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Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto
img img Uma família ingleza: Scenas da vida do Porto img Chapter 10 NO ESCRIPTORIO

Chapter 10 NO ESCRIPTORIO

Na velha sala de paredes cinzentas e de soalho carcomido pelo caruncho, onde Mr. Richard Whitestone tinha o escriptorio, havia vinte annos que escrevia, addicionava, subtrahia, multiplicava, e dividia algarismos, e isto tudo resmoneando, cantarolando e tossindo, o snr. Manoel Quentino, personagem da idade do seu seculo, primeiro guarda-livros da casa, e homem de habitos de vida, t?o beneficiadores da saude do corpo, como mantenedores da serenidade do espirito.

Manoel Quentino era a alma d'aquelle recinto. Na confus?o de papeis, com que lidava, taes como:-correspondencias, facturas, contas correntes, contas de venda, conhecimentos, primeiras, segundas e terceiras vias de letras, minutas de seguros, recibos e mais documentos commerciaes, elle só, habituado desde muitos annos áquillo, podia descobrir uma disposi??o ordenada.

D'isto mesmo se gabava; o que n?o se devia taxar de presump??o da sua parte.

Pedissem-lhe de repente a mais insignificante carta, que elle, sem hesitar, iria dar com ella. Era porém seu o segredo d'esta singular classifica??o, que dera ás cousas; para o proprio Mr. Richard, antolhava-se um dédalo o escriptorio, dédalo onde, ao querer orientar-se, n?o dispensava nunca o fio conductor das explica??es do guarda-livros.

Homem de habitos regulares, a mais n?o poder ser, invariavelmente ao soarem as sete horas da manh? no ver?o, e as oito, no inverno, estava Manoel Quentino movendo a chave na porta do escriptorio; e meia hora depois, sentado já á banca, todo entregue ao trabalho da escripta. ás tres da tarde, no inverno, e ás quatro, no ver?o, movia segunda vez a chave, mas em sentido contrario; exceptuando uma ou outra occasi?o extraordinaria, em que a affluencia de servi?o o obrigava a ser?es.

N?o era Manoel Quentino d'estes guarda-livros de m?o rapida, e de prompto expediente, que n'um momento d?o solu??o a muitos negocios juntos. Elle tudo queria feito com tempo, e, como a cada momento dizia: ?para pressas é que n?o era?; gra?as, porém, á paciencia e á regularidade de trabalho, que n?o perdia nunca, insensivelmente o servi?o adiantava-se-lhe nas m?os e difficil seria acharem-o atrazado alguma vez.

Observava pontualmente o judicioso preceito: festina lente, e comprovava, com o exemplo, a efficacia d'elle.

Queria Manoel Quentino immensamente áquelle escriptorio, tal qual se achava, assim mesmo desataviado e nú. Por vezes, Mr. Richard, e principalmente Carlos, haviam procurado realisar n'elle certos melhoramentos, que o fizessem mais commodo; tiveram porém de recuar diante das repugnancias do velho guarda-livros, que declarou affligir-se devéras com isso; e, como era elle a parte mais interessada no caso, visto que alli passava grande parte da vida, foi-lhe facil vencer.

Em resultado d'isso, continuava a deliciar-se com aquellas quatro paredes escuras, com o tecto de castanho apainelado, que o tempo ennegrecera, com o ch?o aspero e picado pelos insectos, com as janellas de construc??o antiga, de pequenos caixilhos, e abundantes em fechos, aldrabas e postigos, com a porta de fortaleza, cujos gonzos perros tinham um chiar, que era para Manoel Quentino como o timbre de uma voz de amigo, agradavel ainda quanto pouco harmoniosa, com as escrivaninhas, os mochos, os cabides, o lavatorio e toda a mobilia emfim, feita segundo os velhos modelos dos escriptorios antigos.

Eram aquellas as testimunhas do encanecimento dos seus cabellos; como taes as amava.

Além de Manoel Quentino, compunha-se o pessoal do escriptorio de dois segundos caixeiros e um rapaz de servi?o, a todos os quaes o guarda-livros accusava constantemente de mandri?es e ao mesmo tempo quasi os impedia de trabalhar, pela excessiva disposi??o que tinha para fazer tudo por suas m?os.

