra cada uma o Rabbi de Galilêa ergue o bra?o e lan?a a primeira pedrada! Mas vós guardaes Israel e o seu Deus e os seus bens, e n?o vos deveis deixar derrocar!... Em verdade, agora o reconhe?o, Jesus e o Judaismo nunca poderiam viver juntos.

E Gamaliel, com o gesto de quem quebra uma vara fragil, disse, mostrando os dentes brancos:

-Por isso o crucificamos!

Foi como uma faca acerada que, lampejando e silvando, se viesse cravar no meu peito! Arrebatei, suffocado, a manga do douto historiador:

-Topsius! Thopsius! quem é esse Rabbi que prégava em Galilêa, e faz milagres e vai ser crucificado?

O sabio doutor arregalou os olhos com tanto pasmo, como se eu lhe perguntasse qual era o astro que d'além dos montes traz a luz da manh?. Depois, seccamente:

-Rabbi Jeschoua bar Joseph, que veio de Nazareth em Galilêa, a quem alguns chamam Jesus e outros tambem chamam o Christo.

-O nosso! gritei, vacillando, como um homem atordoado.

E os meus joelhos catholicos quasi bateram as lages, n'um impulso de ficar alli cahido, enrodilhado no meu pavor, rezando desesperadamente e para sempre. Mas logo como uma labareda chammejou por todo o meu sêr o desejo de correr ao seu encontro e p?r os meus olhos mortaes no corpo do meu Senhor, no seu corpo humano e real, vestido do linho de que os homens se vestem, coberto com o pó que levantam os caminhos humanos!... E ao mesmo tempo, mais do que treme a folha n'um aspero vento, tremia a minha alma n'um terror sombrio:-o terror do servo negligente diante do amo justo! Estava eu bastante purificado com jejuns e ter?os para affrontar a face fulgurante do meu Deus? N?o! Oh mesquinha e amarga deficiencia da minha devo??o! Eu n?o beijára jámais, com sufficiente amor, o seu pé dorido e r?xo na sua igreja da Gra?a! Ai de mim! Quantos domingos, n'esses tempos carnaes em que a Adelia, sol da minha vida, me esperava na travessa dos Caldas, fumando e em camisa-n?o maldissera eu a lentid?o das Missas e a monotonia dos Septenarios! E sendo assim do craneo á sola dos pés uma crosta de peccado, como poderia meu corpo n?o tombar, já reprobo, já tisnado, quando os dois globos dos olhos do Senhor, como duas metades do céo, se voltassem vagarosamente para mim?

Mas vêr Jesus! Vêr como eram os seus cabellos, que pregas fazia a sua tunica, e o que acontecia na terra quando os seus labios se abriam!... Para além d'esses eirados onde as mulheres atiravam gr?o ás pombas; n'uma d'essas ruas d'onde me chegava claro e cantado o preg?o dos vendedores de p?es azymos-ia passando talvez n'esse temeroso instante, entre barbudos, graves soldados romanos, Jesus, meu Salvador, com uma corda amarrada nas m?os. A lenta aragem que balan?ava na janella o ramo de madresilva, e lhe avivava o aroma, acabava talvez de ro?ar a fronte do meu Deus, já ensanguentada d'espinhos! Era só empurrar aquella porta de cedro, atravessar o pateo onde gemia a mó do moinho domestico,-e logo, na rua, eu poderia vêr presente e corporeo o meu Senhor Jesus t?o realmente e t?o bem como o viram S. Jo?o e S. Matheus. Seguiria a sua sacra sombra no muro branco-onde cahiria tambem a minha sombra. Na mesma poeira que as minhas solas pisassem-beijaria a pégada ainda quente dos seus pés! E abafando com ambas as m?os o barulho do meu cora??o,-eu poderia surprehender, sahido da sua bocca ineffavel, um ai, um solu?o, um queixume, uma promessa! Eu saberia ent?o uma palavra nova do Christo, n?o escripta no Evangelho;-e só eu teria o direito pontifical de a repetir ás multid?es prostradas. A minha auctoridade surgia, na Igreja, como a d'um Testamento novissimo. Eu era uma testemunha inedita da Paix?o. Tornava-me S. Theodorico Evangelista!

Ent?o, com uma desesperada anciedade que espantou aquelles Orientaes de maneiras mesuradas, eu gritei:

-Onde o posso vêr? Onde está Jesus de Nazareth, meu Senhor?

N'esse momento um escravo, correndo na ponta leve das sandalias, veio cahir de bru?os nas lages, diante de Gamaliel; beijava-lhe as franjas da tunica, as suas costellas magras arquejavam; por fim murmurou, exhausto:

-Amo, o Rabbi está no Pretorio!

Gad emergiu da sua ora??o com um salto de fera, apertou em t?rno dos rins a corda de nós, e correu arrebatadamente, com o capuz solto, espalhando em redor o sulco louro dos seus cabellos revoltos. Topsius tra?ára a sua capa branca, com essas pregas de toga latina que lhe davam a solemnidade d'um marmore; e tendo comparado a hospitalidade de Gamaliel á d'Abrah?o, bradou-me triumphantemente:

-Ao Pretorio!

* * * * *

Muito tempo segui Topsius através da antiga Jerusalem, n'uma caminhada offegante, todo perdido no tumulto dos meus pensamentos. Passámos junto a um jardim de rosas, do tempo dos Prophetas, esplendido e silencioso, que dois levitas guardavam com lan?as douradas. Depois foi uma rua fresca, toda aromatisada pelas lojas dos perfumistas, ornadas de taboletas em fórma de fl?res e d'almofarizes: um toldo de esteiras finas assombreava as portas, o ch?o estava regado e juncado d'herva d?ce e de folhas d'anemonas: e pela sombra pregui?avam mo?os languidos, de cabellos frisados em cachos, de olheiras pintadas, mal podendo erguer, nas m?os pesadas d'anneis, as sêdas ro?agantes das tunicas c?r de cereja e c?r d'ouro. Além d'essa rua indolente abria-se uma pra?a, que escaldava ao sol, com uma poeira grossa e branca, onde os pés se enterravam: solitaria, no meio, uma vetusta palmeira arqueava o seu penacho, immovel e como de bronze: e ao fundo, negrejavam na luz as columnatas de granito do velho palacio de Herodes. Ahi era o Pretorio.

Defronte do arco d'entrada, onde rondavam, com plumas pretas no elmo reluzente, dois legionarios da Syria-um bando de raparigas, tendo detraz da orelha uma rosa e no rega?o coifas d'esparto, apregoavam os p?es azymos. Sob um enorme guardasol de pennas, cravado no ch?o, homens de mitra de feltro, com taboas sobre os joelhos e balan?as trocavam a moeda romana. E os vendedores d'agua, com os seus ?dres felpudos, lan?avam um grito tremulo. Entrámos: e logo um terror me envolveu.

Era um claro pateo, aberto sob o azul, ladeado de marmore, tendo de cada lado uma arcada, elevada em terra?o, com parapeito, fresca e sonora como um claustro de mosteiro. Da arcaria ao fundo, encimada pela frontaria austera do Palacio, estendia-se um velario, d'um estofo escarlate franjado d'ouro, fazendo uma sombra quadrada e dura: dois mastros de pau de sycomoro sustentavam-n'o, rematados por uma fl?r de lotus.

Ahi apertava-se um magote de gente-onde se confundiam as tunicas dos Phariseus orladas d'azul, o rude sai?o d'estamenha dos obreiros apertado com um cinto de couro, os vastos albornozes listrados de cinzento e branco dos homens de Galilêa, e a capa carmezim de grande capuz dos mercadores de Tiberiade; algumas mulheres já fóra do abrigo do velario, al?avam-se na ponta das chinelas amarellas, estendendo por cima do rosto contra o sol, uma dobra do manto ligeiro: e d'aquella multid?o sahia um cheiro morno de suor e de myrrha. Para além, por cima dos turbantes alvos apinhados, brilhavam pontas de lan?a. E ao fundo, sobre um sólio, um homem, um magistrado, envolto nas pregas nobres d'uma toga pretexta, e mais immovel que um marmore, apoiava sobre o punho forte a barba densa e grisalha: os seus olhos encovados pareciam indolentemente adormecidos: uma fita escarlate prendia-lhe os cabellos: e por traz, sobre um pedestal que fazia espaldar á sua cadeira curul, a figura de bronze da Loba Romana abria de travez a guela voraz. Perguntei a Topsius quem era aquelle magistrado melancolico.

-Um certo Poncius, chamado Pilatus, que foi Prefeito em Batavia.

Lentamente caminhei pelo pateo, procurando, como n'um templo, fazer mais subtil e respeitoso o ruido das minhas solas. Um grave silencio cahia do céo rutilante: só, por vezes, rompia do lado dos jardins, aspero e triste, o gritar dos pav?es. Estendidos no ch?o, junto á balaustrada do claustro, negros dormitavam com a barriga ao sol. Uma velha contava moedas de cobre, acocorada diante do seu gigo de fruta. Em andaimes, postos contra uma columna, havia trabalhadores compondo o telhado. E crian?as, a um canto, jogavam com discos de ferro que tiniam de leve nas lages.

Subitamente, alguem familiar tocou no hombro do historiador dos Herodes. Era o formoso Manassés; e com elle vinha um velho magnifico, d'uma nobreza de Pontifice, a quem Topsius beijou filialmente a manga da simarra branca, bordada de verdes folhas de parra. Uma barba de neve, lustrosa d'oleo, cahia-lhe até á faxa que o cingia; e os hombros largos desappareciam sob a esparsa abundancia dos cabellos alvos, sahindo do turbante como uma pura romeira de arminhos reaes. Uma das m?os, cheia de anneis, apoiava-se a um forte bast?o de marfim; e a outra conduzia uma crian?a pallida, que tinha os olhos mais bellos que estrellas, e semelhava junto ao anci?o um lirio á sombra d'um cedro.

-Subi á galeria, disse-nos Manassés. Tereis lá repouso e frescura...

Seguimos o Patriota; e eu perguntei cautelosamente a Topsius quem era o outro t?o velho, t?o augusto.

-Rabbi Robam, murmurou com venera??o o meu douto amigo. Uma luz do

Sanhedrin, facundo e subtil entre todos, e confidente de Kaipha...

Reverente, saudei tres vezes Rabbi Robam-que se sentára n'um banco de marmore, pensativo, aconchegando sobre o seu vasto peito ancestral a cabe?a da crian?a mais loura que os milhos de Joppé. Depois continuámos devagar pela galeria sonora e clara: na sua extremidade brilhava uma porta sumptuosa de cedro com chapas de prata lavradas: um Pretoriano de Cesarêa guardava-a, somnolento, encostado ao seu alto escudo de vime. Ahi, commovido, caminhei para o parapeito: e logo meus olhos mortaes encontraram lá em baixo-a fórma encarnada do meu Deus!

Mas, oh rara surpreza da alma variavel, n?o senti extasis nem terror! Era como se de repente me tivessem fugido da memoria longos, laboriosos seculos de Historia e de Religi?o. Nem pensei que aquelle homem sêcco e moreno fosse o Remidor da Humanidade... Achei-me inexplicavelmente anterior nos tempos. Eu já n?o era Theodorico Raposo, christ?o e bacharel: a minha individualidade como que a perdera, á maneira d'um manto que escorrega, n'essa carreira anciosa desde a casa de Gamaliel. Toda a antiguidade das coisas ambientes me penetrára, me refizera um sêr; eu era tambem um antigo. Era Theodoricus, um Lusitano, que viera n'uma galera das praias resoantes do Promontorio Magno, e viajava, sendo Tiberio imperador, em terras tributarias de Roma. E aquelle homem n?o era Jesus, nem Christo, nem Messias,-mas apenas um mo?o de Galilêa que, cheio d'um grande sonho, desce da sua verde aldeia para transfigurar todo um mundo e renovar todo um céo, e encontra a uma esquina um Nethenim do Templo que o amarra e o traz ao Pretor, n'uma manh? d'audiencia, entre um ladr?o que roubára na estrada de Sichem e outro que atirára facadas n'uma rixa em Emath!

N'um espa?o ladrilhado de mosaico, em face do sólio onde se erguia o assento curul do Pretor sob a Loba Romana-Jesus estava de pé, com as m?os cruzadas e frouxamente ligadas por uma corda que rojava no ch?o. Um largo albornoz de l? grossa, em riscas pardas, orlado de franjas azues, cobria-o até aos pés, cal?ados de sandalias já gastas pelos caminhos do deserto e atadas com correias. N?o lhe ensanguentava a cabe?a essa cor?a inhumana de espinhos, de que eu lêra nos Evangelhos; tinha um turbante branco, feito d'uma longa faxa de linho enrolada, cujas pontas lhe pendiam de cada lado sobre os hombros; um cordel amarrava-lh'o por baixo da barba encaracolada e aguda. Os cabellos sêccos, passados por traz das orelhas, cahiam-lhe em anneis pelas costas; e no rosto magro, requeimado, sob sobrancelhas densas, unidas n'um só tra?o, negrejava com uma profundidade infinita o resplendor dos seus olhos. N?o se movia, forte e sereno diante do Pretor. Só algum estremecimento das m?os presas trahia o tumulto do seu cora??o; e ás vezes respirava longamente, como se o seu peito, acostumado aos livres e claros ares dos montes e dos lagos de Galilêa, suffocasse entre aquelles marmores, sob o pesado velario romano, na estreiteza formalista da Lei.

A um lado, Sarêas, o vogal do Sanhedrin, tendo deposto no ch?o o seu manto e o seu baculo dourado, ia desenrolando e lendo uma tira escura de pergaminho, n'um murmurio cantado e dormente. Sentado n'um escabello, o Assessor romano, suffocado pelo calor já aspero do mez de Nizam, refrescava com um leque de folhas d'heras sêccas a face rapada e branca como um gesso: um escriba, velho e nedio, n'uma mesa de pedra cheia de tabularios e de regras de chumbo, agu?ava miudamente os seus calamos: e entre ambos o interprete, um phenicio imberbe, sorria com a face no ar, com as m?os na cinta, arqueando o peito onde trazia pintado sobre a jaqueta de linho um papagaio vermelho. Em torno ao velario, constantemente voavam pombas. E foi assim que eu vi Jesus de Galilêa preso, diante do Pretor de Roma...

No emtanto Sarêas, tendo enrolado em torno á haste de ferro o pergaminho escuro, saudou Pilatos, beijou um sinete sobre o dedo para marcar nos seus labios o sêllo da verdade,-e immediatamente encetou uma arenga em grego, com textos, verbosa e aduladora. Fallava do Tetrarca de Galilêa, o nobre Antipas; louvava a sua prudencia; celebrava seu pai Herodes o Grande, restaurador do Templo... A gloria d'Herodes enchia a terra; f?ra terrivel, sempre fiel aos Cesares; seu filho Antipas era engenhoso e forte!... Mas reconhecendo a sua sabedoria elle estranhava que o Tetrarca se recusasse a confirmar a senten?a do Sanhedrin que condemnava Jesus á morte... N?o f?ra essa senten?a fundada nas Leis que dera o Senhor? O justo Hanan interrogára o Rabbi, que emmudecera, n'um silencio ultrajante. Era essa a maneira de responder ao sabio, ao puro, ao piedoso Hanan? Por isso um zeloso, sem se conter, atirára a m?o violenta á face do Rabbi... Onde estava o respeito dos antigos tempos, e a venera??o do Pontificado?

A sua voz cava e larga rolava, infindavelmente. Eu, cansado, bocejava. Por baixo de nós dois homens encruzados nas lages comiam tamaras de Bethabara que traziam no sai?o, bebendo d'uma caba?a. Pilatos, com o punho sob a barba, olhava somnolentamente os seus borzeguins escarlates picados de estrellas d'ouro.

E Sarêas agora proclamava os direitos do Templo. Elle era o orgulho da na??o, a morada eleita do Senhor! Cesar Augusto offertára-lhe escudos e vasos de ouro... E esse Templo, como o respeitára o Rabbi? Amea?ando destruil-o! ?Eu derrocarei o templo de Jehovah e edifical-o-hei em tres dias!? Testemunhas puras ouvindo esta rude impiedade tinham coberto a cabe?a de cinza para afastar a cólera do Senhor... Ora a blasphemia atirada ao santuario resaltava até ao seio de Deus!...

