Jenny ficou ainda por muito tempo immovel junto da porta, onde se despedira do pae. O olhar corria-lhe pelos objectos que a rodeiavam; o pensamento porém n?o acompanhava o olhar.
Aquellas fei??es, em que se podia reconhecer, mysteriosamente, combinada á candura de uma crean?a n?o sei que severidade, toda maternal, tomavam agora um ar de preoccupa??o e melancolia, uma d'essas sombras, que as ideias graves parece projectarem no semblante de quem n?o aprendeu a dissimulal-as.
Jenny presentia haver chegado uma nova occasi?o de ser necessario intervir com a sua influencia pacificadora e angelica para dissipar a nuvem, embora tenue, que assomava no horizonte domestico.
Exercera já de um dos lados essa influencia, conseguira ado?ar as disposi??es acerbas de Mr. Richard para com o filho; faltava-lhe porém o resto, estava ainda incompleta a obra; era preciso ensaial-a sobre Carlos tambem.
E Jenny, que bem conhecia o irm?o, tinha fé em que o n?o tentaria debalde.
Rompia porisso um raio de confian?a por entre as sombras d'aquella preoccupa??o.
Foi n'este estado de espirito que chamou André para que fosse acordar o irm?o.
André era o mais antigo criado da casa, especie de mordomo jubilado, que servia Mr. Whitestone desde o seu estabelecimento no Porto e trouxera já ao collo os dois filhos do inglez.
-Vá,-disse Jenny-diga a Charles que eu o espero na bibliotheca.
Carlos dormia tranquillamente, quando o velho André lhe entrou no quarto. A respira??o profunda, pausada e regular denunciava um somno, livre de pesadelos e de sonhos importunos.
O criado, depois de escutar algum tempo aquelle som, unico que, com o do bater da pendula vizinha, se percebia no quarto, caminhou com precau??o, bem escusada a quem vinha para despertar, até uma das janellas, que entreabriu.
Espalhou-se ent?o no aposento uma meia claridade, coada através das longas cortinas que, soltas das abra?adeiras douradas, rojavam pelo tapete.
P?de ent?o o velho observar a completa desordem que ia n'aquella sala.
Estes raios de luz, menos felizes do que os evocados pelo fiat lux do Genesis, póde dizer-se que vieram ainda illuminar um cháos; pois difficilmente se encontraria mais apropriada express?o para designar o aspecto do aposento, a cuja vista se dissolveu em sorrisos toda a sisuda gravidade, desenhada nos labios e nas fei??es do mordomo.
A scena, de facto, escapa á mais esmiu?adora descrip??o.
Parecia que todos os objectos, alli contidos, haviam, durante a noite, entrado em dan?a phantastica, de tal sorte os surprendera o dia, deslocados da natural situa??o.
As cadeiras, amontoadas em desordem no meio da sala, haviam usurpado as attribui??es dos guarda-roupas; estes, abertos de par em par, patenteavam o interior desordenado e quasi vazio, como após um saque de cidade conquistada.
Nas mesas, nos sofás, em voltaires, no ch?o, por toda a parte emfim, menos nos logares competentes, via-se casacos, coletes, cal?as, mantas de differentes c?res e feitios. O pavimento achava-se literalmente alastrado de objectos de impossivel enumera??o; aqui, umas luvas, cal?adas pela primeira vez na vespera e já postas de lado como inuteis; alli, alguns ramos de flores desfolhadas e murchas, cuja posse, procurada talvez com incansavel insistencia, trouxe depressa após si o abandono e o esquecimento; n'outros pontos, charutos meio consumidos, os fragmentos de uma preciosa jarra de porcelana da India, um livro, que commettera o delicto de n?o excitar a curiosidade, uma cadeira derrubada com o fardo que lhe pesou sobre o espaldar; cartas, collarinhos, retratos, len?os, chicotes. As esporas no logar do relogio; este pousado na beira do marmore do fog?o; sobre o leito, um dominó de setim; pendente á cabeceira, o jornal da vespera e um longo cachimbo com tubo de gutta-percha; aos pés polvorinho de ca?a, o robe-de-chambre de damasco e o teliz da horsa favorita; no velador, um tinteiro de prata, transformado em cinzeiro de charutos; um chapéo pendurado na chave da porta; o candieiro no ch?o, alguns livros e mappas geographicos quasi debaixo da cama. Um abat-jour de cart?o envernizado com figuras extravagantes, representando chins em posi??es todas chinezamente ridiculas, servia de barrete ao busto de Shakespeare, cujo pesco?o estava além d'isso diplomaticamente enfeitado com uma gravata de baile; defronte, Byron, coberto com chapéo de feltro de abas largas, o qual lhe pendia galhardamente sobre a orelha esquerda, parecia fitar com petulancia o seu illustre conterraneo; no outro angulo, era aquella figura séria e bondosa de sir Walter Scott, com n?o sei que ares de acanhado debaixo do barrete turco, que a guerra da Crimeia pozera ent?o á moda; e finalmente um quarto busto occultava, sob mascara de setim preto, a express?o de candura e de soffredora tristeza do cantor dos combates dos anjos e demonios, o sublime Milton.
