O meu amigo Jacintho nasceu n'um palacio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de corti?a e d'olival. No Alemtejo, pela Extremadura, atravez das duas Beiras, densas sebes ondulando por collina e valle, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agricola que já entulhava gr?o e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz. A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o torr?o lhe pagava f?ro.
E cerrados pinheiraes seus negrejavam desde Arga até ao mar d'Ancora. Mas o palacio onde Jacintho nascêra, e onde sempre habitára, era em Paris, nos Campos Elyseos, n.o 202. Seu av?, aquelle gordissimo e riquissimo Jacintho a quem chamavam em Lisboa o D. Gali?o, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta, rente d'um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou n'uma casca de laranja e desabou no lagedo. Da portinha da horta sahia n'esse momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baet?o verde e botas altas de picador, que, galhofando e com uma for?a facil, levantou o enorme Jacintho-até lhe apanhou a bengala de cast?o d'ouro que rolára para o lixo. Depois, demorando n'elle os olhos pestanudos e pretos:
-Oh Jacintho Gali?o, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas pedras?
E Jacintho, aturdido e deslumbrado, reconheceu o snr. Infante D. Miguel!
Desde essa tarde amou aquelle bom Infante como nunca amára, apesar de t?o guloso, o seu ventre, e apesar de t?o devoto o seu Deus! Na sala nobre da sua casa (á Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do ?seu Salvador?, enfeitado de palmitos como um retabulo, e por baixo a bengala que as magnanimas m?os reaes tinham erguido do lixo. Emquanto o adoravel, desejado Infante penou no desterro de Vienna, o barrigudo senhor corria, sacudido na sua sege amarella, do botequim do Zé-Maria em Belem á botica do Placido nos Algibebes, a gemer as saudades do anginho, a tramar o regresso do anginho. No dia, entre todos bemdito, em que a Perola appareceu á barra com o Messias, engrinaldou a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papel?o e lona onde D. Miguel, tornado S. Miguel, branco, d'aureola e azas de Archanjo, furava de cima do seu corcel d'Alter o Drag?o do Liberalismo, que se estorcia vomitando a Carta. Durante a guerra com o ?outro, com o pedreiro livre? mandava recoveiros a Santo Thyrso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres, caixas de d?ce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retroz atochadas de pe?as que elle ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando soube que o snr. D. Miguel, com dois velhos bahus amarrados sobre um macho, tomára o caminho de Sines e do final desterro-Jacintho Gali?o correu pela casa, fechou todas as janellas como n'um luto, berrando furiosamente:
-Tambem cá n?o fico! tambem cá n?o fico!
N?o, n?o queria ficar na terra perversa d'onde partia, esbulhado e escorra?ado, aquelle Rei de Portugal que levantava na rua os Jacinthos! Embarcou para Fran?a com a mulher, a snr.a D. Angelina Fafes (da t?o fallada casa dos Fafes da Avellan); com o filho, o 'Cinthinho, menino amarellinho, mollesinho, coberto de caró?os e leicen?os; com a aia e com o moleque. Nas costas da Cantabria o paquete encontrou t?o rijos mares que a snr.a D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do beliche, prometteu ao Senhor dos Passos d'Alcantara uma cor?a d'espinhos, de ouro, com as gottas de sangue em rubis do Pegu. Em Bayonna, onde arribaram, 'Cinthinho teve ithericia. Na estrada d'Orleans, n'uma noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam partiu, e o nedio senhor, a delicada senhora da casa da Avellan, o menino, marcharam tres horas na chuva e na lama do exilio até uma aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram nos bancos d'uma taberna. No ?Hotel dos Santos Padres?, em Paris, soffreram os terrores d'um fogo que rebentára na cavalhari?a, sob o quarto de D. Gali?o, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em camisa, até ao pateo, enterrou o pé nú numa lasca de vidro. Ent?o ergueu amargamente ao céo o punho cabelludo, e rugiu:
-Irra! é de mais!
Logo n'essa semana, sem escolher, Jacintho Gali?o comprou a um Principe polaco, que depois da tomada de Varsovia se mettera fradecartuxo, aquelle palacete dos Campos Elyseos, n.o 202. E sob o pesado ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou, descan?ando de tantas agita??es, n'uma vida de pachorra e de boa mesa, com alguns companheiros d'emigra??o (o desembargador Nuno Velho, o conde de Rabacena, outros menores), até que morreu de indigest?o, d'uma lampreia d'escabeche que lhe mandára o seu procurador em Monte-mór. Os amigos pensavam que a snr.a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a boa senhora temia a jornada, os mares, as cale?as que racham. E n?o se queria separar do seu Confessor, nem do seu Medico, que t?o bem lhe comprehendiam os escrupulos e a asthma.
-Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarára ella), ainda que me faz falta a boa agua d'Alcolena... O 'Cinthinho, esse, em crescendo, que decida.
O 'Cinthinho crescèra. Era um mo?o mais esguio e livido que um cirio, de longos cabellos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse e de suffoca??es, errava em camisa com uma lamparina atravez do 202; e os creados na copa sempre lhe chamavam a Sombra. N'essa sua mudez e indecis?o de sombra surdira, ao fim do luto do papá, o gosto muito vivo de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada fl?r dos seus vinte annos, brotou n'elle outro sentimento, de desejo e de pasmo, pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma r?la, educada n'um convento de Paris, e t?o habilidosa que esmaltava, dourava, concertava relogios e fabricava chapéos de feltro. No outomno de 1851, quando já se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elyseos, o 'Cinthinho cuspilhou sangue. O medico, acarinhando o queixo e com uma ruga seria na testa immensa, aconselhou que o menino abalasse para o golfo Juan ou para as tepidas areias d'Arcachon.
'Cinthinho porém, no seu afèrro de sombra, n?o se quiz arredar da Therezinha Velho, de quem se tornára, atravez de Paris, a muda, tard?nha sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu um resto de sangue; e passou, como uma sombra.
Tres mezes e tres dias depois do seu enterro o meu Jacintho nasceu.
* * *
Desde o ber?o, onde a avó espalhava funcho e ambar para afugentar a Sorte-Ruim, Jacintho medrou com a seguran?a, a rijeza, a seiva rica d'um pinheiro das dunas.
N?o teve sarampo e n?o teve lombrigas. As Letras, a Taboada, o Latim entraram por elle t?o facilmente como o sol por uma vidra?a. Entre os camaradas, nos pateos dos collegios, erguendo a sua espada de lata e lan?ando um brado de commando, foi logo o vencedor, o Rei que se adula, e a quem se cede a fructa das merendas. Na edade em que se lê Balzac e Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade;-nem crepusculos quentes o retiveram na solid?o d'uma janella, padecendo d'um desejo sem fórma e sem nome. Todos os seus amigos (eramos tres, contando o seu velho escudeiro preto, o Grillo) lhe conservaram sempre amizades puras e certas-sem que jámais a participa??o do seu luxo as avivasse ou fossem desanimadas pelas evidencias do seu egoismo. Sem cora??o bastante forte para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o libertava, do amor só experimentou o mel-esse mel que o amor reserva aos que o recolhem, á maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e cantando. Rijo, rico, indifferente ao Estado e ao Governo dos Homens, nunca lhe conhecemos outra ambi??o além de comprehender bem as Ideias Geraes; e a sua intelligencia, nos annos alegres de escólas e controversias, círculava dentro das Philosophias mais densas como enguia lustrosa na agua limpa d'um tanque. O seu valor, genuino, de fino quilate, nunca foi desconhecido, nem desapreciado; e toda a opini?o, ou mera facecia que lan?asse, logo encontrava uma aragem de sympathia e concordancia que a erguia, a mantinha emballada e rebrilhando nas alturas. Era servido pelas cousas com docilidade e carinho;-e n?o recordo que jamais lhe estalasse um bot?o da camisa, ou que um papel maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou que ante a sua vivacidade e pressa uma gaveta perfida emperrasse. Quando um dia, rindo com descrido riso da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sachrist?o hespanhol um Decimo de Loteria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre a sua Roda, correu n'um fulgor, para lhe trazer quatro centas mil pesetas. E no ceu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam Jacintho sem guarda chuva, retinham com reverencia as suas aguas até que elle passasse... Ah! o ambar e o funcho da snr.a D. Angelina tinham escorra?ado do seu destino, bem triumphalmente e para sempre, a Sorte-Ruim! A amoravel avó (que eu conheci obesa, com barba) costumava citar um soneto natalicio do desembargador Nunes Velho contendo um verso de boa li??o:
Sabei, senhora, que esta Vida é um rio...