Sob o velario, os Phariseus, os Escribas, os Nethenins do Templo, escravos sordidos, susurravam como arbustos agrestes que um vento come?a a agitar. E Jesus permanecia immovel, abstrahidamente indifferente, com os olhos cerrados, como para isolar melhor o seu sonho contínuo e formoso, longe das coisas duras e v?s que o maculavam. Ent?o o Assessor romano ergueu-se, dep?z no escabello o seu leque de folhas, tra?ou com arte o manto forense, orlado de azul, saudou tres vezes o Pretor,-e a sua m?o delicada come?ou a ondear no ar, fazendo scintillar uma joia.

-Que diz elle?...

-Coisas infinitamente habeis, murmurou Topsius. é um pedante, mas tem raz?o. Diz que o Pretor n?o é um judeu; que nada sabe de Jehovah, nem lhe importam os prophetas que se erguem contra Jehovah; e que a espada de Cesar n?o vinga deuses que n?o protegem Cesar!... O romano é engenhoso!

Offegando, o Assessor recahiu languidamente no escabello. E logo Sarêas volveu a arengar, sacudindo os bra?os para a multid?o dos Phariseus, como a evocar os seus protestos, e refugiando-se na sua for?a. Agora, mais retumbante, accusava Jesus, n?o da sua revolta contra Jehovah e o Templo, mas das suas preten??es como principe da casa de David! Toda a gente em Jerusalem o tinha visto, havia quatro dias, entrar pela Porta d'Ouro, n'um falso triumpho, entre palmas verdes, cercado d'uma multid?o de galileus, que gritavam-?Hossana ao filho de David, Hossana ao rei d'Israel!...?

-Elle é o filho de David, que vem para nos tornar melhores! gritou ao longe a voz de Gad, cheia de persuas?o e d'amor.

Mas de repente Sarêas collou ao corpo as mangas franjadas, mudo e mais teso que um conto de lan?a: o escriba romano, de pé, com os punhos fincados na mesa, vergava o cacha?o reverente e nedio: o Assessor sorria, attento. Era o Pretor que ia interrogar o Rabbi: e eu, tremendo, vi um Legionario empurrar Jesus que ergueu a face...

Debru?ado de leve para o Rabbi, com as m?os abertas que pareciam soltar, deixar cahir todo o interesse por esse pleito ritual de sectarios arguciosos, Poncius murmurou, enfastiado e incerto:

-és tu ent?o o rei dos judeus?... Os da tua na??o trazem-te aqui!...

Que fizeste tu?... Onde é o teu reino?

O interprete, enfatuado, perfilado junto ao sólio de marmore, repetiu muito alto estas coisas na antiga lingua hebraica dos Livros Santos: e, como o Rabbi permanecia silencioso, gritou-as na falla chaldaica que se usa em Galilêa.

Ent?o Jesus deu um passo. Eu ouvi a sua voz. Era clara, segura, dominadora e serena:

-O meu reino n?o é d'aqui! Se por vontade de meu Pai eu fosse rei de Israel, n?o estaria diante de ti com esta corda nas m?os... Mas o meu reino n?o é d'este mundo!

Um grito estrugiu, desesperado:

-Tirai-o ent?o d'este mundo!

E logo, como lenha preparada que uma faisca inflamma, o furor dos Phariseus e dos serventes do Templo irrompeu, crepitando, em clamores impacientes:

-Crucificai-o! crucificai-o!

Pomposamente o interprete redizia em grego ao Pretor os brados tumultuosos, lan?ados na lingua syriaca que falla o povo em Judêa... Poncius bateu o borzeguim sobre o marmore. Os dois lictores ergueram ao ar as varas rematadas n'uma figura d'aguia: o escriba gritou o nome de Caio Tiberio: e logo os bra?os frementes se abaixaram, e foi como um terror diante da magestade do Povo Romano.

De novo Poncius fallou, lento e vago:

-Dizes ent?o que és rei... E que vens tu fazer aqui?

Jesus deu outro passo para o Pretor. A sua sandalia pousou fortemente sobre as lages como se tomasse posse suprema da terra. E o que sahiu dos seus labios tremulos pareceu-me fulgurar, vivo no ar, como o resplendor que dos seus olhos negros sahiu.

-Eu vim a este mundo testemunhar a verdade! Quem desejar a verdade, quem quizer pertencer á verdade tem de escutar a minha voz!

Pilatos considerou-o um momento, pensativo; depois encolhendo os hombros:

-Mas, homem, o que é a verdade?

Jesus de Nazareth emmudeceu-e no Pretorio espalhou-se um silencio como se todos os cora??es tivessem parado, cheios subitamente de incerteza...

Ent?o, apanhando devagar a sua vasta toga, Pilatos desceu os quatro degraus de bronze;-e precedido dos lictores, seguido do Assessor, penetrou no Palacio, por entre, o rumor d'armas dos legionarios que o saudavam batendo o ferro das lan?as sobre o bronze dos escudos.

Immediatamente elevou-se por todo o pateo um aspero e ardente susurro como de abelhas irritadas. Sarêas perorava, brandindo o baculo, entre os Phariseus que apertavam as m?os n'um terror. Outros, afastados, cochichavam sombriamente. Um grande velho, com um manto negro que esvoa?ava, corria n'uma ancia o Pretorio, por entre os que dormiam, ao sol, por entre os vendedores de p?es azymos, gritando: ?Israel está perdido!? E eu vi Levitas fanaticos arrancarem as borlas das tunicas, como n'uma calamidade publica.

Gad surgiu diante de nós, erguendo os bra?os triumphantes:

-O Pretor é justo e liberta o Rabbi!...

E, com a face cheia de brilho, revelava-nos a do?ura da sua esperan?a! O Rabbi, apenas solto, deixaria Jerusalem-onde as pedras eram menos duras que os cora??es. Os seus amigos armados esperavam-no em Bethania: e partiriam ao romper da lua para o oasis d'Engaddi! Lá estavam aquelles que o amavam. N?o era Jesus o irm?o dos Essenios? Como elles o Rabbi prégava o desprezo dos bens terrestres, a ternura pelos que s?o pobres, a incomparavel belleza do reino de Deus...

Eu, credulo, regosijava-me-quando um tumulto invadiu a galeria que um escravo viera regar. Era o bando escuro dos Phariseus, em marcha para o banco de pedra, onde Rabbi Robam conversava com Manassés, enrolando d?cemente nos dedos os cabellos da crian?a, mais louros que os minhos. Topsius e eu corremos para a turba intolerante. Já Sarêas, no meio, curvado, mas com a firmeza de quem intíma, dizia:

-Rabbi Robam, é necessário que vás fallar ao Pretor e salvar a nossa lei!

E logo, de todos os lados, foi um supplicar ancioso:

-Rabbi, falla ao Pretor! Rabbi, salva Israel!

Lentamente o velho erguia-se, magestoso como um grande Moysés. E diante d'elle um Levita, muito pallido, vergava os joelhos, murmurava a tremer:

-Rabbi, tu és justo, sabio, perfeito e forte diante do Senhor!

Rabbi Robam levantou as duas m?os abertas para o céo: e todos se curvaram como se o espirito de Jehovah, obedecendo á muda invoca??o, tivesse descido para encher aquelle cora??o justo. Depois, com a m?o da crian?a na sua, poz-se a caminhar em silencio; atraz a turba fazia um rumor de sandalias lassas sobre as lages de marmore.

Parámos, amontoados, diante da porta de cedro-onde o pretoriano cruzára a lan?a, depois de bater as argolas de prata. Os pesados gonzos rangeram; um tribuno do Palacio acudiu tendo na m?o um longo galho de vide. Dentro era uma fria sala, mal alumiada, severa, com os muros forrados de estuques escuros. Ao centro erguia-se pallidamente uma estatua de Augusto, com o pedestal juncado de cor?as de louro e de ramos votivos: dois grandes tocheiros de bronze dourado reluziam aos cantos, na sombra.

Nenhum dos judeus entrou-porque pisar em dia paschal um sólo pag?o era coisa impura diante do Senhor. Sarêas annunciou altivamente ao Tribuno que ?alguns da na??o d'Israel, á porta do Palacio de seus paes, estavam esperando o Pretor.? Depois pesou um silencio, cheio d'anciedade...

Mas dois lictores avan?aram: e logo atraz, caminhando a passos largos, com a vasta toga apanhada contra o peito, Pilatos appareceu.

Todos os turbantes se curvaram, saudando o Procurador da Judêa. Elle parára junto á estatua de Augusto. E, como repetindo o gesto nobre da figura de marmore, estendeu a m?o que segurava um pergaminho enrolado, e disse:

-Que a paz seja comvosco e com as vossas palavras... Fallai!

Sarêas, vogal do Sanhedrin, adiantando-se, declarou que os seus cora??es vinham em verdade cheios de paz... Mas, tendo o Pretor deixado o Pretorio sem confirmar nem annullar a senten?a do Sanhedrin que condemnava Jesus-ben-José-elles se achavam como o homem que vê a uva na vinha, suspensa, sem seccar e sem amadurecer!

Poncius pareceu-me penetrado d'equidade e clemencia.

-Eu interroguei o vosso preso, disse elle; e n?o lhe achei culpa que deva punir o Procurador da Judêa... Antipas Herodes, que é prudente e forte, que pratíca a vossa Lei e ora no vosso Templo, interrogou-o tambem e nenhuma culpa n'elle encontrou... Esse homem diz apenas coisas incoherentes como os que fallam em sonhos... Mas as suas m?os est?o puras de sangue; nem ouvi que elle escalasse o muro do seu visinho... Cesar n?o é um amo inexoravel... Esse homem é apenas um visionario.

Ent?o, com um sombrio murmurio, todos recuaram, deixando Rabbi Robam só no limiar da sala romana. Um brilho de joia tremia na ponta da sua tiára: as suas cans cahindo sobre os vastos hombros coroavam-no de magestade como a neve faz aos montes: as franjas azues do seu manto solto rojavam nas lages, em redor. Devagar, sereno, como se explicasse a Lei aos seus discipulos, ergueu a m?o e disse:

-Official de Cesar, Poncius, muito justo e muito sabio! O homem que tu chamas visionario, ha annos que offende todas as nossas leis e blasphema o nosso Deus. Mas quando o prendemos nós, quando t'o trouxemos nós? Sómente quando o vimos entrar em triumpho pela Porta d'Ouro, acclamado como rei da Judêa. Porque a Judêa n?o tem outro rei sen?o Tiberio: e apenas um sedicioso se proclama em revolta contra Cesar, apressamo-nos a castigal-o. Assim fazemos nós, que n?o temos mandado de Cesar, nem cobramos do seu erario: e tu, official de Cesar, n?o queres que seja castigado o rebelde a teu amo?...

A face larga de Poncius, que uma somnolencia amollecia, relampeou, raiada vivamente de sangue. Aquella tortuosidade de judeus que, execrando Roma, apregoavam agora um zêlo ruidoso por Cesar para poderem, em nome da sua auctoridade, saciar um odio sacerdotal-revoltou a rectid?o do Romano: e a audaciosa admoesta??o foi intoleravel ao seu orgulho. Desabridamente exclamou, com um gesto que os sacudia:

-Cessai! Os procuradores de Cesar n?o vêm aprender a uma colonia barbara da Asia os seus deveres para com Cesar!

Manassés que ao meu lado, já impaciente, puxava a barba, afastou-se com indigna??o. Eu tremi. Mas o soberbo Rabbi proseguiu, mais indifferente á ira de Poncius do que ao balar d'um anho que arrastasse ás aras:

-Que faria o procurador de Cesar em Alexandria se um visionario descesse de Bubastes proclamando-se rei do Egypto? O que tu n?o queres fazer n'esta terra barbara da Asia! Teu amo dá-te a guardar uma vinha, e tu deixas que entrem n'ella e que a vindimem? Para que estás ent?o na Judêa, para que está a sexta legi?o na torre Antonia? Mas o nosso espirito é claro, e a nossa voz é clara e alta bastante, Poncius, para que Cesar a ou?a!...

Poncius deu um passo lento para a porta. E com os olhos faiscantes, cravados n'aquelles judeus que astutamente o iam enla?ando na trama subtil dos seus rancores religiosos:

-Eu n?o receio as vossas intrigas! murmurou surdamente. Elius Lamma é meu amigo!... E Cesar conhece-me bem!

-Tu vês o que n?o está nos nossos cora??es! disse Rabbi Robam, calmo como se conversasse á sombra do seu vergel. Mas nós vemos bem o que está no teu, Poncius! Que te importa a ti a vida ou a morte de um vagabundo de Galilêa?... Se tu n?o queres, como dizes, vingar deuses cuja divindade n?o respeitas, como pódes querer salvar um propheta cujas prophecias n?o crês?... A tua malicia é outra, romano! Tu queres a destrui??o de Judá!

Um estremecimento de cólera, de paix?o devota, passou entre os

Phariseus: alguns palpavam o seio da tunica como procurando uma arma. E

Rabbi Robam continuava, denunciando o Pretor, com serenidade e lentid?o:

-Tu queres deixar impune o homem que prégou a insurrei??o, declarando-se rei n'uma provincia de Cesar, para tentar, pela impunidade, outras ambi??es mais fortes e levar outro Judas de Gamala a atacar as guarni??es de Samaria! Assim preparas um pretexto para abater sobre nós a espada imperial, e inteiramente apagar a vida nacional da Judêa. Tu queres uma revolta para a afogares em sangue, e apresentar-te depois a Cesar como soldado victorioso, administrador sabio, digno d'um proconsulado ou d'um governo na Italia! é a isso que chamaes a fé romana? Eu n?o estive em Roma, mas sei que a isso se chama lá a fé punica... N?o nos supponhas porém t?o simples como um pastor d'Idumêa! Nós estamos em paz com Cesar, e cumprimos o nosso dever condemnando o homem que se revoltou contra Cesar... Tu n?o queres cumprir o teu, confirmando essa condemna??o? Bem! Mandaremos emissarios a Roma, levando a nossa senten?a e a tua recusa, e tendo salvaguardado perante Cesar a nossa responsabilidade, mostraremos a Cesar como procede na Judêa aquelle que representa a lei do Imperio!... E agora, Pretor, pódes voltar ao Pretorio.

-E lembra-te dos Escudos Votivos, gritou Sarêas. Talvez novamente vejas a quem Cesar dá raz?o!

Poncius baixára a face, perturbado. Decerto imaginava já vêr além, n'um claro terra?o junto ao mar de Capreia, Sejanus, Cesonius, todos os seus inimigos, fallando ao ouvido de Tiberio e mostrando-lhe os emissarios do Templo... Cesar, desconfiado e sempre inquieto, suspeitaria logo um pacto d'elle com esse ?rei dos Judeus? para sublevarem uma rica provincia imperial... E assim a sua justi?a e o orgulho em a manter podiam custar-lhe o proconsulado da Judêa! Orgulho e justi?a foram ent?o na sua alma frouxa como ondas um momento altas que uma sobre outra se abatem, se desfazem. Veio até ao limiar da porta, devagar, abrindo os bra?os, como trazido por um impulso magnanimo de concilia??o-e come?ou a dizer, mais branco que a sua toga:

-Ha sete annos que governo a Judêa. Encontrastes-me jámais injusto, ou infiel ás promessas juradas?... Decerto as vossas amea?as n?o me movem... Cesar conhece-me bem... Mas entre nós, para proveito de Cesar, n?o deve haver desaccordo. Sempre vos fiz concess?es! Mais que nenhum outro Procurador desde Coponius tenho respeitado as vossas leis... Quando vieram os dois homens de Samaria polluir o vosso Templo, n?o os fiz eu suppliciar? Entre nós n?o deve haver dissen??es, nem palavras amargas...

Um momento hesitou; depois, esfregando lentamente as m?os, e sacudindo-as, como molhadas n'uma agua impura:

-Quereis a vida d'esse visionario? Que me importa? Tomai-a... N?o vos basta a flagella??o? Quereis a cruz? Crucificai-o... Mas n?o sou eu que derramo esse sangue!

O levita macilento bradou com paix?o:

-Somos nós, e que esse sangue cáia sobre as nossas cabe?as!

E alguns estremeceram-crentes de que todas as palavras têm um poder sobrenatural e tornam vivas as coisas pensadas.

Poncius deixára a sala: o Decuri?o, saudando, cerrou a porta de cedro. Ent?o Rabbi Robam voltou-se, sereno, resplandecente como um justo: e adiantando-se por entre os Phariseus, que se baixavam a beijar-lhe as franjas da tunica-murmurava com uma grave do?ura:

-Antes soffra um só homem do que soffra um povo inteiro!