Momentos antes de Carlos chegar, Manoel Quentino havia dado aos escripturarios duas cartas insignificantes a copiar e entregára-se elle, com todos os seus cinco sentidos, á redac??o da correspondencia para Londres.

Dos escripturarios, um, tendo terminado a sua facil tarefa, aproveitou-se da distrac??o de Manoel Quentino, tirou ás escondidas da escrivaninha um romance de Paulo de Kock e p?z-se a lel-o, com a s?frega curiosidade dos dezesete annos; o outro occupou o tempo a escrever uma carta de amores á dama dos seus pensamentos, carta em que, por incidente, foram inclusas algumas allus?es epigrammaticas ao guarda-livros, a quem entre outras cousas se chamava ?Argos desapiedado?; o rapaz de servi?o, deixado tambem em disponibilidade, entretinha-se a perseguir as moscas da vidra?a ou a tra?ar com o dedo lettras maiusculas nos vidros, que humedecia com o bafo. Qualquer d'estas tres occupa??es, sendo pouco ruidosa, mantinha-se no escriptorio um silencio, que agradava a Manoel Quentino.

Elle era o unico a interrompel-o, gra?as ao singular monologo, que estava de contínuo murmurando á penna com que escrevia.

Dava-se effectivamente em Manoel Quentino uma illus?o singular.

á for?a de lidar com a penna, á for?a de t?o indissoluvelmente a ver associada ao seu destino, o velho guarda-livros acabára por julgal-a quasi dotada de certa intelligencia e fallava-lhe, animando-a, reprehendendo-a, sopeando-lhe os impetos, como a caprichoso corcel que se pretende guiar.

-Anda, anda,-dizia elle-que ronceira que estás hoje! Olha que n?o temos esse tempo, que julgas... Ent?o?... Que é isso agora?... Pois já queres mais tinta? Depressa gastaste a que bebeste! Vá, avia-te... Bonito R! Isso n?o esperava eu de ti!... Adeus! Agora mais este cabello!... E sujas-me todo!... Trapalhona!... Ai, que impertinente que estás!... Adiante! adiante! adiante!... Espera, espera... Lá te esqueceu um D!... E agora?... Agora vê se te mexes entre essas duas lettras... Assim... Ah! ... n?o toques nos SS ... assim... Bem... Continúa, mas com tento... Ent?o! N?o querem ver que páras outra vez? Ora isto é demais!... Deixa estar que... Oh!

Era um borr?o, que lhe caía no meio da pagina e lhe inutilisava a correspondencia quasi no seu termo.

?Trai la rai, la rai, larai lai

Trai, larai, larai, lar?o, l?o

Trai larai lai, larai larai lai,

Trai lari, lari, lari, lar?o l?o.

Trai lari, lari, lari, lar?o l?o.?

Isto era a trautear o hymno da Carta, cousa que elle fazia sempre n'estas occasi?es criticas. E sem mais alguma observa??o p?z a folha suja de lado, preparou outra e encetou nova correspondencia, n?o sem primeiro substituir a penna, dizendo-lhe ao deixal-a:

-Descansa. Hoje n?o estás nos teus dias. Vem cá tu-dizia para outra.-Vê lá como te portas!

E, olhando fixo para ella:

-Umh! N?o tens lá muito boa cara! n?o... Ora vamos a ver... Vá,

despacha-te, que tenho mais que fazer!... Abre os bicos... abre...

Assim... bem! Sim, senhora!... Bravo... Ninguem havia de dizer que tu...

Caspite!...

E com estas palavras de anima??o ia applaudindo o bom servi?o da penna e quasi lhe parecia vel-a trabalhar com mais ardor, assim estimulada.

Foi n'este momento que um valente encontr?o abriu a porta do escriptorio, e o terra-nova, precedendo Carlos Whitestone, invadiu o até alli silencioso e tranquillo recinto, principiando logo por entornar a infusa com agua, collocada a um dos cantos da sala.

Manoel Quentino, que estremecera com a subita appari??o do quadrupede, ao ver o estrago que a sua impetuosidade produzira, p?z-se a olhar silencioso para elle e em seguida para a porta, como se contasse com mais alguma invas?o, n?o menos revolucionaria do que esta.

Effectivamente Carlos n?o se fez esperar.