Pois um rio de ver?o, manso, translucido, harmoniosamente estendido sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas aldeias, n?o offereceria áquelle que o descesse n'um barco de cedro, bem toldado e bem almofadado, com fructas e Champagne a refrescar em gelo, um Anjo governando ao leme, outros Anjos puxando á sirga, mais seguran?a e do?ura do que a Vida offerecia ao meu amigo Jacintho.
Por isso nós lhe chamavamos ?o Principe da Gran-Ventura?!
* * *
Jacintho e eu, José Fernandes, ambos nos encontramos e acamaradamos em Paris, nas Escólas do Bairro Latino-para onde me mandára meu bom tio Affonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aquelles malvados me riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, n'uma tarde de prociss?o, na Sophia, a cara sordida do dr. Paes Pitta.
Ora n'esse tempo Jacintho concebêra uma Ideia... Este Principe concebêra a Ideia de que ?o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilisado?. E por homem civilisado o meu camarada entendia aquelle que, robustecendo a sua for?a pensante com todas as no??es adquiridas desde Aristoteles, e multiplicando a potencia corporal dos seus org?os com todos os mechanismos inventados desde Theramenes, creador da roda, se torna um magnifico Ad?o, quasí omnipotente, quasí omnisciente, e apto portanto a recolher dentro d'uma sociedade e nos limites do Progresso (tal como elle se comportava em 1875) todos os gozos e todos os proveitos que resultam de Saber e de Poder... Pelo menos assim Jacintho formulava copiosamente a sua Ideia, quando conversavamos de fins e destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias philosophicas, no Boulevard Saint-Michel.
Este conceito de Jacintho impressionára os nossos camaradas de cenaculo, que tendo surgido para a vida intellectual, de 1866 a 1875, entre a batalha de Sadowa e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde ent?o, aos technicos e aos philosophos, que f?ra a Espingarda-de-agulha que vencêra em Sadowa e f?ra o Mestre-de-escóla quem vencêra em Sedan, estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos individuos, como a das na??es, se realisa pelo illimitado desenvolvimento da Mechanica e da Erudi??o. Um d'esses mo?os mesmo, o nosso inventivo Jorge Carlande, reduzíra a theoria de Jacintho, para lhe facilitar a circula??o e lhe condensar o brilho, a uma fórma algebrica:
Summa sciencia }
X Summa potencia
Summa felicidade
E durante dias, do Odeon á Sorbonna, foi louvada pela mocidade positiva a Equa??o Metaphysica de Jacintho.
Para Jacintho, porém, o seu conceito n?o era meramente metaphysico e lan?ado pelo gozo elegante de exercer a raz?o especulativa:-mas constituia uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando a conducta, modalisando a vida. E já a esse tempo, em concordancia com o seu preceito-elle se surtira da Pequena Encyclopedia dos Conhecimentos Universaes em setenta e cinco volumes e installára, sobre os telhados do 202, n'um mirante envidra?ado, um telescopio. Justamente com esse telescopio me tornou elle palpavel a sua ideia, n'uma noite de agosto, de molle e dormente calor. Nos céos remotos lampejavam relampagos languidos. Pela Avenida dos Campos Elyseos, os fiacres rolavam para as frescuras do Bosque, lentos, abertos, can?ados, transbordando de vestidos claros.
-Aqui tens tu, Zé Fernandes, (come?ou Jacintho, encostado á janella do mirante) a theoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que recebemos da Madre natureza, lestos e s?os, nós podemos apenas distinguir além, atravez da Avenida, n'aquella loja, uma vidra?a alumiada. Mais nada! Se eu porém aos meus olhos juntar os dois vidros simples d'um binoculo de corridas, percebo, por traz da vidra?a, presuntos, queijos, boi?es de gelêa e caixas de ameixa sêcca. Concluo portanto que é uma mercearia. Obtive uma no??o; tenho sobre ti, que com os olhos desarmados vês só o luzir da vidra?a, uma vantagem positiva. Se agora, em vez d'estes vidros simples, eu usasse os do meu telescopio, de composi??o mais scientifica, poderia avistar além, no planeta Marte, os mares, as neves, os canaes, o recorte dos golphos, toda a geographia d'um astro que circula a milhares de leguas dos Campos Elyseos. é outra no??o, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza, elevado pela Civilisa??o á sua maxima potencia de vis?o. E desde já, pelo lado do olho portanto, eu, civilisado, sou mais feliz que o incivilisado, porque descubro realidades do Universo que elle n?o suspeita e de que está privado. Applica esta prova a todos os org?os e comprehendes o meu principio. Emquanto á intelligencia, e á felicidade que d'ella se tira pela incan?avel accumula??o das no??es, só te peco que compares Renan e o Grillo... Claro é portanto que nos devemos cercar de Civilisa??o nas maximas propor??es para gosar nas maximas propor??es a vantagem de viver. Agora concordas, Zé Fernandes?
N?o me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais feliz que o Grillo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal se c?lha em distinguir atravez do espa?o manchas n'um astro, ou atravez da Avenida dos Campos Elyseos presuntos n'uma vidra?a. Mas concordei, porque sou bom, e nunca desalojarei um espirito do conceito onde elle encontra seguran?a, disciplina e motivo de energia. Desabotoei o collete, e lan?ando um gesto para o lado dos cafés e das luzes:
-Vamos ent?o beber, nas maximas propor??es, brandy and soda, com gelo!
Por uma conclus?o bem natural, a ideia de Civilisa??o, para Jacintho, n?o se separava da imagem de Cidade, d'uma enorme Cidade, com todos os seus vastos org?os funccionando poderosamente. Nem este meu super-civilisado amigo comprehendia que longe de Armazens servidos por tres mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergeis e lezirias de trinta provincias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de Fabricas fumegando com ancia, inventando com ancia; e de Bibliothecas abarrotadas, a estalar, com a papelada dos seculos; e de fundas milhas de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telegraphos, de fios de telephones, de canos de gazes, de canos de fezes; e da fila atroante dos omnibus, tramways, carro?as, velocipedes, calhambeques, parelhas de luxo; e de dois milh?es d'uma vaga humanidade, fervilhando, a offegar, atravez da Policia, na busca dura do p?o ou sob a illus?o do gozo-o homem do seculo XIX podesse saborear, plenamente, a delicia de viver!
Quando Jacintho, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os lilazes, me desenrolava estas imagens, todo elle crescia, illuminado. Que crea??o augusta, a da Cidade! Só por ella, Zé-Fernandes, só por ella, póde o homem soberbamente affirmar a sua alma!...
-Oh Jacintho, e a religi?o? Pois a religi?o n?o prova a alma?
Elle encolhia os hombros. A religi?o! A religi?o é o desenvolvimento sumptuoso de um instincto rudimentar, commum a todos os brutos, o terror. Um c?o lambendo a m?o do dono, de quem lhe vem o osso ou o chicote, já constitue toscamente um devoto, o consciente devoto, prostrado em rezas ante o Deus que distribue o céo ou o inferno!... Mas o telephone! o phonographo!
-Ahi tens tu, o phonographo!... Só o phonographo, Zé Fernandes, me faz verdadeiramente sentir a minha superioridade de sêr pensante e me separa do bicho. Acredita, n?o ha sen?o a Cidade, Zé Fernandes, n?o ha sen?o a Cidade!
E depois (accrescentava) só a Cidade lhe dava a sensa??o, t?o necessaria á vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois milh?es de sêres arquejando na obra da Civilisa??o (para manter na natureza o dominio dos Jacinthos!) sentia um socego, um conchego, só comparaveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no seu dromedario, e avista a longa fila da caravana marchando, cheia de lumes e de armas...
Eu murmurava, impressionado:
-Caramba!
Ao contrario no campo, entre a inconsciencia e a impassibilidade da Natureza, elle tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solid?o. Estava ahi como perdido n'um mundo que lhe n?o fosse fraternal; nenhum silvado encolheria os espinhos para que elle passasse; se gemesse com fome nenhuma arvore, por mais carregada, lhe estenderia o seu fructo na ponta compassiva d'um ramo. Depois, em meio da Natureza, elle assistia á subita e humilhante inutilisa??o de todas as suas faculdades superiores. De que servia, entre plantas e bichos-ser um Genio ou ser um Santo? As searas n?o comprehendem as Georgicas; e f?ra necessario o socorro ancioso de Deus, e a invers?o de todas as leis naturaes, e um violento milagre para que o lobo de Agubio n?o devorasse S. Francisco d'Assis, que lhe sorria e lhe estendia os bra?os e lhe chamava ?meu irm?o lobo?! Toda a intellectualidade, nos campos, se esterilisa, e só resta a bestialidade. N'esses reinos crassos do Vegetal e do Animal duas unicas func??es se mantêm vivas, a nutritiva e a procreadora. Isolada, sem occupa??o, entre focinhos e raizes que n?o cessam de sugar e de pastar, suffocando no calido bafo da universal fecunda??o, a sua pobre alma toda se engelhava, se reduzia a uma migalha d'alma, uma fagulhasinha espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de materia; e n'essa materia dois instinctos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu sêr t?o nobremente composto só restava um estomago e por baixo um phallus! A alma? Sumida sob a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade, mergulhar nas ondas lustraes da Civilisa??o, para largar n'ellas a crosta vegetativa, e resurgir re-humanisado, de novo espiritual e Jacinthico!