Limpando as bagas de suor de que a emo??o me alagára a testa, cahi, tremulo, sobre um banco. E, através da minha lassid?o, confusamente distinguia no Pretorio dois legionarios, de cintur?o desapertado, bebendo n'uma grande malga de ferro que um negro ia enchendo com o ?dre suspenso aos hombros; adiante uma mulher bella e forte, sentada ao sol, com os filhos pendurados dos dois peitos nús; mais longe um pegureiro envolto em pelles, rindo e mostrando o bra?o manchado de sangue. Depois cerrei os olhos; um momento pensei na vela que deixára na tenda, ardendo junto ao meu catre, fumarenta e vermelha; por fim ro?ou-me um somno ligeiro... Quando despertei a cadeira curul permanecia vazia-com a almofada de purpura em frente, sobre o marmore, gasta, cavada pelos pés do Pretor; e uma multid?o mais densa enchia, n'um longo rumor de arraial, o velho atrio de Herodes. Eram homens rudes, com capas curtas d'estamenha, sujas de pó, como se tivessem servido de tapetes sobre as lages d'uma pra?a. Alguns traziam balan?as na m?o, gaiolas de rolas; e as mulheres que os seguiam, sordidas e macilentas, atiravam de longe com o bra?o fremente maldi??es ao Rabbi. Outros no emtanto, caminhando na ponta das sandalias, apregoavam baixo coisas infimas e ricas, mettidas no seio entre as dobras dos sai?es-gr?os d'aveia torrada, potes de unguentos, coraes, braceletes de filigrana de Sidon. Interroguei Topsius: e o meu douto amigo, limpando os oculos, explicou-me que eram decerto os mercadores contra quem Jesus, na vespera de Paschoa, erguendo um bast?o, reclamára a estreita applica??o da Lei que interdiz traficos profanos no Templo, fóra dos porticos de Salom?o...

-Outra imprudencia do Rabbi, D. Raposo! murmurou com ironia o fino historiador.

Entretanto, como cahira a sexta hora judaica e findára o trabalho, vinham entrando obreiros das tinturarias visinhas, ennodoados de escarlate ou azul; escribas das synagogas apertando debaixo dos bra?os os seus tabularios; jardineiros com a fouce a tiracollo, o ramo de murta no turbante; alfaiates com uma longa agulha de ferro pendendo da orelha... Tocadores phenicios a um canto afinavam as harpas, tiravam suspiros das flautas de barro: e diante de nós rondavam duas prostitutas gregas de Tiberiade, com perucas amarellas, mostrando a ponta da lingua e sacudindo a roda da tunica d'onde voava um cheiro de mangerona. Os legionarios, com as lan?as atravessadas no peito, apertavam uma cercadura de ferro em torno de Jesus: e eu, agora, mal podia distinguir o Rabbi através d'essa multid?o susurrante, em que as consoantes asperas de Moab e do deserto se chocavam por sobre a molleza grave da falla chaldaica...

Por baixo da galeria veio tilintando uma sineta triste. Era um hortel?o que offerecia n'um cabaz d'esparto, acamados sobre folhas de parra, figos rachados de Bephtagé. Debilitado pelas emo??es, perguntei-lhe, debru?ado no parapeito, o pre?o d'aquelle mimo dos vergeis que os Evangelhos tanto louvam. E o homem, rindo, alargou os bra?os como se encontrasse o esperado do seu cora??o:

-Entre mim e ti, ó creatura d'abundancia que vens d'além do mar, que s?o estes poucos figos? Jehovah manda que os irm?os troquem presentes e ben??os! Estes fructos colhi-os no horto, um a um, á hora em que o dia nasce no Hebron; s?o succulentos e consoladores; poderiam ser postos na mesa de Hannan!... Mas que valem v?s palavras entre mim e ti se os nossos peitos se entendem? Toma estes figos, os melhores da Syria, e que o Senhor cubra de bens aquella que te creou!

Eu sabia que esta offerta era uma cortezia consagrada, em compras e vendas, desde o tempo dos Patriarchas. Cumpri tambem o ceremonial: declarei que Jehovah, o muito forte, me ordenava que com o dinheiro cunhado pelos Principes eu pagasse os fructos da Terra... Ent?o o hortel?o abaixou a cabe?a, cedeu ao mandamento divino; e pousando o cesto nas lages, tomando um figo em cada uma das m?os negras e cheias de terra:

-Em verdade, exclamou, Jehovah é o mais forte! Se elle o manda, eu devo p?r um pre?o a estes fructos da sua bondade, mais d?ces que os labios da esposa! Justo é pois, ó homem abundante, que por estes dois que me enchem as palmas, t?o perfumados e frescos, tu me dês um bom traphik.

Oh Deus magnifico de Judá! O facundo hebreu reclamava por cada figo um tost?o da moeda real da minha patria! Bradei-lhe:-?Irra, ladr?o!? Depois, guloso e tentado, offereci-lhe um drachma por todos os figos que coubessem no forro largo d'um turbante. O homem levou as m?os ao seio da tunica, para a despeda?ar na immensidade da sua humilha??o. E ia invocar Jehovah, Elias, todos os Prophetas seus patronos-quando o sapiente Topsius, enojado, interveio seccamente, mostrando-lhe uma miuda rodella de ferro que tinha por cunho um lirio aberto:

-Na verdade Jehovah é grande! E tu és ruidoso e vazio como o ?dre cheio de vento! Pois pelos figos do cesto inteiro te dou eu este meah. E se n?o queres, conhe?o o caminho dos hortos t?o bem como o do Templo, e sei onde as aguas d?ces de Enrogel banham os melhores pomares... Vai-te!

O homem logo, trepando anciosamente até ao parapeito de marmore, atulhou de figos a ponta do albornoz que eu lhe estendera, carrancudo e digno. Depois, descobrindo os dentes brancos, murmurou risonhamente que nós eramos mais beneficos que o orvalho do Carmello!

Saborosa e rara me parecia aquella merenda de figos de Bephtagé, no palacio de Herodes. Mas apenas nos accommodáramos com a fruta no rega?o, reparei em baixo n'um velhito magro, que cravava em nós humildemente uns olhos ennevoados, queixosos, cheios de cansa?o. Compadecido ia arremessar-lhe figos e uma moeda de prata dos Ptolomeus-quando elle, mergulhando a m?o tremula nos farrapos que mal lhe velavam o peito cabelludo, estendeu-me, com um sorriso macerado, uma pedra que reluzia. Era uma placa oval d'alabastro tendo gravada uma imagem do Templo. E emquanto Topsius doutamente a examinava, o velho foi tirando do seio outras pedras de marmore, d'onyx, de jaspe, com representa??es do Tabernaculo no deserto, os nomes das tribus entalhados, e figuras confusas em relevo simulando as batalhas dos Machabeus... Depois ficou com os bra?os cruzados; e no seu pobre rosto escavado pelos cuidados luzia uma anciedade, como se de nós sómente esperasse misericordia e descanso.

Topsius deduziu que elle era um d'esses Guebros, adoradores do fogo e habeis nas artes, que v?o descal?os até ao Egypto, com fachos accesos, salpicar sobre a Esphinge o sangue d'um gallo negro. Mas o velho negou, horrorisado-e tristemente murmurou a sua historia. Era um pedreiro de Naim, que trabalhára no Templo e nas construc??es que Antipas Herodes erguia em Bezetha. O a?oite dos intendentes rasgára-lhe a carne; depois a doen?a levára-lhe a for?a como a geada sécca a macieira. E agora, sem trabalho, com os filhos de sua filha a alimentar, procurava pedras raras nos montes-e gravava n'ellas nomes santos, sitios santos, para as vender no Templo aos fieis. Em vespera de Paschoa, porém, viera um Rabbi de Galilêa cheio de cólera que lhe arrancára o seu p?o!...

-Aquelle! balbuciou suffocado, sacudindo a m?o para o lado de Jesus.

Eu protestei. Como lhe poderia ter vindo a injusti?a e a d?r d'esse

Rabbi, de cora??o divino, que era o melhor amigo dos pobres?

-Ent?o vendias no Templo? perguntou o terso historiador dos Herodes.

-Sim, suspirou o velho, era lá, pelas festas, que eu ganhava o p?o do longo anno! N'esses dias subia ao Templo, offertava a minha prece ao Senhor, e junto á porta de Suza, diante do Portico do Rei, estendia a minha esteira e dispunha as minhas pedras que brilhavam ao sol... Decerto, eu n?o tinha direito de p?r alli tenda: mas como poderia eu pagar ao Templo o aluguer de um covado de lagedo para vender o trabalho das minhas m?os! Todos os que apreg?am á sombra, debaixo do portico, sobre taboleiros de cedro, s?o mercadores ricos que podem satisfazer a licen?a: alguns pagam um siclo d'ouro. Eu n?o podia com crian?as em casa sem p?o... Por isso ficava a um canto, fóra do portico, no peor sitio. Alli estava bem encolhido, bem calado; nem mesmo me queixava quando homens duros me empurravam ou me davam com os bast?es na cabe?a. E ao pé de mim havia outros, pobres como eu: Eboim, de Joppé, que offerecia um oleo para fazer crescer os cabellos, e Osêas, de Ramah, que vendia flautas de barro... Os soldados da Torre Antonia que fazem a ronda passavam por nós e desviavam os olhos. Até Menahem, que estava quasi sempre de guarda pela Paschoa, nos dizia:-?está bem, ficai, comtanto que n?o apregoeis alto.? Porque todos sabiam que eramos pobres, n?o podiamos pagar o covado de lage, e tinhamos nas nossas moradas crian?as com fome... Na Paschoa e nos Tabernaculos vêm da terra distante peregrinos a Jerusalem; e todos me compravam uma imagem do Templo para mostrar na sua aldeia, ou uma das pedras da lua que afugentam o demonio... ás vezes, ao fim do dia, tinha feito tres drachmas; enchia o sai?o de lentilha e descia ao meu casebre, alegre, cantando os louvores do Senhor!...

Eu, d'enternecido, esquecera a merenda. E o velho desafogava o seu longo queixume:

-Mas eis que ha dias esse Rabbi de Galilêa apparece no Templo, cheio de palavras de cólera, ergue o bast?o e arremessa-se sobre nós, bradando que aquella ?era a casa de seu pai, e que nós a polluiamos!...? E dispersou todas as minhas pedras, que nunca mais vi, que eram o meu p?o! Quebrou nas lages os vasos d'oleo d'Eboim, de Joppé, que nem gritava, espantado. Acudiram os guardas do Templo. Menahem acudiu tambem; até, indignado, disse ao Rabbi:-?és bem duro com os pobres. Que auctoridade tens tu?? E o Rabbi fallou ?de seu pai?, e reclamou contra nós a lei severa do Templo. Menahem baixou a cabe?a... E nós tivemos de fugir, apupados pelos mercadores ricos, que bem encruzados nos seus tapetes de Babylonia, e com o seu lagedo bem pago, batiam palmas ao Rabbi... Ah! contra esses o Rabbi nada podia dizer: eram ricos, tinham pago!... E agora aqui ando! Minha filha, viuva e doente, n?o póde trabalhar, embrulhada a um canto nos seus trapos: e os filhos de minha filha, pequeninos, têm fome, olham para mim, vêem-me t?o triste e nem choram. E que fiz eu? Sempre fui humilde, cumpro o Sabbat, vou á synagoga de Naim que é a minha, e as raras migalhas que sobravam do meu p?o juntava-as para aquelles que nem migalhas têm na terra... Que mal fazia eu vendendo? Em que offendia o Senhor? Sempre, antes de estender a esteira, beijava as lages do Templo: cada pedra era purificada pelas aguas lustraes... Em verdade Jehovah é grande, e sabe... Mas eu fui expulso pelo Rabbi, sómente porque sou pobre!

Calou-se-e as suas m?os magras, tatuadas de linhas magicas, tremiam, limpando as longas lagrimas que o alagavam.

Bati no peito, desesperado. E a minha angustia toda era por Jesus ignorar esta desgra?a, que, na violencia do seu espiritualismo, suas m?os misericordiosas tinham involuntariamente creado, como a chuva benefica por vezes, fazendo nascer a sementeira, quebra e mata uma fl?r isolada. Ent?o para que n?o houvesse nada imperfeito na sua vida, nem d'ella ficasse uma queixa na terra-paguei a divida de Jesus (assim seu Pai perd?e a minha!) atirando para o sai?o do velho moedas consideraveis, drachmas, crysos gregos de Philippe, aureos romanos d'Augusto, até uma grossa pe?a da Cyrenaica que eu estimava por ter uma cabe?a de Zeus Amnon que parecia a minha imagem. Topsius juntou a este thesouro um lepta de cobre-que tem em Judêa o valor d'um gr?o de milho...

O velho pedreiro de Naim empallidecia, suffocado. Depois, com o dinheiro n'uma dobra do sai?o, bem apertado contra o peito, murmurou timida e religiosamente, erguendo os olhos ainda molhados para as alturas:

-Pai, que estás nos céos, lembra-te da face d'este homem, que me deu o p?o de longos dias!...

E solu?ando sumiu-se entre a turba-que agora de todo o atrio rumorosamente affluia, se apinhava em torno aos mastros altos do velario. O escriba apparecera, mais vermelho e limpando os bei?os. Ao lado do Rabbi e dos guardas do Templo, Sarêas viera perfilar-se encostado ao seu baculo. Depois, entre um brilho d'armas, surgiram as varas brancas dos lictores: e novamente Poncius, pallido e pesado, na sua vasta toga, subiu os degraus de bronze, retomou o o Assento Curul.

Um silencio cahiu, t?o attento, que se ouviam as bozinas tocando ao longe na Torre Marianna. Sarêas desenrolou o seu escuro pergaminho, estendeu-o sobre a mesa de pedra entre os tabularios: e eu vi as m?os gordas e morosas do escriba tra?arem uma rubrica, estamparem um sêllo sob as linhas vermelhas que condemnavam á morte Jesus de Galilêa, meu Senhor... Depois Poncius Pilatus, com uma dignidade indolente, erguendo apenas de leve o bra?o nú, confirmou em nome de Cesar a ?senten?a do Sanhedrin, que julga em Jerusalem...?

Immediatamente Sarêas atirou sobre o turbante uma ponta do manto, ficou orando, com as m?os abertas para o céo. E os Phariseus triumphavam: junto a nós, dois muito velhos beijavam-se em silencio nas barbas brancas: outros sacudiam no ar os bast?es, ou lan?avam sarcasticamente a acclama??o forense dos romanos: ?Bene et belle! Non potest melius!?

Mas de subito o Interprete appareceu em cima d'um escabello, alteando sobre o peito o seu papagaio flammante. A turba emmudecera, surprehendida. E o phenicio, depois de ter consultado com o escriba, sorriu, gritou em chaldaico, alargando os bra?os cercados de manilhas de coral:

-Escutai! N'esta vossa festa de Paschoa, o Pretor de Jerusalem costuma, desde que Valerius Gratus assim o determinou, e com assenso de Cesar, perdoar a um criminoso... O Pretor prop?e-vos o perd?o d'este... Escutai ainda! Vós tendes tambem o direito de escolher, vós mesmos, entre os condemnados... O Pretor tem em seu poder, nos ergastulos de Herodes, outro sentenciado á morte...

Hesitou,-e debru?ado do escabello interrogava de novo o escriba que remexia n'uma ataranta??o os papyros e os tabularios. Sarêas, sacudindo a ponta do manto que escondia a sua ora??o, ficára assombrado para o Pretor, com as m?os abertas no ar. Mas já o Interprete bradava, erguendo mais a face risonha:

-Um dos condemnados é Rabbi Jeschoua, que ahi tendes, e que se disse filho de David... é esse que prop?e o Pretor. O outro, endurecido no mal, foi preso por ter morto um legionario trai?oeiramente, n'uma rixa, ao pé do Xistus. O seu nome é Bar-Abbás... Escolhei!

Um grito brusco e roufenho partiu d'entre os Phariseus:

-Bar-Abbás!

Aqui e além, pelo atrio, confusamente resoou o nome de Bar-Abbás. E um escravo do Templo, de sai?o amarello, pulando até aos degraus do sólio, rompeu a berrar, em face de Poncius, com palmadas furiosas nas c?xas:

-Bar-Abbás! Ouve bem! Bar-Abbás! O povo só quer Bar-Abbás!

