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Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto
img img Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto img Chapter 3 NA AGUIA D'OURO

Chapter 3 NA AGUIA D'OURO

Era uma das ultimas noites do carnaval de 1855.

Havia menos estrellas no céo, do que mascaras nas ruas. Fevereiro, esse mez inconstante como uma mulher nervosa, estava nos seus momentos de mau humor; mas, embora; o folgaz?o entrudo ria-se de taes severidades e dan?ava ao som do vento e da chuva, e sob o docel de nuvens negras que se levantavam do sul. Gra?as á cheia do Douro, a cidade baixa podia bem prestar-se n'aquella época a uma parodia do carnaval veneziano.

á porta dos theatros apinhava-se a multid?o; os altos brados dos vendedores de senhas e os agudos falsetes dos mascarados atordoavam os ouvidos. Dos cabides dos guarda-roupas, provisoriamente armados nas lojas circumvizinhas aos principaes sal?es de baile, pendiam vestuarios correspondentes a todas as épocas e a todas as na??es, e alguns, aos quaes n?o era possivel assignar época, na??o, classe ou condi??o social conhecida.

Numerosos grupos de espectadores paravam diante das exposi??es de mascaras á venda e tornavam o transito n'aquellas ruas quasi impraticavel. Era uma fascina??o analoga á que produz um conto de Hoffmann em imagina??es excitaveis, e exercida n'elles por tantas mascaras enfileiradas, cuja diversidade comica de express?o e de gesto lembrava um enxame de cabe?as mephistophelicas, surgindo á luz para se rirem das loucuras da humanidade.

Estes absortos contempladores a cada passo vinham a si, desagradavelmente acordados pelas pragas energicas dos conductores de carruagens, prestes a atropellal-os, ou pela interjei??o pouco harmoniosa dos cadeirinhas obrigados por causa d'elles a irregularidades no andamento da sua grave e benefica tarefa. Só ent?o, e ainda a custo, se dispersavam, para, alguns passos mais adiante, se agglomerarem de novo.

Se é licito comparar as grandes ás pequenas cousas, veremos n'estes a imagem de todos os inoffensivos scismadores d'este mundo, a quem sempre cruelmente vem despertar o embate dos afadigados em emprezas positivas.

A anima??o era geral na cidade.

Todos corriam com ancia... a enfastiarem-se, fingindo que se divertiam.

Alguma cousa havia tambem na Aguia d'Ouro, a anci? das nossas casas de pasto, a velha confidente de quasi todos os segredos politicos, particulares e artisticos d'esta terra; alguma cousa havia n'essa modesta casa amarella do largo da Batalha, que desviava para lá os olhares de quem passava.

Desde as tres horas da tarde que o tinir dos crystaes e das porcellanas, o estalar das garrafas desarrolhadas, o estrepito das gargalhadas, das vozerias tumultuosas, e dos hurrahs ensurdecedores rompiam, como uma torrente, do acanhado portal d'aquelle bem conhecido edificio; e por muito tempo essa torrente, á maneira do que succede com a das aguas dos rios caudalosos ao desembocarem no mar, conservava-se distincta ainda, através do grande rumor, que enchia as ruas.

Os criados subiam e desciam azafamados as escadas, cruzavam-se ou abalroavam-se nos corredores, hesitavam perplexos entre ordens contradictorias, vinham apressar os collegas na cozinha ou entretinham com promessas os impacientes convivas da sala.

No entretanto o modesto e solitario freguez, a quem uma velleidade estomacal convidára a ir ceiar a humilde costelleta, principal trophéo culinario da casa, era pouco attendido e, farto de esperar, retirava-se sorrateiro e cabisbaixo.

Sob apparencias de modestia, a Aguia d'Ouro parecia d'esta vez aureolada de n?o sei que magestade, condigna do seu emblema.

A luz escassa de um lampe?o da rua, batendo sobre a ave de Jupiter, que cor?a a taboleta do estabelecimento, parecia dar-lhe reflexos, mais brilhantes do que os do costume.

Que era noite solemne para a casa, aquella casa que tem já dado que entender a ministerios e a emprezarios lyricos, n?o podia haver duvida.

Cá em baixo, os serventes do café fallavam a meia voz e mostravam no olhar certo ar de preoccupa??o, certa importancia no gesto, como se effectivamente se estivesse passando cousa de momento no andar de cima.

O café contrastava porém com a anima??o que se percebia nas salas da hospedaria.

Estavam desertos os logares d'aquella abafada quadra, em cujas paredes ainda ent?o existiam, e amea?avam perpetuar-se, reproduc??es, em lona, dos combates que restabeleceram a independencia da Grecia; a luz amortecida dos candieiros n?o dissipava as sombras dos recantos.

O marcador do bilhar cabeceava com somno.

Os bailes de mascaras tinham derivado d'alli até os homens politicos. N'aquella noite as discuss?es sobre a guerra da Crimeia, ent?o na ordem do dia, travavam-se ao som das walsas e das mazurkas, nos theatros.

N?o é pois n'este logar, agora melancolico e quasi lugubre, que eu pretendo demorar o leitor.

Subamos, e, por entre os criados que encontrarmos nas escadas e corredores, penetremos na sala d'onde provém o ruido de festa que já noticiamos.

O leitor por certo conhece o recintho. As suas particularidades architectonicas n?o requerem tambem as fadigas da descrip??o.