E estas requintadas metaphoras do meu amigo exprimiam sentimentos reaes-que eu testemunhei, que muito me divertiram, no unico passeio que fizemos ao campo, á bem amavel e bem sociavel floresta de Montmorency. Oh delicias d'entremez, Jacintho entre a Natureza! Logo que se afastava dos pavimentos de madeira, do macadam, qualquer ch?o que os seus pés calcassem o enchia de desconfian?a e terror. Toda a relva, por mais crestada, lhe parecia re?umar uma humidade mortal. De sob cada torr?o, da sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de viboras, de fórmas rastejantes e viscosas. No silencio do bosque sentia um lugubre despovoamento do Universo. N?o tolerava a familiaridade dos galhos que lhe ro?assem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para elle um acto degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as fl?res que n?o tivesse já encontrado em jardins, domesticadas por longos seculos de servid?o ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava d'uma melancolia funambulesca certos modos e fórmas do Sêr inanimado, a pressa esperta e v? dos regatinhos, a careca dos rochedos, todas as contors?es do arvoredo e o seu resmungar solemne e tonto.
Depois d'uma hora, n'aquelle honesto bosque de Montmorency, o meu pobre amigo abafava, apavorado, experimentando já esse lento mingoar e sumir d'alma que o tornava como um bicho entre bichos. Só desannuviou quando penetramos no lagêdo e no gaz de Paris-e a nossa vittoria quasi se despeda?ou contra um omnibus retumbante, atulhado de cidad?os. Mandou descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa sociabilidade, aquella materialisa??o em que sentia a cabe?a pesada e vaga como a d'um boi. E reclamou que eu o acompanhasse ao theatro das Variedades para sacudir, com os estribilhos da Femme à Papa, o rumor importuno que lhe ficára dos melros cantando nos choupos altos.
Este delicioso Jacintho fizera ent?o vinte e tres annos, e era um soberbo mo?o em quem reapparecêra a for?a dos velhos Jacinthos ruraes. Só pelo nariz, afilado, com narinas quasi transparentes, d'uma mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia ás delicadezas do seculo XIX. O cabello ainda se conservava, ao modo das éras rudes, crespo e quasi lanigero: e o bigode, como o d'um Celta, cahia em fios sedosos, que elle necessitava aparar e frizar. Todo o seu fato, as espessas gravatas de setim escuro que uma perola prendia, as luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes de cedro; e usava sempre ao peito uma fl?r, n?o natural, mas composta destramente pela sua ramalheteira com petalas de fl?res dessemelhantes, cravo, azalea, orchidea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma leve folhagem de funcho.
* * *
Em 1880, em Fevereiro, n'uma cinzenta e arripiada manh? de chuva, recebi uma carta de meu bom tio Affonso Fernandes, em que, depois de lamenta??es sobre os seus setenta annos, os seus males hemorroidaes, e a pesada gerencia dos seus bens ?que pedia homem mais novo, com pernas mais rijas?-me ordenava que recolhesse á nossa casa de Gui?es, no Douro! Encostado ao marmore partido do fog?o, onde na véspera a minha Nini deixára um espartilho embrulhado no Jornal dos Debates, censurei severamente meu tio que assim cortava em bot?o, antes de desabrochar, a fl?r do meu Saber Juridico. Depois n'um Post-Scriptum elle accrescentava-?O tempo aqui está lindo, o que se póde chamar de rosas, e tua santa tia muito se recommenda, que anda lá pela cozinha, porque vai hoje em trinta e seis annos que casámos, temos cá o abbade e o Quintaes a jantar, e ella quiz fazer uma sopa dourada?.
Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da tia Vicencia. Ha quantos annos n?o a provava, nem o leit?o assado, nem o arroz de f?rno da nossa casa! Com o tempo assim t?o lindo, já as mimosas do nosso pateo vergariam sob os seus grandes cachos amarellos. Um peda?o de céo azul, do azul de Gui?es, que outro n?o ha t?o lustroso e macio, entrou pelo quarto, alumiou, sobre a poida tristeza do tapete, relvas, ribeirinhos, malmequeres e fl?res de trevo de que meus olhos andavam agoados. E, por entre as bambinellas de sarja, passou um ar fino e forte e cheiroso de serra e de pinheiral.
Assobiando um fado meigo tirei debaixo da cama a minha velha mala, e metti solicitamente entre cal?as e piugas um Tratado de Direito Civil, para aprender emfim, nos vagares da aldeia, estendido sob a faia, as leis que regem os homens. Depois, n'essa tarde, annunciei a Jacintho que partia para Gui?es. O meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto e piedade:
-Para Gui?es!... Oh Zé Fernandes, que horror!
E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, t?o longe da Cidade, uma pouca d'alma dentro d'um pouco de corpo. ?Leva uma poltrona! Leva a Encyclopedia Geral! Leva caixas de aspargos!...?
Mas para o meu Jacintho, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era arbusto desarraigado que n?o reviverá. A magoa com que me acompanhou ao comboio conviria excellentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de sepultura, eu quasi solucei-com saudades minhas.
Cheguei a Gui?es. Ainda restavam fl?res nas mimosas do nosso pateo; comi com delicias a sopa dourada da tia Vicencia; de tamancos nos pés assisti á ceifa dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das eiras, ca?ando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na poeira dos arraiaes, arranchando a magustos, serandando á candeia, ati?ando fogueiras de S. Jo?o, enfeitando presepios de Natal, por alli me passaram docemente sete annos, t?o atarefados que nunca logrei abrir o Tratado de Direito Civil, e t?o singelos que apenas me recordo quando, em vésperas de S. Nicolau, o abbade cahiu da egua á porta do Braz das Córtes. De Jacintho só recebia raramente algumas linhas, escrevinhadas á pressa por entre o tumulto da Civilisa??o. Depois, n'um Setembro muito quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Affonso Fernandes morreu, t?o quietamente, Deus seja louvado por esta gra?a, como se cala um passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia a roupa do luto. A minha afilhada Joanninha casou na matan?a do porco. Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris.
Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arripiado e cinzento, quando eu desci os Campos Elyseos em demanda do 202. Adiante de mim caminhava, levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes até ás abas recurvas do chapéo d'onde fugiam anneis d'um cabello crespo, re?umava elegancia e a familiaridade das coisas finas. Nas m?os, cruzadas atraz das costas, cal?adas d'anta branca, sustentava uma bengala grossa com cast?o de crystal. E só quando elle parou ao port?o do 202 reconheci o nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos.
-Oh Jacintho!
-Oh Zé Fernandes!
O abra?o que nos enla?ou foi t?o alvoro?ado que o meu chapéo rolou na lama. E ambos murmuravamos, commovidos, entrando a grade:
-Ha sete annos!...
-Ha sete annos!...
E, todavia, nada mudára durante esses sete annos no jardim do 202! Ainda entre as duas aleas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e varrida que a l? d'um tapete. No meio o vaso corinthico esperava Abril para resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidra?aria toldava, as duas magras Deusas de pedra, do tempo de D. Gali?o, sustentavam as antigas lampadas de globos foscos, onde já silvava o gaz.
Mas dentro, no peristillo, logo me surprehendeu um elevador installado por Jacintho-apesar do 202 ter sómente dois andares, e ligados por uma escadaria t?o doce que nunca offendêra a asthma da snr.a D. Angelina! Espa?oso, tapetado, elle offerecia, para aquella jornada de sete segundos, confortos numerosos, um divan, uma pelle d'urso, um roteiro das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na antecamara, onde desembarcamos, encontrei a temperatura macia e tepida d'uma tarde de Maio, em Gui?es. Um creado, mais attento ao thermometro que um piloto á agulha, regulava destramente a bocca dourada do calorifero. E perfumadores entre palmeiras, como n'um terrasso santo de Benares, esparziam um vapor, aromatisando e salutarmente humedecendo aquelle ar delicado e superfino.
Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado sêr:
-Eis a civilisa??o!
Jacintho empurrou uma porta, penetramos n'uma nave cheia de magestade e sombra, onde reconheci a Bibliotheca por trope?ar n'uma pilha monstruosa de livros novos. O meu amigo ro?ou de leve o dedo na parede: e uma cor?a de lumes electricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as estantes monumentaes, todas d'ebano. N'ellas repousavam mais de trinta mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com retoques d'ouro, hirtos na sua pompa e na sua auctoridade como doutores n'um concilio.
N?o contive a minha admira??o:
-Oh Jacintho! Que deposito!
Elle murmurou, n'um sorriso descorado:
-Ha que lêr, ha que lêr...
Reparei ent?o que o meu amigo emmagrecera: e que o nariz se lhe afilára mais entre duas rugas muito fundas, como as d'um comediante can?ado. Os anneis do seu cabello lanigero rareavam sobre a testa, que perdera a antiga serenidade de marmore bem polido. N?o frisava agora o bigode murcho, cahido em fios pensativos. Tambem notei que corcovava.
Elle erguêra uma tape?aria-entramos no seu gabinete de trabalho, que me inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios os nossos passos perderam logo o som, e como a realidade. O damasco das paredes, os divans, as madeiras, eram verdes, d'um verde profundo de folha de louro. Sêdas verdes envolviam as luzes electricas, dispersas em lampadas t?o baixas que lembravam estrellas cahidas por cima das mesas, acabando de arrefecer e morrer: só uma rebrilhava, núa e clara, no alto d'uma estante quadrada, esguia, solitaria como uma torre n'uma planicie, e de que o lume parecia ser o pharol melancolico. Um biombo de laca verde, fresco verde de relva, resguardava a chaminé de marmore verde, verde de mar sombrio, onde esmoreciam as brazas d'uma lenha aromatica. E entre aquelles verdes reluzia, por sobre peanhas e pedestaes, toda uma Mechanica sumptuosa, apparelhos, laminas, rodas, tubos, engrenagens, hastes, friezas, rigidezas de metaes...
Mas Jacintho batia nas almofadas do divan, onde se enterrára com um modo can?ado que eu n?o lhe conhecia:
-Para aqui, Zé Fernandes, para aqui! é necessario reatarmos estas nossas vidas, t?o apartadas ha sete annos!... Em Gui?es, sete annos! Que fizeste tu?
-E tu, que tens feito, Jacintho?
O meu amigo encolheu mollemente os hombros. Vivêra-cumprira com serenidade todas as func??es, as que pertencem á materia e as que pertencem ao espirito...
-E accumulaste civilisa??o, Jacintho! Santo Deus... Está tremendo, o 202!
Elle espalhou em torno um olhar onde já n?o faiscava a antiga vivacidade:
-Sim, ha confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda está mal apetrechada, Zé Fernandes... E a vida conserva resistencias.
Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telephone. E emquanto o meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente ?Está lá?-Está lá??, examinei curiosamente, sobre a sua immensa mesa de trabalho, uma estranha e miuda legi?o de instrumentosinhos de nickel, d'a?o, de cobre, de ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com dentes, expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei manejar-e logo uma ponta malevola me picou um dedo. N'esse instante rompeu d'outro canto um ?tic-tic-tic? a?odado, quasi ancioso. Jacintho acudiu, com a face no telephone:
-Vê ahi o telegrapho!... Ao pé do divan. Uma tira de papel que deve estar a correr.
E, com effeito, d'uma red?ma de vidro posta n'uma columna, e contendo um apparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma tenia, a longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras, apanhei, maravilhado. A linha, tra?ada em azul, annunciava ao meu amigo Jacintho que a fragata russa Azoff entrára em Marselha com avaria!
Já elle abandonára o telephone. Desejei saber, inquieto, se o prejudicava directamente aquella avaria da Azoff.
-Da Azoff?... A avaria? A mim?... N?o! é uma noticia.
Depois, consultando um relogio monumental que, ao fundo da Bibliotheca, marcava a hora de todas as Capitaes e o curso de todos os Planetas:
-Eu preciso escrever uma carta, seis linhas... Tu esperas, n?o, Zé Fernandes? Tens ahi os jornaes de Paris, da noite; e os de Londres, d'esta manh?. As Illustra??es além, n'aquella pasta de couro com ferragens.
Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava á minha profanidade serrana todos os gostos d'uma inicia??o. Aos lados da cadeira de Jacintho pendiam gordos tubos acusticos, por onde elle decerto soprava as suas ordens através do 202. Dos pés da mesa cord?es tumidos e molles, colleando sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra á maneira de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu verniz como na agua d'um po?o, pousava uma Machina-de-escrever: e adiante era uma immensa Machina-de-calcular, com fileiras de buracos d'onde espreitavam, esperando, numeros rigidos e de ferro. Depois parei em frente da estante que me preoccupava, assim solitaria, á maneira d'uma torre n'uma planicie, com o seu alto pharol. Toda uma das suas faces estava repleta de Diccionarios; a outra de Manuaes; a outra de Atlas; a ultima de Guias, e entre elles, abrindo um folio, encontrei o Guia das ruas de Samarkande. Que macissa torre de informa??o! Sobre prateleiras admirei apparelhos que n?o comprehendia:-um composto de laminas de gelatina, onde desmaiavam, meio-chupadas, as linhas d'uma carta, talvez amorosa; outro, que erguia sobre um pobre livro brochado, como para o decepar, um cutello funesto; outro avan?ando a bocca d'uma tuba, toda aberta para as vozes do invisivel. Cingidos aos umbraes, liados ás cimalhas, luziam arames, que fugiam através do tecto, para o espa?o. Todos mergulhavam em for?as universaes, todos transmittiam for?as universaes. A Natureza convergia disciplinada ao servi?o do meu amigo e entrára na sua domesticidade!...
Jacintho atirou uma exclama??o impaciente:
-Oh, estas pennas electricas!... Que secca!
Amarrotára com colera a carta come?ada-eu escapei, respirando, para a Bibliotheca. Que magestoso armazem dos productos do Raciocinio e da Imagina??o! Alli jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto essenciaes a uma cultura humana. Logo á entrada notei, em ouro n'uma lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a regi?o dos Economistas. Avancei-e percorri, espantado, oito metros de Economia Politica. Depois avistei os Philosophos e os seus commentadores, que revestiam toda uma parede, desde as escólas Pre-socraticas até ás escólas Neo-pessimistas. N'aquellas pranchas se acastellavam mais de dois mil systemas-e que todos se contradiziam. Pelas encaderna??es logo se deduziam as doutrinas: Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro; Plat?o, em cima, resplandecia, n'uma pellica pura e alva. Para diante come?avam as Historias Universaes. Mas ahi uma immensa pilha de livros brochados, cheirando a tinta nova e a documentos novos, subia contra a estante, como fresca terra d'alluvi?o tapando uma riba secular. Contornei essa collina, mergulhei na sec??o das Sciencias Naturaes, peregrinando, n'um assombro crescente, da Orographia para a Paleontologia, e da Morphologia para a Crystallographia. Essa estante rematava junto d'uma janella rasgada sobre os Campos Elyseos. Apartei as cortinas de velludo-e por traz descobri outra portentosa rima de volumes, todos de Historia Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente até aos ultimos vidros, vedando, nas manh?s mais candidas, o ar e a luz do Senhor.
Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante amavel dos Poetas. Como um repouso para o espirito esfalfado de todo aquelle saber positivo, Jacintho aconchegára ahi um recanto, com um divan e uma mesa de limoeiro, mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de cigarros d'Oriente, de tabaqueiras do seculo XVIII. Sobre um cofre de madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos seccos do Jap?o. Cedi á seduc??o das almofadas; trinquei um damasco, abri um volume; e senti estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto de azas harmoniosas. Sorri á idéa que fossem abelhas, compondo o seu mel n'aquelle massi?o de versos em fl?r. Depois percebi que o susurro remoto e dormente vinha do cofre de mogne, de parecer t?o discreto. Arredei uma Gazeta de Fran?a; e descornitei um cord?o que emergia de um orificio, escavado no cofre, e rematava n'um funil de marfim. Com curiosidade, encostei o funil a esta minha confiada orelha, afeita á singeleza dos rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito dicidida, aproveitando a minha curiosidade para me invadir e se apoderar do meu entendimento, susurrou capciosamente:
-...?E assim, pela disposi??o dos cubos diabolicos, eu chego a verificar os espa?os hypermagicos!...?
