Vae adiantada a manh? do dia seguinte áquelle, em que se passaram as scenas descriptas já. S?o mais de onze horas, Carlos dorme ainda.
Recolhera-se á hora critica, em que principiam a desmaiar as estrellas no firmamento, a agitarem-se nos ninhos as aves e a soarem na rua os sócos de alguns operarios mais matutinos. Que admira pois que durma, a sonhar talvez a continuac?o, favoravel aos seus desejos, de qualquer aventura incompleta do baile da vespera?
A situa??o da casa de Mr. Richard Whitestone facilitava esta infrac??o dos direitos do dia, que se fez para vigilias e trabalho, e n?o para sonhos e repouso.
O leitor, que é do Porto, quasi me dispensa de dizer-lhe que era o bairro de Cedofeita aquelle, onde a familia Whitestone vivia.
Esta nossa cidade-seja dito para aquellas pessoas, que porventura a conhecem menos-divide-se naturalmente em tres regi?es, distinctas por physionomias particulares.
A regi?o oriental, a central e a occidental.
O bairro central é o portuense propriamente dito; o oriental, o brazileiro; o occidental, o inglez.
No primeiro predominam a loja, o balc?o, o escriptorio, a casa de muitas janellas e de extensas varandas, as crueldades architectonicas, a que se sujeitam velhos casar?es com o intento de os modernisar; o sagu?o, a viella independente das posturas municipaes e á absoluta disposi??o dos moradores das vizinhan?as; a rua estreita, muito vigiada de policias; as ruas, em cujas esquinas estacionam gallegos armados de pau e corda e os cadeirinhas com o capote classico; as ruas amea?adas de prociss?es, e as mais propensas a lama; aquellas onde mais se compra e vende; onde mais se trabalha de dia, onde mais se dorme de noite. Ha ainda n'este bairro muitos ares do velho burgo do Bispo, n?o obstante as apparencias modernas que revestiu.
O bairro oriental é principalmente brazileiro, por mais procurado pelos capitalistas, que recolhem da America. Predominam n'este umas enormes moles graniticas, a que chamam palacetes; o portal largo, as paredes de azulejo-azul, verde ou amarello, lizo ou de relêvo; o telhado de beiral azul; as varandas azues e douradas; os jardins, cuja planta se descreve com termos geometricos e se mede a compasso e escala, adornados de estatuetas de lou?a, representando as quatro esta??es; port?es de ferro, com o nome do proprietario e a era da edifica??o em lettras tambem douradas; abunda a casa com janellas gothicas e portas rectangulares, e a de janellas rectangulares e portas gothicas, alguma com ameias, e o mirante chinez. As ruas s?o mais sujeitas á poeira. Pelas janellas quasi sempre algum capitalista ocioso.
O bairro occidental é o inglez, por ser especialmente ahi o habitat d'estes nossos hospedes. Predomina a casa pintada de verde-escuro, de r?xo-terra, de c?r de café, de cinzento, de preto... até de preto!-Architectura despretenciosa, mas elegante; janellas rectangulares; o peitoril mais usado do que a sacada.-Já uma manifesta??o de um viver mais recolhido, mais intimo, porque o peitoril tem muito menos de indiscreto do que a varanda. Algumas casas ao fundo dos jardins; jardins assombrados de acacias, tilias e magnolias e cortados de avenidas tortuosas; as portas da rua sempre fechadas. Chaminés fumegando quasi constantemente. Persianas e transparentes de fazerem desesperar curiosidades. Ninguem pelas janellas. Nas ruas encontra-se com frequencia uma ingleza de cachos e um bando de crean?as de cabellos louros e de babeiros brancos.
Taes s?o nos seus principaes caracteres as tres regi?es do Porto; sendo desnecessario acrescentar que n'esta, como em qualquer outra classifica??o, nada ha de absoluto. Desenhando o typo especifico, nem estabelecemos demarca??es bem definidas, nem recusamos admittir algumas, e até numerosas excep??es, hoje mais numerosas ainda do que ent?o, em 1855.
é claro pois que era n'este ultimo bairro que residia o illustre Mr.
Richard, e sua familia.
O nome da rua sou obrigado porém a occultal-o, para evitar indiscri??es mal sofridas em terras, onde todos se conhecem.
