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A Filha do Cabinda

A Filha do Cabinda

Author: : Alfredo Campos
Genre: Literature
A Filha do Cabinda by Alfredo Campos

Chapter 1 No.1

A filha do cabinda é formosa como a vis?o d'um sonho celeste; meiga como o canto do sabiá, poisado nos galhos do cajueiro, e ingenua como a virgem da innocencia.

O cabinda é negro, e negro de ra?a fina, mas é branca a sua filha, e filha, porque o velho escravo quer muito á senhora mo?a, que elle beijava e embalava no seu collo, quando era pequenina.

Revê-se n'ella, e n'ella se mira doido d'affei??o o pobre negro, e tanto a gravou na ideia, tanto a traz no cora??o, que chega até a esquecer-se do trabalho, sujeitando-se ás reprehens?es do seu senhor, para, insensivelmente, se entregar a scismar n'ella, que é t?o bondosa, t?o meiga e t?o carinhosa para elle; n'ella, que, por uma destas illus?es, d'estas miragens, d'estas doidices, d'um grande affecto e d'uma viva sympathia, chega a julgar realmente sua filha.

E filha do cabinda lhe chama elle.

O negro vivia na sua terra, alegre e feliz; lá tinha seus paes, a sua companheira, os filhos e a sua familia.

Um dia, n?o sabe como, achou-se com todos elles dentro d'um navio, que come?ou a affastal-o, cada vez mais, da sua patria. Passou assim algum tempo, entre as duas immensid?es, o mar e o céo, sem sentir saudades da sua terra, porque levava ainda ao seu lado aquelles que lhe davam alegria. Depois, pozeram-o de novo em terra, levaram-o a elle e aos seus companheiros para uma grande casa, onde os brancos come?aram a disputar o pre?o por que haviam de compral-os.

O cabinda foi vendido e quizeram leval-o.

Leval-o? E a sua companheira? e os filhos? e seus paes?

Esses, foram vendidos tambem, e cada um a seu senhor.

Tristissimo era o negocio da escravid?o!

Reagiu o negro, quando o quizeram separar dos seus, e quando tambem os separavam d'elle.

Teve, ent?o, saudades da sua patria, terriveis, sem duvida, porque eram, ao mesmo tempo, saudades da sua liberdade.

Fizeram-lhe, porém, estancar as lagrimas angustiosas as amea?as d'um a?oite, e o Cabinda lá partiu, sem esperan?as de tornar a vêr os filhos queridos, que nem sequer beijara na despedida, a esposa, que elle adorava com um culto rude, mas sincero, e os paes, que elle respeitava com a sua venera??o selvagem.

Partiu, mas ainda assim, boa estrella o guiava, porque, cortando-lhe as affei??es mais caras da sua vida, ao menos o levaram para onde tinha de ser estimado, quasi como pessoa de familia, e n?o como escravo e negro que era.

Em casa do seu senhor foi elle encontrar uma creancinha de dois annos, que tinha uns olhos lindos, os cabellos como os olhos, negros da c?r do abysmo, e um rosto como o dos anjos d'um sonho de poeta, como o das fadas boas das vis?es nocturnas das mattas virgens.

A convivencia foi-o affei?oando áquella creancinha, que lhe sorria t?o innocentemente; que lhe estendia, alegre, os bracinhos mimosos, e, brincando, o abra?ava carinhosamente pelas pernas.

O negro, quando via a pequenina Magdalena, sentia n?o sei que do?uras n'alma, n?o sei que effluvios no cora??o, mas que deviam ser gratissimos, porque os olhos desannuviavam-se-lhe logo das sombras de tristeza, que os velavam sempre, e os labios desatavam-se-lhe n'um sorriso de sincero e intimo jubilo.

E tomava-a no collo, sentava-se com ella á sombra das copadas tamarindeiras ou das laranjeiras em flor, cobria-a de beijos e affagos, entretecia-lhe cor?as de jasmins e martyrios, e olhava-a, assim n'uma especie de adora??o sublime e concentrada, talvez com a recorda??o nos filhinhos, que perdera, e que eram tambem pequeninos como a mimosa Magdalena.