Pulei, com um berro.
-Oh Jacintho, aqui ha um homem! Está aqui um homem a fallar dentro d'uma caixa!
O meu camarada, habituado aos prodigios, n?o se alvoro?ou:
-é o Conferen?ophone... Exactamente como o Theatrophone; sómente applicado ás escólas e ás conferencias. Muito commodo!... Que diz o homem, Zé Fernandes?
Eu considerava o cofre, ainda esgazeado:
-Eu sei! Cubos diabolicos, espa?os magicos, toda a sorte de horrores...
Senti dentro o sorriso superior de Jacintho:
-Ah, é o coronel Dorchas... Li??es de Metaphysica Positiva sobre a Quarta Dimens?o... Conjecturas, uma massada! Ouve lá, tu hoje jantas commigo e com uns amigos, Zé Fernandes?
-N?o, Jacintho... Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da serra!
E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaquet?o de flanella grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao domingo, em Gui?es, visitava o Senhor. Mas Jacintho affirmou que esta simplicidade montesina interessaria os seus convidados, que eram dois artistas... Quem? O auctor do Cora??o Triplo, um Psychologo Feminista, d'agudeza transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em Sciencias Sentimentaes; e Vorcan, um pintor mythico, que interpretára ethereamente, havia um anno, a symbolia rapsodica do cerco de Troia, n'uma vasta composi??o, Helena Devastadora...
Eu co?ava a barba:
-N?o, Jacintho, n?o... Eu venho de Gui?es, das serras; preciso entrar em toda esta civilisac?o, lentamente, com cautella, sen?o rebento. Logo na mesma tarde a electricidade, e o conferen?ophone, e os espa?os hypermagicos e o feminista, e o ethereo, e a symbolia devastadora, é excessivo! Volto ámanh?.
Jacintho dobrava vagarosamente a sua carta, onde mettera sem rebu?o (como convinha á nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do ramo que lhe floria o peito.
-ámanh?, Zé Fernandes, tu vens antes d'almo?o, com as tuas malas dentro d'um fiacre, para te installares no 202, no teu quarto. No Hotel s?o embara?os, priva??es. Aqui tens o telephone, o teatrophone, livros...
Acceitei logo, com simplicidade. E Jacintho, embocando um tubo acustico, murmurou:
-Grillo!
Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se fendeu, surdio o seu velho escudeiro (aquelle moleque que viera com D. Galli?o), que eu me alegrei de encontrar t?o rijo, mais negro, reluzente e veneravel na sua tesa gravata, no seu collete branco de bot?es de ouro. Elle tambem estimou vêr de novo ?o si? Fernandes?. E, quando soube que eu occuparia o quarto do av? Jacintho, teve um claro sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de o sentir emfim reprovido d'uma familia.
-Grillo, dizia Jacintho, esta carta a Madame de Oriol... Escuta! Telephona para casa dos Trèves que os espiritistas só est?o livres no domingo... Escuta! Eu tomo uma douche antes de jantar, tepida, a 17. Fric??o com malva-rosa.
E cahindo pesadamente para cima do divan, com um bocejo arrastado e vago:
-Pois é verdade, meu Zé Fernandes, aqui estamos, como ha sete annos, n'este velho Paris...
Mas eu n?o me arredava da mesa, no desejo de completar a minha inicia??o:
-Oh Jacintho, para que servem todos estes instrumentosinhos? Houve já ahi um desavergonhado que me picou. Parecem perversos... S?o uteis?
Jacintho esbo?ou, com languidez, um gesto que os sublimava.-Providenciaes, meu filho, absolutamente providenciaes, pela simplifica??o que d?o ao trabalho! Assim... E apontou. Este arrancava as pennas velhas; o outro numerava rapidamente as paginas d'um manuscripto; aquell'outro, além, raspava emendas... E ainda os havia para collar estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar documentos...
-Mas com effeito, accrescentou, é uma sécca. Com as molas, com os bicos, ás vezes magoam, ferem... Já me succedeu inutilisar cartas por as ter sujado com dedadas de sangue. é uma massada!
Ent?o, como o meu amigo espreitára novamente o relogio monumental, n?o lhe quiz retardar a consola??o da douche e da malva-rosa.
-Bem, Jacintho, já te revi, já me contentei... Agora até ámanh?, com as malas.
-Que diabo, Zé Fernandes, espera um momento... Vamos pela sala de jantar. Talvez te tentes!
E, através da Bibliotheca, penetramos na sala de jantar,-que me encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, laccada, mais lustrosa e macia que setim, revestia as paredes, encaixilhando medalh?es de damasco c?r de morango, de morango muito maduro e esmagado: os aparadores, discretamente lavrados em flor?es e rocalhas, resplandeciam com a mesma lacca nevada: e damascos amorangados estofavam tambem as cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentid?o de gulas delicadas, de gulas intellectuaes.
-Viva o meu Principe! Sim senhor... Eis aqui um comedoiro muito comprehensivel e muito repousante, Jacintho!
-Ent?o janta, homem!
Mas já eu me come?ava a inquietar, reparando que a cada talher correspondiam seis garfos, e todos de feitios astuciosos. E mais me impressionei quando Jacintho me desvendou que um era para as ostras, outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro para as fructas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma sobriedade que louvaria Salom?o, só dois copos, para dois vinhos:-um Bordeus rosado em infusas de crystal, e Champagne gelando dentro de baldes de prata. Todo um aparador porém vergava, sob o luxo redundante, quasi assustador d'aguas-aguas oxigenadas, aguas carbonatadas, aguas phosphatadas, aguas esterilisadas, aguas de saes, outras ainda, em garrafas bojudas, com tratados therapeuticos impressos em rotulos.
-Santissimo nome de Deus, Jacintho! Ent?o és ainda o mesmo tremendo bebedor d'agua, hein?... Un aquatico! como dizia o nosso poeta chileno, que andava a traduzir Klopstock.
Elle derramou, por sobre toda aquella garrafaria encarapu?ada em metal, um olhar desconsolado:
-N?o... é por causa das aguas da Cidade, contaminadas, atulhadas de microbios... Mas ainda n?o encontrei uma b?a agua que me convenha, que me satisfa?a... Até soffro sêde.
Desejei ent?o conhecer o jantar do Psychologo e do Symbolista-tra?ado, ao lado dos talheres, em tinta vermelha, sobre laminas de marfim. Come?ava honradamente por ostras classicas, de Marennes. Depois apparecia uma sopa d'alcachofras e ovas de carpa...
-é bom?
Jacintho encolheu desinteressadamente os hombros:
-Sim... Eu n?o tenho nunca appetite, já ha tempos... Já ha annos.
Do outro prato só comprehendi que continha frangos e tubaras. Depois saboreariam aquelles senhores um filete de veado, macerado em Xerez, com gelêa de noz. E por sobremeza simplesmente laranjas geladas em ether.
-Em ether, Jacintho?
O meu amigo hesitou, esbo?ou com os dedos a ondula??o d'um aroma que s'evola.
-é novo... Parece que o ether desenvolve, faz afflorar a alma das fructas...
Curvei a cabe?a ignara, murmurei nas minhas profundidades:
-Eis a Civilisa??o!
E, descendo os Campos Elyseos, encolhido no paletot, a cogitar n'este prato symbolico, considerava a rudeza e atolado atrazo da minha Gui?es, onde desde seculos a alma das laranjas permanece ignorada e desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos aquelles pomares que ensombram e perfumam o valle, da Roqueirinha a Sandofim! Agora porém, bemdito Deus, na convivencia de um t?o grande iniciado como Jacintho, eu comprehenderia todas as finuras e todos os poderes da Civilisa??o.
E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade d'um homem que, concebendo uma idéa da Vida, a realisa-e através d'ella e por ella recolhe a felicidade perfeita.
Bem se affirmára este Jacintho, na verdade, como Principe da Gran-Ventura!
No 202, todas as manh?s, ás nove horas, depois do meu chocolate e ainda em chinelas, penetrava no quarto de Jacintho. Encontrava o meu amigo banhado, barbeado, friccionado, envolto n'um roup?o branco de pello de cabra do Thibet, diante da sua mesa de toilette, toda de crystal, (por causa dos microbios) e atulhada com esses utensilios de tartaruga, marfim, prata, a?o e madreperola que o homem do seculo XIX necessita para n?o desfeiar o conjuncto sumptuario da Civilisa??o e manter n'ella o seu Typo.