A casa, essa posso descrevel-a, ainda que o farei com o devido artificio, para a n?o trahir para com algum leitor mais desoccupado.
Era uma das taes casas escuras, com vidra?as de caixilhos brancos, retirada ao fundo de um jardim, nas grades do qual se entrela?avam t?o intimamente as folhas sempre verdes das Australias e os ramos floridos de japoneiras gigantes, que resguardavam de vistas curiosas as avenidas irregularmente tra?adas por entre relva digna de uma paizagem ingleza.
A casa tinha um andar apenas, além do mirante. Uma especie de pavilh?o, ou corpo lateral, seguia um dos lados do jardim, e vinha abrir tres amplas janellas para a rua, que era das menos frequentadas da cidade.
Era n'este pavilh?o o quarto de Carlos.
Toda aquella residencia respirava certo ar de commodidade, certo confortable, esse sympathico adjectivo do vocabulario inglez.
Andavam-lhe por longe as vozes discordantes da industria e do commercio, t?o funestas ás encantadas vis?es dos somnos matinaes.
Tudo parecia fomentar aquelle dormir reparador de Carlos, que ia absorvendo a manh? inteira, pelo menos segundo a maneira de contar o tempo dos poucos, que ainda hoje come?am a dar as boas tardes logo depois do meio dia.
Jenny nunca podia adormecer emquanto n?o ouvisse entrar o irm?o, circumstancia que, n?o obstante, lhe occultava para o n?o constranger nos seus prazeres, ou de que apenas o fazia conhecedor, quando n'esse constrangimento prevía utilidade.
Tendo por isso notado a hora avan?ada a que, d'aquella vez, Carlos voltára a casa, deixava-o agora dormir para que restaurasse as for?as perdidas pela vigilia da vespera e porventura necessarias para vigilias novas.
Como uma joven m?e, solicita pelo somno do seu primeiro filho, desde manh? cêdo a viam os criados apparecer nas proximidades dos aposentos do irm?o, a prevenir e afastar o menor ruido, que podesse despertal-o.
No extenso corredor, que medeiava entre o quarto de Carlos e o resto da casa, passeiava, desde o alvorecer, e com passos levissimos, essa doce figura de mulher, como se fora o anjo da guarda d'aquelle estouvado, que nem suspeitava sob que azas protectoras adormecera.
ás vezes parava junto da porta de Carlos, e applicando ahi o ouvido attento, parecia espiar o menor rumor que de dentro saísse, a denunciar-lhe o acordar.
Depois afastava-se e dirigia-se lentamente para a sala opposta, onde ía inspeccionar e dirigir os preparativos do lunch de Mr. Richard, cujas horas se aproximavam já.
N'uma d'estas occasi?es, em que voltava de dentro do quarto do irm?o, encontrou-se com um criado, rapaz ainda, o qual, encostado á ombreira da porta do jardim, parecia t?o dominado por pensamentos penosos, que nem lhe deixaram perceber a aproxima??o de Jenny.
A joven ingleza olhou-o com bondade, e parando junto d'elle perguntou-lhe:
-Como está sua m?e, José?
O rapaz voltou a si e tomando logo uma attitude de respeito, respondeu:
-Hoje ainda n?o sei, minha senhora; hontem porém deixei-a bem mal.
-Hoje n?o sabe?!-exclamou Jenny, desviando o olhar para o relogio do corredor, que marcava onze horas e meia-N?o sabe, e é perto de meio dia!
-Ent?o, minha senhora? Como o snr. Carlinhos se levanta mais tarde...
-Vá vel-a, José, vá. N'aquelle estado, coitada!... Sabe lá a falta que lhe estará fazendo?
-Mas, se...
-Vá; Carlos n?o lhe importa. Eu lhe direi. Ande, vá.
-Ent?o muito agradecido, minha senhora,-disse o rapaz, sensibilisado com a bondade da sua joven ama.
Jenny continuou passeiando.
Ao passar junto das escadas do mirante, parou, affirmando-se em alguma cousa, que via n'ellas. Subiu dois ou tres degraus e curvou-se para observar melhor; era uma penna de ave, que o vento transportára do pateo para alli. Jenny n?o p?de reprimir um pequeno movimento de desagrado.
O escrupuloso amor do asseio, radicado no caracter e nos habitos inglezes, n?o lhe permittia ver com indifferen?a aquillo.