Dir-se-hia que estes grandes personagens da litteratura ingleza, obedecendo á voz do carnaval, haviam surgido da sepultura, para virem celebrar tambem entre si, com as suas cabe?as pallidas, a mais estranha mascarada.
No meio de toda esta confus?o, um enorme terra-nova, de ventas leoninas e corpulencia de touro, languidamente recostado nas molles almofadas do sofá luxuoso, pousava as patas musculosas e pelludas sobre um magnifico album de gravuras, com a mais absoluta irreverencia pela preciosidade, que assim lhe servia de cabeceira e de estrado.
Imagine-se o resto.
André, o methodico André, sorria e abanava a cabe?a no meio de tanta desordem. Demorou-se alguns instantes a examinar todo aquelle desarranjo, que bem simulava os vestigios de recente lucta; depois caminhou para o leito, afastou vagarosamente, de má vontade ainda, as cortinas brancas, que o resguardavam, e curvando a cabe?a, fitou os olhos na fronte espa?osa e liza de Carlos, sem que se resolvesse a acordal-o de dormir t?o tranquillo.
Carlos tinha a physionomia sympathica e expressiva. O melhor do typo saxonio encontrava-se alli. Os cabellos louros, curtos e naturalmente annelados, deixavam-lhe livre a fronte ampla, de bossas proeminentes, e cujos angulos se prolongavam por sobre as temporas; as c?res eram do alvo delicado, proprio dos typos septentrionaes; o nariz de perfil, em que n?o entrava o elemento da mais desvanecida curva; os labios, algum tanto grossos e levemente encrespados n'um sorriso, entre ironico e affectuoso, prompto a caracterisar-se com facilidade igual n'um ou n'outro d'estes sentidos; as palpebras longas, salientes e nas quaes, em curvas azuladas, transparecia uma rede de pequenas veias, e em torno ás orbitas o circulo de c?r desmaiadamente r?xa, vestigio de longas noites de agitadas vigilias; taes eram os tra?os principaes d'aquella physionomia aberta e attrahente, que, em alguns d'elles, offerecia o que quer que era de Byron. Os olhos, n'aquelle momento velados, possuiam fogo correspondente á vivacidade do espirito que os animava; as fei??es, paralysadas agora pelo somno, gosavam em vigilia de mobilidade extrema e eloquente, outro ponto de analogia com as do poeta inglez, segundo a cren?a dos seus biographos.
André acabou emfim por o chamar, mas com voz, que parecia de quem desejava n?o ser escutado.
-Snr. Carlos-disse elle.
Apesar de pronunciada em tom baixo, e quasi a mêdo, bastou esta palavra para o despertar.
Abriu immediatamente os olhos, fitou-os no criado e, estendendo os bra?os n'aquelle quasi involuntario movimento, com que todas as manh?s despeda?amos as ultimas cadeias com que nos algema o somno, deixou-lh'os cair em volta do pesco?o, como para apoiar-se, dizendo ainda com voz mal distincta:
-Bons dias, André. Que horas s?o?
-Meio dia.
Foi a resposta que obteve, acompanhada de significativo sorriso.
-Save us!-exclamou Carlos, imitando a despenseira ingleza, de quem era esta a phrase habitual, e ao mesmo tempo voltou os olhos para o relogio fronteiro, o qual, como em resposta a esta mimica interrogatoria, bateu doze lentas e sonoras pancadas.
-Pois n?o me parecia-continuou Carlos, ao acabar de contal-as.-Ia até estranhar-te a madrugada, sabes tu? E... e... o pae?
-Saíu já.
-E... e que disse?
André encolheu os hombros, respondendo:
-Nada.
Era a maneira de exprimir que alguma cousa dissera.
Carlos comprehendeu isto mesmo, mas n?o perguntou mais nada.
-Toca a p?r a pé, que s?o horas!-dizia o André, occupando-se a levantar alguns dos objectos que via pelo ch?o.
-Deshumano, cruel, que me recordas?-respondeu-lhe Carlos em tom de recita??o tragica.
-Vamos, vamos, pregui?oso.