-Good Morning, Mr. Manoel Quentino!-bradou Carlos do limiar, fazendo para o guarda-livros uma reverencia muito rasgada.

-Good Morning, Mr. Charles-respondeu Manoel Quentino, encolhendo os hombros e dando ás fei??es um ar de paciente resigna??o, uma especie de bondoso mau humor.

Cumpre advertir aqui que Manoel Quentino fallava o inglez, gra?as á sua longa convivencia com os Her Majesty's subjects residentes na nossa cidade; mas o inglez de Manoel Quentino era, até certo ponto, como o portuguez do patr?o. Causava especial sensa??o ouvil-o pronunciar todas as palavras inglezas n'um tom, inflex?o e maneiras, do cunho mais genuinamente portuguez. Podia dizer-se que Manoel Quentino fallava portuguez em inglez.

-Ditosos olhos que o vêem!-disse elle a Carlos; e depois para o rapaz do escriptorio:-Olha aquella agua que se entornou...-e para Carlos outra vez com gesto velhaco:-Ent?o esteve doente?

-Eu? Tenho gosado a mais florescente saude do mundo-respondeu Carlos.

-Como n?o tem apparecido!-Anda, avia-te rapaz!

-Tenho-lhe talvez feito aqui muita falta?

-Umh!-resmungou Manoel Quentino.

Os caixeiros, que com a entrada de Carlos haviam escondido, um o romance, outro o modelo epistolar, sorriram entre-olhando-se.

-E você como tem passado por aqui sem mim, minha flor?-perguntou Carlos, mexendo-lhe nos papeis-Cada vez mais bonito, cada vez mais contente.

-Adeus, adeus. N?o bula ahi, homem! Que é o que quer? que é o que quer?

-Lumes. N?o ha lumes n'esta casa? que diabo!...

-Eu logo vi. N?o pensa sen?o em fumar. Espere lá, espere lá. N?o me desarranje isso. Eu dou-lhe lumes, eu dou. Ora ahi tem. E deixe-me.

Carlos accendeu um charuto e offereceu outro a cada um dos caixeiros, que os afagaram com olhares ávidos, mas sem se atreverem a aceital-os.

-Fumem-insistia Carlos.

Manoel Quentino levantou os olhos e fixou-os nos dois rapazes.

Sob a influencia d'aquelle olhar, hesitaram ainda.

Carlos obrigou-os porém a aceitar, offereceu-lhes lume para accenderem, e emquanto o faziam, voltou-se para Manoel Quentino, e vendo a cara de contrariado com que ficava, aproximou-se d'elle:

-Que tem você, Manoel Quentino? Deixe fumar os rapazes. N?o seja fossil.

-Se o pae vier por ahi, cuida que ha de gostar de... E demais a mais, é distrahil-os do servi?o...

-Que servi?o? Olhem o grande servi?o que elles faziam!-Rapaz-acrescentou logo depois, dirigindo-se ao perseguidor das moscas da janella-vae á rua de Santo Antonio saber se aquelle meu casaco está prompto... e chega de caminho ao theatro de S. Jo?o, pergunta pelo bilheteiro e dize-lhe que vaes de meu mando tomar seis cadeiras para a recita de quinta-feira... entendes? Seis cadeiras; depois...

-E faz favor de me dizer quando é que elle ha de levar a correspondencia ao correio?-perguntou com mau humor Manoel Quentino.

-Eu sei lá d'isso? Anda, vae...

-Mas...

-Ora! mande ao correio quem quizer... Avia-te. Salta.

O rapaz saíu a correr.

Manoel Quentino encolheu os hombros.

Carlos dirigiu-se á janella, que abriu de par em par. Uma rajada de vento, entrando na sala, fez esvoa?ar toda a papelada da banca de Manoel Quentino.

-Lá vae! lá vae! lá vae tudo com os diabos!-exclamou o guarda-livros-Adeus, minha vida; estou arranjado!

Carlos desatou a rir.

-Isso; ria-se, que tem muita gra?a! Ent?o os senhores que fazem?-perguntou, descarregando as iras sobre os caixeiros-Ponham-se á palestra e a fumar, e eu que trabalhe; hein?

-Deixe estar que eu apanho isso-disse Carlos, continuando a rir.