é um jantar de rapazes a festa, a que viemos assistir.

Chegamos, porém, tarde.

O fumo dos charutos ennevoa a sala e empana o fulgor das luzes; o jantar vae no fim, a desordem portanto no ponto culminante.

Ha já calices partidos, vinhos preciosos extravasados, convivas em todas as posi??es, algumas indescriptiveis.

A vozeria é atordoadora. A confus?o póde dar uma ideia de Babel.

Tratam-se simultaneamente todos os assumptos; as transi??es fazem-se com uma rapidez, que surprende e embara?a os proprios interlocutores; atten??o, que se desvie um segundo, é atten??o perdida; n?o encontra depois já o dialogo onde o deixou; ás vezes a conversa generalisa-se; momentos depois, distribue-se em especialidades por diversos grupos; mais tarde, generalisa-se de novo; em certas occasi?es, todas as b?cas fallam, cada um se escuta a si; n'outras algum orador consegue por instantes fazer-se escutar de todos, até que um áparte, um incidente, um gesto, restabelece a independencia primitiva. D?o-se tambem verdadeiros encruzamentos de conversas; o dos pés da mesa responde ao dito que ouve ao da cabeceira, emquanto que os intermedios se entreteem de outros objectos; é um baralhar de palavras, em que a custo se tira a limpo a express?o do pensamento.

Alli falla-se em litteratura e ouve-se, de quando em quando, pronunciar o nome de algum romancista ou poeta de vulto ou da moda; perto, discute-se politica e julgam-se n'um momento, e com a mais desenganada critica, as primeiras capacidades financeiras, diplomaticas e militares da época; conversam mais longe de aventuras de amor dois rapazes fronteiros e, atravessando-se diagonalmente com t?o agradavel prática, o dialogo de outros dois exerce-se sobre modas de casacos; um grupo exalta-se, tratando assumptos de theatro lyrico e premeditando pateadas e ova??es; juntos d'este, dois enthusiastas de hippicultura fazem a historia pittoresca de compras, vendas e manhas de cavallos. A propria philosophia allem? fornece alimento á anima??o dos discursos; e tudo isto interrompido de gargalhadas, de cantigas, de juras e exclama??es em todas as linguas.

Seria igualmente difficil determinar o elemento commum dos individuos reunidos alli.

Ha-os das mais diversas condi??es; desde o joven padre, que p?e a tractos a sciencia e a paciencia dos cabelleireiros para disfar?ar, quanto for possivel, os vestigios da tonsura, até o official do exercito, todo possuido das branduras civilisadoras do seculo e para quem a mesma ca?a é occupa??o barbara e afflictiva da sensibilidade; ha-os das mais diversas idades, desde o collegial de hontem, ainda imberbe e embriagado com as primeiras commo??es da vida de adolescente, até o velho, que, ingenuamente persuadido de que o tempo se esqueceu de lhe ir contando os annos, deixa passar a gera??o, contemporanea sua, e insiste em viver, entre rapazes, vida de rapaz; ha-os em diversas circumstancias monetarias, desde o capitalista, que vê correr descuidado a fonte dos seus rendimentos, com tranquillisadora confian?a no inesgotavel manancial que a alimenta até á classe dos encostados, verdadeiros martyres da moda, cuja vacuidade de bolsa lhes constrange a imagina??o a fabricar systemas quotidianos para os manter, embora á custa de humilia??es n'aquella atmosphera, fóra da qual já n?o sabem respirar; ha-os de todos os graus de intelligencia, desde o escriptor applaudido e que, sem favor ou com elle, conquistou reputa??o nas lettras, até o analphabeto, cujas sandices s?o saudadas com gargalhadas que ninguem procura reprimir na presen?a d'elle proprio.

Finalmente, esta reuni?o de elementos, debaixo de todos os pontos de vista t?o heterogeneos, é uma por??o da sociedade, que pretenciosamente se decora com o titulo de elegante e para pertencer á qual é difficil fazer resenha dos requisitos necessarios; pois que nem a propria elegancia-na verdadeira accep??o do termo-é dote generico dos seus membros.

O motivo do jantar... O jantar n?o tinha motivo e era esta outra circumstancia que o caracterisava. Um jantar póde muito bem ser motivo de si mesmo: sendo possivel d'elle dizer-se de alguma sorte, em linguagem philosophica, que tem em si a ?raz?o sufficiente da sua existencia?.

Na companhia encontraremos alguem já conhecido nosso.

E como, até agora, só tenho apresentado ao leitor tres pessoas, n?o será prova de grande perspicacia, da sua parte, adivinhar qual d'essas tres será.

Effectivamente é Carlos Whitestone um dos convivas e n?o dos mais sisudos.

Ficava proximo da cabeceira da mesa. Carlos era quem mais vezes conseguira encaminhar a um fito unico todas as atten??es e modificar a assembleia a ponto de se lhe poder referir o conticuere omnes da Eneida;-verdade é que n?o t?o completamente o fizera como o heroe troyano, pois nem tinha destrui??o de Ilion a descrever, nem a paciencia dos tyrios a escutal-o.

Carlos Whitestone passava por estar muito em dia com os boatos comicos e escandalosos, de que sempre e em toda a parte é t?o s?frego o paladar social.