-Varreram-se hoje estas escadas, Pedro?-perguntou ella a um criado, com longo avental branco, que n'aquelle momento passava no corredor.
-Varreram, sim, minha senhora-respondeu este.
-Repare-acrescentou Jenny.-A fallar verdade s?o bem pouco cuidadosos.
Veja esse corrim?o cheio de pó.
-é que se tornou a sujar. O vento...
-Seria; mas n?o tira que se limpe outra vez.
-De certo; eu vou já.
-E olhe-continuou Jenny, indicando as vidra?as, que davam para o jardim-passe tambem com um panno humedecido por esses vidros t?o ba?os e dê lustro aos metaes dos fechos.
-Sim, minha senhora; e digo tambem ao hortel?o que ensaibre o jardim; depois da chuva que tem caído bem precisa d'isso-lembrou o criado, como todos os d'esta classe, mais zeloso em superintender nas tarefas dos outros do que em cumprir as suas.
Jenny fez um gesto de assentimento e passou para diante. Entrou na sala de jantar.
Lan?ou o olhar para a mesa, onde, sobre toalha de alvissima bretanha, brilhavam os mais puros crystaes e mais preciosa lou?a ingleza.
Esteve algum tempo a examinar com atten??o as particularidades do servi?o, accusando por vezes no gesto algum defeito que percebia.
-Pedro-chamou ella por fim, apoiando a m?o no espaldar da cadeira, destinada a Mr. Richard.
O criado, que andava no corredor, acudiu ao chamamento.
-Ent?o onde p?z a mostarda?
-Ai! é verdade.
O criado correu ao aparador a buscar esse indispensavel artigo da cozinha britannica.
-Veja como dobrou esse guardanapo.
O criado apressou-se a corrigir a imperfei??o notada.
-Aquelle p?o n?o é o que o pae quer para os lunchs. Bem sabe.
-Tem raz?o, minha senhora.
O p?o foi substituido com celeridade, verdadeiramente ingleza.
-Desvie mais para o centro aquellas flores. T?o perto do fiambre n?o; chegue o prato mais para cá. Assim. Veja esse trinchador como ficou. Ficou peior agora. Assim. Ponha o Times ahi ao lado. Está bom. Póde ir.
Ficando só, por suas proprias m?os deu ainda um geito particular a tudo, attendendo a pequenas circumstancias muito do agrado de Mr. Richard e de que só ella tinha conhecimento; necessidades pueris, mas necessidades a final, e de que ninguem é isento. Correu as cortinas das janellas, para dar á sala aquellas meias sombras discretas, tanto do gosto inglez, e voltou de novo ao corredor.
Alguns passos dados, veio a ella uma criada, ainda nova, com os olhos baixos e maneiras enleiadas.
-Que tem, Luiza?-perguntou-lhe Jenny.
-Venho dizer adeus a miss Jenny, porque me vou hoje embora.
-Como vae embora! Quem a mandou?
-Ninguem, mas...
-N?o está bem?
-Se estou, mas...
-Ent?o?
-A miss Jenny sabe que a minha irm? estava a servir ahi para fóra da cidade. O trabalho era muito, coitada, e ella era t?o fraca! Lidou quanto p?de, até que emfim caíu doente. Vae para casa de minha m?e. Mas como ha de tratal-a a pobre de Christo? ella, quasi entrevada e cega? Meus irm?os andam todo o santo dia por fóra, e para pagar á enfermeira?... Quem pensa n'isso? Assim vou eu... e, quando ella se achar melhor, se a miss Jenny me quizer outra vez...
-A Luiza n?o póde de modo nenhum deixar-nos agora.
-Mas...
-Escute; se quizer tratar de sua irm?, traga-a para ahi.
-ó minha senhora...
-Prepare-lhe aquelle outro quarto do mirante.
-Seja por amor de Deus...
-Olhe, Luiza-apressou-se a interrompel-a Jenny-vá ver se me aprompta aquelles punhos que eu lhe disse, vá.
-Vou já fazel-o, minha querida senhora-disse a rapariga, a quem palpitava o cora??o alvoro?ado de contentamento.
N'isto ouviram-se gritos agudos, desentoados, pungentes, que fizeram parar Jenny e assombraram-lhe a fronte serena de uma nuvem de tristeza. Vinham do andar superior aquelles gritos.