Carlos abriu ainda outra vez a b?ca em gesto quasi sentimental de despedida ao somno que se afastava; afagou com a m?o o colossal terra-nova, que veio pousar-lhe a cabe?a nos joelhos, e abriu ao acaso o livro que encontrou á m?o, um romance de Dickens, do qual leu algumas linhas distrahido.
-Ent?o?-insistiu o André, vendo-o pouco disposto a levantar-se-Fica ahi?
-Vae-me buscar o almo?o, homem. Traze-me só café. Parece-me que inda agora terminei aquelle turbulento jantar de hontem.
-Ent?o quer almo?ar aqui?
-E julgo que é uma resolu??o muito louvavel.
-Mas...
-Mas o quê?... Que objec??es lhe p?es? Falla.
-é que miss Jenny espera-o na bibliotheca.
Carlos de um salto sentou-se na cama.
-ó pateta! e inda agora me vens com isso? Depressa-chega-me d'ahi esse robe-de-chambre.-Isso n?o... n?o vês que é um dominó?... Anda... avia-te... Aquelle len?o... O outro... Bem... Vae... Dize a Jenny que n'um momento estou com ella.
E depois de proceder com a maior celeridade áquelle ligeiro toilette de manh?, Carlos entrou na bibliotheca, onde Jenny o esperava.
Era n'esta bibliotheca que muitas vezes os dois irm?os se entregavam a leituras communs, restos de habitos adquiridos na infancia, quando pelos mesmos livros estudavam, formando um gracioso grupo de cabe?as louras, objecto das contempla??es apaixonadas e das ben??os cordiaes de Mr. Richard Whitestone.
-Bom dia, Charles-disse Jenny, estendendo-lhe a m?o, que elle apertou affectuosamente.
-Fiz-te esperar muito, filha? Perd?a-me; mas aquelle pateta n?o soube dizer-me logo que tu...
-Desculpa mandar-te acordar, mas...
-Fizeste bem; sen?o, dormiria até á noite.
-Vieste hontem muito tarde, Charles-disse Jenny, abaixando-se disfar?adamente para acariciar o terra-nova, que se lhe deitára aos pés.
-Pois ouviste-me?
-Ouvi.
-Ent?o acordei-te, Jenny? N?o foi por falta de cautela, porém... sempre sou um desastrado!
-N?o, n?o acordaste. Eu n?o tinha adormecido ainda.
-N?o tinhas adormecido! ás quatro horas! Estiveste doente, Jenny?
-N?o, mas...
Carlos olhou para a irm? com uns modos, que procurou tornar severos.
-Querem ver que foi por minha causa?... Ent?o que te tenho eu dito, Jenny? Fico de mal comtigo se tornas a ter essas canceiras por mim, a ponto de...
-N?o, n?o foi por canceira, é que...
-é que tu és uma teimosa e o que merecias...
-N?o se trata agora d'isso. Dize-me: vens hoje mais cêdo?
-Hoje! á ter?a-feira de entrudo! ó Jenny! Deixa ao menos passar o carnaval, deixa já agora acabar esta maldita época, e depois... depois verás que hei de ficar muitas noites em casa ao pé de ti e de... Tens-te enfastiado muito aqui só, n?o tens, pobre pequena?
-Ora, n?o fallo por mim; mas... é que... isso faz-te doente por certo,
Charles. Esses jantares t?o longos... Essas noites t?o mal dormidas...
-A mim?! A mim nada me faz mal, filha; lá por isso...
-E depois... Olha, Charles, ha devéras tanto tempo já que te n?o vemos comnosco, á noite... N?o é por mim que fallo, repito; mas o pae... bem sabes, antigos habitos... gosta de nos ver reunidos todos... a certas horas. Coitado! N?o digo sempre, mas... ás vezes, de quando em quando, se te n?o custasse...
-Pois sim, Jenny, pois sim. Deixa voltar o ver?o, que eu prometto... prometto que, muitas vezes até, hei de fazer o que dizes. Mas as noites de inverno! As noites de inverno, n?o obstante tudo quanto imaginou aquelle bom Thomson nas suas Esta??es, s?o t?o longas para se passarem em casa!
-As de estio... depois... já sei... has de achal-as t?o formosas que...