Por isso o escutavam todos com prazer.

Sinto que n?o chegassemos a tempo de ouvir o principio da narra??o, que elle levava em meio.

-O nosso homem-dizia Carlos, accendendo um charuto no de um jornalista; seu vizinho-apesar do aviso que recebera, resolveu na melhor das boas fés...

-Ent?o é a boa fé dos maridos-commentou a meia voz um padre, que, atrazado nas opera??es gastronomicas, investia com denodo contra um tymbale de pombos, ainda miraculosamente intacto, e acrescentou:-N?o sei de outra, que a exceda.

-Regula por essa a dos amantes ingenuos-acudiu Carlos ao commentario.

-Mas é de menos consequencias-respondeu o outro.

-Silencio, padre Manoel!-bradaram algumas vozes-Vamos lá, Carlos; e depois?

-Depois-proseguiu Carlos-enfeitou-se, perfumou-se, aparamentou-se, frisou-se...

-E tingiu-se; que n?o esque?a-acrescentou do fim da mesa uma voz.

-E tingiu-se; sim-disse Carlos-e feitos todos estes aprestos, caminhou para a entrevista.

-E como se realisava essa entrevista?-perguntou um militar.

-De uma maneira muito singular;-proseguiu Carlos-o conselheiro, todas as noites, depois de pousar na relva o chapéo, a bengala e as luvas, trepava como um eschilo, pela faia que fica junto da varanda e...

-Ora! Impossivel!-exclamaram alguns, rindo.

-Palavra!

-Isso é contra todas as leis da mechanica, aquelle bojo...-principiou a dizer um estudante da Universidade.

-Pelo contrario;-atalhou outro-é exactamente o bojo que o faz subir.

Lembra-te do principio de Archimedes. Os aereostatos...

A quéda do conselheiro seria uma bella experiencia para um curso de physica...

-Divertida...-annotou uma voz.

-Como exemplificando as leis da quéda dos graves... um t?o grave personagem-concluiu o primeiro.

Estes sujeitos guindavam o calembourg ao supremo grau da escala do espirito.

-Ent?o? deixem fallar Carlos; e depois?-disseram alguns curiosos.

Carlos continuou:

-N'aquella noite, porém, estava reservada ao conselheiro a mais triste surpreza; ao entrar na espessura da folhagem, deu de cara com o outro.

-Com o Victor?

-Exactamente, com o Victor. Imaginem agora vocês o soberbo dialogo, que se seguiu ao encontro.

-Devia ser preciosissimo! Que harmonioso certame de rouxinoes!

-O conselheiro principiou talvez por dizer-lhe:

Tytire, tu patul? recubans sub tegmine fagi Formosam resonare doces Amaryllida silvas

-Protesto contra o recubans. A posi??o de Victor era menos commoda.

-Mutatis mutandis, já se sabe.

-ó padre Manoel, dize-nos como a tua latinidade exprimiria a posi??o em que estava o Victor.

-N?o interrogues o padre. N?o vês que elle está, como os antigos agoureiros, consultando as entranhas das aves? respeitemos a solemnidade do acto.

-Mas as consequencias, Carlos, quaes foram as consequencias?

-As consequencias foram as que vocês já sabem, o conselheiro...

N'este ponto, a narra??o de Carlos foi interrompida por o criado da hospedaria, que se aproximou d'elle para lhe entregar a carta.

-Com a sua permiss?o, meus senhores,-disse Carlos, preparando-se para abril-a.

-Bravo!-exclamou o jornalista-temos carta de algum Ecco impaciente.

-E un foglio a me lasció-cantarolou um dilettante, voltando as costas da cadeira para a mesa.

-é a proposta de capitula??o de alguma Troya sitiada-disse o militar.

-Cheira-me a fumo de gambiarra e ribalda; temos intriga de camarim.

-Antevejo ent?o uma descarga de bilhetes de beneficio, a que poucos escaparemos.

Carlos sorria, ao abrir a carta.

-ó Carlos, olha que s?o perigosos para as digest?es os sobresaltos de cora??o-notou o estudante de medicina.

-Socega; é um excitante a que já estou habituado-respondeu Carlos.

De repente tornou-se serio.

-Má nova!-disseram alguns.

-O caso complica-se.

-As exigencias da beneficiada sobem até o acrostico, querem ver?

-N?o é isso; aposto que mais outro conselheiro trepa uma segunda faia, e d'esta vez vinga o collega, na pessoa de Carlos.

Carlos n?o os escutava já. Ergueu-se, aproximou-se do aparador, e escreveu no verso do bilhete, que recebeu, algumas palavras á pressa.

Emquanto fazia isto, os companheiros do festim, fingindo dictar-lhe a resposta, diziam:

-Meu anjo, se no céo...

-V?o nas azas do amor...

-Qual outro Leandro, eu, naufrago...

-Minha Helo?sa; se o infortunio de Abeillard...

-Julieta, quando o rouxinol...

Carlos voltou para a mesa, depois de fechar a carta e de entregal-a ao criado.

Esfor?ava-se por manter nos labios o sorriso; mas o esfor?o era visivel, circumstancia que, como sempre, lhe annullava o effeito.

-Que é isso?-disse o militar, que lhe ficava defronte-respiraste a peste n'essa carta?

-O nosso Manrique terá de correr a salvar a sua Leonora das garras de um conde de Luna?-disse o dilettante.