O criado, vendo-a parada a escutal-os, disse meio compungido, meio a sorrir:
-é a snr.a Catharina; tem estado desde hontem t?o impaciente!
-Pobre Kate!-murmurou Jenny, suspirando-e subiu com ligeireza as escadas, que conduziam ao mirante.
Catharina ou Kate, segundo a familiar abreviatura ingleza, era uma criada octogenaria, que tinha sido ama de Mr. Richard e jazia agora, paraplegica e demente, n'um dos quartos da casa, vigiada com carinho pela familia Whitestone e com impaciencia, a custo reprimida, por os criados e criadas. Em certos dias os accessos da velha eram furiosos e as suas impreca??es, em lingua mesti?a de portuguez e de inglez, e os seus gritos horripilantes punham em alvoro?o toda a casa. Em momentos assim era difficil apazigual-a; t?o violentas gesticula??es fazia, que poucos eram os bra?os para impedir-lhe que se maltratasse.
-C?es!-bradava ella agora, n'aquelle estranho imbroglio linguistico, impossivel de reproduzir aqui e que fazia rir as criadas que a seguravam-C?es! Teem-me aqui presa! Querem matar-me á fome! á fome! Mas deixem estar que em vindo Dick... Elle ha de vir, ha de vir! Larguem-me! Dick! Dick!-Era o nome familiar que ella dava ainda a Mr. Richard.-Dick! pois assim queres matar-me? assim queres ver-me morrer? N?o tens pena de mim? Dick! Fui eu que te trouxe ao peito, eu... Olha que sou a pobre Kate Simpleton. Dick! Dick! Livra-me d'estes demonios, que me querem afogar. Que mal te fa?o eu, para me deixares morrer? Larguem-me!
E por um esfor?o inesperado d'aquelles bra?os emaciados e fracos, soltou os punhos das m?os, que os seguravam, e levando-os ás faces, feria-se no rosto encarquilhado e contrahido.
N'isto entrou Jenny no quarto.
A velha apoderára-se de uma faca, que por descuido lhe tinham deixado ao alcance da m?o.
Jenny fez signal ás criadas para que se afastassem do leito e aproximou-se d'elle.
-Cuidado, miss Jenny!-disse a despenseira, gorda, ruiva e sardenta matrona ingleza, que suava ainda com o esfor?o que sustentára.
-Cautela, menina!-repetiu a outra criada, musculosa portugueza dos arredores da Maia-Olhe que ella é perigosa n'estas occasi?es.
Jenny n?o as attendeu.
Chegou-se ao leito da velha demente e passou-lhe nos pulsos as m?os, delicadas e debeis.
A velha estremeceu e fitou n'ella o olhar espantado e amea?ador.
-Bons dias, Kate-disse-lhe affavelmente Jenny, sem que no rosto, risonho e sereno, se desenhasse a menor sombra de receio.
Kate ficou a olhal-a por algum tempo d'aquella maneira.
-Ent?o que ruindade é esta hoje, Kate? Nem me conheces?
A velha principiou a socegar; conservava-se porém ainda muda, e n?o desviava de Jenny os olhos espantados.
-N?o me conheces, ama?-continuou esta, em tom mais affectuoso-Kate, ent?o? Já nem queres conhecer a Jenny?
O rosto da octogenaria illuminou-se com um sorriso estranho, selvagem quasi; a cabe?a principiou a agitar-se-lhe em movimento affirmativo, que, pouco a pouco, augmentou de velocidade, até á rapidez de certos desordenados gestos proprios d'aquelles estados de espirito; a m?o soltou a faca que ainda segurava.
-Eu logo vi que me conhecias-dizia Jenny, afastando-lhe compassivamente os cabellos da fronte enrugada.-E has de estar quieta, n?o has de?
-Sim, sim-dizia a velha, a rir como crean?a, e lan?ava os bra?os em volta do collo de Jenny, aproximava-a do seio e beijava-a, murmurando com voz chorosa as mais ternas express?es de affecto da lingua ingleza.
-Sim, sim, poor thing; sim-repetia muitas vezes, cingindo-a a cada momento mais a si.
-Ai, miss Jenny, miss Jenny!-dizia a despenseira aterrada.
