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Seguiu-se uma careta entre os dois interlocutores, que trocaram algumas phrases, em taes casos for?osamente tolas; fartos emfim de mastigar ora??es sem nexo, separaram-se friamente.
O capitalista ralhou muito com Carlos; porém Carlos ainda ralhou mais com elle pela sua pouca lisura.
E o certo é que ficaram amigos. Ha nos caracteres francos e generosos como o de Carlos, o que quer que seja que dissipa resentimentos ainda aos mais reservados e egoistas.
Resolveu finalmente o irm?o de Jenny entrar no escriptorio.
Ao dirigir-se para lá, viu que lhe vinha ao encontro um homem gordo, baixo e córado, que já de longe lhe estava fazendo cortezias.
Parou a escutal-o.
-V. s.a passou bem?-disse o recem-chegado.
Carlos correspondeu ao cumprimento.
-Ora eu-continuou o homem-já ha pouco fui ao escriptorio de v. s.a; mas nem v. s.a nem o senhor seu pae lá estavam. Eu n?o sei se v. s.a me conhece.
-N?o, senhor-disse Carlos, entretido a olhar para o la?o da gravata do seu interlocutor.
-Eu sou o Anastacio Rebello, que fiz aquelle carregamento de laranjas o anno passado...
Carlos fez distrahidamente um gesto affirmativo, e passou a examinar o bot?o de peito do snr. Anastacio Rebello.
-Ora v. s.a-proseguiu este-ha de estar certo de que ha dois mezes... um meu correspondente de Braga me pediu... Eu n?o sei se o pae de v. s.a lhe disse... Talvez n?o dissesse...
-Talvez n?o-disse Carlos, sem o attender...
-Pois o negocio é simples: este meu correspondente... que é também meu compadre... isto é, eu é que sou padrinho do filho d'elle, uma crean?a de treze annos, que esteve ha mezes em minha casa, a banhos na Foz, por causa de uns humores frios que...
Carlos assobiava já.
-Mas agora quer este meu compadre... Olhe; aqui está a carta que elle me escreveu;-proseguiu o homem, procurando-a no casaco-eu julgo que a trago commigo... Por ella fará ideia.
E principiou a tirar papeis sobre papeis, cartas, escriptos, ordens, letras, contas, recibos... dizendo, ao passo que examinava cada qual por sua vez:
-N?o... isto é outra cousa... é a ordem para me pagarem uns cincoenta e tantos mil réis... E já n?o veem sem tempo... Mas onde diabo puz eu a carta?... N?o é isto... Isto é o escripto de arrendamento da minha casa do Forno Velho... Isto é... Que S. Pedro é isto?... Ah! a carta do Maranh?o... isto ... isto é uma encommenda que me fazem de Bragan?a... V. s.a n?o me sabe dizer onde se vende... a estampa da guerra da Crimeia?
-Eu n?o, senhor-disse Carlos, dando dois passos para o escriptorio.
-Encommendaram-m'a e eu...-continuava o homem, seguindo-o-Ah! achei; cá está a carta!-exclamou, segurando Carlos pela manga do casaco-Ora quer ler?
-Eu n?o, senhor-respondeu este, tentando evadir-se.
-?Prezado amigo e compadre-principiou o homem a ler.-?Recebi a sua de 13 e agrade?o-lhe as recommenda??es, que me manda. A comadre...-é a mulher d'elle-recommenda-se á snr.a D. Maria do Carmo-é a minha mulher...-e o Juca...-é o tal meu afilhado...-manda muitos beijos ao padrinho...
-Que é o senhor-disse Carlos, já impaciente com a massada.
-Justamente-respondeu o homem, sorrindo á perspicacia de Carlos.
-Pois sim, mas eu agora n?o posso demorar-me-acrescentou Carlos, fazendo outra tentativa para fugir.
-Isto tambem n?o interessa...-concordou o homem-aqui mais abaixo é que... tal, tal, tal... sim, senhores...-?A festa do Bom Jesus este anno promette ser feita com espavento e eu espero que vocemecê...?-Elles querem que eu...
-Com licen?a, que estou com pressa.
-Sim; isto tambem n?o faz ao caso. é aqui abaixo...-?A camara municipal foi reeleita, como sabe; a gente da opposi??o levou uma derrota que...?
Carlos já n?o podia mais.
-Ora, meu caro senhor, que tenho eu com isso? Faz favor de me dizer?
-Tem v. s.a raz?o... é que eu julgava... Tal, tal, tal-?O seguro n?o quer pagar os prejuizos do incendio da minha casa da rua do Souto...?-Olhe que tambem isto de seguros...
-Adeus-disse Carlos, rompendo de todo com o snr. Anastacio Rebello.
-Ah! é aqui; agora sim-exclamou este triumphantemente-Cá está...-Aquella encommenda que eu fiz para Inglaterra...
Justamente quando o snr. Anastacio chegava ao ponto desejado, através d'aquelle mar, cheio de baixios, da carta do seu correspondente, Carlos vendo uma galante costureira, que a passos apressados atravessava a rua, deixou-o sem ceremonia para se dirigir a ella.
-Adeus, minha flor.
A rapariga respondeu-lhe:
-Ninguem o conheceu hontem no baile.
-Ent?o esteve lá?
E proseguiu o dialogo, mesmo em presen?a de toda a sisuda classe commercial, que ao filho de Richard Whitestone tudo desculpava.
Anastacio Rebello dobrou a carta do compadre, e afastou-se escandalisado com o que via.
Outros rapazes aproximaram-se. A rapariga fugiu.
Carlos, depois de alguns instantes tomados por occupa??es analogas ás que descrevemos, caminhou emfim para o escriptorio.
Era assim que elle tratava negocios na Pra?a Commercial; vejamos no escriptorio.