E todos quatro principiaram a apanhar os papeis, dispersos por a sala.

-V?o lá saber agora...-proseguiu Manoel Quentino-v?o lá saber agora a ordem em que eu tinha tudo isto! Olhem... olhem... Ficou bonita a carta do correspondente de Liverpool! Sim, senhores! Olhem para estas contas da gerencia da capella ingleza! Tambem ficaram asseiadas! Pois estas apolices... E o maldito c?o a afocinhar-me na agua aquella minuta!... Passa fóra! Eh!... passa fóra, tratante.

E voltando á escrivaninha p?z-se a coordenar outra vez os papeis.

-ó Manoel Quentino-perguntou-lhe Carlos já da janella-quem é aquella rapariga que está aqui defronte no terceiro andar? Aquella cara é nova para mim.

-Eu sei lá d'isso, homem? Tomára que me deixassem.

-Quem é, ó Paulo, você ha de saber. Um rapaz da sua idade...-disse

Carlos, dirigindo-se familiarmente a um dos caixeiros.

Era este um rapaz ainda imberbe, pallido, com certo fundo de melancolia, transparecendo por debaixo do jovial sorriso, proprio dos seus, ainda incompletos, dezoito annos.

á pergunta de Carlos, aproximou-se da janella.

-N?o sei-disse depois de ver a pessoa designada-n?o a conhe?o. O

Pires ha de saber.

Pires era o nome do outro caixeiro, que por sua vez foi chamado.

E todos tres, em resultado d'esta conferencia, ficaram encostados á varanda, praticando em varios assumptos de igual momento.

Manoel Quentino, que já tinha posto por ordem os papeis, olhava de quando em quando para a janella e principiava:

Trai la rai...

trauteava o hymno da Carta.

O vento, depois de prejudicar a papelada do guarda-livros, dirigiu os seus furores contra a pituitaria do mesmo; Manoel Quentino come?ou a espirrar.

-Deus me salve!-dizia elle de cada vez.

á quinta n?o teve m?o em si, que n?o dissesse a Carlos:

-O' snr. Carlos! Ora a fallar a verdade, homem! Isso sempre é um gosto exquisito! Ahi posto á janella com este vento dos diabos! Eu já estou...-e espirrava outra vez-já estou constipado.

-N'esse caso recolho-me-disse Carlos, fechando a janella e vindo debru?ar-se na escrivaninha de Manoel Quentino, o qual come?ára de novo a correspondencia.

-Sim, senhor, snr. Manoel Quentino;-dizia Carlos expellindo uma

baforada de fumo, á qual o velho fez caretas-você será parente de

Quentino Durward, de que falla o Walter Scott? Você sabe quem era o

Walter Scott, Manoel Quentino?

-Eu n?o, senhor...-respondeu o velho, continuando a escrever.

-Walter Scott era um romancista. Sabe o que é ser romancista? Diga-me, já leu algum romance?

-N?o, senhor, que tenho mais que fazer.

-Pois deixe estar que lhe hei de emprestar romances para ler...

-Muito agradecido.

-O primeiro ha de ser O Cavalheiro de...

Os dois caixeiros fungaram do outro lado da sala.

-De Harmental-concluiu maliciosamente Carlos-e acrescentou:-N?o sei de que se riem estes senhores.

-é porque teem a vida muito canceirosa-respondeu Manoel Quentino.

-Depois hei de emprestar-lhe a Mademoiselle...

O mesmo effeito nos caixeiros.

-Mademoiselle de La Seiglière-delicada concep??o de Jules Sandeau-concluiu Carlos, olhando-os com gravidade comica.

-Adeus, já me fez enganar!-exclamou Manoel Quentino-Por sua causa escrevi agora-cavalheiro-em vez de-Companhia.

-Isso emenda-se.

-Ha de emendar boas cousas.

-Emenda, sim. Olhe d'esse a faz-se bem um o; depois o m fórma-se do v e do...

-O remedio é outro...

E com exemplar paciencia come?ou nova carta.

-Oh! com os diabos! Ent?o vae outra vez principiar?

-é o que o senhor faz.

-O caso é que você tem bonita lettra! Invejo-lh'a. Se me ensinasse a escrever assim!

-N?o precisa.