As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o meu espanto-porque as havia largas como a roda massi?a d'um carro sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange d'um mouro; concavas, em fórma de telha alde?; ponteagudas em feitio de folha de hera; rijas que nem cerdas de javali; macias que nem pennugem de r?la! De todas, fielmente, como amo que n?o desdenha nenhum servo, se utilisava o meu Jacintho. E assim, em face ao espelho emmoldurado de folhedos de prata, permanecia este Principe passando pellos sobre o seu pello durante quatorze minutos.
No emtanto o Grillo e outro escudeiro, por traz dos biombos de Kioto, de sedas lavradas, manobravam, com pericia e vigor, os apparelhos do lavatorio-que era apenas um resumo das machinas monumentaes da Sala de Banho, a mais estremada maravilha do 202. N'estes marmores simplificados existiam unicamente dois jactos graduados desde zero até cem; as duas duchas, fina e grossa, para a cabe?a; a fonte esterilisada para os dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda bot?es discretos, que, ro?ados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve orvalho estival. D'esse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham em disciplina e servid?o tantas aguas ferventes, tantas aguas violentas, sahia emfim o meu Jacintho enxugando as m?os a uma toalha de felpo, a uma toalha de linho, a outra de corda entran?ada para restabelecer a circula??o, a outra de sêda frouxa para repolir a pelle. Depois d'este rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo, Jacintho, estendido n'um divan, folheava uma Agenda, onde se arrolavam, inscriptas pelo Grillo ou por elle, as occupa??es do seu dia, t?o numerosas por vezes que cobriam duas laudas.
Todas ellas se prendiam á sua sociabilidade, á sua civilisa??o muito complexa, ou a interesses que o meu Principe, n'esses sete annos, creára para viver em mais consciente communh?o com todas as func??es da Cidade. (Jacintho com effeito era presidente do Club da Espada e Alvo; commanditario do Jornal o Boulevard; director da Companhia dos Telephones de Constantinopla; socio dos Bazares unidos da Arte Espiritualista; membro do Comité de Inicia??o das Religi?es Esotericas, etc.) Nenhuma d'estas occupa??es parecia porém aprazivel ao meu amigo-porque, apesar da mansid?o e harmonia dos seus modos, frequentemente arremessava para o tapete, n'uma rebelli?o de homem livre, aquella Agenda que o escravisava. E n'uma d'essas manh?s (de vento e neve), apanhando eu o livro oppressivo, encadernado em pellica, de um carinhoso tom de rosa murcha-descobri que o meu Jacintho devia depois do almo?o fazer uma visita na rua da Universidade, outra no Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por fidelidade a uma vota??o no Club; acompanhar Madame d'Oriol a uma exposi??o de leques; escolher um presente de noivado para a sobrinha dos Trèves; comparecer no funeral do velho conde de Malville; presidir um tribunal de honra n'uma quest?o de roubalheira, entre cavalheiros, ao ecarté... E ainda se acavallavam outras indica??es, escrivinhadas por Jacintho a lapis:-?Carroceiro-Five-oclock dos Ephrains-A pequena das Variedades-Levar a nota ao jornal...? Considerei o meu Principe. Estirado no divan, d'olhos miserrimamente cerrados, bocejava, n'um bocejo immenso e mudo.
Mas os affazeres de Jacintho come?avam logo no 202, cedo, depois do banho. Desde as oito horas a campainha do telephone repicava por elle, com impaciencia, quasi com colera, como por um escravo tardio. E mal enxugado, dentro do seu roup?o de pello de cabra do Thibet ou de grossas pyjamas de pelucia c?r d'ouro-velho, constantemente sahia ao corredor a cochichar com sujeitos t?o apressados, que conservavam na m?o o guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um d'esses, sempre presente (e que pertencia decerto aos Telephones de Constantinopla), era temeroso-todo elle chupado, tisnado, com maus dentes, sobra?ando uma enorme pasta sebenta, e dardejando, d'entre a alta gola d'uma pelissa poida, como da abertura d'um covil, dous olhinhos t?rvos e de rapina. Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro apparecia, com bilhetes n'uma salva... Depois eram fornecedores d'Industria e d'Arte; negociantes de cavallos, rubicundos e de paletot branco; inventores com grossos rolos de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma edi??o ?unica?, quasi inverosimil, de Ulrich Zell ou do Lapidanus. Jacintho circulava estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, repicando o telephone, desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao passar algum embuscado que surdia das sombras da antecamara, estendia como um trabuco o seu memorial ou o seu catalogo!
Ao meio dia, um tam-tam argentino e melancholico ressoava, chamando ao almo?o. Com o Figaro ou as Novidades abertas sobre o prato, eu esperava sempre meia hora pelo meu Principe, que entrava n'uma rajada, consultando o relogio, exhalando com a face moída o seu queixume eterno:
-Que massada! E depois uma noite abominavel, enrodilhada em sonhos... Tomei sulforal, chamei o Grillo para me esfregar com therebentina... Uma sécca!
Espalhava pela mesa um olhar já farto. Nenhum prato, por mais engenhoso, o seduzia;-e, como através do seu tumulto matinal fumava incontaveis cigarretes que o resequiam, come?ava por se encharcar com um immenso copo d'agua oxygenada, ou carbonatada, ou gazoza, misturada d'um cognac raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Syracusa. Depois, á pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e além uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta;-e reclamava impacientemente o café, um café de Moka, mandado cada mez por um feitor do Dedjah, fervido á turca, muito espesso, que elle remexia com um pau de canella!
-E tu, Zé Fernandes, que vaes tu fazer?
-Eu?
Recostado na cadeira, com delicias, os dedos mettidos nas cavas do collete:
-Vou vadiar, regaladamente, como um c?o natural!
O meu sollicito amigo, remexendo o café com o pau de canella, rebuscava através da numerosa Civilisa??o da Cidade uma occupa??o que me encantasse. Mas apenas suggeria uma Exposi??o, ou uma Conferencia, ou monumentos, ou passeios, logo encolhia os hombros desconsolados:
-Por fim nem vale a pena, é uma sécca!
Accendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome, impresso a ouro na mortalha. Torcendo, n'uma pressa nervosa, os fios do bigode, ainda escutava, á porta da Bibliotheca, o seu procurador, o nedio e magestoso Laporte. E emfim, seguido d'um criado, que sobra?ava um ma?o tremendo de jornaes para lhe abastecer o coupé, o Principe da Gran-Ventura mergulhava na Cidade.
* * *
Quando o dia social de Jacintho se apresentava mais desafogado, e o céo de Mar?o nos concedia caridosamente um pouco de azul agoado, sahiamos depois d'almo?o, a pé, através de Paris. Estes lentos e errantes passeios eram outr'ora, na nossa edade de Estudantes, um gozo muito querido de Jacintho-porque n'elles mais intensamente e mais minuciosamente saboreava a Cidade. Agora porém, apesar da minha companhia, só lhe davam uma impaciencia e uma fadiga que desoladoramente destoava do antigo, illuminado extasi. Com espanto (mesmo com d?r, porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar d'uma cren?a) descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos Boulevards, que o denso formigueiro humano sobre o asphalto, e a torrente sombria dos trens sobre o macadam, affligiam o meu amigo pela brutalidade da sua pressa, do seu egoismo, e do seu estridor. Encostado e como refugiado no meu bra?o, este Jacintho novo come?ou a lamentar que as ruas, na nossa Civilisa??o, n?o fossem cal?adas de gutta-percha! E a gutta-percha claramente representava, para o meu amigo, a substancia discreta que amortece o choque e a rudeza das cousas. Oh maravilha! Jacintho querendo borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as func??es da Cidade! Depois, nem me permittiu pasmar diante d'aquellas dourejadas e espelhadas lojas que elle outr'ora considerava como os ?preciosos museus do seculo XIX?...
-N?o vale a pena, Zé Fernandes. Ha uma immensa pobreza e seccura d'inven??o! Sempre os mesmos flor?es Luiz XV, sempre as mesmas pelucias... N?o vale a pena!
Eu arregalava os olhos para este transformado Jacintho. E sobretudo me impressionava o seu horror pela Multid?o-por certos effeitos da Multid?o, só para elle sensiveis, e a que chamava os ?sulcos?.
-Tu n?o os sentes, Zé Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! é um perfume muito agudo e petulante que uma mulher larga ao passar, e se installa no olfacto, e estraga para todo o dia o ar respiravel. é um dito que se surprehende n'um grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de estupidez, e que nos fica collado á alma, como um salpico, lembrando a immensidade da lama a atravessar. Ou ent?o, meu filho, é uma figura intoleravel pela preten??o, ou pelo mau-gosto, ou pela impertinencia, ou pela rellice, ou pela dureza, e de que se n?o póde sacudir mais a vis?o repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Zé Fernandes! De resto, que diabo, s?o as pequeninas miserias d'uma Civilisa??o deliciosa!