Tinha dez annos a filha do cabinda, quando perdeu sua m?e.

Ficavam-lhe os affagos d'um pae estremoso e os carinhos do negro affei?oado; mas que valia tudo isso? que valia a gotta d'agua para t?o grande sêde? o atomo em face da immensidade desfeita?

O negro, que era dedicado á sua senhora, tanto como á pequenina Magdalena, esqueceu-se da sua condi??o de escravo, e arrojou-se, em um impeto de d?r e d'affecto, a entrar no quarto da moribunda, poucos momentos antes d'ella despedir o derradeiro alento.

Estava junto ao leito Jorge de Macedo, que era o seu senhor, embebendo em beijos lacrymosos o rosto da innocente, que ia em breve ser o seu unico encanto n'este mundo.

Os dois, pae e filha, assistiam angustiados ao desabamento d'aquelle edificio da sua ventura.

O cabinda entrou como perdido, olhou para Jorge com receio, com amor para Magdalena e foi ajoelhar-se, de m?os postas, junto ao leito da enferma, chorando como crean?a.

--Anda cá, cabinda, disse a moribunda, com voz amortecida, ao vêl-o de joelhos, alli, ao pé d'ella. Anda cá; vem vêr como se vai para o céo!...

--Que fazes, atrevido! exclamou Jorge a meia voz.

--Ah! meu senhor! a m?e do escravo é um anjo, e o negro quer despedir-se da sua senhora!

--Sahe, cabinda!

--Oh! n?o! n?o! supplicou este. O negro é escravo, mas o negro tem cora??o!

E abra?ava a roupa do leito para abra?ar a moribunda, chorava como doido, solu?ando em desespero e supplicando com ardor:

--A m?e do cabinda ha-de deixar a sua filhinha e o seu parceiro, a chorarem saudades como o bemtevi do matto? N?o, n?o nos deixes, m?e senhora!

--Papae, atalhou Magdalena, affagando as faces de Jorge, humedecidas pelas lagrimas; o cabinda chora, n?o trates mal o cabinda, que é nosso amigo.

--Oh! sim, sim! acudiu o preto. O cabinda quer muito á sua filhinha, quer muito á sua senhora e muito ao seu senhor! O negro tem alma e n?o tem familia a quem a dar. é, como a palmeira do morro, que n?o tem coqueiro ao lado.

--O negro é bom, meu Jorge, disse a doente a custo. E se te pe?o muito que fiques sendo a m?e da nossa Magdalena, n?o te esque?as tambem de que o cabinda a trouxe ao collo muitas vezes, quando era mais pequenina.

--N?o esque?o, minha Beatriz! solu?ou Jorge.

--E elle n?o ha-de ser mais nosso escravo, n?o, papae?

--N?o, minha filha.

--Mas o cabinda, atalhou o negro, n?o quer deixar a casa do seu senhor, n?o quer viver longe da sua filha.

--N?o, n?o nos has-de deixar, que nós somos todos teus amigos, acudiu a crean?a, affagando o escravo, emquanto Jorge dizia comsigo, no intimo da consciencia:

--O negro tem a c?r do urubú, mas tem alma de pomba rola!

Horas depois, Beatriz, a esposa de Jorge, tinha entregado a alma ao Creador.

Jorge chorava, para um lado, profundamente ferido no cora??o, as d?res da sua viuvez. O negro e Magdalena solu?avam, abra?ados, a perda da bondade da que tanto era m?e d'uma como anjo do outro.

Jorge conheceu, ent?o, até onde ia a dedica??o do seu escravo, a grandeza da alma do negro, e come?ou a olhal-o, a tratal-o e a querer-lhe, muito mais como a um membro da sua familia, do que como a um ente, geralmente visto com desdem, com indifferen?a e até com desprezo.

O cabinda perdera a sua familia, de que t?o barbaramente o separaram, mas havia ganho muito pela sua dedica??o.

Bastavam as festas e os sorrisos de Magdalena, de quem elle dizia sempre:

--Agora n?o tem m?e, é filha do cabinda!