-N?o-replicou Carlos, sorrindo;-ent?o depois de eu te prometter havia de... Mas, olha cá, Jenny, tu és muito boa, e já sei que me vaes até ralhar por o que eu vou dizer; mas deves concordar em que de facto é pouco agradavel, para um rapaz da minha idade pelo menos, a maneira por que o pae costuma passar aqui as suas soirées. Aquelle eterno Times, aquelle Times sem fim aterra-me, Jenny. A Biblia é um livro que respeito e admiro, mas tremo um pouco das paraphrases dos nossos reverendos lettrados; confesso que tremo. O Tristam Shandy do Sterne já o sei de cor; no Tom Jones de Fielding, quando o n?o tivesse ainda lido, n?o haveria já capitulo de que n?o fosse bem informado, á for?a de o ouvir citar; e, a fallar verdade, ter de passar uma noite a escutar, mais uma vez, os commentarios a um e outro, com que fatalmente nos flagella o inesgotavel enthusiasmo paterno... a fallar verdade!
-Charles!-disse Jenny, em tom reprehensivo.
-E para cumulo dos males-proseguiu Carlos-estar sempre debaixo da permanente amea?a de uma visita do spleen de Mr. Morlays ou da, n?o menos para temer, jovialidade de Mr. Brains, Heraclito, e Democrito, inglezes que o sabor nacional tornou mais difficeis de digerir ainda, do que os proprios philosophos gregos. Ahi está o que me faz procurar aquelles logares onde, como diz Thomson: ?sussurra um publico, possuido de todos os assumptos, e animado de mixtos discursos?.
Jenny n?o p?de deixar de sorrir ás reflex?es do irm?o; mas, como para diminuir o effeito d'esta fraqueza, apressou-se a dizer-lhe:
-Pois sim, Charles; mas nem hontem! Hontem, na verdade!... no dia dos teus annos!...
-Ent?o que queres, menina? N?o me lembrei de tal, realmente. Acredita.
Reputo t?o pouco motivo para festas o facto do meu nascimento!
-Mas os que te estimam formam melhor opini?o d'esse dia. Nem lhes queres dar o prazer de t'o affirmarem?
-Daria se... se me lembrasse.
-O pae destinava-te uma surpreza. Coitado! Fez-me pena a maneira por que elle me encarregou, ainda ha pouco, de te entregar este relogio-disse Jenny, passando para as m?os do irm?o o presente de Mr. Richard.
-Devéras?! Pois elle... Pobre pae! Vês? E eu que lhe roubei esse prazer! Ai Jenny, esta minha cabe?a! Tu inda ao menos sabes o que me vae no cora??o, n?o é assim?
-Sei, Charles, sei.
-Mas os outros...
-Todos te fazem justi?a, só tu é que...
-Mas repara, Jenny, é um relogio magnifico este; pois n?o é?! Bem; n?o ha que ver, snr. Carlos; é preciso que pela sua parte fa?a alguma cousa tambem. Está dito; n?o esperarei pelo ver?o. O carnaval está a expirar; acabando elle ... penitenciar-me-hei na quaresma.
-O carnaval! Muito divertidos devem ser esses bailes de mascaras, para assim te attrahirem, Charles!
-Enganas-te, Jenny; s?o insipidos, mas... Tu n?o pódes talvez entender isto, que n?o obstante é exacto... s?o insipidos, mas irresistiveis ao mesmo tempo.
-Ora!
-Acredita-me. Rara é a noite em que me n?o encho de tédio, em que n?o morro de semsaboria no meio d'aquelle infernal tumulto, e ent?o, se de lá me lembro de ti, do socego dos teus ser?es, do silencio das tuas noites, do teu bonito quarto c?r de violeta, pergunto a mim mesmo, Jenny, por que me conservo longe d'alli, o que me afasta das portas d'esse paraizo, voluntariamente perdido por este louco, que nem merece ser teu irm?o. Sinto vontade ent?o de soltar uma lamenta??o como a de Eva por errar n'um mundo, que ao pé do teu, Jenny, é tambem obscuro e selvagem; por estar a respirar n'um ar bem menos puro.-N?o é assim que diz o Milton?-E comtudo n?o tenho nenhum archangelico poder a imp?r-me a expatria??o. Vês?
-Estás a gracejar, Charles?
-Acredita que n?o. Outros te poderiam dizer o mesmo se...
-E é isso que te conservou por lá, ainda hoje, até ás quatro horas da manh??
-Hoje? Ah, mas... perd?o, Jenny; tudo tem suas excep??es. A noite de hontem, por exemplo, n?o me deixou desagradavel memoria de si; devo confessal-o.
-Ent?o?
-Ent?o... é que eu tenho que te contar, e se tiveres a paciencia de me escutar e prometteres n?o me ralhar muito...
-Ah! pois temos culpas?
-Eu sei? Desconfio tanto de mim, que já me n?o atrevo a affirmar que procedesse bem. Mas tu o dirás.
Jenny sorriu.
-Ou?amos-disse ella, preparando o almo?o, que um criado acabava de trazer para a sala.