E, para fixar a atten??o, ia dizendo em voz alta o que escrevia:

-Recebi o seu favor de 14 do corrente e em resposta...

-N?o preciso? Preciso tal-proseguiu Carlos-rapariga a quem eu escreva...

-Do nosso ajuste-dizia Manoel Quentino, e fallando para Carlos alternadamente:-Elle ahi vem com as raparigas; o que eu lhe queria eram os cuidados!...-O pre?o do genero...

-Ent?o parece-lhe indigno o assumpto? Ora diga, Manoel Quentino, diga se, quando era rapaz, n?o massava tambem com o tal assumpto os velhos do seu tempo.

-E a competente commiss?o.-N?o que eu, quando era rapaz, já tinha mais em que cuidar...-Em vista pois das ordens recebidas...-Cuida que me levantava ao meio dia para pensar em mo?as, e que me deitava lá por altas horas, inda por causa d'ellas?

-Ent?o que fazia você?-insistia Carlos, tomando a penna e desenhando uma figura na margem do jornal do dia.

-Com lucros provaveis...-O que eu fazia bem o sei; ainda me n?o esqueceram as madrugadas dos meus vinte annos...

-Ah! madrugadas!... Bem entendo!...

-Para trabalhar, para trabalhar! Está muito enganado, se cuida que todos tiveram a sua vida. Bom era isso!-A fallencia da casa Rodrigues e...

-Grande vida a minha!-continuava Carlos-Ha lá nada mais semsabor?

Veja que precioso tempo perdido n'esta soturna sala.

E ao dizer isto ia, insensivelmente, sem reparar no que fazia, aproximando a penna da borda da carta, que Manoel Quentino escrevia, e quasi principiava a desenhar algum ornato n'ella.

-Oh! oh!-exclamou o velho, arredando-lhe a m?o-Que ia fazer? Se lhe parece, suje-me agora a carta.

Carlos ergueu-se rindo e p?z-se a passeiar na sala.

-O pae inda n?o veio hoje aqui?

-Ha que tempos!

-E n?o volta?

-Ha de voltar, se Deus quizer.-é preciso fechar isto mais cêdo hoje-continuou Carlos.-Estes senhores precisam de gosar o carnaval.

-Bom carnaval é o d'este mundo!

-Que horas s?o?

-Duas e vinte minutos-Respondeu Manoel Quentino, sem olhar para o relogio e n?o errando meio minuto.

-Se meu pae...-principiava a dizer Carlos, mas foi interrompido pelo ranger das botas de Mr. Richard, que se ouviu nas escadas.

Restabeleceu-se a ordem no escriptorio.

Os caixeiros pozeram-se a escrever, e o proprio Carlos pegou em uma folha ingleza e fez que a examinava na sec??o commercial.

Manoel Quentino curvou-se ainda mais sobre a banca e moveu com maior agilidade a penna sobre o papel paquete, em que estava escrevendo.

Mr. Richard entrou no escriptorio com o rosto jovial e assobiando uma das suas predilectas toadas inglezas; mas, gra?as ao duro ouvido musical de que era dotado o velho gentleman, t?o transtornada lhe saía ella, que o proprio auctor lhe custaria de certo a reconhecel-a.

O Butterfly, com a leveza, que justificava o nome de lepidoptero, que lhe tinham posto, atravessou a sala e foi cumprimentar o seu companheiro terra-nova, o qual, sentado, com a lingua de fóra, o recebeu com benevola, mas sisuda, magestade.

Todos se ergueram á entrada de Mr. Richard, em cujo rosto um olhar, exercitado em estudal-o, facilmente descobriria certa express?o de contentamento, despertada pela vista do filho, o qual, elle, n'aquelle dia, estava bem longe de esperar alli.

O plano de Jenny sortira bom effeito.

Mr. Richard dirigiu-se immediatamente ao seu gabinete particular. Carlos foi ter com elle, para lhe pedir a ben??o e ao mesmo tempo aproveitou a occasi?o para lhe agradecer o relogio e para desculpar-se de n?o ter assistido na vespera ao jantar de familia.

Mr. Richard Whitestone já n?o tinha cousa alguma no cora??o contra o filho. A vinda d'este ao escriptorio fora bastante para dissipar a menor sombra de resentimento.