Chapter 2 No.2

O Botafogo é, sem duvida, o mais formoso dos formosos arrabaldes do Rio de Janeiro.

As aguas do vasto Guanabára, que, levemente onduladas, beijam constantemente a fimbria da purpura real da grande cidade, formam, n'aquelle retiro, um como lago de sufficiente superficie, que é orlado, em grande parte da circumferencia, de chacaras magestosas, com vistosos e immensos jardins, vegeta??o opulenta e luxuriante, e explendidos e poeticos panoramas.

Em 1859, Jorge de Macedo, negociante de café em grande escala, e, ao mesmo tempo, abastado capitalista, vivia no Botafogo, em um formoso palacete, circumdado de lindissimos jardins.

Magdalena, a filha do cabinda, n'esta epocha, em que principia a nossa narrativa, tinha desenove annos, e era a fada d'aquelle arrabalde do Rio de Janeiro.

O cabinda estava já entrado em edade, mas vigoroso ainda, e sempre dedicado.

Occupava-se o negro da limpeza das parasitas, que tentavam envadir as aleas dos jardins, e em algum servi?o de Magdalena, sendo, de resto, tractado com toda a estima e amisade.

Magdalena exercia a profiss?o da caridade, n?o cuidando sen?o de dispensar a seu pae os carinhos e os affagos, que havia perdido na sua adorada Beatriz, e em dispensar, dos meios, que lhe abundavam, esmolas aos desgra?ados e pobres.

Jorge dedicava-se aos seus negocios e á felicidade de sua filha, que elle adorava muito, fanaticamente até.

A chacara de Jorge de Macedo era um ninho de delicioso conforto, d'uma belleza invejavel, aonde n?o entrava nunca a sombra d'um desgosto, nem uma nuvem de desharmonia, pequenina que fosse.

Alli, senhores e escravos, brancos e negros, todos viviam em perfeita alegria.

Dos ultimos, porém, o mais querido, o mais estimado, o mais predilecto, sobre tudo de Magdalena, era inquestionavelmente o cabinda.

O negro tambem n?o abusava, e, diga-se a verdade, bem merecia elle de todos, mas de ninguem tanto, como da que elle chamava, e queria, e estimava como filha.

Era por uma tarde de maio, formosa e explendida. O sol doura, ainda, com os seus raios ardentes, os cumes do P?o d'Assucar, da Tijuca, do Corcovado, e a cupula de folhagem variada das arvores gigantes, que vestem os montes em volta do Rio de Janeiro.

Uma brisa, suave, mas tepida, empregnada de perfumes de fl?res e de fructos, perpassa, branda, para o norte, agitando as palmas dos coqueiros e as largas, compridas e pendidas folhas das bananeiras e das palmeiras.

O sabiá trina ainda os seus modilhos deliciosissimos entre a ramagem mimosa d'uma jaboticábeira carregada de fructos, e o beija-fl?r pequenino anda na sua peregrina??o, voluvel sempre, e sempre rapido, deixando beijos nas fl?res brancas do jasmineiro odorifero, ou nas fl?res symbolicas do maracujá, que veste as paredes e os caramancheis dos jardins.

O céo está sereno e limpido.

Ao fundo da chacara de Jorge de Macedo ha um pequeno, mas formoso lago, coberto d'agua, que cáe, em monotono murmurio, da bocca d'um trit?o de marmore fino.

Por traz, encostado ao muro, e voltado ao lago, ha um vasto caramanchel formado de tran?as de cipós e de maracujás, carregadas de fl?res e fructos.

Tem no meio uma meza de granito branco, e em volta assentos inglezes de madeira e ferro, talhados de modo que dêem ao corpo toda a possivel commodidade.

A atmosphera tem a c?r avermelhada dos raios do sol, que desce a esconder-se no mar, e faz brilhar, com c?res phantasticas, as azas, meio diaphanas, das borboletas iriadas, que volitam dos cafezeiros para as goiabeiras, e d'estas para os ramos dos pés d'ara?ás.