-Ulysses voltou aos lares domesticos; o que vale por um mandado de despejo aos...

-Um capellista, menos attencioso, insiste pelo prompto pagamento de uma avultada conta de enfeites.

-Um dominó leva a sua ingratid?o até...

-Já v?o numerosas as hypotheses-disse Carlos, enchendo um calix de vinho e procurando conservar ás suas palavras o tom jovial do principio da noite; depois acrescentou:-Este bilhete era para me recordar...

-Ai! recorda??es!...

Te souviens tu, de même, De nos transports brulants...

-Para me recordar que era hoje o dia dos meus annos-concluiu Carlos.

-Devéras!

-é o que eu te digo.

Quan tu m'as dit: ?je t'aime!? J'avais alors vingt ans.

-E estavas calado com isso.

-Se o ignorava! Quando o soubesse a tempo, n?o me teriam aqui.

-Ent?o? Receber-nos-hias em tua casa?

-Tambem n?o. Costumo consagrar estes dias exclusivamente á vida de familia.

-Oh! oh! sentimentalismo!

-Britannico! Pés no fender, punch na mesa, Times na m?o. E de quando em quando um monossyllabo rosnado, ou uma interjei??o, que produz na garganta o effeito do acido prussico. Delicioso!

-Deve ser um céo aberto!

-Mas céo inglez, um pouco turvo de nevoeiros.

-E de carv?o de pedra.

-N?o esquecendo uma paraphrase de algum texto biblico.

-E umas varia??es vocaes sobre motivos do God save.

Carlos sorriu, respondendo:

-Creiam-me, de vez em quando, tem seus prazeres tambem um dia passado assim.

Eu quero acreditar que, dos circumstantes, muitos, se n?o todos, sentiam a verdade do que acabára de dizer Carlos, e tambem possuiam faculdades para apreciar estes intimos gosos de familia; mas envergonhavam-se de fazer t?o claro, e em plena ceia de carnaval, tal confiss?o. Que querem? n?o está em moda trazer o cora??o á vista. é costume tratar, como ridiculas, todas as manifesta??es de sentimento; consideram-se como pequenas fraquezas que com milhares de outras, só se devem confiar na discri??o das quatro paredes do nosso quarto.

Carlos porém n?o sabia dissimular; com verdadeira convic??o e franca ingenuidade, dissera aquellas palavras, que lhe valeram allus?es epigrammaticas ao que elles chamavam ?respeitabilissima tendencia para pae de familias?.

O bilhete, que motivára esta scena e que parecia haver impressionado devéras Carlos, era da irm? e dizia apenas:

?Charles.

é hoje o dia 19 de fevereiro. Fazes vinte annos. Julguei que seria desnecessario pedir-te para nos dares o prazer de te vermos comnosco. O pae esperava-te. Adeus.

Jenny.?

A este pequeno bilhete, Carlos respondeu apenas:

?Jenny.

Confiaste de mais na minha memoria; acredita que me esqueci. N?o me succederia o mesmo de certo, se, em vez do meu, fosse o dia do anniversario de qualquer de vós. Fazes-me a justi?a d'essa supposi??o, n?o é verdade? Agora n?o posso valer-lhe. Obriguei-me a seguir até o fim companheiros t?o doudos como eu; e, quando os deixasse, n?o sei se ainda iria em estado de poder, sem profana??o, sentar-me ao teu lado, á santa e patriarchal mesa de familia. Bem vês que nem vale a pena festejar o dia, em que veio ao mundo mais uma cabe?a leve. ámanh? te pedirei perd?o... Como me lembrei tambem de fazer annos na segunda-feira de entrudo?!

Teu mau irm?o

Charles.?

A final, após algumas explica??es mais, um dos convivas levantou-se e empunhando o calix:

-Meus senhores, proponho que saudemos o anniversario de Carlos-bradou, em tom de brinde.

-Apoiado-responderam todos, imitando-o.

-Carlos-continuou o primeiro-bebo aos teus vinte annos! Contes pelos trezentos e sessenta e cinco dias, que se v?o seguir ao de hoje, as paix?es que fizeres nascer; e possas tu...

-N?o se admittem longos speeches; olá! Bebamos!-disse uma voz.

-é sempre mais expressivo o gole que entra, do que a phrase que sáe-acrescentou outra.

-Até porque, devendo sempre dar-se a primazia ao mais sabio, é o vinho que a merece; pois é elle, n'este momento, o que mais sabe.

-Ora faze-nos o favor de nos poupar, ao menos agora, á difficil digest?o dos teus calembourgs.

-Ent?o? Bebamos!-insistiu o c?ro.

E o brinde foi geral.

Carlos correspondeu constrangido áquella sauda??o. Parecia-lhe estar vendo Jenny a olhal-o com uma express?o de amigavel desgosto; Jenny, a unica a fazer companhia ao velho negociante, que n?o pouco devia ter sentido a ausencia do filho. Durante toda a noite já n?o era para o pobre rapaz dissipar completamente aquella impress?o penosa.

Apoderára-se de Carlos Whitestone um pensamento fixo, um quasi remorso de se ver alli; e este effeito, se n?o lhe distrahia completamente a atten??o dos assumptos, que na sala se tratavam, enfraquecia-lhe a intensidade d'ella a ponto de nem já tomar parte nas discuss?es, nem o occuparem, por muito tempo, as ideias aventadas por os outros.