A haste d'um legionario fel-o rolar nas lages. Mas já toda a multid?o, mais leve e facil d'inflammar do que a palha na meda, clamava por Bar-Abbás: uns com furor, batendo as sandalias e os cajados ferrados como para aluir o Pretorio; outros de longe, encruzados ao sol, indolentes e erguendo um dedo. Os vendilh?es do Templo, rancorosos, sacudindo as balan?as de ferro e repicando sinetas, berravam, por entre maldi??es ao Rabbi: ?Bar-Abbás é o melhor!? E até as prostitutas de Tiberiade, pintadas de vermelh?o como idolos, feriam o ar de gritos silvantes:

-Bar-Abbás! Bar-Abbás!

Raros alli conheciam Bar-Abbás; muitos, de certo, n?o odiavam o Rabbi-mas todos engrossavam o tumulto promptamente, sentindo, n'essa reclama??o do preso que atacára Legionarios, um ultraje ao Pretor romano, togado e augusto no seu tribunal. Poncius no entanto, indifferente, tra?ava letras n'uma vasta lauda de pergaminho pousada sobre os joelhos. E em torno os clamores disciplinados retumbavam em cadencia, como malhos n'uma eira:

-Bar-Abbás! Bar-Abbás! Bar-Abbás!

Ent?o Jesus, vagarosamente, voltou-se para aquelle mundo duro e revoltoso que o condemnava: e nos seus refulgentes olhos humedecidos, no fugitivo tremor dos seus labios, só transpareceu n'esse instante uma mágua misericordiosa pela opaca inconsciencia dos homens, que assim empurravam para a morte o melhor amigo dos homens... Com os pulsos presos, limpou uma gotta de suor: depois ficou diante do Pretor, t?o imperturbado e quêdo, como se já n?o pertencesse á terra.

O escriba, batendo com uma regra de ferro na pedra da mesa, tres vezes bradára o nome de Cesar. O tumulto ardente esmorecia. Poncius ergueu-se: e grave, sem trahir impaciencia ou cólera, lan?ou, sacudindo a m?o, o mandado final:

-Ide e crucificai-o!

Desceu o estrado; a turba batia ferozmente as palmas.

Oito soldados da cohorte Syriaca appareceram, apetrechados em marcha, com os escudos revestidos de lona, as ferramentas entrouxadas, e o largo cantil da posca. Sarêas, vogal do Sanhedrin, tocando no hombro de Jesus, entregou-o ao decuri?o: um soldado desapertou-lhe as cordas, outro tirou-lhe o albornoz de l?: e eu vi o d?ce Rabbi de Galilêa dar o seu primeiro passo para a morte.

Apressados, enrolando o cigarro, deixámos logo o palacio de Herodes por uma passagem que o douto Topsius conhecia, lobrega e humida, com fendas gradeadas d'onde vinha um canto triste de escravos encarcerados... Sahimos a um terreiro, abrigado pelo muro d'um jardim todo plantado de cyprestes. Dois dromedarios deitados no pó ruminavam, junto d'um mont?o d'hervas cortadas. E o alto historiador tomava já o caminho do Templo, quando, sob as ruinas d'um arco que a hera cobria, vimos povo apinhado em torno d'um Essenio, cujas mangas d'alvo linho batiam o ar como as azas d'um passaro irritado.

Era Gad, rouco d'indigna??o, clamando contra um homem esgrouviado, de barba rala e ruiva, com grossas argolas de ouro nas orelhas, que tremia e balbuciava:

-N?o fui eu, n?o fui eu...

-Foste tu! bradava o Essenio, estampando a sandalia na terra. Conhe?o-te bem. Tua m?i é cardadeira em Capárnaum, e maldita seja pelo leite que te deu!...

O homem recuava, baixando a cabe?a, como um animal encurralado á for?a:

-N?o fui eu! Eu sou Rephrahim, filho de Eliesar, de Ramah! Sempre todos me conheceram s?o e forte como a palmeira nova!

-Torto e inutil eras tu como um sarmento velho de vide, c?o e filho d'um c?o! gritou Gad. Vi-te bem... Foi em Capárnaum, na viella onde está a fonte, ao pé da Synagoga, que tu appareceste a Jesus, Rabbi de Nazareth! Beijavas-lhe as sandalias, dizias ?Rabbi, cura-me! Rabbi, vê esta m?o que n?o póde trabalhar!? E mostravas-lhe a m?o, essa, a direita, secca, mirrada e negra, como o ramo que definhou sobre o tronco! Era no Sabbath: estavam os tres chefes da Synagoga, e Elzear, e Simeon. E todos olhavam Jesus para vêr se elle ousaria curar no dia do Senhor... Tu choravas, de rojo no ch?o. E por acaso o Rabbi repelliu-te? Mandou-te procurar a raiz do baraz? Ah c?o, filho d'um c?o! O Rabbi, indifferente ás accusa??es da Synagoga, e só escutando a sua misericordia, disse-te: ?estende a m?o!? Tocou-a, e ella reverdeceu logo como a planta regada pelo orvalho do céo! Estava s?, forte, firme; e tu movias ora um dedo, ora outro, espantado e tremendo.

Um murmurio d'enlevo correu entre a multid?o, maravilhada pelo d?ce milagre. E o Essenio exclamava, com os bra?os tremulos no ar:

-Assim foi a caridade do Rabbi! E estendeu-te elle a ponta do manto, como fazem os Rabbis de Jerusalem, para que lhe deitasses dentro um siclo de prata? N?o. Disse aos seus amigos que te dessem da provis?o de lentilha... E tu largaste a correr pelo caminho, refeito e agil, gritando para o lado da tua casa: ?Oh m?i, oh m?i, estou curado!...? E foste tu, porco e filho de porco, que ha pouco no Pretorio pedias a cruz para o Rabbi e gritavas por Bar-Abbás! N?o negues, bocca immunda; eu ouvi-te; estava por traz de ti, e via incharem-te as cordoveias do pesco?o com o furor da tua ingratid?o!

Alguns, escandalisados, gritavam: ?maldito! maldito!? Um velho, com justiceira gravidade, apanhára duas grossas pedras. E o homem de Capárnaum, encolhido, esmagado, ainda rosnou surdamente:

-N?o fui eu, n?o fui eu... Eu sou de Ramah!

Gad, furioso, agarrou-o pelas barbas:

-N'esse bra?o, quando o arrega?aste diante do Rabbi, todos te viram duas cicatrizes curvas como de dois golpes de foice!... E tu vaes mostral-as agora, c?o e filho d'um c?o!

Despeda?ou-lhe a manga da tunica nova; arrastou-o em redor, apertado nas suas m?os de bronze, como um bode teimoso; mostrou bem as duas cicatrizes, lividas no pêllo ruivo; e assim o arremessou desprezivelmente para entre o povo-que, levantando o pó do caminho, perseguiu o homem de Capárnaum com apupos e com pedradas...

Acercamo-nos de Gad sorrindo, louvando a sua fidelidade a Jesus. Elle, acalmado, estendera as m?os a um vendedor d'agua, que lh'as purificava com um largo jorro do seu ?dre felpudo: depois limpando-as á toalha de linho que lhe pendia do cinto:

-Escutai! José de Ramatha reclamou o corpo do Rabbi, o Pretor concedeu-lh'o... Esperai-me á nona hora romana no pateo de Gamaliel... Onde ides?

Topsius confessou que iamos ao Templo, por motivos intellectuaes d'arte, d'archeologia...

-V?o é aquelle que admira pedras! rosnou o altivo idealista.

E afastou-se puxando o capuz sobre a face, por entre as ben??os do povo que crê e ama os Essenios.

* * * * *

Para poupar, até ao Templo, a rude caminhada pelo Tyropêo e pela ponte do Xistus, tomámos duas liteiras-das que um liberto de Poncius ultimamente alugava, junto ao Pretorio, ?á moda de Roma?.

Can?ado, estirei-me, com as m?os sob a nuca, no colch?o de folhas seccas que cheirava a murta: e lentamente come?ou a invadir-me a alma uma inquieta??o estranha, temerosa, que já no Pretorio me ro?ára de leve como a aza arripiada d'uma ave agourenta... Ia eu ficar para sempre n'esta cidade forte dos Judeus? Perdera eu irremediavelmente a minha individualidade de Raposo, de catholico, de bacharel, contemporaneo do Times e do Gaz-para me tornar um homem da Antiguidade classica, coevo de Tiberio? E, dado este mirifico retrogresso nos tempos, se voltasse á minha patria, que iria eu encontrar á beira do rio claro?...

Decerto encontraria uma colonia romana: na encosta da collina mais fresca uma edifica??o de pedra onde vive o proconsul; ao lado um templo pequeno de Apollo ou de Marte coberto de lousa; nos altos um campo entrincheirado onde est?o os legionarios; e em redor a villa lusitana, esparsa, com os seus caminhos agrestes, cabanas de pedra solta, alpendres para recolher o gado, e estacadas no lodo onde se amarram jangadas... Assim encontraria a minha patria. E que faria lá, pobre, solitario? Seria pastor nos montes? Varreria as escadarias do Templo, racharia a lenha das cohortes para ganhar um salario romano?... Miseria incomparavel!

Mas se ficasse em Jerusalem? Que carreira tomaria n'esta sombria, devota cidade da Asia? Tornar-me-hia um Judeu, resando o Schema, cumprindo o Sabbath, perfumando a barba de nardo, indo pregui?ar nos atrios do Templo, seguindo as li??es d'um Rabbi, e passeando ás tardes, com um bast?o dourado, nos jardins de Gareb entre os tumulos?... E esta existencia igualmente me parecia pavorosa!... N?o! a ficar encarcerado no mundo antigo com o doutissimo Topsius, ent?o deveriamos galopar n'essa mesma noite, ao erguer da lua, para Joppé; de lá embarcar em qualquer trirema phenicia que partisse para Italia; e ir habitar Roma, ainda que fosse n'uma das escuras viellas do Velabro, n'uma d'essas altas, fumarentas trapeiras, com duzentas escadas a subir, empestadas pelos guisados d'alho e tripa, que escassamente atravessam duas calendas sem desabar ou arder.

Assim me inquietava quando a liteira parou; descerrei as cortinas; vi ante mim os vastos granitos da muralha do Templo. Penetrámos sob a abobada da porta de Huldah; e f?mos logo detidos emquanto os guardas do Templo arrancavam a um pegureiro, teimoso e rude, a clava armada de prégos com que elle queria atravessar o Santuario. O rolante rumor que vinha de longe, dos Atrios, já me atemorisava, semelhante ao d'uma selva ou d'um grande mar irritado...

E ao emergir emfim da abobada estreita agarrei o bra?o magro do Historiador dos Herodes, no deslumbramento que me tornou, intenso e repassado de terror! Um brilho de neve e ouro vibrava profusamente no ar molle, irradiado dos claros marmores, dos granitos brunidos, dos recamos preciosos banhados pelo divino sol de Nizam. Os lisos pateos que eu de manh? vira desertos, alvejando como a agua quieta d'um lago, desappareciam agora sob o povo que os atulhava, adornado e festivo. Os cheiros estonteavam, acres, emanados dos estofos tingidos, das resinas aromaticas, da gordura frigindo em brazas. Sobre o denso ruido passavam roucos mugidos de bois. E perennemente os fumos votivos se sumiam na refulgencia do céo...

-Caramba! murmurei, enfiado. Isto s?o magnificencias de entupir!

F?mos penetrando sob os Porticos de Salom?o, onde resoava o profano tumulto d'um mercado. Por traz de grossas caixas gradeadas encruzavam-se os Cambistas, com uma moeda d'ouro pendente da orelha entre as melenas sordidas, trocando o dinheiro sacerdotal do Templo pelas moedas pag?s de todas as regi?es, de todas as idades, desde as macissas rodellas do velho Lacio mais pesadas que broqueis, até aos tijolos gravados que circulam, como ?notas? nas feiras da Assyria. Adiante, brilhava a frescura e abundancia d'um pomar: as rom?s, estaladas de maduras, trasbordavam dos gigos: hortel?es com um ramo d'amendoeira preso ao carapu?o apregoavam grinaldas d'anemonas ou hervas amargas de Paschoa: jarras de leite puro pousavam sobre saccos de lentilha; e os cordeiros, deitados nas lages, amarrados pelas patas ás columnas, balavam tristemente de sêde.

Mas a multid?o sobretudo apinhava-se, com suspiros de cubi?a, em torno aos tecidos e ás joias. Mercadores das colonias phenicias, das Ilhas gregas, de Tardis, da Mesopotamia, de Tadmor, uns com soberbas simarras de l? bordada, outros com toscos tabardos de couro pintado, desdobravam os panos azues de Tyro que reproduzem o brilho ardente dos céos do Oriente, as sêdas impudicas de Sheba d'uma transparencia verde que v?a na aragem, e esses estofos solemnes de Babylonia que sempre me extasiavam, negros com largas fl?res c?r de sangue... Dentro de cofres de cedro, espalhados sobre tapetes da Galacia, reluziam espelhos de prata simulando a lua e os seus raios, sinetes de turmalina que os hebreus usam ao peito, manilhas de pedrarias enfiadas em cornos d'antilopes, diademas de sal-gema com que se enfeitam os noivos; e, resguardadas mais preciosamente, talismans e amuletos que me pareciam pueris, peda?os de raizes, pedregulhos negros, couros tisnados e ossos com letras.

Topsius ainda parou entre as tendas dos perfumistas apre?ando um esplendido bast?o de Tylos, d'uma rara madeira mosqueada como a pelle do tigre, mas logo fugimos ao ardente cheiro que alli suffocava, vindo das resinas, das gommas dos paizes dos Negros, dos mólhos de plumas de abestruz, da mirrha d'Oronte, das ceras de Cirenaica, dos oleos rosados de Cysico, e das grandes coifas de pelle d'hyppopotamo cheias de violetas seccas e de folhas de baccaris...

Entrámos ent?o na galeria chamada Real, toda votada á Doutrina e á Lei. Ahi, cada dia, tumultuam rancorosamente as controversias entre Sadduceus, Escribas, Sophorins, Phariseus, sectarios de Schemaia, sectarios de Hillel, Juristas, Grammaticos, fanaticos de toda a terra judaica. Junto ás columnas de marmore installavam-se os Mestres da Lei, sobre altos escabellos, tendo ao lado um prato de metal onde cahiam os óbolos dos fieis: e em torno, encruzados no ch?o, com as sandalias ao pesco?o, as pellicas cobertas de letras vermelhas desdobradas nos joelhos, os discipulos, imberbes ou decrepitos, resmoneavam os dictames balan?ando os hombros lentos. Aqui e além, no meio de devotos embebidos, dois doutores disputavam, com as faces assanhadas, sobre temerosos pontos da Doutrina. ?Póde-se comer um ovo de gallinha posto no dia de Sabbath? Por que osso da espinha dorsal come?a a Resurrei??o?? O philosophico Topsius ria, disfar?ado n'uma préga da capa: mas eu tremia quando os doutores, escaveirados e barbudos, se amea?avam, gritavam racca! racca! mergulhando a m?o no seio da tunica á procura d'um ferro escondido.

A cada momento cruzavamos esses Phariseus, resoantes e vazios como tambores, que vêm ao Templo assoalhar a sua piedade-uns com as costas vergadas, esmagadas pela vastid?o do peccado humano; outros, trope?ando e apalpando o ar, d'olhos fechados, para n?o vêr as fórmas impuras das mulheres; alguns mascarrados de cinza, gemendo, com as m?os apertadas sobre o estomago-em testemunho dos seus duros jejuns! Depois Topsius mostrou-me um Rabbi, interpretador de sonhos: n'um car?o livido e chupado os seus olhos fundos luziam com a tristeza de lampadas de sepulchro: e, sentado sobre saccos de l?, estendia por cima de cada devoto, que vinha ajoelhar aos seus pés nús, a ponta d'um vasto manto negro com signos brancos pintados. Eu, curioso, pensava em o consultar-quando de repente gritos afflictos resoaram no atrio. Corremos. Eram levitas, com cordas e vergas, chibatando furiosamente um leproso que, em estado de impureza, penetrára no pateo de Israel. O sangue salpicava as lages. Em torno crian?as riam.