Tudo isto era especioso, talvez pueril-mas para mim revelava, n'aquelle chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da devo??o. N'essa mesma tarde, se bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetramos nos centros de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de cali?a parda, erri?ado de chaminés de lata negra, com as janellas sempre fechadas, as cortininhas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. Só tijolo, só ferro, só argamassa, só estuque: linhas hirtas, angulos asperos: tudo secco, tudo rigido. E dos ch?os aos telhados, por toda a fachada, tapando as varandas, comendo os muros, Taboletas, Taboletas...
-Oh, este Paris, Jacintho, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro bazar!
E, mais para sondar o meu Principe do que por persuas?o, insisti na fealdade e tristeza d'estes predios, duros armazens, cujos andares s?o prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade impiedosamente catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas, bem envernisadas. A relles e de trabalho nos altos, nos desv?os, sobre pranchas de pinho nú, entre o pó e a tra?a...
Jacintho murmurou, com a face arripiada:
-é feio, é muito feio!
E accudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta:
-Mas que maravilhoso organismo, Zé Fernandes! Que solidez! Que produc??o!
Onde Jacintho me parecia mais renegado era na sua antiga e quasi religiosa affei??o pelo Bosque de Bolonha. Quando mo?o, elle construira sobre o Bosque theorias complicadas e consideraveis. E sustentava, com olhos rutilantes de fanatico, que no Bosque a Cidade cada tarde ia retemperar salutarmente a sua for?a, recebendo, pela presen?a das suas Duquezas, das suas Cortez?s, dos seus Politicos, dos seus Financeiros, dos seus Generaes, dos seus Academicos, dos seus Artistas, dos seus Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu pessoal se mantinha em numero, em vitalidade, em func??o, e que nenhum elemento da sua grandeza desapparecera ou deperecera! ?Ir ao Bois? constituia ent?o para o meu Principe um acto de consciencia. E voltava sempre confirmando com orgulho que a Cidade possuia todos os seus astros, garantindo a eternidade da sua luz!
Agora, porém, era sem fervor, arrastadamente, que elle me levava ao Bosque, onde eu, aproveitando a clemencia d'Abril, tentava enganar a minha saudade d'arvoredos. Emquanto subiamos, ao trote nobre das suas egoas lustrosas, a Avenida dos Campos-Elyseos e a do Bosque, rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos, Jacintho, soprando o fumo da cigarrete pelas vidra?as abertas do coupé, permanecia o bom camarada, de veia amavel, com quem era doce philosophar através de Paris. Mas logo que passavamos as grades douradas do Bosque, e penetravamos na Avenida das Acacias, e enfiavamos na lenta fila dos trens de luxo e de pra?a, sob o silencio decoroso, apenas cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,-o meu Principe emmudecia, mollemente engilhado no fundo das almofadas, d'onde só despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo antigo habito de verificar a presen?a confortadora do ?pessoal, dos astros?, ainda, por vezes, apontava para algum coupé ou vittoria rodando com rodar rangente n'outra arrastada fila-e murmurava um nome. E assim fui conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Ephraim; e o longo nariz patricio de Madame de Trèves abrigando um sorriso perenne; e as bochechas flacidas do poeta neo-platonico Dornan, sempre espapado no fundo de fiacres; e os longos bandòs pre-raphaelitas e negros de Madame Verghane; e o monoculo defumado do director do Boulevard; e o bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu phaeton de guerra; e ainda outros sorrisos immoveis, e barbichas á Renascen?a, e palpebras amortecidas, e olhos farejantes, e pelles empoadas d'arroz, que eram todas illustres e da intimidade do meu Principe. Mas, do topo da Avenida das Acacias, recome?avamos a descer, em passo sopeado, esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, calhambeque atraz de landau, vittoria atraz de fiacre, fatalmente reviamos o binoculo sombrio do homem do Boulevard, e os bandòs furiosamente negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do neo-platonico, e a barba talmudica, e todas aquellas figuras, d'uma immobilidade de cera, super-conhecidas do meu camarada, recruzadas cada tarde através de revividos annos, sempre com os mesmos sorrisos, sob o mesmo pó d'arroz, na mesma immobilidade de cera; ent?o Jacintho n?o se continha, gritava ao cocheiro:
-Para casa, depressa!
E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos-Elyseos, uma fuga ardente das egoas a quem a lentid?o sopeada, n'um roer de freios, entre outras egoas tambem d'ellas super-conhecidas, lan?avam n'uma exaspera??o comparavel á de Jacintho.
Para o sondar eu denegria o Bosque:
-Já n?o é t?o divertido, perdeu o brilho!...
Elle acudia, timidamente:
-N?o, é agradavel, n?o ha nada mais agradavel; mas...
E accusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus affazeres. Recolhiamos ent?o ao 202, onde, com effeito, em breve embrulhado no seu roup?o branco, diante da mesa de crystal, entre a legi?o das escovas, com toda a electricidade refulgindo, o meu Principe se come?ava a adornar para o servi?o social da noite.
E foi justamente numa d'essas noites (um sabado) que nós passamos, n'aquelle quarto t?o civilisado e protegido, por um d'esses brutos e revoltos terrores como só os produz a ferocidade dos Elementos. Já tarde, á pressa (jantavamos com Marizac no Club para o acompanhar depois ao Lohengrin na Opera) Jacintho arrocheava o nó da gravata branca-quando no lavatorio, ou porque se rompesse o tubo, ou se dessoldasse a torneira, o jacto d'agua a ferver rebentou furiosamente, fumegando e silvando. Uma nevoa densa de vapor quente abafou as luzes-e, perdidos n'ella, sentiamos, por entre os gritos do escudeiro e do Grillo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva que escaldava. Sob os pés o tapete ensopado era uma lama ardente. E como se todas as for?as da natureza, submettidas ao servi?o de Jacintho, se agitassem, animadas por aquella rebelli?o da agua-ouvimos roncos surdos no interior das paredes, e pelos fios dos lumes electricos sulcaram faiscas amea?adoras! Eu fugira para o corredor, onde se alargava a nevoa grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de desastre. Diante do port?o, attrahidas pela fumarada que se escapava das janellas, estacionava policia, uma multid?o. E na escada esbarrei com um reporter, de chapéo para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente ?se havia mortos??
Domada a agua, clareada a bruma, vim encontrar Jacintho no meio do quarto, em ceroulas, livido:
-Oh Zé Fernandes, esta nossa industria!... Que impotencia, que impotencia! Pela segunda vez, este desastre! E agora, apparelhos perfeitos, um processo novo...
-E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca!
Em redor, as nobres sêdas bordadas, os brocateis Luiz XIII, cobertos de manchas negras, fumegavam. O meu Principe, enfiado, enchugava uma photographia de Madame d'Oriol, d'hombros decotados, que o jorro bruto maculára d'empolas. E eu, com rancor, pensava que na minha Gui?es a agua aquecia em seguras panellas-e subia ao meu lavatorio, pela m?o forte da Catharina, em seguras infusas! N?o jantamos com o duque de Marizac, no Club. E, na Opera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca alma e o seu branco cysne e as suas brancas armas-entallado, aperreado, cortado nos sovacos pela casaca que Jacintho me emprestára e que rescendia estonteadoramente a flores de Nessari.
* * *
No domingo, muito cedo, o Grillo, que na véspera escaldára as m?os e as trazia embrulhadas em sêda, penetrou no meu quarto, descerrou as cortinas, e á beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto:
-Vem no Figaro!
Desdobrou triumphalmente o jornal. Eram, nos Echos, doze linhas, onde as nossas aguas rugiam e espadavam, com tanta magnificencia e tanta publicidade, que tambem sorrí, deleitado.
-E toda a manh?, o telephone, si? Fernandes! exclamava o Grillo, rebrilhando em ebano. A quererem saber, a quererem saber... ?Está lá? Está escaldado?? Paris afflicto, si? Fernandes!
O telephone, com effeito, repicava, insaciavel. E quando desci para o almo?o, a toalha desapparecia sob uma camada de telegrammas, que o meu Principe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a ?massada?. Só desannuviou, ao ler um d'esses papeis azues, que atirou para cima do meu prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manh? sorriramos, o Grillo e eu:
-é do Gran-Duque Casimiro... Rat?o amavel! Coitado!