-N?o teve duvida-repetia elle muitas vezes, interrompendo a longa justifica??o de Carlos-n?o teve duvida, n?o teve duvida... Pois... esse relogio é de um fabricante muito acreditado, e, segundo o homem affirma aos compradores, n?o fará differen?a de meio minuto em cinco annos! Talvez seja confian?a de mais!-acrescentou, rindo com vontade.

-Ou cegueira paternal-observou Carlos, rindo como elle.

-Sim, sim, ou isso, cegueira paternal, sim-concordou Mr. Richard, rindo cada vez mais e experimentando elle mesmo tambem os effeitos da tal cegueira.

E em seguida destapou duas garrafas de cerveja de Bass, tirou do armario uma copiosa provis?o de bolacha e, na companhia do filho, celebrou a sua terceira refei??o d'aquella manh?.

Passados minutos, voltaram ambos ao escriptorio nas melhores disposi??es d'este mundo.

Se Jenny os podesse ver ent?o, como exultaria de contentamento!

Mr. Richard encaminhou-se para a escrivaninha de Manoel Quentino, Carlos sentou-se na escrivaninha opposta, e fingiu examinar os livros commerciaes.

Mr. Richard dirigiu varias perguntas ao guarda-livros, sobre alguns negocios pendentes, ás quaes Manoel Quentino deu respostas laconicas, mas peremptorias.

O inglez consultou depois algumas cartas, entregou outras ao guarda-livros, tomou notas, expediu ordens, examinou a escriptura??o, abriu o copiador e, de repente, voltando as costas a Manoel Quentino e dirigindo-se a Carlos:

-Já leste a carta do nosso correspondente em Londres?-perguntou com affabilidade.

-Ainda n?o, senhor.

-Manoel Quentino! Ent?o porque lh'a n?o mostrou?!-disse o pae, voltando-se outra vez para o guarda-livros; e depois acrescentou de novo para Carlos:-Ha noticias importantes e que fazem prever a probabilidade de ser este um anno de vantajosas transac??es, se por acaso...

-é um homem diligente, Mr. Leeson-notou Carlos, querendo dizer alguma cousa, mas com tanta infelicidade, que trocou o nome do correspondente de Londres pelo do de Liverpool.

-Ho!-disse logo Mr. Richard, mortificado-Leeson!... de Londres!

Repara!... de Londres!?

Carlos conheceu que tinha sido inconveniente a observa??o, mas o peior era que n?o sabia corrigil-a, pois que de todo lhe esquecera o nome do tal correspondente.

-Ai, de Londres...-dizia elle embara?ado.-Eu julguei que... sim, de

Londres; é que me pareceu...

Mr. Richard esperava ouvir o verdadeiro nome, pronunciado por o filho; mas n?o succedeu assim.

Manoel Quentino, que tinha bem fundados motivos-motivos, que o leitor deve prever quaes fossem-para n?o julgar de instante necessidade p?r Carlos Whitestone ao corrente das noticias commerciaes, abriu comtudo a escrivaninha e, procurando a carta em quest?o, levou-a a Carlos, n?o podendo disfar?ar um sorriso, ao qual este correspondeu com ligeiro movimento de hombros.

Carlos, em vez de citar o nome do correspondente, p?z-se portanto a examinar a carta.

-Falle-lhe n'aquelle negocio da aguardente-disse Manoel Quentino quasi ao ouvido de Carlos, antes de se retirar outra vez para a banca onde escrevia.

Mr. Richard pozera-se a passeiar na sala, esfregando as m?os, e de quando em quando parava junto da vidra?a, onde tocava um ligeiro rufo. N?o estava ainda de todo restabelecido da má impress?o que lhe causára o haver encontrado o filho t?o pouco sciente do nome dos correspondentes da casa.

Carlos ficou a olhar para a carta commercial, mas julgo que nem a lia.

Estava pensando como havia de aproveitar o conselho, pouco explicito, de

Manoel Quentino e fallar ao pae no tal problematico negocio da

aguardente, para elle inteiramente mysterioso.

Temia, referindo-se-lhe aventuradamente, aggravar as difficuldades da sua posi??o, longe de diminuil-as.

Manoel Quentino continuava a escrever, lan?ando para Carlos, ao molhar da penna, um sorriso malicioso.