Ia cahindo a sexta hora judaica, a mais grata ao Senhor, quando o sol, na sua marcha para o mar, pára sobre Jerusalem a contemplal-a com paix?o: e, para nos acercarmos do ?atrio d'Israel?, fomos penosamente fendendo a multid?o que alli remoinhava vinda de toda a terra culta e barbara... O rude sai?o de pelles dos pegureiros das Idumêas ro?ava a chlamyde curta dos gregos de face rapada e mais brancos que marmores. Havia homens solemnes da planicie de Babylonia, com as barbas mettidas dentro de saccos azues que uma corrente de prata lhes prendia ás mitras de couro pintado: e havia gaulezes ruivos, de bigodes pendentes como as hervas das suas lag?as, que riam e parolavam, devorando com a casca os lim?es d?ces da Syria. Por vezes um romano togado passava, t?o grave como se descesse d'um pedestal. Gente da Dacia e da Mysia, com as pernas enfeixadas em ligaduras de feltro, trope?ava deslumbrada pelo claro esplendor dos marmores. E n?o era menos estranho ir eu, Theodorico Raposo, arrastando alli as minhas botas de montar, atraz d'um Sacerdote de Moloch, enorme e sensual na sua simarra de purpura, que, em meio d'um bando de mercadores de Serepta, desdenhava d'aquelle templo sem imagens, sem bosques, e mais ruidoso que uma feira phenicia.

Assim lentamente nos fomos chegando á porta chamada ?A Bella?, que dava accesso para o Atrio sagrado d'Israel. Bella em verdade, preciosa e triumphal, sobre os quatorze degraus de marmore verde de Numidia, mosqueado de amarello: os seus largos batentes, revestidos de chapas de prata, faiscavam como os d'um reliquario: e os dois humbraes, semelhantes a grossos mólhos de palmas, sustentavam uma torre, redonda e branca, guarnecida de escudos tomados aos inimigos de Judá, brilhantes no sol como um collar de gloria sobre o pesco?o forte d'um heroe! Mas diante d'este adito maravilhoso erguia-se severamente um pilar, encimado por uma placa negra com letras d'ouro, onde se desenrolava esta amea?a em grego, em latim, em aramaico, em chaldaico: que nenhum Estrangeiro aqui penetre sob pena de morrer!

Fortunadamente avistámos o magro Gamaliel que se encaminhava ao Santo Pateo, descal?o, apertando ao peito um mólho d'espigas votivas: com elle vinha um homem nedio e risonho, de face c?r de papoula, coroado por uma enorme mitra de l? negra enfeitada de fios de coral... Curvados até ás lages, saudámos o austero Doutor da Lei. Elle psalmodiou logo, de palpebras cerradas:

-Sêde bemvindos... Esta é a hora melhor para receber a ben??o do Senhor. O Senhor disse: ?sahi das vossas habita??es, vinde a mim com as primicias dos vossos fructos, eu vos aben?oarei em todas as obras das vossas m?os...? Vós hoje pertenceis miraculosamente a Israel. Subi á morada do Eterno! Este que vem a meu lado é Eliezer de Silo, benefico e sabio entre todos nas coisas da natureza.

Deu-nos duas espigas de milho: e atraz d'elle pisámos com as nossas solas gentilicas o Adro interdicto de Judá.

Caminhando ao meu lado, Eliezer de Silo, cortez e suave, perguntou-me se era remota a minha patria e perigosos os seus caminhos...

Eu rosnei, vaga e recatadamente:

-Sim... Chegamos de Jerichó.

-Boa, por lá, a colheita do balsamo?

-Rica! afiancei, com calor. Louvado seja o Eterno, que n'este seu anno de gra?a estamos lá abarrotadinhos de balsamo!

Elle pareceu regosijado. E revelou-me ent?o que era um dos Medicos que residem no Templo-onde os Sacerdotes e os Sacrificadores soffrem perennemente ?dissabores intestinaes?, por pisarem suados e descal?os as lages frias dos Adros.

-Por isso, murmurou elle com uma faisca alegre no olho benigno, o povo em Si?o nos chama Doutores da Tripa!

Torci-me de riso, de gozo, com aquella jocosidade assim susurrada na austera morada do Eterno... Depois, recordando os meus dissabores intestinaes em Jerichó, por muito amar os divinos e perfidos mel?es da Syria-perguntei ao amavel Physico se n'essas occorrencias elle preconisava o bismutho...

O homem magistral abanou cautamente a sua mitra bojuda. Depois, espetando um dedo no ar, segredou-me esta receita incomparavel:

-Tomai gomma de Alexandria, a?afr?o de jardim, uma cebola da Persia e vinho negro de Emmaus... Misturai, cozei... Deixai esfriar n'um vaso de prata... Collocai-vos n'uma encruzilhada, ao nascer do sol...

Mas emmudeceu subitamente, com os bra?os abertos e a face pendida para as lages. Penetráramos no soberbo adro, chamado ?Pateo das Mulheres?: e n'esse instante terminavam as Ben??os que á sexta hora um sacerdote vem alli derramar do alto da porta de Nicanor.

Severa, toda de bronze-ella deixava entrevêr, lá ao fundo, os ouros, a neve, as pedrarias do Santuario refulgindo com serenidade... Nos largos degraus, mais lustrosos que alabastro, desenrolavam-se duas collegiadas de levitas, ajoelhados e vestidos de branco-uns com uma trompa recurva, outros pousando os dedos sobre as cordas mudas de lyras. E, por entre estas alas de homens prostrados, um grande velho emmaciado vinha descendo devagar os degraus, com um incensador de ouro na m?o...

A sua tunica justa de byssus tinha a fimbria orlada de pinhas d'esmeralda, alternando com guizos que tiniam finamente; os pés sem sandalias e tingidos d'heneh pareciam de coral; e ao meio da facha que lhe cingia as costellas magras brilhava, bordado a ouro, um grande sol. Os fieis ajoelhados, quedos, sem um murmurio, quasi pousavam nas lages a cabe?a escondida sob os mantos e sob os véos: e com as c?res festivas, onde dominava o vermelho da anemona e o verde da figueira, era como se o adro estivesse juncado de fl?res e folhagens, n'uma manh? de triumpho, para passar Salom?o!

Com a barba aguda e dura levantada aos céos-o velho incensou o lado do Oriente e das areias, depois o lado do Occidente e dos mares; e o recolhimento era t?o enlevado que se ouviam no fundo do Santuario os mugidos lentos dos bois. Desceu ainda, al?ou mais a mitra salpicada de joias, atirou o incensador que rangeu faiscando ao sol-e com o fumo branco veio rolando tenue e cheirosa, sobre Israel, a ben??o do Muito-Forte. Ent?o os levitas, unisonamente, feriram as cordas das lyras: das trombetas curvas subiu um grito de bronze: e todo o povo erguido, com os bra?os ao céo, entoou um psalmo celebrando a eternidade de Judá... E subitamente tudo cessou: os Levitas recolhiam pela escadaria de marmore sem um rumor dos pés nús: Eliezer de Silo e o rigido Gamaliel tinham desapparecido sob os Porticos: e o claro pateo em redor resplandecia sumptuoso e cheio de mulheres.

Os revestimentos de alabastro eram t?o lustrosos que Topsius mirava n'elles como n'um espelho as pregas nobres da sua capa: todos os fructos da Asia e as fl?res dos vergeis se entrela?avam, em copiosos lavores de prata, nas portas das camaras rituaes onde se perfuma o oleo, se consagra a lenha, se purifica a lepra: entre as columnas pendiam em fest?es fios grossos de perolas e de contas d'onyx, mais numerosos que no peito de uma noiva: e nos mealheiros de bronze, semelhantes a trombetas de guerra colossaes, pousadas nas lages, enrolavam-se, scintillando e reclamando as dadivas, inscrip??es em relevo de ouro, graciosas como versos de canticos-Queimai Incensos e Nardos, Offertai Pombas e R?las...

Mas o santo adro resplandecia de mulheres: e meus olhos bem depressa deixaram metaes e marmores, para captivadamente se prenderem áquellas filhas de Jerusalem, cheias de gra?a e morenas como as tendas do Cedar! Todas traziam no Templo o rosto descoberto: ou apenas um f?fo véo, d'uma musselina leve como o ar, á moda romana, enrodilhado finamente no turbante, punha em torno das faces uma alvura d'espuma, onde os olhos negros tomavam um quebranto mais humido, enlanguecidos pelas densas pestanas, alongados pela tintura de cypro. A abundancia barbara dos ouros, das pedrarias, envolvia-as n'uma radiancia tremula desde os peitos fortes até aos cabellos mais crespos que a l? das cabras de Galaad. As sandalias, ornadas de guizos e de correntes, arrastavam sobre as lages uma melodia argentina, tanta era a gra?a concertada dos seus movimentos ondulados e graves: e os tecidos bordados, os algod?es de Galacia, os finos linhos de c?res que as cingiam, ensopados nas escencias ardentes d'ambar, de malobathro e de baccaris, enchiam o ar de fragancia e de molleza a alma dos homens. As mais ricas caminhavam solemnemente entre escravas vestidas de panos amarellos, que lhes traziam o párasol de pennas de pav?o, os rolos devotos em que está escripta a Lei, saccos de tamaras d?ces, espelhos ligeiros de prata. As mais pobres, com uma simples camisa de algod?o de riscadinho multic?r, e sem mais joias que um rude talisman de coral, corriam, chalravam, mostrando nús os bra?os e o collo c?r de medronho mal maduro... E sobre todas o meu desejo zumbia-como uma abelha que hesita entre fl?res de igual do?ura!

-Ai Topsius, Topsius! rosnava eu. Que mulheres! Que mulheres! Eu estoiro, esclarecido amigo!

O sabio affirmava com desdem que ellas n?o tinham mais intellectualidade que os pav?es dos jardins d'Antipas; e que nenhuma decerto alli lêra Aristoteles ou Sophocles!... Eu encolhia os hombros. Oh esplendor dos céos! por qual d'estas mulheres que n?o lêra Sophocles n?o daria eu, se fosse Cesar, uma cidade de Italia e toda a Iberia! Umas entonteciam-me pela sua gra?a dolente e macerada de virgens de devo??o, vivendo na penumbra constante dos quartos de cedro, com o corpo saturado de perfumes, a alma esmagada de ora??es. Outras deslumbravam-me pela sumptuosidade solida e succulenta da sua belleza. Que largos, escuros olhos d'idolos! Que claros, macios membros de marmore! Que sombria molleza! Que nudezes magnificas, quando á beira do leito baixo se lhes desenrolassem os cabellos pesados, e fossem d?cemente escorregando os véos e os linhos de Galacia!...

Foi necessario que Topsius me arrastasse pelo albornoz para a escadaria de Nicanor. E ainda estacava a cada degrau, alongando para traz os olhos esbrazeados, resfolgando como um touro em maio nas lezirias.

-Ai, filhinhas de Si?o! Que sois de vos deixar aqui os miolos!

Ao voltar-me, puxado pelo douto Historiador, bati no focinho d'um cordeiro branco que um velho conduzia ás costas, amarrado pelas patas e enfeitado de rosas. Em frente corria uma longa balaustrada de cédro lavrado-onde uma cancella toda de prata, aberta e lassa nos seus gonzos, se movia em silencio, faiscando.

-é aqui, disse o erudito Topsius, que se d?o a beber as aguas amargas ás mulheres adulteras... E agora, D. Raposo, ahi tem Israel adorando o seu Deus.

Era emfim o Adro Sacerdotal! E eu estremeci diante d'aquelle Santuario entre todos monstruoso e deslumbrante. Ao meio do vasto e claro terrado erguia-se, feito de enormes pedras negras, o altar dos Holocaustos: aos seus cantos enristavam-se quatro cornos de bronze; d'um pendiam grinaldas de lirios; d'outros fios de coraes; o outro pingava sangue. Da immensa grelha do altar subia uma fuma?a avermelhada e lenta: e em redor apinhavam-se os Sacrificadores, descal?os, todos de branco-com forquilhas de bronze nas m?os pallidas, espetos de prata, facas passadas nos cintos c?r de céo... No afanoso, severo rum?r do ceremonial sacrosanto confundia-se o balar de cordeiros, o som argentino de pratos, o crepitar das lenhas, as pancadas surdas de malho, o cantar lento da agua em bacias de marmore, e o estridor das bozinas. Apesar dos aromaticos que ardiam em ca?oulas, das longas ventarolas de folhas de palmeira com que os serventes agitavam o ar, eu puz o len?o na face, enjoado com esse cheiro molle de carne crua, de sangue, de gordura frita e de a?afr?o, que o Senhor reclamou a Moysés como o dom melhor a receber da Terra...

Ao fundo, bois enfeitados de fl?res, vitellas brancas com os cornos dourados, sacudiam, mugindo e marrando, as cordas que os prendiam a fortes argolas de bronze: mais longe, sobre mesas de marmore, entre peda?os de gêlo, pousavam, vermelhas e sangrentas, grossas pe?as de carne, sobre que os levitas balan?avam leques de pennas para afugentar os moscardos. De columnas rematadas por faiscantes globos de crystal, pendiam cordeiros mortos, que os Netenins, resguardados por aventaes de couro cobertos de textos sagrados, esfolavam com cutelos de prata: emquanto os victimarios de sai?o azul, retesando os bra?os, conduziam baldes d'onde trasbordavam e iam arrastando entranhas. Coroados por uma mitra redonda de metal, escravos idumeos constantemente limpavam as lages com esponjas: alguns vergavam sob mólhos de lenha; outros, agachados, sopravam fogareiros de pedra.

A cada momento algum velho Sacrificador, descal?o, marchava para o altar, trazendo ao collo um anho tenro que n?o balava, contente e quente entre os dois bra?os nús: um tocador de lyra precedia-o: levitas atraz transportavam os jarros d'oleos aromaticos. Em frente á ara, rodeado de Acolytos, o Sacrificador lan?ava sobre o cordeiro um punhado de sal; depois, psalmodiando, cortava-lhe uma pouca de l? entre os cornos. As bozinas resoavam; um grito d'animal ferido perdia-se no tumulto sacro; por cima das tiáras brancas duas m?os vermelhas erguiam-se ao ar sacudindo sangue; da grelha do altar resaltava, avivada pelos oleos e pela gordura, uma chamma d'alegria e de offerta; e o fumo avermelhado e lento ascendia serenamente ao azul, levando nos seus rolos o cheiro que deleita o Eterno.

-é um talho! murmurei eu, aturdido. é um talho! Topsius, doutor, vamos outra vez lá baixo ás mulherinhas...

O sabio olhou para o sol. Depois, gravemente, pousando-me no hombro a m?o amiga:

-é quasi a nona hora, D. Raposo!... E temos de ir fóra da Porta Judiciaria, para além do Gareb, a um sitio agreste que se chama o Calvario.

Empallideci. E pareceu-me que nenhuma vantagem espiritual obteria minha alma, nenhuma inesperada acquisi??o enriqueceria o saber de Topsius-por irmos contemplar no alto d'um morro, entre urzes, Jesus atado a um madeiro e soffrendo: era apenas um tormento para a nossa sensibilidade! Mas, submisso, segui o meu sapiente amigo pela escadaria das Aguas, que leva ao largo lageado de basalto onde come?am as primeiras casas d'Acra. Visinhas do Santuario, habitadas por Sacerdotes, ellas ostentavam uma profusa devo??o Paschal, em palmas, lampadas, alcatifas penduradas dos eirados: e algumas tinham os hombraes salpicados com o sangue fresco d'um anho.

Antes de penetrar n'uma sordida, andrajosa rua que se ia torcendo sob velhos toldes de esparto, voltei-me para o Templo: agora só via a immensa muralha de granito, com basti?es no alto, sombria e inderrubavel: e a arrogancia da sua for?a e da sua eternidade encheu de cólera o meu cora??o. Emquanto sobre uma collina de morte, destinada aos escravos, o homem de Galilêa, incomparavel amigo dos homens, arrefecia na sua cruz, e para sempre se apagava aquella pura voz de amor e d'espiritualidade-alli ficava o Templo que o matava, rutilante e triumphal, com o balar dos seus gados, o estridor dos seus sophismas, a usura sob os Porticos, o sangue sobre as Aras, a iniquidade do seu duro orgulho, a importunidade do seu perenne incenso... Ent?o, com os dentes cerrados, mostrei o punho a Jehovah e á sua cidadella, e bradei:

-Arrasados sejaes!

* * * * *

N?o descerrei mais os labios sêccos até chegarmos á estreita porta nas muralhas de Ezekiah, que os Romanos denominavam a Judiciaria. E logo ahi estremeci, vendo collado n'um pilar de pedra um pergaminho com três senten?as transcriptas-?a d'um ladr?o de Bettebara, a d'um assassino de Emath, e a de Jesus de Galilêa!? O escriba do Sanhedrin, que conforme á Lei alli vigiára para recolher, até que os condemnados passassem, algum inesperado testemunho d'inculpabilidade, ia partir, com os seus tabularios debaixo do bra?o, depois de tra?ar sobre cada senten?a um grosso risco vermelho. E aquelle córte final, c?r de sangue, passado á pressa por um escripturario que recolhia contente á sua morada, a comer o seu anho, commoveu-me mais que a melancolia dos Livros Santos.