á placa da camara escura, n?o preparada na officina photographica, é comparavel o pensamento, em occasi?es assim. Lá se gravam ainda as imagens das cousas exteriores, mas, n?o as fixando a atten??o, dissipam-se rapidamente, removidos os objectos que as motivaram.

D'ahi o tom distrahido e indifferente das raras observa??es feitas por Carlos no resto da noite, e a impaciencia de algumas respostas, que foi for?ado a dar.

Entre muita cousa, que se disse na sala, eis o que elle ouviu, sem escutar; a qualquer d'estes assumptos n?o costumava Carlos, nas ordinarias disposi??es de espirito, recusar atten??es, nem esquivar a concorrencia propria.

O jornalista, que ficava ao lado d'elle, interpellou-o pela preoccupa??o em que o viu.

Ora uma observa??o qualquer da parte d'este jornalista tendia fatalmente a degenerar em longa revista litteraria, que era difficil interromper.

-Que tem você, homem? O tal bilhete produziu um effeito quasi apopletico. Coragem! é negocio de cora??o? Alguma loura e nevada miss? hein? Oh! as inglezas! A desassombrada candura do seu suavissimo to flirting!-d'aquelle flartar, como, com tanta raz?o, traduz Garrett, á falta de melhor vocabulo.

E elle ahi principiava:

-Você já leu Garrett, Carlos? Que me diz d'aquellas Viagens, hein?

Oh! é inquestionavelmente o melhor dos seus livros. Prefiro-as ás de

Xavier de Maistre. Que eu n?o participo da admira??o geral por Xavier de

Maistre; é preciso que saiba.

Pausa, durante a qual saboreou um gole de Xerez. Depois de alguma asser??o mais arrojada, a pausa era de rigor.

Carlos, já se sabe, n?o redarguiu. N'este intervallo, p?de ouvir o conviva proximo, que dizia:

-Eu agora o que desejava era ter, pelo menos, trezentos contos de réis; ia d'aqui a Paris; depois...

O jornalista proseguiu:

-Xavier de Maistre inspirou-se de Sterne; é evidente; ficou porém a grande distancia d'elle. A Viagem sentimental, sim. Oh! A Sentimental journey. é um livro delicadamente temperado de uma certa especiaria philosophica, unica que se combina com vantagem á litteratura amena. O humour morreu com Sterne.-Pausa.-A demasiada philosophia gela a inspira??o litteraria. Ahi tem Pope. é frio, é árido, é marmoreo.-Pausa.-Os poetas francezes n?o teem tanta tendencia para se deixarem philosophicar, permitta-me o neologismo. Victor Hugo, ás vezes... Qual prefere você, ó Carlos, Lamartine ou Victor Hugo? Victor Hugo é mais byroniano. E é notavel que fosse Lamartine quem cubi?asse o Childe Harold. For?a de contrastes! Aquelle Childe Harold! aquelle Childe Harold! Que me diz você áquelle Childe Harold? é o unico poema verdadeiramente romantico, que se tem escripto até hoje.-Pausa.-Perd?o-lhe o Poor, paltry slaves! com que nos mimoseia. E note que eu n?o sou admirador cego do Byron.

Nova e maior pausa, durante a qual o orador accendeu um charuto.

Carlos continuava calado.

Percebeu ent?o que n'um grupo vizinho se dizia:

-Quem tem uma bonita parelha é o visconde de Custoias.

-Melhor é a do Manoel Galveias.

E mais adiante:

-Perd?o, menino; mas para mim a synthese n?o é uma mera condensa??o dos factos analyticos; a synthese precede a analyse, e dá a esta a for?a que vae buscar ao mundo interior, isto é, verte n'ella o immutavel, os principios evidentes; Kant...

O jornalista continuava:

-Eu n?o me regulo pela critica convencional. é o meu systema. N?o me resolvo a entoar amen á opini?o dos povos.-Pausa.-Por exemplo, tenho a sinceridade e a coragem de confessar que n?o me fascina Dante.

Grande pausa.

-Padre Manoel-dizia n'esta occasi?o, do fundo da mesa, um dos convivas, apontando para o calix, que levava aos labios-Ecce Deus qui l?tificat juventutem meam.

O padre sorriu, mas n?o disse nada. Comia.

-Porque a final de contas-proseguiu o discursador-você ha de concordar commigo; Dante é um rapsodista quasi como Homero. Que é a Divina Comedia, sen?o o compendio das cren?as religiosas d'aquelle tempo?

Pausa.

-O que ha a respeito da revolu??o carlista em Pamplona?-ouviu Carlos perguntar.

-Nada mais se sabe por emquanto, apenas que est?o implicados alguns sargentos, cabos e paizanos-respondia outra voz.

E continuava a disserta??o litteraria:

-O grande merecimento de Dante é o da fórma. Lá essa qualidade tem elle. Logo os primeiros versos:

Nel mezzo del cammin di nostra vite...