Magdalena, a formosa filha do cabinda, jantou e desceu aos jardins; andou só, pensativa, ora alegre, ora rapida, ora vagarosa, de canteiro em canteiro, colhendo pequeninas fl?res, que ia juntando entre as paginas d'um livro, mimosamente encadernado.

Depois, lan?ou, atravez da gradaria de ferro, um olhar ao vapor da carreira, que passava em frente, atravessando o mar para o Rio, volveu-se passado um instante, e seguiu por uma alea, orlada de grandes jambeiros e pés de grumixama, em direc??o ao lago, que jazia no fundo da chacara.

Magdalena era formosa, d'esta formosura, que desperta um culto sincero, uma adora??o em que n?o entra um atomo de sentimentos menos dignos, d'esta formosura, em que se espelha e revela a eleva??o do espirito, a bondade d'alma e a magnanimidade do cora??o.

Aquelles olhos negros, scintillantes, orlados d'uma tenue sombra, e aquelle rosto, t?o expressivamente angelico, estavam mostrando as fl?res de ventura, em que se desataria o seu cora??o e a sua alma, para aquelle que um dia tivesse o supremo goso de a possuir.

Era magestosa no andar, elegante de fórmas, e simples no vestir, mas d'esta simplicidade, que dá realce, que encanta, attráe e enleva.

Como lhe fica bem aquelle vestido alvissimo, de fina cambraia, liso, desguarnecido, apertado apenas na cintura delicada por um grande la?o de sêda azul clara!

Que belleza no modesto penteado dos seus negros cabellos, fartos e setinosos, formando apenas duas compridas tran?as, que, cahindo-lhe pelas costas, se prendem, pela extremidade, uma á outra, ainda por um la?o azul pequenino!

As pombas rolas, que andam aos pares, fallando amores na sua linguagem mysteriosa, levantam v?o com a approxima??o de Magdalena, que as segue depois com a vista, até as perder de todo; mas as borboletas de c?res variadissimas, seguem-a contentes, como se já a conhecessem de ha muito, e andam inquietas, em volta d'ella, ora subindo, ora descendo, como que desejando beijal-a, mas temendo fazel-o, receiando maculal-a.

E ella lá vae vagarosa e muda, lan?ando, de quando em quando, um olhar ás fl?res, que leva prêsas nas folhas do livro, talvez bem querido!

Chegou assim ao lago, debru?ou-se n'elle como procurando vêr os peixinhos dourados, que o habitavam, e foi sentar-se encostada á meza de pedra, n'um dos bancos do caramanchel.

Era expressivo o seu rosto, porque estava desenhando os desejos que sentia dentro de si, e que ella mesma n?o podia comprehender.

Desejos vagos, mysteriosos, indefiniveis.

Conservou-se absorta durante dois minutos, mas como que acordando, depois, d'um sonho que a prendia, tirou as fl?res d'entre as folhas do livro, collocou-as a um lado e p?z-se a lêr alto, com a sua voz meiga, seductora e angelical.

Era um livro de versos, era um livro d'amor, o que ella lia!

E t?o prêsa estava com as phrases, que ia repetindo, t?o scismadoramente como se em verdade as sentisse; t?o distrahida estava de tudo, de todos e de quanto a cercava, que nem ouvia os gorgeios compassados d'um bemtevi, que a sua voz harmoniosa havia desafiado, occulto entre as folhas do ramo d'uma grande mangueira, que quasi se debru?ava sobre o lago.

Chegou a um ponto da leitura e deteve-se suspirando. Depois repetiu ainda a quadra que acabára de recitar, e que dizia assim:

Suspiras, alma, n'um anceio languido? Ninguem te affaga, perfumada fl?r? Ao sol as rosas da manh? desdobram-se, E a brisa affaga-as com carinho e amor!

E fechou o livro e ficou a scismar, com os olhos negros e formosos, cravados, vagamente, n'um ponto do horisonte.

Passados instantes, encostou a face á m?o, como que cedendo ao pêso d'um somno voluptuoso, e por fim deixou cahir o bra?o sobre a meza e o rosto sobre o bra?o, n'uma especie de somnolencia, sonhando, talvez, com as phrases do livro, que havia acabado de lêr, e que, sem duvida, a impressionaram ou lhe fallarám á alma.