Sebes de cactos em fl?r bordavam a estrada; e para além eram verdes outeiros onde os muros baixos de pedra solta, vestidos de rosas bravas, delimitavam os hortos. Tudo alli resplandecia, festivo e pacifico. á sombra das figueiras, debaixo dos pilares das parreiras, as mulheres, encruzadas em tapetes, fiavam o linho ou atavam os ramos d'alfazema e manjerona que se offerecem na Paschoa: e crian?as em redor, com o pesco?o carregado d'amuletos de coral, balou?avam-se em cordas, atiravam á setta... Pela estrada descia uma fila de lentos dromedarios levando mercadorias para Joppé: dois homens robustos recolhiam da ca?a, com altos coturnos vermelhos cobertos de pó, a aljava batendo-lhe a c?xa, uma rede atirada para as costas, e os bra?os carregados de perdizes e d'abutres amarrados pelas patas: e diante de nós caminhava devagar, apoiado ao hombro d'uma crian?a que o conduzia, um velho pobre, de longas barbas, trazendo presa ao cinto como um bardo a lyra grega de cinco cordas, e sobre a fronte uma cor?a de louro...

Ao fundo d'um muro, coberto de ramos de amendoeiras, diante d'uma cancella pintada de vermelho, dois servos esperavam, sentados n'um tronco cahido, com os olhos baixos e as m?os sobre os joelhos. Topsius parou, puxou-me o albornoz:

-é este o horto de José de Ramatha, um amigo de Jesus, membro do

Sanhedrin, homem d'espirito inquieto, que se inclina para os Essenios...

E justamente, ahi vem Gad!

Do fundo do horto, com effeito, por uma rua de murta e rosas, Gad descia correndo com uma trouxa de linho e um cabaz de vime enfiados n'um pau. Parámos.

-O Rabbi? gritou-lhe o alto Historiador, transpondo a cancella.

O Essenio entregou a um dos escravos a trouxa, e o cesto que estava cheio de myrrha e d'hervas aromaticas; e ficou diante de nós um momento, tremulo, suffocado, com a m?o fortemente pousada sobre o cora??o para lhe serenar a anciedade.

-Soffreu muito! murmurou, por fim. Soffreu quando lhe trespassaram as m?os... Mais ainda ao erguer da cruz... E repelliu primeiro o vinho de Misericordia, que lhe daria a inconsciencia... O Rabbi queria entrar com a alma clara na morte por que chamára!... Mas José de Ramatha, Nicodemus, estavam lá vigiando. Ambos lhe lembraram as coisas promettidas uma noite em Bethania... O Rabbi ent?o tomou a malga das m?os da mulher de Rosmophin, e bebeu.

E o Essenio, pregados em Topsius os olhos reluzentes, como para cravar bem seguramente na sua alma uma recommenda??o suprema, recuou um passo e disse com uma grave lentid?o:

-á noite, depois da ceia, no eirado de Gamaliel...

E outra vez desappareceu na rua fresca do horto, entre a murta e as roseiras. Topsius deixou logo a estrada de Joppé: e estugando o passo por um atalho agreste, onde o meu largo albornoz se prendia aos espinhos das piteiras, explicava-me que a bebida de Misericordia-era um vinho forte de Tharses, com succo de papoulas e especiarias, fornecido por uma confraria de mulheres devotas para insensibilizar os suppliciados... Mas eu mal escutava aquelle copioso espirito. No alto d'um aspero outeiro, todo de rocha e urze, avistára, destacando duramente no claro azul do céo liso, um mont?o de gente parada: e em meio d'ella sobrelevavam-se tres pontas grossas de madeiros e moviam-se, faiscando ao sol, elmos polidos de Legionarios. Turbado, encostei-me á beira do caminho, n'um penedo branco que escaldava. Mas vendo Topsius marchar, com a sabia serenidade de quem considera a Morte uma purificadora liberta??o das fórmas imperfeitas-n?o quiz ser menos forte, nem menos espiritual: arranquei o albornoz que me abafava, galguei intrepidamente a collina temerosa.

D'um lado cavava-se o Valle de Hinom, abrazado e livido, sem uma herva, sem uma sombra, juncado d'ossos, de carcassas, de cinzas. E diante de nós o m?rro ascendia, com manchas leprosas de tojo negro, e a espa?os furado por uma ponta de rocha polida e branca como um osso. O corrego, onde os nossos passos espantavam os lagartos, ia perder-se entre as ruinas d'um casebre de adobe: duas amendoeiras, mais tristes que plantas crescidas na fenda d'um sepulchro, erguiam ao lado a sua rama rala e sem fl?r, onde cantavam asperamente cigarras. E na sombra tenue, quatro mulheres descal?as, desgrenhadas, com rasg?es de luto nas tunicas pobres, choravam como n'um funeral.

Uma, sem se mover, hirta contra um tronco, gemia surdamente sob a ponta do manto negro: outra, exhausta de lagrimas, jazia n'uma pedra, com a cabe?a cahida nos joelhos, e os esplendidos cabellos louros desmanchados, alastrados até ao ch?o. Mas as outras duas deliravam, arranhadas, ensanguentadas, batendo desesperadamente nos peitos, cobrindo a face de terra; depois, lan?ando ao céo os bra?os nús, abalavam o m?rro com gritos-?oh meu encanto, oh meu thesouro, oh meu sol!? E um c?o, que farejava entre as ruinas, abria a guela, uivava tambem, sinistramente.

Espavorido, puxei a capa do douto Topsius-e cortámos pelas urzes até ao alto, onde se apinhavam, olhando e galrando, obreiros das officinas de Gareb, serventes do Templo, vendilh?es, e alguns d'esses sacerdotes miseraveis e em farrapos, que vivem de negromancia e d'esmolas. Diante da branca capa em que Topsius se togava, dois cambistas, com moedas d'ouro pendentes das orelhas, arredaram-se, murmurando ben??os servis. Uma corda d'esparto deteve-nos, presa a postes cravados no ch?o para isolar o alto do m?rro, e, no sitio em que ficáramos, enrolada a uma velha oliveira que tinha pendurados dos ramos escudos de Legionarios e um manto vermelho.

Ent?o, ancioso, ergui os olhos... Ergui os olhos para a cruz mais alta, cravada com cunhas n'uma fenda de rocha. O Rabbi agonisava. E aquelle corpo que n?o era de marfim nem de prata, e que arquejava, vivo, quente, atado e pregado a um madeiro, com um pano velho na cinta, um travess?o passado entre as pernas-encheu-me de terror e d'espanto... O sangue que manchára a madeira nova, ennegrecia-lhe as m?os, coalhado em torno aos cravos: os pés quasi tocavam o ch?o, amarrados n'uma grossa corda, r?xos e torcidos de d?r. A cabe?a, ora escurecida por uma onda de sangue, ora mais livida que um marmore, rolava d'um hombro a outro d?cemente; e por entre os cabellos emmaranhados, que o suor empastára, os olhos esmoreciam, sumidos, apagados-parecendo levar com a sua luz para sempre toda a luz e toda a esperan?a da terra...

O centuri?o, sem manto, com os bra?os cruzados sobre a coura?a de escamas, rondava gravemente junto á cruz do Rabbi, cravando por vezes os olhos duros na gente do Templo, cheia de rumores e de risos. E Topsius mostrou-me defronte, rente á corda, um homem cuja face amarella e triste quasi desapparecia entre as duas longas mechas negras de cabello que lhe desciam sobre o peito-e que abria e enrolava com impaciencia um pergaminho, ora espiando a marcha lenta do sol, ora fallando baixo a um escravo ao seu lado.

-é Joseph de Ramatha, segredou-me o douto Historiador. Vamos ter com elle, ouvir as coisas que convém saber...

Mas n'esse instante, d'entre o bando sordido dos servos do Templo e dos sacerdotes miseraveis que s?o nutridos pelos sobejos dos holocaustos, rompeu um ruido mais forte como o grasnar de corvos n'um alto. E um d'elles, colossal, esqualido, com costuras de facadas através da barba rala, atirou os bra?os para a cruz do Rabbi, e gritou n'uma baforada de vinho:

-Tu que és forte, e querias destruir o Templo e as suas muralhas, porque n?o quebras ao menos o pau d'essa cruz?

Em torno estalaram risadas alvares. E outro, espalmando as m?os sobre o peito, curvado com infinito escarneo, saudava o Rabbi:

-Herdeiro de David, oh meu principe, que te parece esse throno?

-Filho de Deus! Chama teu pai, vê se teu pai te vem salvar! rouquejava a meu lado um magro velho, que tremia e sacudia a barba, apoiado ao seu bord?o.

Alguns vendilh?es bestiaes apanhavam torr?es seccos a que misturavam cuspo, para arremessar ao Rabbi: uma pedra por fim passou, resoou cavamente no madeiro. Ent?o o Centuri?o correu, indignado; a folha da sua larga espada lampejou no ar; e o bando recuou blasphemando-emquanto alguns embrulhavam na ponta do sai?o os dedos que escorriam sangue.

Nós acercámo-nos de José de Ramatha. Mas o sombrio homem abalou bruscamente, esquivando a importunidade do sabio Topsius. E, magoados com a sua rudeza alli ficámos junto d'um tronco de oliveira secca, defronte das outras cruzes.

Os dois condemnados tinham acordado do primeiro desmaio, sob a frescura da aragem da tarde. Um, grosso, pelludo, com os olhos esbugalhados, o peito atirado para diante e as costellas a estalar, como se n'um esfor?o desesperado quizesse arrancar-se do madeiro-urrava sem descontinuar, medonhamente: o sangue pingava-lhe em gottas lentas dos pés negros, das m?os esga?adas: e abandonado, sem affei??o ou piedade que o assistissem, era como um lobo ferido que uiva e morre n'um brejo. O outro, delgado e louro, pendia sem um gemido, como uma haste de planta meio quebrada. Defronte d'elle uma mulher macilenta e em farrapos, passando a cada instante o joelho sobre a corda, estendia-lhe nos bra?os uma criancinha núa, e gritava, já rouca: ?Olha ainda, olha ainda!? As palpebras lividas n?o se moviam: um negro, que entrouxava as ferramentas da crucifica??o, ia empurral-a com brandura: ella emmudecia, apertava desesperadamente o filho para que lh'o n?o levassem tambem, batendo os dentes, tremendo toda: e a criancinha entre os farrapos procurava o seio magro.

Soldados, sentados no ch?o, desdobravam as tunicas dos suppliciados: outros, com o elmo enfiado no bra?o, limpavam o suor-ou por uma malga de ferro, a goles lentos, bebiam a posca. E em baixo, na poeira da estrada, sob o sol mais d?ce, passava gente recolhendo pacificamente dos campos e dos hortos. Um velho picava as suas vaccas para o lado da porta de Genath: mulheres, cantando, carregavam lenha: um cavalleiro trotava, embrulhado n'um manto branco. ás vezes os que atravessavam o caminho ou voltavam dos pomares de Gareb avistavam as tres cruzes erguidas: arrega?avam a tunica, subiam a collina devagar através das urzes. O rotulo da cruz do Rabbi, escripto em grego e em latim, causava logo assombro. ?Rei dos Judeus?! Quem era esse? Dois mo?os, patricios e sadduceus, com brincos de perolas nas orelhas e bordaduras d'ouro nos borzeguins, interpellaram o Centuri?o, escandalisados. Porque escrevera o Pretor-?Rei dos Judeus?? Era aquelle, alli pregado na cruz, Caio Tiberio? Só Tiberio era rei da Judêa! O Pretor quizera offender Israel! Mas em verdade só ultrajava Cesar!...

Impassivel, o Centuri?o fallava a dois Legionarios que remexiam no ch?o em grossas barras de ferro. E a mulher que acompanhava os sadduceus, uma romana miudinha e morena, com fitas de purpura nos cabellos empoados d'azul, contemplava suavemente o Rabbi e aspirava o seu frasco de essencias-lamentando decerto aquelle mo?o, rei vencido, rei barbaro, que morria no poste dos escravos.

Cansado, fui sentar-me com Topsius n'uma pedra. Era perto da oitava hora judaica: o sol, sereno como um heroe que envelhece, descia para o mar por sobre as palmeiras de Bethania. Diante de nós o Gareb verdejava, coberto de jardins. Junto ás muralhas, no bairro novo de Bezetha, grandes panos vermelhos e azues seccavam em cordas ás portas das tinturarias; um lume vermelhejava no fundo d'uma forja; crian?as corriam, brincando sobre a borda d'uma piscina. Adiante, no alto da torre Hippica, que estendia já a sua sombra sobre o valle de Hinom, soldados de pé na amurada apontavam a setta aos abutres voando no azul. E para além, entre arvoredos, surgiam, frescos e rosados pela tarde, os eirados do palacio de Herodes.

Triste, com o espirito disperso, eu pensava no Egypto, nas nossas tendas, na vela que lá me esquecera ardendo, fumarenta e vermelha-quando avistei, subindo a collina devagar, apoiado ao hombro da crian?a que o conduzia, o velho que já cruzáramos na estrada de Joppé, com uma lyra presa á cintura. Os seus passos arrastavam-se mais incertos, na fadiga d'uma jornada penosa; uma tristeza abatia-lhe sobre o peito a clara barba ondeante; e debaixo do manto c?r de vinho, que lhe cobria a cabe?a, as folhas da cor?a de louro pendiam raras e murchas.

Topsius gritou-lhe: ?Eh, Rapsodo!? E quando elle, tenteando as urzes do caminho, se acercou-o douto Historiador perguntou-lhe se das d?ces Ilhas do mar trazia algum canto novo. O velho ergueu a face entristecida; e muito nobremente murmurou que uma mocidade imperecivel sorri nos mais antigos cantos da Hellenia. Depois, tendo assentado a sandalia sobre uma pedra, tomou a lyra entre as m?os vagarosas; a crian?a, direita, com as pestanas baixas, p?z á b?ca uma flauta de cana; e, no resplandor da tarde que envolvia e dourava Si?o, o Rapsodo soltou um canto já tremulo, mas glorioso e repassado de adora??o, como ante a ara d'um templo, n'uma praia da Ionia... E eu percebi que elle cantava os Deuses, a sua belleza, a sua actividade heroica. Dizia o Delphico, imberbe e c?r d'ouro, afinando os pensamentos humanos pelo rythmo da sua cythara; Atheneia, armada e industriosa, guiando as m?os dos homens sobre os teares; Zeus, ancestral e sereno, dando a belleza ás ra?as, a ordem ás cidades; e acima de todos, sem fórma e esparso, o Fado, mais forte que todos!

Mas subitamente um grito varou o céo no alto da collina, supremo e arrebatado como o de uma liberta??o! Os dedos frouxos do velho emmudeceram entre as cordas de metal: com a cabe?a descabida, a cor?a do louro épico meio desfolhada, parecia chorar sobre a lyra hellenica, d'ora em diante e para longas idades silenciosa e inutil. E ao lado a crian?a, tirando a flauta dos labios, erguia para as cruzes negras os olhos claros-onde subia a curiosidade e a paix?o d'um mundo novo.

Topsius pediu ao velho a sua historia. Elle contou-a, com amargura. Viera de Samnos a Cesarêa, e tocava o konnor junto ao Templo d'Hercules. Mas a gente abandonava o puro culto dos heroes; e só havia festas e offrendas para a Boa Deusa da Syria! Acompanhára depois uns mercadores a Tiberiade: os homens ahi n?o respeitavam a velhice, e tinham cora??es interesseiros como escravos. Seguira ent?o pelas longas estradas, parando nos postos romanos onde os soldados o escutavam; nas aldeias de Samaria batia ás portas dos lagares; e para ganhar o p?o duro tocára a cythara grega nos funeraes dos barbaros. Agora errava alli, n'essa cidade onde havia um grande Templo, e um Deus feroz e sem fórma que detestava as gentes. E o seu desejo era voltar a Mileto, sua patria, sentir o fino murmurio das aguas do Meandro, poder palpar os marmores santos do templo de Phebo Dydimeo-onde elle em crian?a levára n'um cesto e cantando os primeiros anneis dos seus cabellos...