Acho porém dotes superiores em Boccacio.-Ent?o que quer? é um espirito encarnado em corpo de menor vulto, mas... você já leu o Decamaron? Deve ler. é um livro excepcional. Ha n'elle alguma cousa que vae além do seculo, em que foi escripto. E esse é o signal supremo do genio. As imita??es de La Fontaine s?o pallidas. Desengane-se. La Fontaine, a final, era contemporaneo de Luiz XIV. N'aquella c?rte n?o podia existir a verdadeira inspira??o. Abomino a litteratura d'esse tempo. Detesto Luiz XIV e o seu seculo.-Pausa.-Molière salva-se, mas porque? Porque o genero comico tem uma índole especial. N?o é a inspira??o que o regula; é a analyse, é a reflex?o philosophica.

-Eu aposto-berrava um politico-que se os alliados se metterem a dar o assalto a Sebastopol, n?o fica um só vivo.

-Veremos-questionava outro.-Deixa Omer-Pachá occupar a estrada de Sebastopol a Simphirepol e depois fallaremos. Olha que elle já desembarcou na Eupatoria com quarenta mil homens.

O jornalista continuou:

-Ha um unico homem que admiro, em qualidades comicas, mais do que Molière, é Rabelais. Oh! o Rabelais é o meu livro! Ha tres livros que nunca tiro da minha banca de estudo, nem da minha mala de viagem.

-é a Biblia, os Lusiadas e o Paulo e Virginia. Já sei. é o costume-disse emfim Carlos, levantando-se, já impaciente e procurando subtrahir-se á torrente de perguntas, respostas, aprecia??es criticas, cotejos e cita??es, que saíam, em tom categorico, da palavrosa b?ca do vizinho.

-N?o ha tal-respondeu este, porém, tomando-lhe o bra?o e levantando-se igualmente.-Esses s?o a formula dos tres grandes sentimentos da alma-o da religi?o, da patria e do amor;-bem o sei; mas confesso-lhe, o que, por temperamento, mais me seduz é a pintura social e a analyse das paix?es, e só tres homens as fizeram bem: Lesage, Richardson e Rabelais. A crea??o de Pantagruel e Gargantua é famosa!

-Quem dizes tu que tem uma garganta famosa?-exclamou, voltando-se, um dilettante, por traz de cuja cadeira os dois passavam n'aquelle momento..-Fallas de Ponti? Oh! que mulher! Que vocalisa??o! Que sentimento!

-Ahi tornas tu com a Ponti-disse um velho rapaz, pronunciado adversario da prima-donna e um da numerosa seita, que passa metade do anno a suspirar pelo theatro lyrico e outra a dizer systematicamente mal das companhias escripturadas.-és capaz de sustentar que vae bem na Norma. Se ouvissem a Rossi-Cassi...

-A Rossi-Cassi! Oh! por quem és, desalmado! N?o sacudas reputa??es cobertas pelo pó do tempo! Pff! Que poeira! Vive da actualidade.

-Fallar na Rossi com esse enthusiasmo de conhecedor equivale a um assento de baptismo feito pelo menos em 1800.

-Nego-bradou embespinhado o velho rapaz.

-Parce sepultis-disse o padre.

-Lascia la donna in pace-trauteou outro dilettante.

Carlos e o jornalista tinham passado adiante. O jornalista ia já a fallar em librettos de operas, em Felice Romani, em Manzoni, no Ei fu! do Cinque maggio... etc., etc., etc...

Carlos foi retido agora pela m?o de um rapaz, junto do qual tinham chegado.

-Aqui está quem nos póde informar-dizia o que o segurava.-ó Carlos, dize-nos uma cousa: conheces a Laura Viegas?

-N?o-respondeu Carlos, distrahido.

-Conheces por for?a. A filha do Viegas, d'aquelle brazileiro, que comprou a quinta do Pedroso.

-E ent?o?

-Mas conheces? Bem. Que dote achas tu que terá aquella rapariga?

Carlos encolheu os hombros, significando a sua ignorancia e preparava-se já para seguir para diante, quando outro, a quem igualmente preoccupava esta sciencia dos dotes, o segurou por sua vez.

-N?o tem que ver; o Viegas n?o lhe póde dar mais de nove contos.

-Triplique, e n?o lhe faz favor nenhum-disse, do alto da mesa, o padre, conseguindo passar esta nota por meio de uma briga travada entre os mais disparatados assumptos.

-Ora ahi tens!-disseram os disputantes, aceitando o auxilio, como de valia provada.

O padre limpava tranquillamente os bei?os e enchia um calix de malvasia.

-Ent?o diz o padre Manoel que o Viegas...

-O Viegas tem pelo menos...-dizia de lá o padre, elevando o calix entre os olhos e a luz, e revendo-se na limpidez do licor; e antes de completar a phrase, levou-o á b?ca e despejou-o de um trago.

Depois continuou:

-Tem pelo menos ... pelo menos...

Aqui, enxugou os labios e emfim concluiu:

-Sessenta e sete contos de réis.

-Ora!

Carlos passára para o outro lado da mesa, seguido ainda do jornalista, que lhe ía dizendo:

-é a quest?o do dia-O dinheiro-A litteratura resente-se...

E d'aqui passou a fallar de Alexandre Dumas, filho, de Emile Augier, de

Ponsard ... etc., etc...

-Deixa-te d'isso;-dizia no ponto da sala a que os dois chegavam, um rapaz imberbe e ainda em estudos de preparatorios-a Emilia Victorina é outra qualidade de mulher. Ainda hontem, em casa do bar?o de Tavares, me encontrei com ella. Trajava de Maria Stuart. Era uma perfeita rainha, uma mulher distincta, esplendida.