As borboletas d'azas douradas, lá andavam em volta d'ella, como que embalando-a nos sonhos, que deviam esmaltar-lhe a somnolencia.

O sol havia-se já escondido o bastante para deixar a terra envolta nas sombras do crepusculo.

E a n?o serem os murmurios da brisa e os queixumes da agua, cahindo no lago pela bocca do trit?o, nada mais se ouvia n'aquella hora da tarde, no retiro aonde repousava Magdalena.

De subito come?ou a fazer-se sentir um leve ruido. Eram as folhas seccas do ch?o, gemendo debaixo dos pés d'alguem, que se aproximava.

Quem seria?

As aves receiosas deixavam os seus asylos, architectados nos ramos das arvores frondosas, ante a passagem do ser que se aproximava.

Um minuto depois, um negro surgia junto ao lago.

Era o cabinda.

O preto deu com os olhos em Magdalena, parou e susteve a respira??o, com mêdo de a acordar, mas nos olhos e nos labios brilhou-lhe logo um sorriso de verdadeira alegria.

--Oh! exclamou elle baixinho, é ella, a filha do cabinda!

E foi, pé ante pé, collocar-se de joelhos, junto á meza de pedra, em posi??o d'onde melhor podia contemplar a sua filha, e assim ficou sem despregar os olhos d'ella.

Era uma loucura aquella affei??o do negro!

Chapter 3 No.3

O cabinda permanecia alli, como o verdadeiro crente, em face do altar do Christo crucificado.

Magdalena prendia-lhe os sentidos, absorvia-o completamente.

A cada respira??o, a cada ondula??o do seio da virgem, extremecia elle e abria mais os seus grandes olhos, n'uma express?o alternativamente de receio e de esperan?a, que ella acordasse.

Por fim, Magdalena estremeceu e levantou de subito o rosto formosissimo. O seu olhar meigo e deslumbrante foi encontrar o negro ajoelhado, com os olhos pregados n'ella.

--Ah! és tu cabinda?

--O negro, senhora mo?a!

--E que fazias ahi de joelhos?

--Olhava para a minha filha, que dormia...

--E que sonhava tambem, cabinda. Tu nunca sonhas, quando dormes?

--Sonhar? repetiu o cabinda. á noite, quando o negro se deita, e faz escuro em volta d'elle, o cabinda vê a sua senhora, que foi para a terra do Pai dos brancos; vê a senhora mo?a muito contente, com a cabe?a cheia de rosas lindas, e o senhor a dar muitos beijos n'ella. E o cabinda lembra-se, tambem, dos seus filhos e da sua companheira, e chora de noite lagrimas no escuro.

--Coitado!

--Oh! mas o cabinda é alegre, como o jacaiol da floresta, quando a sua filha ri e falla ao negro!

--Pois olha, meu amigo, estou agora muito triste... muito!...

E Magdalena ficou como que embebida n'uma ideia que a dominava, com o rosto em visivel express?o de melancholia.

--E que tem a senhora mo?a? perguntou o negro com anciedade e receio. O cabinda n?o a quer triste; as arapongas que chorem, quando o ca?ador as ferir.

--Nem eu sei o que tenho. Vamos andando que eu conto-t'o.

E tornando a prender as fl?res entre as folhas do livro, seguiu, acompanhada pelo negro, uma das aleas oppostas áquella por onde tinha chegado ao lago.

Magdalena ia vagarosa e pensativa; o negro, ao lado d'ella, caminhava abstracto de tudo, sem vêr mais nada.

Que magestoso quadro aquelle!

Magdalena era o anjo meigo e deslumbrante, da mocidade cheia d'explendores, a que sorriem todas as esperan?as, e para o qual todos os horisontes s?o vastos, largos e floridos!

O cabinda era o velho escravo, fiel e dedicado, capaz de tudo para salvar a vida dos seus senhores, saltando de contente com dois affagos e humilhando-se submisso á menor reprehens?o.

Os dois caminhavam a par.