As lagrimas rolavam pela sua face, tristes como a chuva por um muro em ruinas. E a minha piedade foi grande por aquelle Rapsodo das ilhas da Grecia, perdido tambem na dura cidade dos judeus, envolto pela influencia sinistra d'um Deus alheio! Dei-lhe a minha derradeira moeda de prata. Elle desceu a collina, apoiado ao hombro da crian?a, lento e curvado, com a orla esfarrapada do manto trapejando nas pernas núas, e muda e mal segura do cinto a lyra heroica de cinco cordas.

No emtanto, em torno ás cruzes, no alto, crescera um rumor de revolta. E f?mos encontrar a gente do Templo, com as m?os no ar, mostrando o sol que descia como um escudo d'ouro para o lado do mar de Tyro, intimando o Centuri?o a que baixasse os condemnados da cruz antes de soar a hora santa da Paschoa! Os mais devotos reclamavam que se applicasse aos crucificados, se ainda viviam, o crurifragio romano, quebrando-lhes os ossos com barras de ferro, arrojando-os ao despenhadeiro de Hinom. E a indifferen?a do Centuri?o exasperava o zelo piedoso. Ousaria elle macular o Sabbath, deixando um corpo morto no ar? Alguns enrolavam a ponta do manto para correr, e ir a Acra avisar o Pretor.

-O sol declina! O sol vai deixar o Hebron! gritou de cima d'uma pedra um levita, aterrado.

-Acabai-os, acabai-os!

E ao nosso lado, um formoso mo?o exclamava, requebrando os olhos languidos, movendo os bra?os cheios de manilhas d'ouro:

-Atirai o Rabbi aos corvos! Dai ás aves de rapina a sua Paschoa!

O Centuri?o, que espreitava o alto da torre Marianna onde os escudos suspensos luziam batidos pelo sol derradeiro-acenou devagar com a espada. Dois Legionarios, lan?ando pesadamente ao hombro as barras de ferro, marcharam com elle para as cruzes. Eu, arripiado, agarrei o bra?o de Topsius. Mas diante do madeiro de Jesus o Centuri?o parou, erguendo a m?o...

O corpo branco e forte do Rabbi tinha a serenidade d'um adormecimento: os pés empoeirados, que ha pouco a d?r torcia dentro das cordas, pendiam agora direitos para o ch?o como se o fossem em breve pisar: e a face n?o se via, tombada para traz mollemente por sobre um dos bra?os da cruz, toda voltada para o céo onde elle puzera o seu desejo e o seu reino... Eu olhei tambem o céo: rebrilhava, sem uma sombra, sem uma nuvem, liso, claro, mudo, muito alto, e cheio de impassibilidade...

-Quem reclamou o corpo d'este homem? gritou, procurando para os lados, o Centuri?o.

-Eu, que o amei em vida! acudiu Joseph de Ramatha, estendendo por cima da corda o seu pergaminho.

O escravo que esperava junto d'elle depoz logo no ch?o a trouxa de linho e correu para as ruinas do casebre onde as mulheres choravam entre as amendoeiras.

E por traz de nós, Phariseus e Sadduceus que se tinham juntado estranhavam com azedume que José de Ramatha, um membro do Sanhedrin, assim solicitasse o corpo do Rabbi para o perfumar e lhe fazer soar em torno as flautas e os prantos d'um funeral... Um d'elles, corcovado, com esfiadas melenas luzidias d'oleo, affirmava que sempre conhecera José de Ramatha inclinado para todos os innovadores, todos os sediciosos... Mais d'uma vez o vira fallar com esse Rabbi junto ao campo dos Tintureiros... E com elles estava Nicodemus, homem rico que tem gados, que tem vinhas, e todas as casas que est?o d'ambos os lados da Synagoga de Cyrenaica...

Outro, rubicundo e molle, gemeu:

-Que será da na??o, se os mais considerados se juntam aos que adulam o pobre, e lhe ensinam que os fructos da terra devem ser igualmente para todos!...

-Ra?a de Messias! bradou o mais mo?o com furor, atirando o bast?o contra as urzes. Ra?a de Messias, perdi??o d'Israel!

Mas o Sadduceu de melenas oleosas ergueu devagar a m?o, ligada em tiras sagradas:

-Socegai: Jehovah é grande: e tudo em verdade determina para melhor... No Templo e no Conselho n?o faltar?o jámais homens fortes que mantenham a velha Ordem; e em cima dos calvarios, felizmente, h?o de sempre erguer-se as cruzes!...

E todos susurraram:

-Amen!

No emtanto o Centuri?o, com os soldados atraz levando ao hombro as barras de ferro, marchava para os outros madeiros onde os condemnados, vivos e cheios d'agonia pediam agua-um pendido e gemendo, outro torcido, com as m?os rasgadas, rugindo terrivelmente. Topsius, que sorria friamente, murmurou: ?é tempo, vamos.?

Com os olhos alagados d'agua amarga, trope?ando nas pedras, desci ao lado do fecundo critico a collina de Immola??o. E sentia uma densa melancolia entenebrecer a minha alma pensando n'essas cruzes vindouras, annunciadas pelo conservador de guedelha oleosa... Assim seria, oh dura miseria! Sim! d'ora ávante, por todos os seculos a vir, iria sempre recome?ando em torno á lenha das fogueiras, sob a frialdade das masmorras, junto ás escadas das forcas-este affrontoso escandalo de se juntarem Sacerdotes, Patricios, Magistrados, Soldados, Doutores e Mercadores para matarem ferozmente no alto d'um morro o justo que penetrado do esplendor de Deus ensine a Adora??o em Espirito, ou cheio do amor dos homens proclame o Reino da Igualdade!

Com estes pensamentos recolhi a Jerusalem-emquanto as aves, mais felizes que os homens, cantavam nos cedros do Gareb...

* * * * *

Escurecera e era a hora da Ceia Paschal, quando chegámos a casa de Gamaliel: no pateo, preso a uma argola, estava o burro, albardado de panos pretos, que trouxera o amavel physico Eliezer de Silo.

Na sala azul, de tecto de cedro, perfumada de malobrathro, o austero Doutor já nos aguardava estendido no divan de correias brancas, com os pés nús, as largas mangas arrega?adas e pregadas no hombro-e ao lado um bord?o de viagem, uma caba?a d'agua e uma trouxa, emblemas rituaes da sahida do Egypto. Defronte d'elle, n'uma mesa incrustada de madreperola, entre vasos de barro com fl?res pintadas, a?afates de filigrana de prata transbordando de fruta e peda?os scintillantes de gelo, erguia-se um candelabro em fórma de arbusto, tendo na ponta de cada galho uma pallida chamma azul: e, com os olhos perdidos no seu brilho tremulo, as m?os cruzadas no ventre, Eliezer, o benigno ?Doutor da Tripa?, sorria beatificamente encostado a almofadas de couro vermelho. Junto d'elle dois escabellos, recobertos com tapetes da Assyria, esperavam por mim e pelo sagaz Historiador.

-Sêde bem vindos, rosnou Gamaliel. Grandes s?o as maravilhas de Si?o, deveis vir esfomeados...

Bateu de leve as palmas. Os escravos, caminhando sem ruido nas sandalias de feltro, e precedidos majestosamente pelo homem obeso de tunica amarella, entraram, erguendo muito alto largos pratos de cobre que fumegavam.

A um lado tinhamos, para limpar os dedos, um b?lo de farinha branco, fino e molle como um pano de linho; do outro um prato largo, com cercadura de perolas, onde negrejava entre ramos de salsa um mont?o de cigarras fritas; no ch?o jarros com agua de rosa. Cumprimos as ablu??es: e Gamaliel, tendo purificado a bocca com um peda?o de gêlo, murmurou a ora??o ritual sobre a vasta travessa de prata, onde o cabrito assado fazia transbordar o m?lho d'a?afr?o e saumura.

Topsius, bom sabedor das maneiras orientaes, arrotou fortemente, por cortezia, demonstrando fartura e deleite: depois, com uma febra de anho entre os dedos, affirmou sorrindo aos Doutores que Jerusalem lhe parecera magnifica, formosa de claridade, e bemdita entre as cidades...

Eliezer de Silo acudiu, com os olhos cerrados de gozo, como se o acariciassem:

-Ella é uma joia melhor que o diamante, e o Senhor engastou-a no centro da Terra para que irradiasse igualmente o seu brilho em redor...

-No centro da Terra!... murmurou o Historiador, com douto espanto.

Sim! E, ensopando um peda?o de b?lo no m?lho d'a?afr?o, o profundo Physico explicou a Terra. Ella é chata e mais redonda que um disco; no meio está Jerusalem a santa, como um cora??o cheio do amor do Altissimo; em redor a Judêa, rica em balsamos e palmeiras, cerca-a de sombra e de aromas; para além ficam os pag?os, em regi?es duras onde nem o mel nem o leite abundam; depois s?o os mares tenebrosos... E por cima o céo, sonoro e solido.

-Solido!... balbuciou o meu sapiente amigo, esgazeado.

Os escravos serviam em ta?as de prata cerveja amarella da Media. Com solicitude Gamaliel aconselhou-me que, para lhe avivar o sab?r, trincasse uma cigarra frita. E Rabbi Eliezer, sabio entre todos nas coisas da Natureza, revelava a Topsius a divina construc??o do céo.

Elle é feito de sete duras, maravilhosas, rutilantes camadas de crystal; por cima d'ellas constantemente rolam as grandes aguas; sobre as aguas fluctua n'um fulg?r o espirito de Jehovah... Estas laminas de crystal, furadas como um crivo, resvalam umas sobre as outras com uma musica d?ce e lenta que os prophetas mais queridos por vezes ouviam... Elle mesmo, uma noite que orava no eirado da sua casa em Silo, sentira por um raro favor do Altissimo essa harmonia, t?o penetrante e suave que as lagrimas uma a uma lhe cahiam nas m?os abertas... Ora nos mezes de Kisleu e de Tebeth os furos das laminas coincidem, e por elles cahem sobre a Terra as gotas das aguas eternas que fazem crescer as searas!

-A chuva? perguntou Topsius, com acatamento.

-A chuva! respondeu Eliezer, com serenidade.

Topsius, mordendo um sorriso, ergueu para Gamaliel os seus oculos d'ouro que faiscavam de sabia ironia: mas o piedoso filho de Simeon conservava sobre a face, emmagrecida no estudo da Lei, uma seriedade impenetravel. Ent?o o Historiador, remexendo as azeitonas, desejou saber do esclarecido Physico por que tinham os crystaes do céo essa c?r azul que enleva a alma...

Eliezer de Silo elucidou-o:

-Uma grande montanha azul, invisivel até hoje aos homens, ergue-se a occidente: ora, quando o sol a bate, a sua reverbera??o banha o crystal do céo e anila-o.

é talvez n'essa montanha que vivem as almas dos justos!...

Gamaliel tossiu brandamente e murmurou: ?Bebamos, louvando o Senhor!?.

Ergueu uma ta?a cheia de vinho de Sichem, pronunciou sobre ella uma ben??o-passou-m'a, chamando a paz sobre o meu cora??o. Eu rosnei: ?á sua, muitos e felizes!? E Topsius, recebendo a ta?a com venera??o, bebeu-?á prosperidade d'Israel, á sua for?a, ao seu saber!?

Depois os servos, precedidos pelo homem obeso de tunica amarella, que fazia resoar sobre as lages com pompa a sua vara de marfim, trouxeram a mais devota comida paschal-as hervas amargas.

Era uma travessa repleta de alface, agri?es, chicorea, macella, com vinagre e grossas pedras de sal. Gamaliel mastigava-as solemnemente, como cumprindo um rito. Ellas representavam as amarguras de Israel no captiveiro do Egypto. E Eliezer, chupando os dedos, declarou-as deliciosas, fortificadoras e repassadas de alta li??o espiritual.

Mas Topsius lembrou, fundado nos auctores gregos, que todos os legumes amollecem no homem a virilidade, lhe descoram a eloquencia, lhe enervam o heroismo: e com torrencial erudi??o citou logo Theophrasto, Eubulo, Nicandro na segunda parte do seu Diccionario, Phenias no seu Tratado das Plantas, Dephilo e Epicharmo!...

Gamaliel, seccamente, condemnou a inanidade d'essa sciencia-porque Hecateus de Mileto, só no primeiro livro da sua Descrip??o da Asia, encerra cincoenta e tres erros, quatorze blasphemias e cento e nove omiss?es... Assim dizia o leviano grego que a tamara, maravilhoso dom do Altissimo, enfraquece o intellecto!...

-Mas, exclamou Topsius com ardor, a mesma doutrina estabelece

Xenophonte no livro segundo do Anabasis! E Xenophonte...

Gamaliel rejeitou a auctoridade de Xenophonte. Ent?o Topsius, vermelho, batendo com uma colhér de ouro na borda da mesa, exaltou a eloquencia de Xenophonte, a forte nobreza do seu sentimento, a sua terna reverencia por Socrates!... E emquanto eu partia um empad?o de Commagenia, os dois facundos doutores, asperamente, romperam debatendo Socrates. Gamaliel affirmava que as vozes secretas ouvidas por Socrates, e que t?o divina e puramente o governavam, eram murmurios distantes que lhe chegavam da Judêa, repercuss?es miraculosas da voz do Senhor... Topsius pulava, encolhia os hombros, com desesperado sarcasmo. Socrates inspirado por Jehovah! Ora lérias!

No emtanto era certo (insistia Gamaliel, já livido) que os gentilicos iam emergindo da sua treva, attrahidos pela luz forte e pura que derramava Jerusalem:-porque a reverencia pelos Deuses apparecia em Eschylo profunda e cheia de terror; em Sophocles, amavel e cheia de serenidade; em Euripides, superficial e cheia de duvida... E cada um dos Tragicos dava assim, largamente, um passo para o Deus verdadeiro!

-Oh Gamaliel, filho de Simeon, murmurou Eliezer de Silo, tu, que possues a verdade, para que dás accesso no teu espirito aos pag?os?

Gamaliel respondeu:

-Para os desprezar melhor dentro em mim!

Farto de t?o classica controversia, acheguei a Eliezer um covilhete de mel do Hebron-e contei-lhe quanto me agradára o caminho do Gareb entre jardins. Elle concordou que Jerusalem, cercada de vergeis, era d?ce á vista como a fronte da noiva toucada d'anemonas. Depois estranhou que eu escolhesse, para me recrear, esses arredores de Gihon, cheios d'a?ougues, junto ao m?rro escalvado onde se erguem as cruzes. Mais suave me teria sido a fragrancia de Siloeh...

-Fui vêr Jesus, atalhei severamente. Fui vêr Jesus, crucificado esta tarde por mandado do Sanhedrin...

Eliezer, com oriental cortezia, bateu no peito demonstrando mágua. E quiz saber se pertencia ao meu sangue, ou partilhára commigo o p?o de allian?a, esse Jesus que eu f?ra assistir na sua morte d'escravo.

Eu considerei-o, assombrado:

-é o Messias!

E elle considerou-me mais assombrado ainda, com um fio de mel a escorrer-lhe na barba.

Oh raridade! Eliezer, doutor do Templo, Physico do Sanhedrin, n?o conhecia Jesus de Galilêa! Atarefado com os enfermos que pela Paschoa atulham Jerusalem (confessou elle) n?o f?ra ao Xistus, nem á loja do perfumista Cleos, nem aos eirados de Hannan, onde as novas voam mais numerosas que as pombas: por isso nada ouvira da appari??o d'um Messias...

De resto, acrescentou, n?o podia ser o Messias! Esse deveria chamar-se Manahem ?o consolador?, porque traria a consola??o a Israel. E haveria dois Messias: o primeiro, da tribu de José, seria vencido por Gog; o segundo, filho de David e cheio de for?a, venceria Magog. Antes d'elle nascer come?ariam sete annos de maravilhas: haveria mares evaporados, estrellas despregadas do céo, fomes e taes farturas que até as rochas dariam fructo: no ultimo anno correria sangue entre as na??es: emfim resoaria uma voz portentosa: e, sobre o Hebron, com uma espada de fogo, surgiria o Messias!...

Dizia estas coisas peregrinas fendendo a casca d'um figo. Depois com um suspiro:

-Ora ainda nenhuma d'essas maravilhas, meu filho, annunciou a consola??o!...

E atolou os dentes no figo.