-Foi, foi; já n?o é. Descobriam-se-lhe os primeiros estragos, quando em ti appareciam os primeiros dentes.

-A idade...-dizia outro.

-Ora a idade! a idade! A mulher tem sempre a idade que parece ter.

-Concordo; mas, depois dos quarenta e tantos annos, a mulher parece ter a idade que tem.

-Barbaro! ó Carlos, que dizes tu?

-Digo que sim-respondeu Carlos, que nem attendera á discuss?o.

-Está esta crean?a do Duarte a affirmar que prefere a Emilia Victorina á Marianna Prazeres.

-E prefiro, repito.

-N?o sejas impio. Quem n?o acha admiravel aquella bonita cabe?a da

Marianna?

-E a m?o? Aquella m?o comprida e delgada, onde as veias se desenham em azul; a verdadeira m?o artistica, aristocratica.

-No assumpto ?m?os?, pe?o licen?a para citar a primeira...-das provincias do Norte pelo menos, a da Clementina Rialva-lembrou um individuo, a quem a conversa arrancou a uma quasi modorra.

-Apoiado!-entoaram muitas vozes.

-A proposito da Clementina Rialva-exclamou uma chronica viva de boatos do dia-sabem que o Chico da Lous?, sempre a tira por justi?a?

-Devéras?!

-Asseverou-m'o hontem o Brito, que, como sabem, é todo d'elle.

-Terrivel catastrophe!

-Deixa lá. O Chico o mais que quer é empregar-se. Ora o Rialva, pae, tem influencia e, feitas as pazes do estylo...

-Sim, as pazes sentimentaes dos quintos actos dos dramas.

-Que influencia tem o Rialva?-perguntou, encolhendo os hombros, um mallogrado aspirante á elei??o popular.

-N?o. Está feito! O cunhado é empregado na secretaria do reino...

-E o ministerio deve-lhe servi?os.

-Estás enganado. Foi moda fallar-se ahi muito nos servi?os eleitoraes do Rialva; pois eu digo-vos que elle nem quatro votos arranjou ao Roboredo.

-Como n?o arranjou? ó menino! Pois quem levou lá o Roboredo?

-Quem levou lá o Roboredo, foi...

-Eu te digo, Pires; elle teve em tempo alguma influencia no ministerio, mas depois de um certo emprego na alfandega que pediu para o sobrinho, e que n?o obteve, abandonou a regenera??o...

-Que sobrinho? O que nós em Coimbra chamavamos o gigante Polyphemo? Oh que alarve!

-Sempre foi um homem, que teve a habilidade de concluir o curso, e que nunca se p?de conformar com a existencia dos antipodas. Dizia elle que até lhe fazia mal pensar na posi??o incommoda, em que haviam de viver esses pobres diabos, se existissem...

-E um dia em que elle...

Unisona e estrepitosa gargalhada, partindo de um grupo, que estava já em pé no outro extremo da sala, interrompeu a historia.

Todas as atten??es e todos os olhares convergiram para alli.

Eram quatro os rapazes que riam e riam até lhes caírem as lagrimas dos olhos. Junto d'estes, o quinto mostrava, em certo ar constrangido, poucas disposi??es para expans?o igual.

-é impagavel este homem!-dizia um dos que riam.

-Que foi? que foi?-perguntavam os que n?o faziam parte do grupo, rindo já com anticipa??o tambem.

O dos ares constrangidos respondeu:

-N?o fa?am caso; s?o doudos.

-Que foi? digam-insistiam todos na sala.

-é aqui o Claudio Pires, que fez uma das suas descobertas.

-Eu disse...-tentou este interromper.

-Silencio!-bradaram muitos a um tempo.

-O Claudio!-continuou um dos que mais ria-ouvindo aqui o Louren?o fallar com elogio em um systema de comportas que viu no estrangeiro, observou-nos que havia de se dar bem por lá, porisso que nada se lhe accommoda melhor com o estomago, depois de jantar, do que as comportas.

-Comportas de marmellos, ou assim uma cousa, é o que eu disse.

A justifica??o foi suffocada por um c?ro geral de gargalhadas.

-O barbaro era capaz de roer os diques dos Paizes Baixos e sacrificar a

Hollanda a uma geral inunda??o.

-Que terrivel capricho estomacal!

-Vejam do que está dependente a sorte dos imperios! Esta escapou a

Volney!

E os ditos succediam-se, e cruzavam-se os epigrammas, e a confus?o subia de ponto com isto.

Até que emfim uma voz dominou o tumulto.

-Reparem que s?o onze horas e que é tempo de fazermos a nossa entrada solemne nos bailes de mascaras.

Era o velho rapaz que fallava, e erguendo-se da mesa, exclamou, enchendo o calix:

-ás nossas conquistas d'esta noite!

-Apoiado!-disseram todos, imitando-o.-ás nossas conquistas.

E seguiu-se tal arrastar de cadeiras, que parecia uma tempestade.

Passados alguns minutos, desembocavam do portal da Aguia os joviaes companheiros, depois de um jantar, que durara oito horas.

Os passos de muitos resentiam-se do emprego d'esta ter?a parte do dia.