Era n'essa hora mysteriosa dos esponsaes do dia com a noite.

Por sobre as suas cabe?as arqueava-se, verdejante, o docel das jaqueiras, d'um lado, e dos ramos frondosos das mangueiras, do outro. As aves já se haviam retirado aos gratos asylos.

--Tu sabes o que s?o saudades, cabinda? perguntou Magdalena ao negro.

--Saudades? repetiu elle, scismando na resposta.

--Sim.

--Sei, senhora mo?a. é ter o negro a alma a doer muito, como á pomba rola, quando lhe tiram os filhos, ou o parceiro do ninho do matto.

--é isso. Pois olha, eu tenho saudades, e n?o sei de quê. Sinto a alma a pedir-me uma coisa, que eu n?o comprehendo, e arde-me o cora??o em desejos loucos, mas desconhecidos. Quero, e n?o sei o que quero; desejo, e pergunto o que desejo. N?o me falta nada, porque, gra?as a Deus, sou rica; n?o ha vontade nem capricho que o papae me n?o satisfa?a, e, olha, apesar de tudo, n?o vivo contente. De tarde, sempre que chega esta hora, sinto um peso na alma, que eu n?o sei de onde vem, nem para quê. De noite, ent?o de noite, sonho muito e tenho saudades d'esses sonhos quando acordo. Vejo ao meu lado um rosto que me sorri, uns labios que me dizem coisas que ninguem ainda me disse, coisas bonitas, doces e encantadoras; umas m?os que me fazem festas, que me alisam os cabellos e m'os enfeitam de flores, e uns olhos que me olham muito, e que penetram até dentro do meu cora??o. Mas depois acordo, desapparece o sonho, vejo-me só, e tenho saudades, cabinda...

O negro, se bem que nada comprehendera de tudo quanto lhe dissera Magdalena, é certo que o havia adivinhado, porque acudiu rapidamente, apenas ella acabou:

--é a alma do branco que vem fallar á alma da senhora mo?a.

--Do branco? perguntou Magdalena, com ar de quem n?o comprehendia.

--Do branco, sim. A on?a do cannavial e o jabirú das lag?as teem o seu parceiro, como tinha o cabinda, quando veio da sua terra. E a senhora mo?a, vê o branco nos sonhos, como o cabinda vê a sua parceira e os filhos, mas o branco n?o apparece.

--N?o te entendo, cabinda, acudiu Magdalena, scismando no que o negro lhe dizia.

--O mal da senhora mo?a é aqui, disse o cabinda, indicando no peito o logar do cora??o. O branco que a minha filha vê á noite, quando dorme, é que ha de vir cural-a.

--Como?

--N?o sei.

--Quando?

--Elle virá. O negro tambem tinha isso, lá, na sua terra. No matto, no cannavial, quando o negro andava á ca?a, e no rio, quando dormia dentro da sua can?a, o cabinda n?o tinha a sua parceira, mas o negro via-a sempre. E um dia a parceira do cabinda appareceu, e o negro n?o soffreu mais, nem tornou a chorar.

Magdalena continuou vagarosa ao lado do negro, mas visivelmente melancholica e pensativa, talvez com o que elle acabava de dizer-lhe.

Estava ella na idade em que o cora??o come?a a desabrochar as primeiras fl?res e a sentir os primeiros desejos. Tinha algumas vezes ouvido fallar d'amor ás suas amigas; vira umas alegres, tristes outras, umas cheias de enthusiasmo e ventura, outras soffredoras e melancholicas, e ella sempre indifferente a tudo, sempre sem lhes ligar outra importancia mais do que a que nascia da sua amisade. Nunca um homem lhe rendera uma fineza, nunca um homem lhe dardejára um olhar expressivo; e se algum o fizera, Magdalena ou n?o o viu ou n?o o comprehendeu.

Agora, sim. Agora, as saudades de que fallava; os sonhos que lhe floriam ás noites, ou lhe esmaltavam o repouso, eram os tra?os claros dos desejos, que tinha na alma e no cora??o, de amar e ser tambem amada, de gozar os dulcissimos effluvios do sentimento, que lhe irrompia no peito.