Ent?o fui eu, Theodorico, Ibero, d'um remoto municipio romano, que contei a um Physico de Jerusalem, creado entre os marmores do Templo, a vida do Senhor! Disse as coisas d?ces e as coisas fortes: as tres claras estrellas sobre o seu ber?o; a sua palavra amansando as aguas de Galilêa; o cora??o dos simples palpitando por elle; o Reino do Céo que promettia; e a sua face augusta brilhando diante do Pretor de Roma...

-Depois os Padres, os Patricios e os Ricos crucificaram-no!

Doutor Eliezer, volvendo a remexer o a?afate de figos, murmurou pensativamente:

-Triste, triste!... Todavia, meu filho, o Sanhedrin é misericordioso. Em sete annos, desde que o sirvo, apenas tem lan?ado tres senten?as de morte... Sim, decerto o mundo necessita bem escutar uma palavra de amor e de justi?a: mas Israel tem soffrido tanto com innovadores, com prophetas!... Emfim, nunca se deveria derramar o sangue do homem... E a verdade é que estes figos de Bephtagé n?o valem os meus de Silo!

Calado, enrolei um cigarro. E n'esse instante o douto Topsius, debatendo ainda com Gamaliel o Hellenismo e as escólas Socraticas, empinado, d'oculos na ponta do bico, soltava este resumo forte:

-Socrates é a semente; Plat?o a fl?r; Aristoteles o fructo... E d'esta arvore, assim completa, se tem nutrido o espirito humano!

Mas Gamaliel subitamente ergueu-se: Doutor Eliezer tambem, arrotando com effus?o. Ambos tomaram os cajados, ambos gritaram:

-Alleluia! Louvai o Senhor que nos tirou da terra do Egypto!

Findára a ceia Paschal. O esclarecido Historiador, que limpava o suor da controversia, olhou logo vivamente o relogio e rogou a Gamaliel permiss?o de subir ao terra?o, a refrescar a sua emo??o no ar macio d'Ophel... O Doutor da Lei conduziu-nos á varanda alumiada pallidamente por lampadas de mica, mostrou-nos a ingreme escada de ebano que levava aos eirados; e chamando sobre nós a gra?a do Senhor, penetrou com Eliezer n'um aposento cerrado por cortinas de Mesopotamia-d'onde sahiu um aroma, um fino rumor de risos e sons lentos de lyra.

Que d?ce ar no terra?o! E que alegre essa noite de Paschoa em Jerusalem! No céo, mudo e fechado como um palacio onde ha luto, nenhum astro brilhava: mas o burgo de David e a collina d'Acra, com as suas illumina??es rituaes, pareciam salpicadas d'ouro. Em cada eirado, vasos com estopa ardendo em oleo lan?avam uma chamma ondeante e vermelha. Aqui e além, n'alguma casa mais alta os fios de luzes, na parede escura, reluziam como um collar de joias no pesco?o d'uma negra. O ar estava d?cemente cortado dos gemidos de flauta, da dolente vibra??o das cordas do konnor: e em ruas alumiadas por grandes fogueiras de lenha, viamos esvoa?ar, claras e curtas, as tunicas de gregos dan?ando a callabida. Só as torres, mais vastas na noite, a Hippica, a Marianna, a Pharsala se conservavam escuras: e o mugido das suas bozinas passava por vezes, rouco e rude, como uma amea?a, sobre a santa cidade em festa.

Mas para além das muralhas recome?ava a alegria da noite paschal. Havia luzes em Siloeh. Nos acampamentos, sobre o monte das Oliveiras, ardiam fogos claros: e como as portas ficavam abertas, filas de tochas fumegavam pelos caminhos, por entre um rumor de cantares.

Só uma collina, além do Gareb, permanecera em treva. N'essa hora, por baixo d'ella, n'uma ravina entre rochas, alvejavam dois corpos despeda?ados, onde os bicos dos abutres com um ruido secco de ferros entrechocados faziam a sua ceia Paschal. Ao menos outro corpo, precioso envolucro d'um espirito perfeito, jazia resguardado n'um tumulo novo, envolto em linho fino, ungido, perfumado de canella e de nardo. Assim o tinham deixado n'essa noite, a mais santa d'Israel, aquelles que o amavam-e que desde ent?o para todo o sempre mais entranhadamente o amariam... Assim o tinham deixado com uma pedra lisa por cima: e agora entre as casas de Jerusalem, cheias de luzes e cheias de cantos-alguma havia, escura e fechada, onde corriam lagrimas sem consola??o. Ahi o lar esfriára, apagado: a lampada triste esmorecia sobre o alqueire: na bilha n?o havia agua, porque ninguem f?ra á fonte; e sentadas na esteira, com os cabellos cahidos, aquellas que o tinham seguido de Galilêa fallavam d'elle, das primeiras esperan?as, das parabolas contadas por entre os trigaes, dos tempos suaves á beira do lago...

Assim eu pensava, debru?ado sobre o muro, olhando Jerusalem-quando no terra?o surgiu, sem rumor, uma fórma envolta em linhos brancos, espalhando um aroma de canella e de nardo. Pareceu-me que d'ella irradiava um clar?o, que os seus pés n?o pisavam as lages-e o meu cora??o tremeu! Mas d'entre os pallidos panos uma ben??o sahiu, grave e familiar:

-Que a paz seja comvosco!

Ah! que allivio! Era Gad.

-Que a paz seja comtigo!

O Essenio parou diante de nós, calado; e eu sentia os seus olhos procurarem o fundo da minha alma, para lhe sondar bem a grandeza e a for?a. Por fim murmurou, immovel como uma imagem tumular nas suas grandes vestes brancas:

-A lua vai nascer... Todas as coisas esperadas se est?o cumprindo... Agora, dizei! Sentis o cora??o forte para acompanhar Jesus, e guardal-o até ao oasis d'Engaddi?

Ergui-me, atirando os bra?os ao ar, n'um terror!... Acompanhar o Rabbi! Elle n?o jazia pois morto, ligado e perfumado, sob uma pedra, n'uma horta do Qareb?... Vivia! Ao nascer da lua, entre os seus amigos, ia partir para Engaddi! Agarrei anciosamente o hombro de Topsius, amparando-me ao seu saber forte e á sua auctoridade...

O meu douto amigo parecia enleado n'uma pesada incerteza:

-Sim, talvez... O nosso cora??o é forte, mas... Além d'isso n?o temos armas!

-Vinde commigo! acudiu Gad, ardentemente. Passaremos por casa d'alguem que nos dirá as coisas que convém saber, e que vos dará armas!...

Ainda trémulo, sem me desamparar do sapiente Historiador, ousei balbuciar:

-E Jesus?... Onde está?

-Em casa de José de Ramatha, segredou o Essenio espreitando em roda como o avaro que falla d'um thesouro. Para que nada suspeitasse a gente do Templo, mesmo na presen?a d'elles depositámos o Rabbi no tumulo novo que está no horto de José. Tres vezes as mulheres choraram sobre a pedra que segundo os ritos, como sabeis, n?o fechava inteiramente o tumulo, deixando uma larga fenda por onde se via o rosto do Rabbi. Alguns serventes do Templo olharam, e disseram: ?Está bem.? Cada um recolheu á sua morada... Eu entrei pela porta de Genath, nada mais vi. Mas, apenas anoitecesse, José e outro, fiel inteiramente, deviam ir buscar o corpo de Jesus, e com as receitas que vem no livro de Salom?o fazel-o reviver do desmaio em que o deixou o vinho narcotisado e o soffrimento... Vinde pois, vós que o amaes tambem e crêdes n'elle!...

Impressionado, decidido, Topsius tra?ou a sua farta capa: e descemos, n'um cauto silencio, pela escada que do terra?o levava um caminho de pedra miuda collado á muralha nova d'Herodes.

Longo tempo marchámos na escurid?o, guiados pelas roupagens brancas do Essenio. D'entre casebres em ruinas, por vezes um c?o saltava uivando. Sobre as altas ameias passavam morti?as lanternas de ronda. Depois uma sombra que tossia ergueu-se de sob uma arvore, triste e molle como se sahisse da sua sepultura; e ro?ando o meu bra?o, puxando a capa de Topsius, rogava-nos através de gemidos e baforadas d'alho que f?ssemos dormir ao seu leito que ella perfumára de nardo.

Parámos finalmente diante d'um muro, a que uma esteira grossa d'esparto cerrava a entrada. Um corredor que ressumbrava agua levou-nos a um pateo rodeado por uma varanda, assente sobre rudes vigas de madeira: o ch?o molle como lodo abafava o rumor das nossas solas.

Gad, tres vezes espa?adas, soltou o grito dos chacaes. Nós esperavamos no meio do pateo, á borda d'um po?o, coberto com tábuas: o céo, por cima, guardava a escurid?o dura e impenetravel d'um bronze. A um canto, emfim, sob a varanda, um clar?o vivo de lampada surgiu-alumiando a barba negra do homem que a trazia e que lan?ára sobre a cabe?a a ponta d'um albornoz pardo de galileu. Mas a luz morreu sob um s?pro forte. E o homem, lentamente, na treva, caminhou para nós.

Gad cortou a desolada mudez:

-Que a paz seja comtigo, irm?o! Estamos promptos.

O homem pousou devagar a lampada sobre a tampa do po?o, e disse:

-Tudo está consummado.

Gad, estremecendo, gritou:

-O Rabbi?

O homem atirou a m?o para abafar o grito do Essenio. Depois, tendo sondado a sombra em redor com olhos inquietos que reluziam como os d'um animal do deserto:

-S?o coisas mais altas do que podemos entender. Tudo parecia certo. O vinho narcotisado f?ra bem preparado pela mulher de Rosmophim, que é habil e conhece os simples... Eu tinha fallado ao Centuri?o, um camarada a quem salvei a vida na Germania, na campanha de Publius. E, quando rolámos a pedra sobre o tumulo de José de Ramatha, o corpo do Rabbi estava quente!

Mas calou-se: e, como se o pateo fechado sob o céo negro n?o fosse bastante secreto e seguro, tocou no hombro de Gad, e sem um rumor dos pés nús recolheu á escurid?o mais densa sob a varanda, até ás pedras do muro. Nós, rente a elle e mudos, tremiamos de anciedade:-e eu senti que uma revela??o ia passar, suprema e prodigiosa, alumiando os Mysterios.

-Ao anoitecer, segredou o homem por fim com um murmurio triste d'agua correndo na sombra, voltámos ao tumulo. Olhámos pela fenda: a face do Rabbi estava serena e cheia de magestade. Levantámos a pedra, tirámos o corpo. Parecia adormecido, t?o bello, como divino, nos panos que o envolviam... José tinha uma lanterna: e levámol-o pelo Gareb, correndo através do arvoredo. Ao pé da fonte encontrámos uma ronda da Cohorte auxiliar. Dissemos: ?é um homem de Joppé que adoeceu, e que nós levamos á sua synagoga.? A ronda disse: ?passai?. Em casa de José estava Simeon o Essenio, que viveu em Alexandria e sabe a natureza das plantas: e tudo f?ra preparado, até a raiz do baraz... Estendemos Jesus na esteira. Démos-lhe a beber os cordiaes, chamámol-o, esperámos, orámos... Mas ai! sentiamos, sob as nossas m?os, arrefecer-lhe o corpo!... Um instante abriu lentamente os olhos, uma palavra sahiu-lhe dos labios. Era vaga, n?o a comprehendemos... Parecia que invocava seu pai, e que se queixava de um abandono... Depois estremeceu: um pouco de sangue appareceu-lhe ao canto da bocca... E, com a cabe?a sobre o peito de Nicodemus, o Rabbi ficou morto!

Gad cahiu pesadamente de joelhos, solu?ando: e o homem, como se todas as coisas tivessem sido ditas, deu um passo para buscar a sua lampada ao po?o. Topsius deteve-o, com avidez:

-Escuta! Preciso toda a verdade. Que fizestes depois?

O homem parou junto a um dos pilares de madeira. Depois, alargando os bra?os na escurid?o, e t?o perto das nossas faces que eu sentia o seu bafo quente:

-Era necessario, para bem da terra, que se cumprissem as prophecias! Durante duas horas José de Ramatha orou, prostrado. N?o sei se o Senhor lhe fallou em segredo; mas, quando se ergueu, resplandecia todo e gritou: ?Elias veio! Elias veio! Os tempos chegaram!? Depois, por sua ordem, enterrámos o Rabbi n'uma caverna que elle tem, talhada na rocha, por traz do moinho...

Atravessou o pateo, tomou a sua lampada. E recolhia lentamente, sem um rumor, quando Gad, erguendo a face, o chamou através dos seus solu?os:

-Escuta ainda! Grande é o Senhor, na verdade!... E o outro tumulo, onde as mulheres de Galilêa o deixaram, ligado e envolto em panos, com aloes e com nardo?

O homem, sem parar, murmurou, já sumido na treva:

-Lá ficou aberto, lá ficou vazio!...

Ent?o Topsius arrastou-me pelo bra?o t?o arrebatadamente que trope?avamos no escuro contra os pilares da varanda. Uma porta ao fundo abriu-se, com um brusco estrondo de ferros cahidos... E vi uma pra?a, rodeada de pallidos arcos, triste e fria, com herva entre as fendas das lages dessoldadas, como n'uma cidade abandonada. Topsius estacou, os seus oculos faiscavam:

-Theodorico, a noite termina, vamos partir de Jerusalem!... A nossa jornada ao Passado acabou... A lenda inicial do christianismo está feita, vai findar o mundo antigo!

Eu considerei, assombrado e arripiado, o douto Historiador. Os seus cabellos ondeavam agitados por um vento de inspira??o. E o que levemente sahia dos seus finos labios retumbava, terrivel e enorme, cahindo sobre o meu cora??o:

-Depois d'ámanh?, quando acabar o Sabbath, as mulheres de Galilêa voltar?o ao sepulchro de José de Ramatha onde deixaram Jesus sepultado... E encontram-no aberto, encontram-no vazio!... ?Desappareceu, n?o está aqui!...? Ent?o Maria de Magdala, crente e apaixonada, irá gritar por Jerusalém-?resuscitou, resuscitou!? E assim o amor d'uma mulher muda a face do mundo, e dá uma religi?o mais á humanidade!

E, atirando os bra?os ao ar, correu através da pra?a-onde os pilares de marmore come?avam a tombar, sem ruido e mollemente. Arquejando, parámos no port?o de Gamaliel. Um escravo, tendo ainda nos pulsos peda?os de cadêas partidas, segurava os nossos cavallos. Montámos. Com um fragor de pedras levadas n'uma torrente, varámos a Porta d'Ouro: e galopámos para Jerichó, pela estrada romana de Sichem, t?o vertiginosamente que n?o sentiamos as ferraduras ferir as lages negras de basalto. Adiante, a capa branca de Topsius torcia-se a?outada por uma rajada furiosa. Os montes corriam aos lados, como fardos sobre dorsos de camêlos na debandada d'um povo. As ventas da minha egoa dardejavam jactos de fumo avermelhado:-e eu agarrava-me ás clinas, tonto, como se rolasse entre nuvens...

De repente avistámos, alargada, cavada até ás serras de Moab, a planicie de Canaan. O nosso acampamento alvejava junto ás bragas dormentes da fogueira. Os cavallos estacaram, tremendo. Corremos ás tendas: sobre a mesa, a vela que Topsius accendera para se vestir, havia mil e oitocentos annos, morria n'um fogacho livido... E derreado da infinita jornada atirei-me para o catre, sem mesmo descal?ar as botas brancas de pó...

Immediatamente me pareceu que uma tocha fumegante penetrára na tenda, esparzindo um brilho d'ouro... Ergui-me, assustado. N'um largo raio de sol, vindo dos montes de Moab, o jocundo Potte entrava, em mangas de camisa, com as minhas botas na m?o!

Arrojei a manta, arredei os cabellos, para verificar melhor a mudan?a terrivel que desde a vespera se fizera no Universo! Sobre a mesa jaziam as garrafas do champagne com que brindaramos á Sciencia e á Religi?o. O embrulho da Cor?a d'Espinhos pousava á minha cabeceira. Topsius, no seu catre, em camisola e com um len?o amarrado na testa, bocejava, pondo os oculos de ouro no bico. E o risonho Potte, censurando a nossa pregui?a, queria saber se appeteciamos n'essa manh?-?tapioca ou café?.

Deixei sahir deliciosamente do peito um ruidoso, consolado suspiro. E no jubilo triumphal de me sentir reentrado na minha individualidade e no meu seculo pulei sobre o colx?o, com a fralda ao vento, bradei:

-Tapioca, meu Potte! Uma tapioca bem docinha e mollesinha, que saiba bem ao meu Portugal!...

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