Saboreei, através dos ovos, o telegramma de S. Alteza. ?O que! o meu Jacintho inundado! Muito chic, nos Campos-Elyseos! N?o volto ao 202 sem boia de salva??o! Compassivo abra?o! Casimiro...? Murmurei tambem com deferencia:-?Amavel! Coitado!? Depois, revolvendo lentamente o mont?o de telegrammas que se alastrava até ao meu copo:
-Oh Jacintho! Quem é esta Diana que incessantemente te escreve, te telephona, te telegrapha, te...?
-Diana?... Diana de Lorge. é uma cocotte. é uma grande cocotte!
-Tua?
-Minha, minha... N?o! tenho um bocado.
E como eu lamentava que o meu Principe, senhor t?o rico e de t?o fino orgulho, por economia d'uma gamella propria chafurdasse com outros n'uma gamella publica-Jacintho levantou os hombros, com um camar?o espetado no garfo:
-Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Zé Fernandes, precisa ter cortez?s de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris, n'esta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os seus diamantes, os seus cavallos, os seus lacaios, os seus camarotes, as suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolencia, é necessario que se aggremiem umas poucas de fortunas, se forme um syndicato! Somos uns sete, no Club. Eu pago um bocado... Mas meramente por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. De resto n?o chafurdo. Pobre Diana!... Dos hombros para baixo nem sei se tem a pelle c?r de neve ou c?r de lim?o.
Arregalei um olho divertido:
-Dos hombros para baixo?... E para cima?
-Oh para cima tem pó d'arroz!... Mas é uma sécca! Sempre bilhetes, sempre telephones, sempre telegrammas. E tres mil francos por mez, além das flores... Uma massada!
E as duas rugas do meu Principe, aos lados do seu afilado nariz, curvado sobre a salada, eram como dous valles muito tristes, ao entardecer.
Acabavamos o almo?o, quando um escudeiro, muito discretamente, n'um murmurio, annunciou Madame d'Oriol. Jacintho pousou com tranquillidade o charuto; eu quasi me engasguei, n'um sorvo alvoro?ado de café. Entre os reposteiros de damasco c?r de morango ella appareceu, toda de negro, d'um negro liso e austero de Semana Santa, lan?ando com o regalo um lindo gesto para nos socegar. E immediatamente, n'uma volubilidade docemente chalrada:
-é um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Magdalena, n?o me contive, quiz vêr os estragos... Uma inunda??o em Paris, nos Campos-Elyseos! N?o ha sen?o este Jacintho. E vem no Figaro! O que eu estava assustada, quando telephonei! Imaginem! Agua a ferver, como no Vesuvio... Mas é d'uma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os tapetes... Estou morrendo por admirar as ruinas!
Jacintho, que n?o me pareceu commovido, nem agradecido com aquelle interesse, retomára risonhamente o charuto:
-Está tudo secco, minha querida senhora, tudo secco! A belleza foi hontem, quando a agua fumegava e rugia! Ora que pena n?o ter ao menos cahido uma parede!
Mas ella insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destro?os d'uma inunda??o. O Figaro contára... E era uma aventura deliciosa, uma casa escaldada nos Campos-Elyseos!
Toda a sua pessoa, desde as plumasinhas que frisavam no chapéo até á ponta reluzente das botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um ramo tenro sob o boli?o do passaro a chalrar. Só o sorriso, por traz do véo espesso, conservava um brilho immovel. E já no ar se espalhára um aroma, uma do?ura, emanadas de toda a sua mobilidade e de toda a sua gra?a.
Jacintho no emtanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame d'Oriol ainda louvava o Figaro amavel, e confessava quanto tremera... Eu voltei ao meu café, felicitando mentalmente o Principe da Gran-Ventura por aquella perfeita fl?r de Civilisa??o que lhe perfumava a vida. Pensei ent?o na apurada harmonia em que se movia essa fl?r. E corri vivamente á ante-camara, verificar diante do espelho o meu penteado e o nó da minha gravata. Depois recolhi á sala de jantar, e junto da janella, folheando languidamente a Revista do Seculo XIX, tomei uma attitude de elegancia e d'alta cultura. Quasi immediatamente elles reappareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava espoliada, nada encontrára que recordasse as agoas furiosas, ro?ou pela mesa, onde Jacintho procurava, para lhe offerecer, tangerinas de Malta, ou castanhas geladas, ou um biscouto molhado em vinho de Tokai.
Ella recusava com as m?os guardadas no regalo. N?o era alta, nem forte-mas cada prega do vestido, ou curva da capa, cahia e ondulava harmoniosamente, como perfei??es recobrindo perfei??es. Sob o véo cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a escurid?o dos olhos largos. E com aquellas sêdas e velludos negros, e um pouco do cabello louro, d'um louro quente, torcido fortemente sobre as pelles negras que lhe orlavam o pesco?o, toda ella derramava uma sensa??o de macio e de fino. Eu teimosamente a considerava como uma fl?r de Civilisa??o:-e pensava no secular trabalho e na cultura superior que necessitára o terreno onde ella t?o delicadamente brotára, já desabrochada, em pleno perfume, mais graciosa por ser fl?r d'esfor?o e d'estufa, e trazendo nas suas pétalas um n?o sei quê de desbotado e de ante-murcho.
No emtanto, com a sua volubilidade de passaro, chalrando para mim, chalrando para Jacintho, ella mostrava o seu lindo espanto por aquelle mont?o de telegrammas sobre a toalha.
-Tudo esta manh?, por causa da inunda??o?... Ah, Jacintho é hoje o homem, o unico homem de Paris! Muitas mulheres n'esses telegrammas?
Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Principe empurrou para a sua amiga o telegramma do Gran-duque. Ent?o Madame d'Oriol teve um ah! muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os seus dedos acariciavam com uma reverencia gulosa. E sempre grave, sempre séria:
-é brilhante!
Oh, certamente! n'aquelle desastre tudo se passára com muito brilho, n'um tom muito Parisiense. E a deliciosa creatura n?o se podia demorar, porque fizera marcar um logar na egreja da Magdalena para o serm?o!
Jacintho exclamou com innocencia:
-Serm?o?... é já a esta??o dos serm?es?
Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escandalo e d?r. O quê! pois nem na austera casa dos Trèves dera pela entrada da quaresma? De resto n?o se admirava-Jacintho era um turco! E, immediatamente celebrou o prégador, um frade dominicano, o Père Granon! Oh d'uma eloquencia! d'uma violencia! No derradeiro serm?o prégara sobre o amor, a fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas d'uma inspira??o, d'uma brutalidade! Depois que gesto, um gesto terrivel que esmagava, em que se lhe arrega?ava toda a manga, mostrando o bra?o nú, um bra?o soberbo, muito branco, muito forte!
O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejára dentro do véo negro. E Jacintho, rindo:
-Um bom bra?o de director espiritual, hein? Para vergar, espancar almas...
Ella acudiu:
-N?o! infelizmente o Père Granon n?o confessa!
E de repente reconsiderou-aceitava um biscouto, um cálice de Tokai. Era necessario um cordial para affrontar as emo??es do Père Granon! Ambos nos precipitáramos, um arrebatando a garrafa, outro offerecendo o prato de bonbons. Franzio o véo para os olhos, chupou á pressa um bolo que ensopára no Tokai. E como Jacintho, reparando casualmente no chapéo que ella trazia, se curvára com curiosidade, impressionado, Madame d'Oriol apagou o sorriso, toda seria, ante uma cousa seria:
-Elegante, n?o é verdade?... é uma crea??o inteiramente nova de Madame Vial. Muito respeitoso, e muito suggestivo, agora na Quaresma.
O seu olhar, que me envolvera, tambem me convidava a admirar. Approximei o meu focinho de homem das serras para contemplar essa crea??o suprema do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o velludo, na sombra das plumas frizadas, aninhada entre rendas, fixada por um prégo, pousava delicadamente, feita de azeviche, uma Cor?a de Espinhos!
Ambos nos extasiamos. E Madame d'Oriol, n'um movimento e n'um sorriso que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Magdalena.
O meu Principe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e molles. E bruscamente, levantando os hombros com uma determina??o immensa, como se deslocasse um mundo:
-Oh Zé Fernandes, vamos passar este Domingo n'alguma cousa simples e natural...
-Em quê?
Jacintho circumgirou os olhares muito abertos, como se, atravez da Vida Universal, procurasse anciosamente uma cousa natural e simples. Depois, descan?ando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito longe, can?ados e com pouca esperan?a:
-Vamos ao Jardim das Plantas, vêr a girafa!