Um dos convivas, que estivera até alli quasi sempre silencioso, tomou ent?o o bra?o de Carlos e, apoiado n'elle, caminhou, com movimentos mal seguros, por o largo da Batalha, dizendo em tom confidencial e quasi commovido, estas palavras, que ia entremeiando com prolongadas aspira??es no tubo do volumoso cachimbo.

-Carlos, tu és meu amigo; talvez o único amigo que eu tenho... Por isso vou confiar de ti a ultima das impress?es que eu revelei em verso... Eu gósto de fallar d'isto só com quem me entenda. Os poetas precisam de um cora??o para ecco. Almas de sensitiva...

Apesar da intimidade, em que ia feita a confidencia, muitos dos que a ouviram acercaram-se d'elle, porque tinha certa nomeada o engenho poetico e improvisador do que fallava assim.

Alguns porém já tinham travado conhecimento com varias mascaras desgarradas, que encontravam caminho do theatro. Dois seguiam cantando a plenos pulm?es o duetto da Lucia:

O' sole più rapido a sorger t'apresta

O poeta confidencial principiou a recitar com certo enthusiasmo quasi selvagem, o seguinte hymno ao tabaco, o qual, devemos confessar, n?o era muito para produzir ecco nos cora??es:

No centro dos circulos

De nuvens de fumo,

Um deus me presumo,

Um deus sobre o altar!

Nem d'outros thuribulos

Me apraz tanto o incenso,

Como o d'este immenso

Cachimbo exemplar!

Em divans esplendidos,

Cruzadas as pernas,

Fuma, horas eternas,

O ardente Sult?o.

Subindo-lhe ao cerebro

O magico aroma,

Esquece Mafoma,

Houris e Alcor?o.

Longe, oh! longe o opio,

Que os sonhos deleita

Da misera seita

Dos Theriakis!

Horror ao narcotico

Que vem das papoulas!

E ao que arde em ca?oulas,

No altar do Caciz!

Que a ra?a gentilica

Das zonas ardentes

Consuma as sementes

Do arabio café.

Despejem-se as chavenas

Da atroz beberagem

Da c?r do selvagem

Da adusta Guiné.

E a tal folha exotica,

Delicias da China,

Por nossa má sina

Trazida de lá,

Servida em familia,

N'um morno hydro-ínfuso?...

Anathema ao uso

Das folhas do chá!

Nem tu, ó alcoolico

Humor dos lagares,

Terás meus cantares,

Meus hymnos terás.

Embora das amphoras

Vasado nas ta?as,

Aos outros tu fa?as

A lingua loquaz.

Cerveja britannica,

De furor espuma!

De cousa nenhuma

Me podes servir.

Quando ou?o do lupulo

Gabarem proezas,

ás b?cas inglezas,

Desato-me a rir.

Nem venha da camphora

Prégar maravilhas

O das cigarrilhas

Famoso inventor.

Raspail é scismatico

E eu sou orthodoxo,

O seu paradoxo

N?o me ha de elle imp?r.

Meu canto é da America,

Paiz do tabaco,

Perante o qual Baccho

Seu sceptro partiu.

A Europa, Asia, e Africa

E a terra hoje toda

Este heroe da moda

De fumo cobriu.

Até na Laponia,

Da gente pequena,

Se fuma; e no Sena,

No Tibre e no Pó,

No Volga e no Vistula,

No Tejo e no Douro;

Que immenso thesouro

Se deve a Nicot!

Meus áridos labios

Mais fumo inda aspirem

Que os parvos suspirem

Por beijos, aos mil.

N?o quero outros osculos,

N?o quero outra amante.

Qual mais doudejante

Que o fumo subtil?

Tornadas Vesuvios,

As b?cas fumegam.

De nuvens que cegam

Vomitam mont?es.

Fumar! Oh delicias!

Prazer de Nababo!

E leve o diabo

Do mundo as paix?es!

-Bravo!-disseram quantos o escutavam, devéras enthusiasmados com a musa do recitador.

O proprio Carlos sorriu, menos preoccupado já. Principiava a dissipar-se-lhe a nuvem.

-Quem compra uma senha?!

-S. Jo?o! quem quer?

-Doze vintens, meus amos, doze vintens.

Com estes analogos preg?es caiu um bando de negociantes de senhas sobre os recem-chegados da Aguia, que trataram de obter bilhetes da melhor maneira possivel. Cêdo entravam no sal?o do theatro, onde já centenares de pessoas morriam de calor, de asphyxia e de tédio; e eram trilhadas, apertadas, esmagadas quasi, aos encontr?es dos mascaras, arrebatados n'um galope vertiginoso.

O leitor, que todos os annos costuma saturar-se de fastio alli tambem, com boa vontade me dispensará de o constranger a repetir mais outra vez a opera??o, recordando essas horas de insipidez, a que se sujeita, sob pretexto de gosar o carnaval no Porto, e para fazer o que todos fazem;-uma das mais poderosas raz?es dos nossos actos na vida.

Pedindo venia por tanto tempo o haver demorado, em divers?o fóra dos seus habitos, provavelmente mais pacificos-o que fiz só por a necessidade que tinha de mostrar em ac??o o caracter do nosso heroe e exemplificar o seu systema de vida e sua companhia habitual-concordo em que nos retiremos e vamos a scenas menos agitadas do que estas, que nem consolam, nem divertem.

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