Tinham chegado assim ao terreiro, que havia na rectaguarda do palacete, para o qual se descia por uma escadaria de pedra, no extremo de uma vasta varanda.

Jorge de Macedo estava de pé, no topo das escadas, fumando um charuto, e n'uma attitude de quem esperava alguem.

Magdalena, apenas o viu, desatou a correr e exclamou:

--Ah! o papae!

O negro ficou só, e Jorge sorriu-se, dizendo:

--Olha que te can?as, doidinha!

A filha do cabinda transpoz rapida o espa?o que a separava de Jorge, e apenas se achou junto d'elle, fez dos bra?os um collar, com que lhe prendeu o pesco?o, e come?ou a cobril-o de beijos carinhosissimos, a que elle correspondia em visivel express?o de jubilo e de ventura.

Eram os beijos da flor ao tronco onde nascera! eram os affectos gerados pelos la?os mysteriosos do sangue!

Que beijos aquelles! que affecto se n?o desdobrava alli!

--Mausinho, que me deixou hoje jantar só, queixou-se ella com fingido agastamento.

--Tive muito que fazer, filha. Mas déste o teu passeio até ao lago, n?o?

--Dei, papae, acompanhou-me o cabinda.

O negro chegava n'este momento, diringindo-se a Jorge:

--A sua ben??o, meu senhor!

--Adeus, cabinda.

--E amanh??... perguntou Magdalena, sorrindo com inten??o.

--Amanh?...

--é dia de festa; faz o papae annos e havemos de jantar muito alegres! atalhou ella.

--Muito. E vais ter hospedes.

--Hospedes? interrogou com curiosidade.

--Sim. Convidei o guarda livros, e os caixeiros; vem toda a gente do armazem.

--Oh! que alegria vai ser a nossa, n?o é verdade, papae.

--Grande, minha filha, porque é de ti que ella vem.

E deu-lhe um beijo, onde ia impressa a sua alma e o seu amor de pae extremosissimo.

Magdalena foi, porém, a pouco e pouco, perdendo aquella alegria com que havia acariciado Jorge, e tornando-se pensativa, absorta, e como que esquecida de onde estava e com quem estava.

O negro, do extremo opposto da varanda, tinha os olhos fitos n'ella com a avidez de quem parecia estar estudando-a.

Que nuvens, embora tenues, eram as que assombravam melancholicamente aquelle rosto t?o formoso d'aquella mulher anjo?

Que pensamentos lhe agitavam a mente, para que soffresse aquella passagem suave do alegre para o triste?

O cabinda havia-lhe dito que o branco a curaria, e ella pensava n'isso, lembrando-se dos hospedes que ia ter ao jantar, no dia seguinte.

Eram as alvoradas do cora??o; eram os pressentimentos do que ha de vir!

E scismando n'isso, ia esquecendo-se de tudo, quando Jorge a accordou:

--Esqueces o piano, Magdalena?

--N?o, papae; esperava por si.

--Vamos, ent?o.

--Vamos.

E tomou a m?o a Jorge, e recolheram-se ambos alegres e contentes.

Pouco depois, o piano gemia, debaixo dos formosos dedos da filha do cabinda, uma reverie de deliciosissimas harmonias, d'estas que levam presas, nas suas azas, o espirito até ao céo.

Jorge ouvia-a n'um extase.

Sentado nas commodas almofadas d'uma cadeira estofada, tinha os olhos pregados no rosto da filha mimosa, da filha, que era o seu anjo, o seu encanto, a sua vida, a sua felicidade mais completa, mas alava o espirito ás regi?es celestes, nas ondas d'aquella musica, onde, n'uma especie de mystifica??o, estava vendo a sua adorada Beatriz, a esposa queridissima, que a morte desapiedada lhe arrebatára t?o cedo dos bra?os!

O cabinda, no entanto, jazia no extremo da varanda, que deitava sobre o terreiro, dizendo comsigo a meia voz:

--Os brancos veem amanh?; o mulato virá tambem. Cabinda, a senhora mo?a é tua filha!

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