Jenny fez-lhe signal com o dedo, a imp?r-lhe silencio, ou a mandal-a saír.
A demente, tomando a cabe?a de Jenny, principiou a balan?ar-se como a adormecer crean?as, e cantava ao mesmo tempo uma melancolica toada, com a qual, havia cincoenta annos, adormecera já o pequeno Dick, actualmente Mr. Richard Whitestone.
Eis o sentido da can??o que, em dialecto escossez, ella cantava:
Dorme, filho, que eu vigio,
E emquanto dormes, sorri;
Que a tua por??o de lagrimas
Eu as chorarei por ti.
Jenny n?o lhe offerecia resistencia. A velha chorava, cantando; a voz ia-se-lhe a enfraquecer gradualmente; por fim tomou-a um d'aquelles profundos somnos, que parece, n'esses estados, participarem já do caracter do somno final, que n?o vem longe.
Adormeceu entoando em voz já mal percebida:
A tua por??o de lagrimas...
Eu as chorarei... por ti...
Jenny desprendeu-se-lhe ent?o dos bra?os, conchegou-lhe a roupa, fechou a janella, e, recommendando silencio aos criados, desceu.
No fim dos degraus encontrou sentado o jardineiro da casa, com o rosto entre as m?os e solu?ando.
-Que é isso, Manoel?
O velho ergueu-se com sobresalto.
-Ai, menina Jenny, é que... veja.
E apontou para o degrau da porta do jardim, onde jazia partido um vaso de porcelana com uma preciosa begonia.
-Como foi isto?-perguntou Jenny.
-O pae mandou-me trazer do quarto d'elle para a estufa este vaso e tanto cuidado me recommendou! e vae eu... veja a minha desgra?a, logo ao descer a escada escorrego... Valha-me Deus, valha!
-Socegue. Meu pae n?o lhe ha de ralhar muito...
-Pois sim; mas se elle tanto me recommendou! E era um vaso de tanta estima??o! Ai, como me principia hoje o dia, Senhor.
Jenny viu, commovida, a afflic??o do velho, que nem tinha coragem para apresentar-se diante de Mr. Richard.
A bondosa rapariga baixou-se, e tomando os dois fragmentos do vaso, onde se continha ainda a terra com a begonia, uniu-os cuidadosamente, e descendo ao quintal, caminhou, segurando-os, em direc??o da estufa.
-Onde vae, menina?-dizia o jardineiro admirado.
Jenny n?o lhe respondeu.
O velho seguiu-a.
Ao aproximar-se da estufa, onde Mr. Richard labutava em cuidados de jardinagem, Jenny disse-lhe, levantando a voz:
-N?o quiz confiar a ninguem este vaso, porque... Ai!
Era o vaso, que lhe caía das m?os, e vinha fazer-se peda?os no ch?o, á entrada da estufa.
-Oh!-disse Mr. Richard, correndo em soccorro da begonia.
-Vêem, vêem!-dizia Jenny, fingindo-se consternada-como Deus me castiga a presump??o!
-é verdade-disse Mr. Richard agachado-um vaso t?o bonito! Crean?a!
Olhem para esta pobre begonia! Como ficou!
-Está vingado, Manoel-continuou Jenny.-Eu a desconfiar de si, e vae...
O velho hortel?o n?o podia fallar; emquanto Mr. Richard examinava os estragos da begonia, elle cobria de beijos a m?o de Jenny, que n?o p?de retiral-a a tempo.
Era meio dia.
-Vamos,-disse Jenny a Mr. Whitestone-perd?e-me a culpa e venha ao seu lunch.
Mr. Richard olhou affectuosamente para a filha, a quem afagou nas faces e, separando-se com um suspiro da begonia, seguiu para casa, murmurando, a sorrir:
-Estouvada! buli?osa!
No degrau da escada n?o escapou á vista aguda de genuino inglez a terra, que ficára alli, como vestigio do delicto de Manoel. Jenny, que o percebeu, apressou-se a dar uma causa ao facto.
-Fui eu que estive a mudar aquellas raizes, que vieram de Inglaterra...
-Já! N?o sei se seria bom. Vamos ver como ficaram.
-Agora n?o, que s?o horas do seu lunch.
Mr. Richard n?o insistiu e dentro de alguns segundos procedia já aos preparativos d'esta refei??o matinal.