Este pousou a carta.

O pae olhava-o obliquamente, como a esperar alguma reflex?o.

Carlos fitou ainda Manoel Quentino, o qual lhe fez um imperceptivel signal.

Carlos aventurou-se:

-Emquanto ao negocio da aguardente...-disse elle com certa hesita??o-nada...

O effeito foi maravilhoso!

Mr. Whitestone voltou-se com viveza e, sem disfar?ar a intima satisfa??o, que lhe causava ver o filho t?o bem informado, exclamou:

-Ah! tambem reparaste? Foi o que logo me deu que entender. Cuidei que nem estavas ao facto!

Carlos, animado com o resultado, proseguiu com mais coragem:

-Como era negocio de vulto...

Manoel Quentino fez porém uma carêta, que o levou a corrigir.

-Isto é... de vulto n?o digo... mas...

-Mas que podia bem vir a sel-o para o futuro ... é assim-atalhou Mr.

Richard.

-Exactamente-concordou o filho.

Manoel Quentino sorria.

-Mas já estive a pensar-proseguiu Mr. Richard-talvez influissem n'isto as condi??es do mercado em Londres. Subiria o genero a ponto de exceder o maximo indicado nas nossas cartas.

-Póde ser, mas...-dizia Carlos, olhando para Manoel Quentino, á espera de receber inspira??es d'alli.

Este affei?oou os labios como para pronunciar uma palavra, que a Carlos pareceu dever ser ?juro?. Por isso abalan?ou-se outra vez a dizer:

-E tambem o juro...

Parou, porque devéras n?o sabia o que devesse dizer do juro, nem se era natural imaginar que tivesse subido ou descido.

Manoel Quentino moveu a cabe?a em direc??o do tecto, exprimindo mimicamente a primeira hypothese.

-Talvez o juro subisse-concluiu, em vista d'isto, Carlos Whitestone.

Mr. Richard aproveitou a insinua??o do filho, e evidentemente satisfeito notou com vivacidade:

-Effectivamente o juro está muito alto em Londres.

-Ha muito tempo que o n?o tivemos t?o desfavoravel-apressou-se Carlos em dizer, d'esta vez sem hesitar, visto que dava apenas nova fórma á mesma ideia.

-é verdade que n?o. Creio até que ainda n'estes ultimos dez annos n?o subiu tanto, como agora.

Carlos percebeu em Manoel Quentino um movimento de desapprova??o, que o animou a dizer:

-Isso é que n?o sei; dez annos será demais, comtudo...

-Olha que n?o é demais-insistiu Mr. Richard, devéras admirado das informa??es do filho; e, depois de meditar algum tempo, continuou, voltando-se para o guarda-livros:-Em que anno teve logar aquella quebra da casa Blackfield de Londres, Manoel Quentino?

-Em outubro de 1847-respondeu este, sem levantar os olhos da escripta.

-Em 47?-Ai, ent?o tens raz?o, tens; 47 a 55... 8... é isso... Porque eu lembro-me de que estava ent?o o juro a 8 por cento.

-E d'essa vez-acrescentou Manoel Quentino-o cambio era-nos mais desfavoravel que hoje.

-é isso, é isso.

Esta conversa prolongou-se por algum tempo com visivel satisfa??o de Mr. Richard, com bastante difficuldade para Carlos e com superior diplomacia do bondoso Manoel Quentino, que estava sendo collaborador de Jenny, na obra de pacifica??o domestica, encetada por ella.

Ouviram-se emfim tres horas na torre de S. Francisco, e Mr. Richard, depois de ultimo exame aos livros e algumas recommenda??es mais, saíu do escriptorio, dando as boas tardes a Manoel Quentino, fazendo a Carlos um signal de despedida, menos sêcco do que de ordinario, e, o que mais era, afagando na passagem o terra-nova, cousa que n?o praticava, sen?o em occasi?es de grande harmonia com o filho.

Ainda mal se tinha perdido nas escadas o som dos passos de Mr. Richard e o dos latidos de contentamento do Butterfly, impaciente de liberdade, já a carta do correspondente de Londres, descrevendo uma parabola, vinha caír na escrivaninha ao lado de Manoel Quentino, e Carlos accendia novo charuto e dispunha-se a seguir o exemplo paterno.

-Até que soou a hora da redemp??o!-exclamou elle, pondo o chapéo na cabe?a.

-Ent?o já se vae embora?-disse Manoel Quentino, maliciosamente.

-E acha você que n?o tomei dóse bastante de commercio esta manh?? Isto em pleno carnaval? Que impiedade!

-Eh! eh! eh! E que me diz do tal negocio da aguardente? Ent?o com que, está alto o juro, hein? Eh! eh! eh!

-Vi-me devéras embara?ado com a tal aguardente!

-Mas saíu-se bem.

-Agrade?o-lhe o auxilio.

-Quer mandar dizer alguma cousa ao correspondente a tal respeito?

-Que vá para o diabo! N?o me p?de occorrer o arrevezado nome d'esse maldito. Como se chama elle?

-Ent?o n?o sabe ainda? Woodfall Hope... Uma das primeiras firmas commerciaes de Londres; e n'este negocio da aguardente...

-N?o, isso mais devagar, Manoel Quentino-atalhou Carlos-n?o lhe aturo nem mais uma palavra a respeito do tal negocio da aguardente. Boas tardes. Adeus, meus senhores. Deixem isso e v?o ver as mascaras. Adeus.

-Farewell! Mr. Charles... Eh! eh! eh!...

Dentro em pouco, ouvia-se o descer apressado de Carlos, e a pancada violenta da meia cancella do portal impellida de encontro ao batente.

O escriptorio voltou ao primeiro silencio. A Pra?a estava quasi deserta. Como era ter?a-feira de carnaval, terminára mais cêdo a azafama do commercio. Os caixeiros bocejavam e o chiar da penna de Manoel Quentino augmentavam o effeito somnifero do logar.

De repente porém foi mais ruidosamente interrompido o silencio por o

?Trai larai, larai, larai, lai? do guarda-livros.

O bom homem, revendo o trabalho feito, descobriu omiss?es e enganos, que o obrigavam a refazel-o outra vez; a isto procedeu com exemplarissima paciencia.

Voltou a si todas as culpas.

-Ora eu devia ter mais juizo. Ainda me deixo distrahir como as crean?as; merecia palmatoadas.

Depois, lembrando-se de Carlos:

-Aquelle traquinas tambem! Valha-me Deus!

Em seguida para os caixeiros:

-Os senhores podem ir embora. V?o ás mascaras, v?o; e olhem se teem juizo e n?o arruinem a saude. Adeus. Eu ainda fico.

-Mas se quer que o ajudemos, snr. Manoel Quentino...-disseram elles, por deferencia.

-Eu quero, mas é que me deixem. V?o com Deus.

Os caixeiros n?o se fizeram rogar.

-Agora, juizo-continuou Manoel Quentino, ficando só-juizo, sen?o só chego a casa á noite, e a Cecilia ha de estar com canceira já. Como se transtornou hoje tudo! Eu, que contava acabar com isto mais cêdo, pois levava o servi?o adiantado e vae... Como diabo lhe deu o rapaz para vir hoje ao escriptorio?... Bom mo?o, isso lá é, um cora??o de pomba... A cabe?a é que... E n'isto de negocio, ent?o!... Eh! eh! eh!... E o pae a imaginar ha pouco... A gente sempre tem cegueiras pelos filhos! Cala-te, b?ca, que tambem n?o pódes fallar! Coitados dos paes! E o velho quer-lhe devéras... Toda a sua pena é o rapaz n?o tomar gosto para o commercio. Aquillo tambem muda... Verduras! Bom rapaz! bom rapaz! Tem a quem saír. O pae, um homem de bem ás direitas... a m?e era uma santa senhora... Pois a irm?? Isso ent?o nem fallemos... Um anjo! E pensar que n?o s?o catholicos! A fallar a verdade! Ora adeus! protestantes d'estes, que remedio tem S. Pedro sen?o ir recebendo-os no céo.

Em consequencia da visita de Carlos, só ás tres e meia foi que Manoel Quentino p?de terminar a sua tarefa e fechar o escriptorio, para voltar a casa com appetite no estomago e tranquillidade no cora??o. Já vê o leitor que tinha raz?o Carlos ao assegurar que n?o era das mais proveitosas a sua ingerencia nos negocios commerciaes.

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